Desafios para a perseverança (II)
A partir deste segundo artigo trataremos de alguns desafios para manter-se perseverante. É sempre difícil encaixar-se em palavras/conceitos aquilo que na vida se apresenta de forma dinâmica. Eu creio que a vida seja o lugar concreto onde os conceitos e palavras se submetem à avaliação se são verdadeiros ou não, e não o local onde simplesmente são aplicados. No entanto, se faz necessário o esforço de conceituar para entender e entender para se viver melhor. Para tanto inspiro-me em uma palestra de Dom Rafael Cifuentes, Bispo emérito de Nova Friburgo-RJ. Organizei um elenco de sete desafios para a perseverança. Neste artigo trataremos apenas de um destes desafios, nos próximos artigos trataremos os demais. Daqui para frente trocarei também o nome constância por perseverança.
Ninguém começa um projeto com intenção de interrompê-lo, todos possuímos o desejo de perseverar, de avançar sempre mais, superar limites, crescer pessoalmente, espiritualmente, profissionalmente e etc. No entanto quando olhamos ao nosso lado, as vezes a história de nossa própria vida, vemos uma grandíssima quantidade de projetos inacabados, pessoas cheias de talentos e criatividade, que eram proeminentes e infelizmente depois de um tempo simplesmente desistiram do ideal que tinham. Vemos assim que não basta organizar projetos precisa-se também apaixonar-se e entusiasmar-se com eles e depois os realizar.
O primeiro desafio para ser perseverante pode estar enraizado em motivos temperamentais. Algumas pessoas por temperamento possuem uma tendência à constante oscilação em suas ideias e projetos. Isso tudo porque possuem em si um excesso de entusiasmo, ou entusiasmos múltiplos que apontam direções diferentes e assim, acabam por consumir toda a força da pessoa de forma desordenada.
O entusiasmo é como o combustível em um carro, precisa ser administrado aos poucos. Se a faisca, que incendeia o combustível no interior do motor, o atingisse diretamente no tanque, o carro inteiro explodiria ao invés de se locomover. O combustível precisa ser injetado aos poucos, a faisca precisa encontrar a quantidade certa de combustível dentro do motor, de tal forma que a explosão apenas no motor torne-se a força propulsora que faz o carro andar. Também quem usa seu carro com acelerações desordenadas termina por ser obrigado a freadas bruscas diante dos sinais de transito ou qualquer outro obstáculo ou curva na estrada, a consequência final não será uma boa e agradável viagem, mas o gasto desnecessário do combustível e o desgaste do carro sem ter conseguido nenhum benefício com isso.
Não se pode excluir o entusiasmo jamais de um projeto, sem ele tudo fracassa. Ele é vital porque é ele que alimenta o desejo e excita a criatividade, mas como qualquer outra coisa, em excesso é sempre perigoso. Depressões podem ter sua origem nisso, alertam alguns psicólogos: excesso de entusiasmo convertido em forte decepção. É necessário que os ideais que provocam em nós emoções realmente profundas, se aprofundem também em nossa alma, ganhando força e criando convicções que mais tarde se transformem em decisões concretas. Decisões que se elaboram num projeto que envolve etapas e meios. Assim o entusiasmo permanecerá em nós de forma contínua, alimentando este verdadeiro projeto, e este com real possibilidade de realizar-se.
Sempre encontra-se paz dentro de um coração organizado. Organizado para e pelo ideal. A fidelidade requer ideal e entusiasmo, mas sem organização nunca será atingida. A fidelidade vai além das disposições momentâneas e estados de ânimo que podem nos arrastar a cada momento de um lado para o outro. Só existe fidelidade onde existe ideal e este é feito de pequenos passos a serem seguidos durante uma parte, ou até mesmo toda a vida. A felicidade é atingida percorrendo gradativamente cada etapa. Uma quantidade exagerada de planos entusiastas colocam nossa vida diante do risco de ser totalmente fragmentada. Ser fiel a cada etapa é ser fiel ao ideal.
Deus os abençoe e no próximo artigo trataremos de mais um desafio para manter-se perseverante e um caminho/remédio para superá-lo.
Padre Xavier-CN
Uma amiga chamada Constância (I)
Nosso mundo é marcado por um constante movimento de “mudar de ideia”, optar por novos horizontes. Por vezes, nos vemos diante de circunstâncias que nos fazem pensar se vale a pena levar adiante um trabalho difícil, uma situação desconforme com nossa vontade, ou ao menos desconforme com nossas expectativas. Por vezes não somos nós a buscar tais situações, mas elas nos alcançam e se prendem a nós em nosso dia a dia. Sempre diante delas devemos dar uma resposta: ir adiante ou mudar de rota.
Mudar de ideia, abandonar projetos falidos, trocar de rota por perceber que se está num caminho de demasiado risco ou mesmo equivocado, é uma atitude sempre positiva; e quando isso é fruto de discernimento, passa a ser necessário. Permanecer no caminho errado é prolongar a tristeza ou a possibilidade de frustração. E na verdade não fomos feitos para este tipo de vida. No entanto, a mudança de idéia pode ser devida a outros fatores que envolvem uma fraca capacidade de sonhar e projetar-se diante de um ideal, ou mesmo a ausência do proprio ideal.
Uma vida sem ideal é como uma viagem sem rota, por mais que se ande, que seja uma viagem maravilhosa, nunca se chega ao ponto de destino e isso simplesmente porque ele é inexistente. Um bom ideal, um forte motivo para viver e até mesmo para dedicar cada esforço é sempre louvável, mas o ideal não se realiza sem a constância. Por outro lado a constância só pode ocorrer onde existe o ideal. É a constância que conduz um ideal à sua realização, inclusive à plenitude de vida. Não existe constância onde não existe ideal. Todo homem deve ter um ideal de vida, deve escolhê-lo e buscar realizá-lo de acordo com o bem, não só como fim, mas também como meio..
Como virtude humana, a constância é acessível a todos. Não é simplesmente um dom do alto, mas algo que emerge de dentro da pessoa; e como todo talento, pode e deve ser cultivada e desenvolvida.
Para entender claramente a constância, pensemos numa viagem para um local muito belo e desejado há muito tempo; e no dia da viagem está chovendo na estrada, e os vidros do carro embaçam. O que fazer: Desistir? Mudar de rumo? Aguardar? Continuar? Tudo exige discernimento, é claro. Se ainda é possível ir adiante sem grandes riscos e possui habilidade suficiente para isso, o motorista deve decidir-se pela continuidade da viagem, ainda que em baixa velocidade, devido às situações adversas. Deve ir com muita cautela, deve respeitar o desafio; até mesmo parar e esperar a chuva passar – se for o caso –, mas desistir do ideal apenas por causa de uma chuva, que pode ser passageira, seria perder muito e as vezes sem chance de retomar mais tarde.
Todo homem busca a plenitude de seu ser. Isso é uma grande obra! E como toda grande obra, não é fruto de apenas entusiasmo. Todo caminho comporta obstáculos, e para vencê-los, não basta ter força e inteligência, ou mesmo audácia e destreza. Tudo isso sim, mas, acima de tudo, constância. Tem um provérbio que diz que “a inteligência natural pode ser dada a qualquer um, mas só é inteligente de verdade quem faz uso dela”. No dia a dia vemos que os frutos mais doces de nossa vida não são aqueles conquistados apenas por nossos talentos, mas pela constância que não nos deixou desistir de tais talentos diante dos obstáculos. Se diz ainda que “sorte é quando a preparação encontra a oportunidade” . Para muitas coisas em nossa vida teremos apenas uma oportunidade. Por isso, é bom ser constante, para se preparar bem e não perdê-la.
Não se constrói nada sem constância. Nossos ideais embebidos na constância adquirem uma força extraordinaria. Para ser feliz é preciso que nos esforcemos sempre, sem desanimar diante das situações desfavoráveis, mesmo sem motivação sensível, ainda se as pontes desabarem diante de nós, mesmo na cotidianidade dos acontecimentos, ou quando os obstáculos nos pareçam insuperáveis; sabendo sempre que nosso ideal maior é Cristo, em Quem tudo que é bom encontra o seu modelo, inclusive a constância. Afinal A alma só se alimenta daquilo que lhe traz alegria, nos lembra Santo Agostinho.
Deus os abençoe
Padre Xavier-CN
Estou preparando a continuação deste texto…
Adoração da Santa Cruz na Sexta-feira Santa
Em todo o ano, existe somente um dia em que não se celebra a Santa Missa: a Sexta-Feira Santa. Ao invés da Missa temos uma celebração que se chama Funções da Sexta-feira da Paixão, que tem origem em uma tradição muito antiga da Igreja que já ocorria nos primeiros séculos, especialmente depois da inauguração da Basílica do Santo Sepulcro e do reencontro da Santa Cruz por parte de Santa Helena (ano 335 d.C.).
Esta celebração é dividida em três partes: a primeira é a leitura da Sagrada Escritura e a oração universal feita por todas as pessoas de todos os tempos; a segunda é a adoração da Santa Cruz e a terceira é a Comunhão Eucarística, juntas formam o memorial da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Memorial não é apenas relembrar ou fazer memória dos fatos, é realmente celebrar agora, buscando fazer presente, atual, tudo aquilo que Deus realizou em outros tempos. Mergulhamos no tempo para nos encontrarmos com a graça de Deus no momento que operou a salvação e, ao retornarmos deste mergulho, a trazemos em nós.
Os cristãos peregrinos dos primeiros séculos a Jerusalém nos descrevem, através de seus diários que, em um certo momento desta celebração, a relíquia da Santa Cruz era exposta para adoração diante do Santo Sepulcro. Os cristãos, um a um, passavam diante dela reverenciando e beijando-a. Este momento é chamado de Adoração à Santa Cruz, que significa adorar a Jesus que foi pregado na cruz através do toque concreto que faziam naquele madeiro onde Jesus foi estendido e que foi banhado com seu sangue.
Em nosso mundo de hoje, falar da Adoração à Santa Cruz pode gerar confusão de significado, mas o que nós fazemos é venerar a Cruz e, enquanto a veneramos, temos nosso coração e nossa mente que ultrapassa aquele madeiro, ultrapassa o crufixo, ultrapassa mesmo o local onde estamos, até encontrar-se com Nosso Senhor pregado naquela cruz, dando a vida para nos salvar. Quando beijamos a cruz, não a beijamos por si mesma, a beijamos como quem beija o próprio rosto de Jesus, é a gratidão por tudo que Nosso Senhor realizou através da cruz. O mesmo gesto o padre realiza no início de cada Missa ao beijar o Altar. É um beijo que não pára ali, é beijar a face de Jesus. Por isso, não se adora o objeto. O objeto é um símbolo, ao reverênciá-lo mergulhamos em seu significado mais profundo, o fato que foi através da Cruz que fomos salvos.
Nós cristãos temos a consciência que Jesus não é apenas um personagem da história ou alguém enclausurado no passado acessível através da história somente. “Jesus está vivo!” Era o que gritava Pedro na manhã de Pentecostes e esse era o primeiro anúncio da Igreja. Jesus está vivo e atuante em nosso meio, a morte não O prendeu.
A alegria de sabermos que, para além da dolorosa e pesada cruz colocada sobre os ombros de Jesus, arrastada por Ele em Jerusalém, na qual foi crucificado, que se torna o simbolo de sua presença e do amor de Deus, existe Vida, existe Ressurreição. Nossa vida pode se confundir com a cruz de Jesus em muitos momentos, mas diante dela temos a certeza que não estamos sós, que Jesus caminha conosco em nossa via sacra pessoal e, para além da dor, existe a salvação.
Ao beijar a Santa Cruz, podemos ter a plena certeza: Jesus não é simplesmente um mestre de como viver bem esta vida, como muitos se propõem, mas o Deus vivo e operante em nosso meio.
Padre Antônio Xavier
Comunidade Canção Nova, Terra Santa