O Menino Deus dentro de nós.
Gerson Abarca*
Entre todos os apelativos para o consumo, Deus se Fez Carne, para despertar-nos e lembrar-nos da solidariedade. O Menino Deus renasce em cada ser humano, trazendo a esperança da vida sobre a morte. Por isto, presentear os entes queridos é fazer acontecer a simbologia de que o Menino Deus nasce em cada um de nós.
Assim , como os Reis Magos, foram levar presentes ao menino Jesus na manjedoura, a cada abraço ou cumprimento desejando um feliz natal, estamos levando o presente ao Menino que nasce naqueles que cumprimentamos. Por isto, neste natal somos todos Meninos. E com a simplicidade de meninos, podemos desejar a paz, o bem e a esperança a todos.
Mas neste momento, cerca de 40 milhões de miseráveis brasileiros não estarão recebendo e nem se quer dando presentes. A não ser que alguns deles participem de projeto social de solidariedade. Também, no mundo, apenas 15% da população estará dando e recebendo presentes sem preocupações de instabilidade econômica e de moradia, os demais 85% da população mundial, estarão passando pelo natal preocupados em onde recostarão a cabeça no dia seguinte.
Por isto mesmo, que o Deus se Fez Carne e habita entre nós para não nos esquecermos da solidariedade, pois o Deus da vida, Criador do ser humano, não se conformará como nós, das desigualdades decorrentes do livre arbítrio, outorgado por Ele à humanidade.
Se pensarmos na dimensão criadora e onipotente de Deus, poderíamos estar muito despreocupados com a fome ou as instabilidades humanas… estaríamos até hoje no paraíso. Mas a criação divina é participativa, gerou e substanciou o ser humano para que fossemos partícipes, co-responsáveis “-Se Deus é criador nós somos criativos –”, para daí darmos continuidade. “Mas os seus não O reconheceu…” Por isto Ele se fez carne, na condição de empobrecido, entre os estrumes da estrebaria, para fazer-se classe social – a mais empobrecida possível-, levando-nos ao incomodo de termos que ver e agir sobre as diferenças que nos cercam.
As luzes de natal, que historicamente era uma festa pagã, focada na diversão pela diversão, e que a Igreja Católica inculturou o evangelho na tradição pagã, ainda hoje encontra o desafio de tirá-la do paganismo para percepção de um sentido. Papai Noel, luzes, árvores e pilhas de presentes, disputam com a insistente e permanente Pessoa do Menino Jesus.
O que nos faz incomodados em meio às comilanças e exageros consumistas, no afã das “gastanças”. Temos que lembrar que nossos semelhantes, filhos do mesmo pai, estão sem ter o que comer, sem motivo para festejar. Os 15% da humanidade, que se encontram estáveis para festejar o natal, estão persecutórios com medo de que apareça um seqüestrador, um assaltante. Festejam enclausurados.
Esta ambivalência ou paradoxo é o maior requinte do natal, que graças ao profetismo da Igreja Católica faz-nos atentos, ou no mínimo incomodados.
Como é bom festejar o natal podendo pelo menos pensar naqueles que não tem o que comer. Orando pela paz e se colocando como auxílio à alguém desprotegido.
Como é bom conduzirmos nossos entes queridos à reflexão da solidariedade. Como é bom podermos ter entre nós a imagem do Menino Jesus, sinal de contradição na humanidade para que saiamos dos nossos confortos e busquemos a transformação da sociedade.
Assim, quando abraço espontaneamente a um pequenino; quando estendo minhas mãos para ajudar alguém desfavorecido; quando uso minha inteligência para pensar meios estratégicos para o bem comum; quando sinto-me feliz estando em comunidade, aí sim estarei vivendo o natal. Pois estarei superando o materialismo frio dos presentes, do consumismo e trazendo ao centro da festa a solidariedade.
Sempre que existir o natal dentro de nós, na sua mais legítima simbologia do Deus que se Faz Carne e Habita-nos na forma do menino Jesus, estaremos sendo revitalizados com a esperança. A esperança de vermos um dia um só Pastor e um só Rebanho onde a ovelha pastará com o lobo.
* É Psicólogo e Diretor do Instituto Pensamento.

