“Amor em pedaços”

Filed under: Minha história — padrevicente at 2:58 pm on segunda-feira, maio 4, 2009

Quando criança adorava um doce que minha avó fazia para o almoço de domingo: “amor em pedaços”. Confesso. Nunca entendi a razão de tal nome. Sempre procurei concatenar idéias como amor, pedaços, doçura, corte, dor, prazer, alegria, separação, tristeza e por aí vai. Estas palavras aportam em minha mente quando penso: amor e aos pedaços.
Bethânia tem me ensinado muito sobre o amor de todos os dias. Não aquele de novelas e filmes, mas o amor real feito de gente, por gente e para gente. Esse amor real é exigente em todos os níveis e graus de relação. Ele exige de nós. Como homens e mulheres falíveis, erramos e acertamos, definimos e projetamos, concordamos e discordamos. Numa palavra: amamos.
Não é fácil! Amar trás em seu bojo a dor. Amar dói. Se for amor de verdade vai doer. Pe. Léo dizia que amar é preparar o coração para decepcionar-se. Pois é, quem ama decepciona-se. Elevamos nossas expectativas. Esperamos demais do outro. Arrogamos-nos o direito de exigir que o outro corresponda ao que acreditamos ser o melhor. Engraçado! Já ouvi muitos pais dizerem: “como não pode ser verdade para ele, se é verdade para mim”. Ingênua tentação. Às vezes, me apanho no mesmo engodo.
É exatamente por isso, que só Deus realmente ama. Todos os demais amores são derivações. Só Deus realmente ama, pois, respeita a liberdade de seu amado. Mesmo quando essa liberdade caminha para o erro ou causa dor. Imagino Deus, sentado ao nosso lado, chorando conosco nosso erro, chorando nosso pecado. Mesmo sabendo que tudo seria mais fácil se o amado tivesse ouvido e obedecido. Obedecer, do latim “ob+audire”, ouvir certo, ou seja, ouvir com retidão. Deus sofre e como sofre. Amar trás consigo sofrer, e, como trás.
Em Bethânia, me solidarizo com mães e pais que sofrem com seus filhos que tomaram tantos caminhos. Solidarizo-me com mães e pais que não tem respostas prontas, mas sabem distinguir perguntas erradas. Perguntas erradas trarão respostas erradas. Solidarizo-me com mães e pais de Bethânia, pois, sei bem de suas dores.
Peço ao Senhor que nos cure de todas as projeções frente a nossos filhos e que muito nos impedem de amar como Deus ama. Muitas e muitas vezes amar nos colocará na rota do pai do filho pródigo de Lucas 15. Aquele pai que olha da janela a espera que o filho volte. Quando voltar, que não falte abraço, beijo, anel no dedo e muita festa. Enfim, que não falte amor.
Por hora, ofereço a vocês uma boa fatia de “amor aos pedaços”, mesmo que por enquanto, fique aquele gosto amargo na boca.

Fique na paz de Deus!

Pe. Vicente,scj

O Encontro

Filed under: Minha história — padrevicente at 9:34 am on segunda-feira, abril 6, 2009

Agradeço a Deus a bela história que escrevemos juntos. A história é sobre vocação. Sou consciente de que no exercício da escrita o Senhor ao longo destes anos mostra-se bem mais fiel que eu. Contudo, sigo nesta parceria.
Sublinhei as mediações. Destaquei momentos e pessoas que foram sinais e canais de Deus recheando de ação esse roteiro escrito a duas mãos. Deus fala, eu respondo. Deus propõe, eu acolho. Questiono, Deus dá a resposta. Procuro, Deus indica o caminho. Desenrola-se, então a dinâmica daquilo que denominamos “vocação”.
Olhando para essa realidade através dos óculos da fé, percebo quatro momentos bem relacionados, que iluminam a experiência vocacional e nos colocam diante da pedagogia de Deus para com os homens. Posso afirmar através do meu próprio chamado, que toda vocação se estrutura por meio de Encontro, Intimidade, Compromisso e Renovação. É necessário um encontro verdadeiro com Deus, que nos conduza a um relacionamento intimo capaz de nos comprometer com Ele e com os irmãos e que se renove no tempo de acordo com as necessidades e exigências da missão.
O Encontro nos faz querer viver com Deus e para Deus. Chamo de encontro aquele momento da nossa história onde você se sente profundamente envolvido pela presença de Deus. Sente-se tão intensamente essa presença que somos definitivamente marcados por ela. Trata-se de algo único que escapa a tudo o que você tenha experimentado antes. No mistério da singularidade pessoal, onde cada qual sente e expressa de uma forma, você tem uma “certeza moral” de que alguma coisa “especial” aconteceu. Usamos metáforas, sacamos imagens, mas no máximo conseguimos aproximar o desenho da experiência.
A história testemunha a nosso favor. O ser humano é capaz de Deus ensina o catecismo. Os santos descrevem as suas experiências. Os místicos falam das visitas que recebem. A Renovação Carismática fala de “efusão do Espírito”. Nós falamos do toque de Deus. A Sagrada Escritura é prodiga em exemplos na vida de suas personagens mais ilustres. Destaco no Antigo Testamento “Moisés e a Sarça Ardente” (Ex 3,1-10). Rico em simbolismos e de força vocacional o episódio do Sinai nos relembra esse primeiro momento da vocação. O Sinai nos revela a pedagogia de um Deus que chama. O Encontro trás o extraordinário em nossa experiência; e nos reorienta na direção do que Deus quer de nós. Uma vez “tocado” cresce dentro do coração humano a consciência de ser chamado na fé em vista de uma missão.
“O jovem participara do seu primeiro retiro fechado. O pregador entusiasmado, excelente comunicador, partilhou vários textos com forte conteúdo vocacional. Ofereceu para o deleite de todos, passagens de Isaías, de Jeremias, entre outros. O jovem permitiu que os textos ressoassem em seu coração. Era como se o próprio Deus lhe dissesse: “Tu és meu!“, “Eu te escolhi”, “Eu te envio”, “Antes mesmo que tua mãe te concebesse, eu te escolhi e te designei”. O jovem foi para diante do Santíssimo Sacramento. Deitou-se junto ao Sacrário e foi envolvido por uma presença nunca antes sentida. Mesmo com toda a escuridão da madrugada, não teve medo. Uma paz intensa e duradoura tomou conta do seu ser, enquanto os textos ressoavam em sua caixa torácica. A mais forte palavra de ordem era: “Tu és meu!”. Não havia mais dúvida. O Senhor o chamava. Ainda surpreso e atordoado com tamanha experiência, não se conteve e logo pela manhã foi procurar o pregador. Padre jovem da Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus, confiou e contou-lhe tudo. O padre ouviu e sentenciou. “Não tenha dúvidas. É Deus lhe falando. Pelo pouco que já me disseram de você confirma com certeza que Deus quer algo muito especial para sua vida. Responda. Não tenha medo. A firmeza do padre calou na alma do jovem. Terminado o retiro procurou um diretor espiritual e orientação vocacional em sua paróquia. O Coração de Jesus quer que eu seja dele, pensava, e porque não padre. Esse encontro jamais saiu-lhe da alma. Marcou-lhe como anel pressionado em cera.”.
Desejo a você a graça de um Encontro profundo e fecundo com o Senhor. Depois continuamos com a estrutura vocacional, por hora continuo a rezar o meu chamado. Reze o seu. Obrigado, Senhor!

Fique na paz de Deus!

Pe. Vicente,scj

Mediações de Deus para nós

Filed under: Minha história — padrevicente at 4:13 pm on segunda-feira, março 16, 2009

Lembro-me bem de minha paróquia Sant`Ana nos tempos de menino. Passeiam pela minha memória aquelas pessoas que nesse período foram sinais de Deus para que eu fosse discernindo minha vocação e missão.
Preciso começar pelos irmãos dehonianos. Sim, os padres do Coração de Jesus eram diferentes e chamavam muito minha atenção. Como menino observador, percebia algo naqueles padres que me cativava. A postura, a piedade, o jeito de fazer o sermão, as coisas que diziam. Quando falavam sobre o Coração de Cristo transbordavam amor em suas palavras.
A figura mais emblemática era Pe. João Proust. Ele transpirava respeito, verdadeiro Cura de Aldeia. Sabe aquelas pessoas que nos dão a impressão que já nasceram de cabelos brancos e inspiram uma sabedoria milenar? Ele era assim. Para mim sempre teve cabelos brancos como algodão e já nascera de batina. Quando o encontrávamos nunca faltava a benção e o beijo na mão. Ele tinha sempre uma palavra de exortação na boca e nos bolsos, balas. Era bom ver a admiração de meu pai para com ele. De quando em vez, batia em minhas costas e dizia: ”esse menino padre será!”, carregando em seu sotaque alemão. Meu pai respondia: “Se Deus quiser, será!” e seus olhos brilhavam.
Aos poucos outros foram ocupando meu imaginário. Pe. Silvestre, homem sério, sempre regular, sempre no horário. Celebrava todos os dias no asilo, na capela onde fiz minha primeira comunhão. Assiduamente visitava os doentes. Era o preferido de minha mãe, pois era ele quem atendia suas “queridas velhinhas do asilo”, onde ela trabalhava como enfermeira. Padre do milagre, pois foi ele que atendendo uma mulher desenganada pelos médicos levou-lhe uma relíquia de Pe. Dehon e ela ficou curada. Esse milagre foi reconhecido pela Causa dos Santos e elevará Pe. Dehon à condição de Beato. Sua fidelidade sempre me desafiou. Rezava sempre pelas vocações sacerdotais e religiosas. Quando me via dizia: “Estou rezando para você ir para o seminário”. Ria e desconversava. Homem sábio esse Pe. Silvestre.
Depois veio Pe. Herculano. Ah! Esse era especial. O povo o procurava para atendimento. Casais, homens, mulheres, jovens, todos queriam aconselhamento com o tal padre. Falava bonito na igreja. Eu adorava quando ele xingava o povo. No almoço de domingo era o comentário da casa. “Vocês prestaram atenção ao que o padre falou hoje ele pegou pesado”. Ouvia com uma grata satisfação: “o padre falou”, pensava. Fiquei muito feliz quando ele celebrou minha primeira comunhão. Na hora das fotografias, me abraçou e disparou: “Agora só falta ser padre”. Suas palavras ficaram gravadas em meu coração.
Aí veio o furacão Pe. Israel. Esse sim. Transformou a vida da juventude. Os jovens da paróquia agora tinham um padre. Eu adolescente vivia atrás do burburinho. Muitos encontros de Emaús, retiros em sítios e fazendas, missa das 10h no domingo na matriz. Muita música. Muita alegria. Pe. Israel falava de um jeito revolucionário. Deus era muito próximo, sem formalidades. Não dizia “Nosso Senhor”, mas “Meu Jesus”. No meio do sermão ele repetia um de seus bordões preferidos: “Deus é fantástico!”. A alegria nos invadia e Pe. Israel deixava transparecer um amor apaixonado por Jesus que nos entusiasmava. Encantado, passei a querer amar Jesus do jeito dele. Pe. Israel primeiro trabalhava no colégio em que meu pai estudou algum tempo e onde fui “lobinho” no escotismo. Mais tarde, transferido para a paróquia orientava os grupos de jovens. Quando podia visitava o grupo em que participava. Como ficávamos felizes. Para completar a festa, Pe. Israel era negro. Reconhecia-me naquele padre. Eu também posso, era a sensação que me invadia. Quando participava de nosso grupo sempre fazia propaganda vocacional. Ao final olhavános e repetia com convicção: “Então, quando vocês vão tomar coragem? Deus está esperando.”. Meu coração gelava.
E o Pe. Aurélio Marioto. Com ele descobri o significado de liderança. Substituiu como pároco, o querido Pe. João Proust que ficara décadas como referencia de nossa cidade. Veio com força total. Trouxe o Concílio Vaticano II com suas mudanças pastorais. Inteligente, eloqüente, polêmico, não perdia uma boa briga. Alinhado, elegante, porte litúrgico impecável. Era impossível no auge da juventude e do encantamento vocacional não se deslumbrar com aquela figura ímpar. Fazer parte da sua equipe litúrgica fazia as minhas pernas tremerem, mas enchia o meu coração de um sadio orgulho. Com ele aprendi a dar o melhor para Deus e primar por uma vida litúrgica vibrante, orante e participativa.
Bons tempos. Bons padres. Fortes referenciais num tempo de descobertas e num momento onde Deus pedia as chaves para entrar de cheio no meu coração. Numa palavra tornaram-se mediações de Deus para que eu percebesse o que Deus queria de mim.
Partilho o que Deus fez comigo para você se questionar. Deus usou que mediações em sua vida? Que pessoas foram sinal de Deus para você? Não importa para onde? O relevante é discernir o que Deus quer de você. Perceber a sua vocação. Eis a receita da verdadeira felicidade.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj

Minha primeira comunhão

Filed under: Minha história — padrevicente at 5:37 pm on quinta-feira, março 5, 2009

Continuo repassando a memória e tomando consciência de minha história vocacional. Creio piamente que Deus deixa seus sinais em nossa história. Estes podem e devem nos ajudar a discernir nossa vocação. Acredito que assim como o nosso inconsciente registra pontos negativos de nossa história, registra também aquilo que é positivo. Mesmo que não tenhamos consciência, eles estão lá. E foi assim que fazendo memória, lembrei-me com carinho de minha primeira comunhão.
Vestido com camisa de manga comprida azulada, gravata tipo festa engalanada, calça de tergal azul-marinho, sapato lustrado. O visual, confesso, só de pensar nele corremos o risco de corar envergonhados. Contudo, o que importa é que naquele dia cheguei cedo, ansioso pela hora. Afinal era minha primeira comunhão. O domingo estava ensolarado. Era uma bela manhã de fim de novembro do ano de 1980. A celebração bem preparada, festiva, teve como presidente meu querido Pe. Herculano Vaz da Silva. Emocionado, li a segunda leitura. São Paulo aos Coríntios falando da dignidade da Eucaristia. Quando chegou o momento da comunhão, minhas pernas tremiam. Meu coração quase saindo boca a fora, disparava. Uma emoção indescritível tomou conta de mim. Mais tarde, tive certeza de que um amigo veio me visitar. Na hora do pós-comunhão, que chamávamos de momento de ação de graças, lembro-me da música cantada: “Doce é sentir em meu coração, humildemente vai nascendo amor. Doce é saber, não estou sozinho, sou uma parte de uma imensa vida. Que generosa reluz em torno a mim. Imenso dom do teu amor sem fim. Do céu nos destes as estrelas claras, nosso irmão sol, nossa irmã a lua, nossa mãe terra, com frutos, flores, fontes. Imenso dom do teu amor sem fim”. Senti muito forte no coração a presença de Jesus. Menino, do alto dos meus 10 anos de idade, chorei alegremente e pedi para que Jesus estivesse sempre comigo, pois decidido em minha meninice queria mesmo estar ao lado dele. Terminada a celebração posicionei-me para as três fotografias tradicionais. A primeira era ao lado da catequista e do padre. A segunda junto à família e a terceira junto aos colegas de turma. Logo na primeira, Pe. Herculano colocou a mão no meu ombro e disse: “Agora só falta ser padre”. Sorri, envergonhado, mas não tirei mais essa palavra do meu coração. Mais tarde, esse padre tornou-se meu formador e um grande amigo.
Deus cumula nossa vida com seus sinais. A minha e a sua. Repasse você também. Rememore e alegre-se. Os sinais estão aí. Quem sabe você anda com dificuldades para discernir sua vocação, ou quem sabe está desistindo dela? Releia os sinais. Estou rezando por você, principalmente pelas vocações em Bethânia.
Fique na paz de Deus!
Pe. Vicente,scj