Mediações de Deus para nós

Arquivado em: Minha história — padrevicente at 4:13 pm on segunda-feira, março 16, 2009

Lembro-me bem de minha paróquia Sant`Ana nos tempos de menino. Passeiam pela minha memória aquelas pessoas que nesse período foram sinais de Deus para que eu fosse discernindo minha vocação e missão.
Preciso começar pelos irmãos dehonianos. Sim, os padres do Coração de Jesus eram diferentes e chamavam muito minha atenção. Como menino observador, percebia algo naqueles padres que me cativava. A postura, a piedade, o jeito de fazer o sermão, as coisas que diziam. Quando falavam sobre o Coração de Cristo transbordavam amor em suas palavras.
A figura mais emblemática era Pe. João Proust. Ele transpirava respeito, verdadeiro Cura de Aldeia. Sabe aquelas pessoas que nos dão a impressão que já nasceram de cabelos brancos e inspiram uma sabedoria milenar? Ele era assim. Para mim sempre teve cabelos brancos como algodão e já nascera de batina. Quando o encontrávamos nunca faltava a benção e o beijo na mão. Ele tinha sempre uma palavra de exortação na boca e nos bolsos, balas. Era bom ver a admiração de meu pai para com ele. De quando em vez, batia em minhas costas e dizia: ”esse menino padre será!”, carregando em seu sotaque alemão. Meu pai respondia: “Se Deus quiser, será!” e seus olhos brilhavam.
Aos poucos outros foram ocupando meu imaginário. Pe. Silvestre, homem sério, sempre regular, sempre no horário. Celebrava todos os dias no asilo, na capela onde fiz minha primeira comunhão. Assiduamente visitava os doentes. Era o preferido de minha mãe, pois era ele quem atendia suas “queridas velhinhas do asilo”, onde ela trabalhava como enfermeira. Padre do milagre, pois foi ele que atendendo uma mulher desenganada pelos médicos levou-lhe uma relíquia de Pe. Dehon e ela ficou curada. Esse milagre foi reconhecido pela Causa dos Santos e elevará Pe. Dehon à condição de Beato. Sua fidelidade sempre me desafiou. Rezava sempre pelas vocações sacerdotais e religiosas. Quando me via dizia: “Estou rezando para você ir para o seminário”. Ria e desconversava. Homem sábio esse Pe. Silvestre.
Depois veio Pe. Herculano. Ah! Esse era especial. O povo o procurava para atendimento. Casais, homens, mulheres, jovens, todos queriam aconselhamento com o tal padre. Falava bonito na igreja. Eu adorava quando ele xingava o povo. No almoço de domingo era o comentário da casa. “Vocês prestaram atenção ao que o padre falou hoje ele pegou pesado”. Ouvia com uma grata satisfação: “o padre falou”, pensava. Fiquei muito feliz quando ele celebrou minha primeira comunhão. Na hora das fotografias, me abraçou e disparou: “Agora só falta ser padre”. Suas palavras ficaram gravadas em meu coração.
Aí veio o furacão Pe. Israel. Esse sim. Transformou a vida da juventude. Os jovens da paróquia agora tinham um padre. Eu adolescente vivia atrás do burburinho. Muitos encontros de Emaús, retiros em sítios e fazendas, missa das 10h no domingo na matriz. Muita música. Muita alegria. Pe. Israel falava de um jeito revolucionário. Deus era muito próximo, sem formalidades. Não dizia “Nosso Senhor”, mas “Meu Jesus”. No meio do sermão ele repetia um de seus bordões preferidos: “Deus é fantástico!”. A alegria nos invadia e Pe. Israel deixava transparecer um amor apaixonado por Jesus que nos entusiasmava. Encantado, passei a querer amar Jesus do jeito dele. Pe. Israel primeiro trabalhava no colégio em que meu pai estudou algum tempo e onde fui “lobinho” no escotismo. Mais tarde, transferido para a paróquia orientava os grupos de jovens. Quando podia visitava o grupo em que participava. Como ficávamos felizes. Para completar a festa, Pe. Israel era negro. Reconhecia-me naquele padre. Eu também posso, era a sensação que me invadia. Quando participava de nosso grupo sempre fazia propaganda vocacional. Ao final olhavános e repetia com convicção: “Então, quando vocês vão tomar coragem? Deus está esperando.”. Meu coração gelava.
E o Pe. Aurélio Marioto. Com ele descobri o significado de liderança. Substituiu como pároco, o querido Pe. João Proust que ficara décadas como referencia de nossa cidade. Veio com força total. Trouxe o Concílio Vaticano II com suas mudanças pastorais. Inteligente, eloqüente, polêmico, não perdia uma boa briga. Alinhado, elegante, porte litúrgico impecável. Era impossível no auge da juventude e do encantamento vocacional não se deslumbrar com aquela figura ímpar. Fazer parte da sua equipe litúrgica fazia as minhas pernas tremerem, mas enchia o meu coração de um sadio orgulho. Com ele aprendi a dar o melhor para Deus e primar por uma vida litúrgica vibrante, orante e participativa.
Bons tempos. Bons padres. Fortes referenciais num tempo de descobertas e num momento onde Deus pedia as chaves para entrar de cheio no meu coração. Numa palavra tornaram-se mediações de Deus para que eu percebesse o que Deus queria de mim.
Partilho o que Deus fez comigo para você se questionar. Deus usou que mediações em sua vida? Que pessoas foram sinal de Deus para você? Não importa para onde? O relevante é discernir o que Deus quer de você. Perceber a sua vocação. Eis a receita da verdadeira felicidade.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

Minha primeira comunhão

Arquivado em: Minha história — padrevicente at 5:37 pm on quinta-feira, março 5, 2009

Continuo repassando a memória e tomando consciência de minha história vocacional. Creio piamente que Deus deixa seus sinais em nossa história. Estes podem e devem nos ajudar a discernir nossa vocação. Acredito que assim como o nosso inconsciente registra pontos negativos de nossa história, registra também aquilo que é positivo. Mesmo que não tenhamos consciência, eles estão lá. E foi assim que fazendo memória, lembrei-me com carinho de minha primeira comunhão.
Vestido com camisa de manga comprida azulada, gravata tipo festa engalanada, calça de tergal azul-marinho, sapato lustrado. O visual, confesso, só de pensar nele corremos o risco de corar envergonhados. Contudo, o que importa é que naquele dia cheguei cedo, ansioso pela hora. Afinal era minha primeira comunhão. O domingo estava ensolarado. Era uma bela manhã de fim de novembro do ano de 1980. A celebração bem preparada, festiva, teve como presidente meu querido Pe. Herculano Vaz da Silva. Emocionado, li a segunda leitura. São Paulo aos Coríntios falando da dignidade da Eucaristia. Quando chegou o momento da comunhão, minhas pernas tremiam. Meu coração quase saindo boca a fora, disparava. Uma emoção indescritível tomou conta de mim. Mais tarde, tive certeza de que um amigo veio me visitar. Na hora do pós-comunhão, que chamávamos de momento de ação de graças, lembro-me da música cantada: “Doce é sentir em meu coração, humildemente vai nascendo amor. Doce é saber, não estou sozinho, sou uma parte de uma imensa vida. Que generosa reluz em torno a mim. Imenso dom do teu amor sem fim. Do céu nos destes as estrelas claras, nosso irmão sol, nossa irmã a lua, nossa mãe terra, com frutos, flores, fontes. Imenso dom do teu amor sem fim”. Senti muito forte no coração a presença de Jesus. Menino, do alto dos meus 10 anos de idade, chorei alegremente e pedi para que Jesus estivesse sempre comigo, pois decidido em minha meninice queria mesmo estar ao lado dele. Terminada a celebração posicionei-me para as três fotografias tradicionais. A primeira era ao lado da catequista e do padre. A segunda junto à família e a terceira junto aos colegas de turma. Logo na primeira, Pe. Herculano colocou a mão no meu ombro e disse: “Agora só falta ser padre”. Sorri, envergonhado, mas não tirei mais essa palavra do meu coração. Mais tarde, esse padre tornou-se meu formador e um grande amigo.
Deus cumula nossa vida com seus sinais. A minha e a sua. Repasse você também. Rememore e alegre-se. Os sinais estão aí. Quem sabe você anda com dificuldades para discernir sua vocação, ou quem sabe está desistindo dela? Releia os sinais. Estou rezando por você, principalmente pelas vocações em Bethânia.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

Amar o diferente

Arquivado em: Sem Categoria — padrevicente at 4:10 pm on segunda-feira, março 2, 2009

 

Temos que aprender a amar, porque a nossa riqueza está aí. Amar o diferente e ver as riquezas que cada pessoa possui, mesmo que seja diferente de nós.

 Para um pouquinho para ver, a riqueza não está na diferença? Vai num jardim e pega um girassol e a violeta. Tanto o girasol bonitão grandão e as violetas bonitinhas pequenininhas, coloridas e passa nesse meio as margaridas e as rosas. Onde está a riqueza do jardim?

 

A riqueza do jardim está na diferença. Onde está a riqueza dos seus relacionamentos? A riqueza dos seus relacionamentos também está nas diferenças. Não queira que as pessoas sejam como você, valorize nelas o que há de bonito a diferença que ela trás de você. Valorize o outro, elogie mesmo que você não queira faça a diferença.

Nós precisamos amar a diferença, pois são elas que nos fazem crescer.

Fique na paz!!

Pe. Vicente, scj