Mediações de Deus para nós
Lembro-me bem de minha paróquia Sant`Ana nos tempos de menino. Passeiam pela minha memória aquelas pessoas que nesse período foram sinais de Deus para que eu fosse discernindo minha vocação e missão.
Preciso começar pelos irmãos dehonianos. Sim, os padres do Coração de Jesus eram diferentes e chamavam muito minha atenção. Como menino observador, percebia algo naqueles padres que me cativava. A postura, a piedade, o jeito de fazer o sermão, as coisas que diziam. Quando falavam sobre o Coração de Cristo transbordavam amor em suas palavras.
A figura mais emblemática era Pe. João Proust. Ele transpirava respeito, verdadeiro Cura de Aldeia. Sabe aquelas pessoas que nos dão a impressão que já nasceram de cabelos brancos e inspiram uma sabedoria milenar? Ele era assim. Para mim sempre teve cabelos brancos como algodão e já nascera de batina. Quando o encontrávamos nunca faltava a benção e o beijo na mão. Ele tinha sempre uma palavra de exortação na boca e nos bolsos, balas. Era bom ver a admiração de meu pai para com ele. De quando em vez, batia em minhas costas e dizia: ”esse menino padre será!”, carregando em seu sotaque alemão. Meu pai respondia: “Se Deus quiser, será!” e seus olhos brilhavam.
Aos poucos outros foram ocupando meu imaginário. Pe. Silvestre, homem sério, sempre regular, sempre no horário. Celebrava todos os dias no asilo, na capela onde fiz minha primeira comunhão. Assiduamente visitava os doentes. Era o preferido de minha mãe, pois era ele quem atendia suas “queridas velhinhas do asilo”, onde ela trabalhava como enfermeira. Padre do milagre, pois foi ele que atendendo uma mulher desenganada pelos médicos levou-lhe uma relíquia de Pe. Dehon e ela ficou curada. Esse milagre foi reconhecido pela Causa dos Santos e elevará Pe. Dehon à condição de Beato. Sua fidelidade sempre me desafiou. Rezava sempre pelas vocações sacerdotais e religiosas. Quando me via dizia: “Estou rezando para você ir para o seminário”. Ria e desconversava. Homem sábio esse Pe. Silvestre.
Depois veio Pe. Herculano. Ah! Esse era especial. O povo o procurava para atendimento. Casais, homens, mulheres, jovens, todos queriam aconselhamento com o tal padre. Falava bonito na igreja. Eu adorava quando ele xingava o povo. No almoço de domingo era o comentário da casa. “Vocês prestaram atenção ao que o padre falou hoje ele pegou pesado”. Ouvia com uma grata satisfação: “o padre falou”, pensava. Fiquei muito feliz quando ele celebrou minha primeira comunhão. Na hora das fotografias, me abraçou e disparou: “Agora só falta ser padre”. Suas palavras ficaram gravadas em meu coração.
Aí veio o furacão Pe. Israel. Esse sim. Transformou a vida da juventude. Os jovens da paróquia agora tinham um padre. Eu adolescente vivia atrás do burburinho. Muitos encontros de Emaús, retiros em sítios e fazendas, missa das 10h no domingo na matriz. Muita música. Muita alegria. Pe. Israel falava de um jeito revolucionário. Deus era muito próximo, sem formalidades. Não dizia “Nosso Senhor”, mas “Meu Jesus”. No meio do sermão ele repetia um de seus bordões preferidos: “Deus é fantástico!”. A alegria nos invadia e Pe. Israel deixava transparecer um amor apaixonado por Jesus que nos entusiasmava. Encantado, passei a querer amar Jesus do jeito dele. Pe. Israel primeiro trabalhava no colégio em que meu pai estudou algum tempo e onde fui “lobinho” no escotismo. Mais tarde, transferido para a paróquia orientava os grupos de jovens. Quando podia visitava o grupo em que participava. Como ficávamos felizes. Para completar a festa, Pe. Israel era negro. Reconhecia-me naquele padre. Eu também posso, era a sensação que me invadia. Quando participava de nosso grupo sempre fazia propaganda vocacional. Ao final olhavános e repetia com convicção: “Então, quando vocês vão tomar coragem? Deus está esperando.”. Meu coração gelava.
E o Pe. Aurélio Marioto. Com ele descobri o significado de liderança. Substituiu como pároco, o querido Pe. João Proust que ficara décadas como referencia de nossa cidade. Veio com força total. Trouxe o Concílio Vaticano II com suas mudanças pastorais. Inteligente, eloqüente, polêmico, não perdia uma boa briga. Alinhado, elegante, porte litúrgico impecável. Era impossível no auge da juventude e do encantamento vocacional não se deslumbrar com aquela figura ímpar. Fazer parte da sua equipe litúrgica fazia as minhas pernas tremerem, mas enchia o meu coração de um sadio orgulho. Com ele aprendi a dar o melhor para Deus e primar por uma vida litúrgica vibrante, orante e participativa.
Bons tempos. Bons padres. Fortes referenciais num tempo de descobertas e num momento onde Deus pedia as chaves para entrar de cheio no meu coração. Numa palavra tornaram-se mediações de Deus para que eu percebesse o que Deus queria de mim.
Partilho o que Deus fez comigo para você se questionar. Deus usou que mediações em sua vida? Que pessoas foram sinal de Deus para você? Não importa para onde? O relevante é discernir o que Deus quer de você. Perceber a sua vocação. Eis a receita da verdadeira felicidade.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

