A Formatura
Pe. Vicente , scj
Fotografa. Confecciona convites. Repensa convidado. Organiza. Emociona. Empolga. Veste roupa nova. Dá até para esquecer notas baixas.
À primeira vista parece exagero. Afinal, trata-se de ensino fundamental. Há tanto ainda pela frente. Dirão: “Ele está atrasado. Não deveria perder mais tempo. Que fizesse o Mobral, o Madureza, o Supletivo. Para quê percorrer todo esse caminho. Já tem idade”. Pois, que digam.
Há algo de maravilhoso numa formatura. Na força dos símbolos que nos fazem humanos, faz como que encerremos um ciclo e iniciemos outro. Fecha-se uma porta no tempo e permite-se abrir um horizonte promissor, repleto de possibilidades.
Maior ainda é o impacto quando penso no formando em questão.
Ele chegou numa tarde de sexta. Sexta-feira santa. Sexta-feira da paixão. Era celebração do Senhor Morto. Adolescente. Flagelado nos vazios de significado e amor em relacionamentos quebrados. Coroado pelos espinhos da falta de sentido e de uma vida sem propósito. Crucificado no Calvário da dependência química. Veio trazido pela mãe. Mulher das dores, experimentada no sofrimento.
Uma palavra mudou tudo. Faltavam alguns minutos para a celebração da Paixão do Senhor. “Padre, aquele é meu filho. Não o mande embora. Não sei mais o que fazer. Disseram-me que o senhor daria um jeito. Ele é seu filho agora.”
Algumas palavras têm esse poder. Desconcertam. Provocam rupturas. Geram novos rumos. Respondem aos anseios da alma. Desconcertei-me. Fiquei sem ação, pois se tratava, naquele momento, de uma resposta de Deus. Fazia pouco tempo que, assim como Jacó lutara com Deus, travava interiormente uma grande batalha. Senhor o que você quer mesmo de mim? Assumir? Responsabilizar-me? De agora em diante você é pai em Bethânia, ecoava. Pensava no Pe. Léo hospitalizado com câncer, quase partindo. O silêncio das 15h da sexta-feira varria a terra e consumia as minhas vísceras.
Olhei para o menino e todas as peças se encaixaram. Via-me, naquele instante, nos braços da minha infância brincando mais uma vez de lego. De repente as peças se encaixaram. Deus me queria pai e ali estava a resposta. Aquele menino era o sinal. Pedi à mãe que esperasse o final da celebração. Ao final, conversei. Pedi para deixar o menino no retiro de semana santa e que no domingo viesse. Domingo da ressurreição seria o dia da resposta. Ele ficou só com a roupa do corpo. Ficou comigo. Interiormente já sabia. Era meu filho que o Senhor havia mandado. Aquele era apenas o primeiro, viriam outros, muitos outros. Melhor, já tinham vindo. Era minha missão.
Desde então, não nos separamos mais. Muitas lutas. Muitas idas e vindas. Educar configurasse num processo lento de aproximar e afastar, incentivar e limitar, permitir e proibir. Numa palavra: amar.
Foi difícil retomar a estrada dos valores. O caminho é íngreme. Significa mexer com hábitos arraigados. Quantas desobediências. Quantos castigos. Quantas alegrias. Quanto recomeço. Quanto carinho. Quanto afeto. Aos poucos, como pai, aprendi a participar de cada momento da vida do filho. Confesso. Não imaginara que uma nota vermelha, uma advertência escolar, uma feira de ciências ou uma festa de escola pudesse ter tanto peso na vida de um pai. E como tem!
Na vida de alguém que precisa recomeçar, então, tem um valor incomensurável. Algo como sentir-se gente. Sentir-se amado. Sentir-se importante. Humanizar. Em Bethânia chamamos de ressocialização, aquela dimensão do carisma que procura devolver ao filho a capacidade de sonhar. O sonho é o que nos faz humanos. Quem não tem sonhos, projetos, propósitos se desumaniza, se quiserem, se desgentaliza. É o que tem acontecido com boa parte dos nossos jovens.
Gentalizar é processo lento, mas transformador. Único. Personalizado. Gradativamente, em Bethânia, vamos estruturando e registrando uma prática. Contudo, não temos o interesse de massificar. Fazemos questão de olhar a pessoa. É o filho que importa. Para alguns significa retomar a vida escolar. Para outros a possibilidade de um trabalho. Para outro ainda a catequese, primeira comunhão, crisma, matrimônio, discernimento vocacional. Para outros uma viagem, férias. A alegria de visitar uma metrópole, andar de metrô e escada rolante. Sentir-se gente. Ressocializar é gentalizar. Tornar alguém gente. Em Jesus, Deus tornou-se gente para que a gente pudesse ser mais gente.
Meu filho vai se formar. Ensino fundamental, antiga oitava série. Meu filho é gente de novo. Sonha e faz sonhar. Estarei lá sentado no lugar reservado daquele ritual caduco próprio de cerimônias de fim de ano. Mas, tudo bem. Meu filho vai se formar. Sou o pai mais feliz do mundo. Fecha-se um ciclo. O novo está à porta.
Desejo a você o prazer inenarrável de estar com aqueles que você ama na alegria das pequenas coisas. Gentalize-se. Pense nisso!
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj



