A Formatura

Filed under: Formação — padrevicente at 3:21 pm on segunda-feira, dezembro 14, 2009

Pe. Vicente , scj

Foi difícil retomar a estrada dos valores. O caminho é íngreme. Significa mexer com hábitos arraigados. Quantas desobediências. Quantos castigos. Quantas alegrias. Quanto recomeço. Quanto carinho. Quanto afeto. Aos poucos, como pai, aprendi a participar d

Fotografa. Confecciona convites. Repensa convidado. Organiza. Emociona. Empolga. Veste roupa nova. Dá até para esquecer notas baixas.

À primeira vista parece exagero. Afinal, trata-se de ensino fundamental. Há tanto ainda pela frente. Dirão: “Ele está atrasado. Não deveria perder mais tempo. Que fizesse o Mobral, o Madureza, o Supletivo. Para quê percorrer todo esse caminho. Já tem idade”. Pois, que digam.

Há algo de maravilhoso numa formatura. Na força dos símbolos que nos fazem humanos, faz como que encerremos um ciclo e iniciemos outro. Fecha-se uma porta no tempo e permite-se abrir um horizonte promissor, repleto de possibilidades.

Maior ainda é o impacto quando penso no formando em questão.

Ele chegou numa tarde de sexta. Sexta-feira santa. Sexta-feira da paixão. Era celebração do Senhor Morto. Adolescente. Flagelado nos vazios de significado e amor em relacionamentos quebrados. Coroado pelos espinhos da falta de sentido e de uma vida sem propósito. Crucificado no Calvário da dependência química. Veio trazido pela mãe. Mulher das dores, experimentada no sofrimento.

Uma palavra mudou tudo. Faltavam alguns minutos para a celebração da Paixão do Senhor. “Padre, aquele é meu filho. Não o mande embora. Não sei mais o que fazer. Disseram-me que o senhor daria um jeito. Ele é seu filho agora.”

Algumas palavras têm esse poder. Desconcertam. Provocam rupturas. Geram novos rumos. Respondem aos anseios da alma. Desconcertei-me. Fiquei sem ação, pois se tratava, naquele momento, de uma resposta de Deus. Fazia pouco tempo que, assim como Jacó lutara com Deus, travava interiormente uma grande batalha. Senhor o que você quer mesmo de mim? Assumir? Responsabilizar-me? De agora em diante você é pai em Bethânia, ecoava. Pensava no Pe. Léo hospitalizado com câncer, quase partindo. O silêncio das 15h da sexta-feira varria a terra e consumia as minhas vísceras.

Olhei para o menino e todas as peças se encaixaram. Via-me, naquele instante, nos braços da minha infância brincando mais uma vez de lego. De repente as peças se encaixaram. Deus me queria pai e ali estava a resposta. Aquele menino era o sinal. Pedi à mãe que esperasse o final da celebração. Ao final, conversei. Pedi para deixar o menino no retiro de semana santa e que no domingo viesse. Domingo da ressurreição seria o dia da resposta. Ele ficou só com a roupa do corpo. Ficou comigo. Interiormente já sabia. Era meu filho que o Senhor havia mandado. Aquele era apenas o primeiro, viriam outros, muitos outros. Melhor, já tinham vindo. Era minha missão.

Desde então, não nos separamos mais. Muitas lutas. Muitas idas e vindas. Educar configurasse num processo lento de aproximar e afastar, incentivar e limitar, permitir e proibir. Numa palavra: amar.

Foi difícil retomar a estrada dos valores. O caminho é íngreme. Significa mexer com hábitos arraigados. Quantas desobediências. Quantos castigos. Quantas alegrias. Quanto recomeço. Quanto carinho. Quanto afeto. Aos poucos, como pai, aprendi a participar de cada momento da vida do filho. Confesso. Não imaginara que uma nota vermelha, uma advertência escolar, uma feira de ciências ou uma festa de escola pudesse ter tanto peso na vida de um pai. E como tem!

Na vida de alguém que precisa recomeçar, então, tem um valor incomensurável. Algo como sentir-se gente. Sentir-se amado. Sentir-se importante. Humanizar. Em Bethânia chamamos de ressocialização, aquela dimensão do carisma que procura devolver ao filho a capacidade de sonhar. O sonho é o que nos faz humanos. Quem não tem sonhos, projetos, propósitos se desumaniza, se quiserem, se desgentaliza. É o que tem acontecido com boa parte dos nossos jovens.

Gentalizar é processo lento, mas transformador. Único. Personalizado. Gradativamente, em Bethânia, vamos estruturando e registrando uma prática. Contudo, não temos o interesse de massificar. Fazemos questão de olhar a pessoa. É o filho que importa. Para alguns significa retomar a vida escolar. Para outros a possibilidade de um trabalho. Para outro ainda a catequese, primeira comunhão, crisma, matrimônio, discernimento vocacional. Para outros uma viagem, férias. A alegria de visitar uma metrópole, andar de metrô e escada rolante. Sentir-se gente. Ressocializar é gentalizar. Tornar alguém gente. Em Jesus, Deus tornou-se gente para que a gente pudesse ser mais gente.

Meu filho vai se formar. Ensino fundamental, antiga oitava série. Meu filho é gente de novo. Sonha e faz sonhar. Estarei lá sentado no lugar reservado daquele ritual caduco próprio de cerimônias de fim de ano. Mas, tudo bem. Meu filho vai se formar. Sou o pai mais feliz do mundo. Fecha-se um ciclo. O novo está à porta.

Desejo a você o prazer inenarrável de estar com aqueles que você ama na alegria das pequenas coisas. Gentalize-se. Pense nisso!

Fique na paz de Deus!

Pe. Vicente,scj

Quem ama cuida!!

Filed under: Formação — padrevicente at 10:00 pm on quinta-feira, julho 9, 2009

Oi! Como vai você? Já cuidou hoje? Foi cuidado?
Explico-me. Tenho experimentado a graça de ser cuidado. Não que não o fosse. Contudo, vivo uma destas graças que só a enfermidade é capaz de dar. A enfermidade tem esse poder. Quando caímos enfermos e tocamos os limites de nossa finitude, nos damos conta do cuidado nosso de cada dia.
Na limitação e, geralmente, somente nela, lembramo-nos que faz parte do pacote de ser gente cuidar e ser cuidado. Como uma estrada de mão dupla, que vai e vem, o ser humano é chamado a mover-se pela lógica do cuidado.
Cuidado é mística. Configura-se numa maneira de ser e de viver que nos projeta para além de nós mesmos e nos coloca em sintonia com o outro. A busca do cuidado gera em nós empatia. Empatia é a força que nos capacita na arte de nos colocarmos no lugar do outro e sentir com ele.
O cuidado não nos fragiliza. Ao contrário, nos temporaliza, nos fazendo reconhecer quem somos e que, tal qual barro somos feitos. Quebra nossa arrogância e nossa auto-suficiência lembrando-nos que somos humanos e precisamos uns dos outros.
E Jesus cuidou…
Ele é o Bom Pastor que cuida. Ele colocou-se em nosso lugar. Assumiu nossas dores, carregou nossas enfermidades, em suas chagas fomos curados. Ele é o Bom Samaritano que nos recolhe à beira do caminho da existência e cuida. Jesus é o modelo do verdadeiro cuidado.
Bem aventurados aqueles que são mestres no sagrado ofício de cuidar, nos permitindo a parcela feliz do cuidado nosso de cada dia.
Bem aventurados médicos, enfermeiros, nutricionistas, cozinheiros e tantos outros com rostos, mas sem nomes que cuidam de nós.
Bem aventurados Denis, Mariangelas, Creusas, Rodrigos, Tatianas, Anas, Lúcios, Gizes, Marcinhos, Roses, Carmos e tantos outros que com rostos e nomes fazem diferença em minha vida.
Que nunca falte a você o cuidado nosso de cada dia!
Fique na paz de Deus!

“Que sejam um”

Filed under: Formação — padrevicente at 1:04 pm on quinta-feira, junho 25, 2009

Pe. Léo adorava ler, ouvir e muitas vezes ver Rubem Alves. Oh mineiro, danado de bom, encantava o coração do Pe. Léo, outro mineiro danado de bom, com sua sabedoria, com sua poesia, mas principalmente com sua capacidade de falar profundo através de coisas simples. Coisas da gente, diriam eles. O Léo vibrava com as histórias e metáforas do educador da alegria.
Neste mês de junho nos reunimos como Comunidade Bethânia. Para mim foi uma ocasião para lembrar os dois. Lembrei-me muito do Léo, e lembrei-me muito do Rubem e de suas metáforas. Explico-me.
Meu coração, exultante, procurava descrever a alegria de ver, em nossa Casa Mãe, em São João Batista/SC, a Comunidade Bethânia reunida para celebrar, projetar e planejar a vida. Tivemos um momento único de comunhão, com certeza fruto da intensa preparação feita através do Cerco de Jericó. Sobre o Cerco, foram sete dias ininterruptos diante do Santíssimo Sacramento em todos os recantos. Muralhas caíram.
Pois bem, voltando ao Léo e ao Rubem. Recorri aos dois e suas histórias para explicar o que vivemos. A metáfora vem do Rubem, dizem que é exímio cozinheiro. A inspiração vem do Léo em perceber a mão de Deus em nossa história. Então vamos lá.
Reunimo-nos para cozinhar. Os ingredientes eram muitos e estavam à disposição. Mas, decidimos, devido ao frio intenso, fazer um gostoso mingau. Era menos complicado e poderíamos satisfazer mais paladares. Os ingredientes também eram simples. Água, alguma farinha e temperos.
O primeiro é básico e essencial para vida, para nós é o amor do Coração de Jesus que, derramado em nossos corações, é mesmo Espírito Santo agindo e atuando em nossa história. O segundo dá substância. Fala-nos de motivação. Pode ser de milho, trigo, mandioca ou outra iguaria qualquer. Mas, conferem o essencial ao prato. É nossa missão, o próprio Cristo presente em nossos filhos e filhas. Já o terceiro trás equilíbrio e sabor. Lembram-nos que a virtude está no meio, como reforçam os antigos. Fala de nós, consagrados e consagradas. Somos nós e nossa necessidade de total entrega à missão.
A vantagem do mingau é que, uma vez feito, está tudo misturado. Não dá para separar nenhum dos três elementos. Vira um prato só e todos comem até se fartar ou como dizemos na terrinha: até se lambuzar, sô!
Foi mesmo assim que nos sentimos nestes dias. Misturamo-nos por meio de reuniões de avaliação, planejamento, Assembléia e Conselho dos Consagrados e principalmente fraternidade. Tocamos a vida da comunidade e dividimos responsabilidades. Nós somos a Comunidade Bethânia e somos chamados à comunhão e à participação. Devemos agir localmente em nossos recantos e pensar globalmente como comunidade. É nossa responsabilidade levar adiante o legado herdado do Pe. Léo. O
Amadurecemos muito. E como… Para terminar, do jeito do Léo, evocamos o próprio Senhor no evangelho do Discípulo Amado: “Pai Santo, guarda-os (…) para que sejam um…” (Jo 17,11b). É o que o Senhor espera de nós. Não percamos tempo. Juntos na cozinha da fé e saboreando o gostoso mingau feito por nós, continuemos. Deus tem pressa e nossos filhos urgência.

Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

Relacionar-se, uma arte a ser descoberta!

Filed under: Formação — padrevicente at 5:36 pm on sexta-feira, junho 12, 2009

 No âmbito das relações humanas, o propósito essencial deve ser sempre o mesmo, fazer o melhor de si vir à tona, tornar-se o melhor possível para o outro.

 Deus ama, incondicionalmente, a cada um de seus filhos e filhas. Para o homem e a mulher trata-se de uma escolha, voltar-se para o amor divino e deixar-se moldar por ele. A partir da própria história de vida, cada qual deve – no âmbito de seus relacionamentos – assumir o amor de Deus e, fazendo esta experiência de amor, buscar ser o melhor possível para Deus e para as pessoas… É preciso encontrar-se com Deus e descobrir-se amado (a) por Ele, para que seja possível levar este amor aos outros. O amor de Deus é cura em nossa história de vida machucada, ferida, fechada diante de tantas situações vividas.

Os relacionamentos humanos só têm consistência e geram intimidade na medida em que homem e mulher forem capazes de olhar para a própria história, aceitá-la e identificar a mão amorosa de Deus atuando sobre ela. É preciso ter coragem e olhar para a própria vida, identificar nela aquilo que precisa do toque curador do amor divino.

Num relacionamento é preciso levar primeiro Deus ao outro. Deus é amor, se levo Deus aquele (a) que amo, estou amando…

Fique na paz!!

Pe. Vicente scj

Eis o Coração que amou tanto o mundo

Filed under: Formação — padrevicente at 3:02 pm on quarta-feira, junho 10, 2009

“Amando os seus que estavam no mundo amou-os até o fim” (Jo 13,1).
O mês de junho nos remete ao Corpo de Deus. O mês de junho nos recorda o Coração de Jesus, fonte última de nossa vocação e razão de ser em Bethânia. Coração de Jesus, no simbolismo do coração transpassado pela lança, donde jorrou sangue e água (cf. Jo 19,34). Contemplando esse Coração Transpassado descobrimos um Deus que deu tudo. Tudo que podia doar doou: “Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até o extremo” (cf. Jo 13,1). Essa é nossa vocação: somos chamados a doar tudo, a dar tudo por amor a Jesus pela restauração de nossos filhos e filhas. Tudo por Cristo acolhendo-o em cada um que vem até nós. Amar até o fim.
Nossa vocação é exigente. Muito exigente. Pede de nós abandono total à Providência de Deus. Somos desafiados o tempo todo a viver da fé e a viver na fé. Todo dia temos em nossos recantos e em nossa convivência algo que nos desafia a crer com mais intensidade e decisão. Necessitamos de vocações firmes. Homens e mulheres capazes de dar tudo na fé, não sem medo, mas com coragem. Dar tudo na fé confiando no Amor Providente que deu tudo por nós. Dar tudo como fez o fundador que se consumiu até o fim. A doença do Léo foi só o veículo, o que o Léo fez mesmo foi doar-se até o fim por amor a Jesus em nossos filhos e filhas. Somos chamados a fazer o mesmo.
Somos chamados a confiar no Coração de Jesus sem reservas. Ele é o centro da vida de Bethânia. Tudo parte dele. Tudo volta para Ele. Como Eucaristia tudo converge para Ele. Que cada dia mais Ele cresça e nós diminuamos. Minha maior alegria hoje em Bethânia é saber que todos os nossos recantos, praticamente, têm Eucaristia diária. É uma grande graça. Poucas são as Comunidades de Vida que têm esse carinho de Deus. Não podemos desperdiçar um só minuto. Corramos todos em direção à Eucaristia. Corramos todos à Adoração Eucarística. O Coração de Jesus encontrado na Eucaristia será o motor que nos impulsionará no encontro com Ele desfigurado no rosto de cada filho e filha que vier até nós. Eis a fonte de nossa vocação em Bethânia.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

Ama, espera e confia.

Filed under: Formação — padrevicente at 6:09 pm on quinta-feira, maio 28, 2009

O amor tem me revelado muito de si mesmo em Bethânia. Das muitas facetas que dele aprendo a que tem mais me ensinado é a do amor feito espera. Aquele jeito de amar onde o amante é impotente diante das escolhas e decisões do amado. Sim! O verdadeiro amor é feito de espera silenciosa macerada na dor de quem é chamado a respeitar a liberdade do amado.
Explico-me. Quantas são as situações onde você, por mais que veja adiante, nada pode fazer? Quantas são as situações onde, se dependesse de você, tudo seria feito para evitar que o amado se machucasse ou se perdesse no caminho? Mas, eu e você sabemos por força do próprio amor, que situações existem em que você nada pode fazer. Resta-nos esperar. Espera silenciosa, dura, difícil como a do pai misericordioso que diante da decisão do filho que vai, se contenta em esperar na janela a hora do retorno. E o mais aterrador: Deus nos ama assim, pois sabe das tantas vezes em que contra sua vontade lhe dizemos não. Não há escapatória, compreender o amor feito espera é sinal de maturidade de quem ama.
Certa vez, me contaram da dor de um pai, médico, pediatra dos mais renomados. O doutor já ajudara inúmeras crianças. Perdeu a conta dos pequenos que tiveram seus males e enfermidades curados na boa medicina por ele exercida. Com o tempo passou a achar-se capaz de atender a qualquer caso e a qualquer criança. Até que chegou o dia em que seu próprio filho, de cinco anos, caiu enfermo. O pai pediatra por mais que fizesse, por mais tentasse, por mais que estudasse, não conseguia encontrar a cura para o filho. Restou-lhe amar, esperar, confiar. Com pesar, entregou o filho nas mãos de outro especialista. E ele? Ah! Ele rezou. Esperou. Confiou. Amou. Graças a Deus o especialista era bom. Depois de meses de angústia e luta interior o pai viu o resultado. O colega especialista conseguira. A sua felicidade foi imensa, agradeceu o companheiro, tomou o filho nos braços e louvou a Deus. Colheu os frutos do amor feito espera.
Às vezes, muitas e muitas vezes nos sentimos exatamente assim. Somos médicos, mas não será o nosso remédio que curará. Temos aqui o dinamismo do verdadeiro amor. Daquele amor do tema paulino de 1Cor 13. Amor que tudo crê. Tudo espera. Tudo suporta. Amor que jamais acabará. Amor que nos impele, na fé, a pedir ao Senhor que ascenda uma vela para iluminar a sombra inconsciente que não permite ver a luz de Deus, nessa hora de escuridão.
O amor que amadurece está em aceitar a impotência de quem ama diante do amado que escolhe. O amor que cresce e floresce está em aceitar nossa suposta fraqueza. Sim! Pois é como nos sentimos: fracos. É como fracos, que ao amar visando o bem do amado, nos curvamos diante da liberdade de quem fez suas escolhas boas ou ruins. Fracos? Não! Fortes! Fortes porque nos tornamos capazes de esperar na janela da fé e da confiança. Isso também é escolha. Somos nossas escolhas e o resultado será de acordo com o que fizermos com as escolhas feitas.
Desejo a você um amor feito de escolhas. Desejo a você um amor feito de espera. Ame. Espere. Confie.

Fique na paz de Deus!

Pe. Vicente,scj

Amor aos 20 anos, aos 25 anos, aos 50 anos, enfim, sempre.

Filed under: Formação — padrevicente at 5:55 pm on terça-feira, maio 19, 2009

Tenho sempre receio em presidir cerimônias de casamentos. Já presenciei cada situação constrangedora que só quem vive a rotina de casamentos sabe. Por não estar diretamente ligado a uma paróquia, tenho a graça de poder escolher aqueles casamentos, nos quais conheço os noivos ou por alguma razão sou próximo da família deles. Diferente, da maioria dos meus irmãos no presbitério posso dar-me esse mimo.
Entretanto, adoro presidir bodas. Celebrar o amor vivido num momento da história do casal, onde boa parte das projeções e ilusões do relacionamento já caiu faz meu coração de padre continuar acreditando no amor e principalmente no Sacramento do Matrimônio. Olho para o casal, que nesse caso conheço bem e viajo na longa estrada do relacionamento humano. Descubro que não existe família perfeita, casamento perfeito, pais perfeitos, filhos perfeitos. Existe a família possível. Aquela família. A minha família. Existe a família que ao longo dos anos percorridos segue exercitando a possibilidade infinita de ser mais. Gosto de encontrar-me com Deus junto de casais de anos percorridos e ao lado de famílias que lutam unidas.
A semana que passou trouxe-me muitas alegrias. Pude presidir a celebração dos 20 anos do casal Ana Maria e Sérgio e os 25 anos do casal Lixia e Valtamir.
O casal dos 20 anos caminha comigo. Eles são consagrados da minha Comunidade Bethânia. Tem filhos maravilhosos: Mateus, João, Pedro e Josias, filho do coração. Todos flamenguistas, sendo que o primogênito é meu afilhado de crisma. Casal forjado na dor, na luta, na entrega. Todos os dias, Ana Maria e Sérgio, se dispõem a procurar o melhor caminho, a melhor palavra, o melhor gesto. Como consagrados deixam florescer em si, a “maternidade e a paternidade expandidas”, tão necessárias para serem mãe e pai em Bethânia. Esforçam-se para acertar em Deus. Dificuldades, muitas. Contudo, Deus é lugar de refúgio e resposta. Alimentam assim o verdadeiro amor. Não o de novelas e filmes. Mas o amor feito de valores, de decisão, de escolhas e na sua maioria escolhas definitivas.
O casal dos 25 anos mora em Brusque, na comunidade do Bateias. Tem três filhos. Dois rapazes, Raul e Rodrigo, e uma menina linda chamada Fátima Tamires, que completou 6 anos no dia das bodas dos pais. Ah! Para minha alegria é flamenguista. Conhecemo-nos de longa data. Aliás, a casa deles é praticamente extensão do seminário dehoniano de Brusque. Na casa deste casal tomo aulas regulares sobre o verdadeiro acolhimento. Com Lixia e Valtamir aprendo continuamente o significado de doação, entrega, respeito, ajuda ao próximo, disponibilidade, serviço na comunidade, alegria e disposição. Deles ganhei um dos meus bens mais preciosos, o meu filho Rodrigo. Rodrigo segue comigo na Comunidade Bethânia. A Comunidade Bethânia fundada pelo Pe. Léo para ser no mundo especialista em acolhimento teve seu primeiro recanto na Casa de Seu Quinzinho e D. Nazaré. Não tenho dúvidas que Rodrigo só acolhe tão bem em Bethânia por ter vivido sua primeira Bethânia junto de Lixia e Valtamir. Foi ali no colo, no cheiro e no amor de seus pais que Rodrigo aprendeu. Hoje quando o vejo acompanhando vários filhos, discípulos e consagrados em nossos recantos, rezo e agradeço a Deus. Não tenho dúvidas. A casa de Lixia e Valtamir é Bethânia.
E os 50 anos, padre? Bem, conheço vários casais que já celebraram bodas de ouro. Porém, os 50 aqui representam o meu desejo de que Ana Maria e Sérgio, Lixia e Valtamir possam prosseguir celebrando Sacramento do Matrimônio e acreditando no amor diariamente por muitos e muitos anos. Que não desistam nunca, pois precisamos desse testemunho. Como Rodrigo e eu dizemos em nosso programa de rádio de todas as quintas-feiras: “sigam em frente, pois o Amor é agora!”.
Desejo o mesmo a todos os casais.

Fique na paz de Deus!

                                                    Pe. Vicente,scj

Em Bethânia

Filed under: Formação — padrevicente at 6:19 pm on terça-feira, abril 14, 2009

Bethânia significa Casa do Pobre. Em Bethânia encontramos evidências de uma antiga colônia de leprosos onde o Senhor gostava de estar. Localizada na parte norte de Jerusalém, próximo ao Jardim das Oliveiras, Bethânia foi a base do ministério de Jesus na Judéia. Em Bethânia o Senhor visitava seus amigos Marta, Maria e Lázaro. Em Bethânia Jesus ressuscitou Lázaro, curou o coração de Marta e permitiu que Maria estivesse aos seus pés e escolhesse a melhor parte. Em Bethânia temos a certeza do Cristo que responde aos anseios profundos do coração humano. Era seu lugar de descanso e oração. Em Bethânia, Jesus se hospedava quando ia à Jerusalém. É a sua casa na Judéia.
Bethânia é hoje Casa de Acolhimento. Em Bethânia acolhemos a cada um como o próprio Cristo. Em Bethânia, Pe. Léo montou a base do seu fecundo ministério e buscava inspiração para tocar o coração de milhares de pessoa. Em Bethânia partilhamos uma espiritualidade e um estilo de vida. Em Bethânia trabalhamos para restaurar vidas. Em Bethânia nos empenhamos preventivamente procurando chegar, através dos MCS, junto às famílias e à juventude.
“Em Bethânia” será o nome do novo programa da Comunidade Bethânia na TV Canção Nova. Miramar e eu estaremos mais uma vez, entrando na sua casa para dizer que “Em Bethânia” somos chamados a viver os valores presentes nas Bethânias de Jesus e do Pe. Léo. Preste atenção! Somos chamados, nós e vocês. Será um programa alegre e dinâmico, capaz de evangelizar com leveza e descontração, do jeito que você tanto gosta. Lembra-se da Tenda do Senhor? Então, com certeza você aprovará “Em Bethânia”. Não temos dúvida: tocará seu coração e de toda a sua família.
Espere só mais um pouquinho. Logo, você estará toda semana “Em Bethânia”. Novos dias, novos horários, novo formato. Tudo graças a você! A data é 02 de maio. Programe-se para assistir e não se esqueça de entrar em contato conosco dizendo o que você acha. Sua opinião para nós é importantíssima. Miramar e eu agradecemos toda a manifestação de carinho nesse “tempo de inverno”. Deus lhe pague!
Em Bethânia somos uma grande família dedicada a acolher a cada um como o próprio Cristo. Você faz parte dela. Estamos juntos! Estamos “Em Bethânia”!

Fique na paz de Deus!

Pe. Vicente de Paula Neto, scj

Firmeza dia-a-dia.

Filed under: Formação — padrevicente at 12:15 pm on terça-feira, fevereiro 17, 2009

“Vê-Lo com clareza, amá-Lo com certeza, segui-Lo com firmeza dia-a-dia”


Certa vez, assistindo a uma peça teatral que tratava sobre Francisco de Assis, deparei-me com a afirmação acima disparada pela boca de um dos personagens. A frase atingiu-me como um raio. Já estava extasiado com a beleza da montagem e com a força contagiante da vida do Pobrezinho de Assis, quando a afirmação envolveu-me como uma iluminação. Dizia para mim mesmo. É o que desejo de todo meu coração. Com o tempo passei a repeti-la como a um refrão de salmo. Fiz dela oração e recitava: Quero Senhor, vê-Lo com clareza, amá-Lo com certeza e segui-Lo com firmeza dia-a-dia.
Meditando com maior profundidade compreendi que a frase resumia bem o mistério chamado vocação. Vocação outra coisa não é do que ver o Senhor com clareza, amar o Senhor com toda certeza do nosso coração e seguir o Senhor com coragem e decisão no cotidiano de nossas vidas. Vocação com toda convicção passa por essa dinâmica.
Resolvi, graças ao amigo que veio me visitar, celebrar os meus 20 anos de entrada no seminário. Não é que esteja inventando motivo para festa. Se bem que adoro festas. Faço-o, porque impulsionado pelo companheiro de caminho, percebi em meu momento de oração, que deveria celebrar, na intimidade com Deus, a alegria do Chamado.
Revejo minha história vocacional. Seleciono em minha memória, pessoas e fatos que se tornaram para mim, mediação de Deus. Mediações são os meios pelos quais Deus se utiliza para marcar a nossa história e registrar em nossos corações a certeza de que Ele nos ama, cuida de nós e espera que nossas vidas sejam gastas pela edificação do Reino e a salvação dos irmãos.
Lembro-me de minha história vocacional com detalhes. E o melhor, reconheço nos detalhes, os sinais de Deus. É certeza dogmática expressa no Vaticano II, através do documento Dei Verbum. Deus fala sempre por palavras e por sinais intimamente conexos. As palavras aqui expressam certeza de fé. Deus fala sempre por palavras e por sinais intimamente ligados à nossa vida. Reconheço com muita propriedade os sinais do amor de Deus na minha história. Aos poucos, rememoro o muito que Deus fez comigo, e por uma única razão, amor. Como canta nosso consagrado PC: Deus me ama, sou amado, Seu amor é eterno!
Habituei-me a sintetizar a dinâmica da minha vocação na afirmativa “vê-Lo com clareza, amá-Lo com certeza e segui-Lo com firmeza dia-a-dia”. Dela, salta aos meus olhos quatro dimensões fundamentais de uma vocação cuja motivação é, de fato, consistente. Aliás, as motivações vocacionais constituem um capítulo a parte nesse grande livro vocacional escrito em duas mãos, a de Deus e a nossa.
A primeira dimensão é o Encontro (Experiência de Deus), a segunda é a Intimidade (Experiência de amar e ser amado), a terceira o Compromisso (Experiência da Missão em disponibilidade total), e a quarta a Renovação (atualização no hoje de Deus). As duas primeiras correspondem ao Discipulado, as duas últimas à Missionariedade que a igreja latino-americana e caribenha nos convida na sua V Conferência de Aparecida.
Sobre elas partilharemos devagar, registrando um pouco do muito que Deus fez. Não percam os próximos capítulos. Que o meu pouco o ajude a “ver com clareza” o muito que Deus sinalizou na sua própria história. Esse é o jeito de Deus que fala de forma singular junto a filhos amados e por isso mesmo, singulares. O amor nos torna especiais.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

A força de um abraço

Filed under: Formação — padrevicente at 1:09 pm on sexta-feira, novembro 28, 2008

Li essa história e muito me tocou… Leia você também… aproveite para parar e refletir um pouco na sua vida…

  Ele acordou indisposto e irritadiço. Seus pensamentos logo se voltaram para o escritório, lembrando de problemas ainda pendentes de solução, bem como do trânsito que teria que enfrentar. Ficou mais irritado ainda.

        Tomou rapidamente um pouco de café, despediu-se da esposa e caminhava para a porta, quando ouviu aquela voz com jeitinho de sono ainda, que, carinhosa e meigamente, lhe falou: Papai, espere por mim!

        Ele parou, voltou-se. Ali estava sua filhinha, de 5 anos, de pijama, braços estendidos para lhe dar um abraço.

        Abaixou-se, depositou a mala de trabalho no chão, e acolheu-a, demonstrando uma certa pressa.

        Ela aconchegou-o num forte e demorado abraço, beijou-o e disse-lhe: Todas as noites eu agradeço ao Papai do Céu assim: Obrigada, Papai do Céu, por tudo. Mas, muito mais por você me ter dado um papai e uma mamãe que me amam.

        Deu-lhe mais um beijinho e mais um abraço, dizendo-lhe: Eu amo muito você. Tchau, até depois mais. Estarei aqui esperando por você.

        Aquele momento, aquele abraço e aquele beijo tiveram o efeito de algo como uma forte descarga elétrica lhe passando da cabeça aos pés.

        Saiu, irradiando alegria por todos os poros. Meio que caminhando nas nuvens. Mudara totalmente seu estado mental. Já não era o mesmo.

        No trânsito, dirigiu com a maior cortesia e paciência, distribuindo sua satisfação.

        Quando chegou ao prédio do escritório, cumprimentou o garagista do estacionamento com sinceridade.

        Adentrou o elevador, tendo dado a vez aos outros que também ali estavam e, sorridente, desejou um autêntico bom dia a todos.

        Como há muito ele não fazia, entrou no escritório com um largo sorriso no rosto e cumprimentou cada um dos funcionários com um aperto de mão.

        Passou pela sala do seu chefe, pediu licença e entrou. Dirigiu-se até ele, deu-lhe as mãos e o abraçou.

        Depois, olhando-o, disse-lhe: Há tempos estou para lhe falar duas coisas. A primeira, é que lhe sou muito grato pela oportunidade que me deu na sua empresa, ao contratar-me.

        A outra, é a de que aprendi a devotar-lhe, além do respeito de um funcionário para com seu patrão, grande amizade e reconhecimento, pela sua forma leal de ser para comigo e para com os demais.

        Antes que seu chefe se recuperasse da boa surpresa, concluiu: Neste momento estou repassando-lhe um pouco da alegria que minha filhinha me deu hoje, antes que eu saísse de casa.

        Ambos sorriram. Nada mais falaram. Foram para seus quefazeres do dia. Os dois já não eram mais os mesmos.

                                                                *   *   *

        A força de um abraço com carinho e fraternidade pode transformar o mundo, começando por transformar o seu dia ou o dia de alguém, para muito melhor.

        Faz tempo que você não abraça seu filho? Há quanto tempo não abraça sua esposa ou seu esposo, como quem abraça um devotado amigo ou uma devotada amiga?

        Lembra-se de quando foi o seu último abraço sentido e verdadeiro em seu pai e em sua mãe? Um abraço como se fosse sua oração de gratidão a Deus pela presença deles em sua vida?

        Pense nisso! Pense na força de um abraço.

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