Estávamos a passeio, nosso destino Montanha/ES. Vínhamos curiosos pois Pe. Domênico amigo de Maria Celina, por ocasião de trabalhos desenvolvidos juntos na Pontifícia Obra Missionária (CNBB) em Brasília, convidara-nos a conhecer a sua realidade de trabalho missionário. Ina e eu, ainda namorados, chegamos à Vitória bem pela manhã, e logo pegamos o ônibus com destino ao norte do Espírito Santo. Época em que a empresa de transporte coletivo oferecia as rodomoças, chic! Ar condicionado água e cafezinho à bordo. Coisa para encantar turista mesmo.
Na medida em que íamos adentrando o interior do estado, encantávamos pelas montanhas. Avistávamos as formações rochosas à distância, e logo estávamos passando ao lado delas. Grande expectativa foram criando em nós os passageiros capixabas, que diziam que em breve viríamos o elefante. Pensava com meus botões, não é possível tanta fantasia. Mas ao contornarmos a tal da pedra do elefante, as pessoas se levantavam das poltronas, para apreciar um orgulho capixaba. Não é que a pedra é um elefante mesmo? Principalmente quando a estrada fica de frente para a tromba… “Que incrível…” exclamou Celina. Lá estávamos nós boquiabertos com a pedra do elefante.
Mais um longo trecho, entre muitos rochedos, chegamos em Montanha, onde não avistávamos montanha. Pensávamos que chamava Montanha porque ficava em uma chapada elevada. Mas não, nas andanças pelo interior de Montanha, entendemos o motivo, é que entre o caminho da cidade de Montanha até Mucurici há duas montanhas rochosas bem definidas e enormes, uma ao lado da outra, como irmãs inseparáveis.
Neste ano, de 1988, em plena abertura da Campanha da Fraternidade com o tema Negro, final de janeiro e início de fevereiro, rodamos toda a região do extremo norte do estado junto com lideranças comunitárias, onde ajudávamos a organizar os encontros com a juventude do meio rural. Uma moçada muito acolhedora, sofrida pela aridez do clima e pouquíssimas chuvas, onde a cada dia o sol castigava. Ponto Belo, Mucurici, Vinhático e também Pinheiros, localidades de muita acolhida e ao mesmo tempo muita pobreza. Parece que onde falta recursos financeiros o calor humano é maior, ou quem sabe, nós que chegávamos de outros ares a esperança batia à porta daquele povo em busca de novidades. Parecíamos enamorados com a população, uma recíproca de quem chega para conhecer e de quem recebe para oferecer e vice versa. Quantos cafezinhos e bolinhos de fubá. Os Missionários falavam-nos da pobreza, mas não conseguíamos enxergar de que pobreza falavam. Havia muita partilha, e comida não faltava. Lógico que comparado a realidade de centros urbanos mais desenvolvidos, poderíamos identificar a pobreza com clareza. Mas o que é mais pobre, a realidade do meio rural do extremo norte capixaba ou as favelas das grandes cidades? Nosso olhar que estava contaminado pelo coração capixaba, não nos permitia identificar aquela realidade rural como uma pobreza, mas sim como riquezas que precisavam ser transformadas em mobilidade organizacional, em força de povo.
Esta sensação da necessidade de organizar a sociedade em busca de soluções produtivas para melhoria das condições econômicas daquelas famílias, levou-nos a procurarmos projetos sociais, e nesta busca nos deparamos com uma visita em um assentamento rural. Meio assustados, pois
em São Paulo vendiam a imagem que este tipo de organização era de baderneiros, invasores de terras. Mas a cena que não se faz apagar até hoje de minha mente é a de uma residência neste assentamento de trabalhadores rurais do MST em que havia um belo jardim florido em frente à casa. A família desta casa nos acolheu, com saboroso cafezinho e foram revelando a trajetória deles até chegarem naquele pedaço de terra conquistada. Saíram de grupos de maloqueiros (moradores de rua com vícios alcoólicos), através das reuniões do MST onde prometiam que se entrassem na luta pela terra poderiam conquistar seu próprio pedaço de chão para plantar. Acreditaram na proposta e passaram por várias etapas de luta, desde os acampamentos à beira da pista, perseguições de fazendeiros e policiais. –“Mas valeu a pena todo o sacrifício, hoje temos nossa propriedade e não estamos marginalizados nas ruas das cidades”, desabafou o chefe daquela família, todo contente quando apresentava-nos seu equipamento de produzir farinha de mandioca conquistado com apoio do governo.
Aquele jardim florido era a representação simbólica de uma estrutura de pessoas que encontraram a identidade pessoal no resgate dos direitos elementares para a construção da felicidade
em família. Antes do MST, aquela família vivia com o diabólico (dissociação e desintegração da identidade humana). O jardim florido, era resultado de almas felizes (simbólico, a integração entre o ser e o ter).
Neste janeiro de 1988, muitas coisas vivemos. De todas, a que falou mais forte em nossas almas, foi o encontro com a alma capixaba: uma integração movida pela paixão, e ação do Espírito Santo dentro de nós. Nossa volta ao Estado de São Paulo, deixou-nos inquietos. Estávamos longe há quilômetros, e nossas almas navegavam em terras e pessoas do Espírito Santo. Nosso namoro só havia começado.