Paixão Capixaba – o reencontro

Depois daquela primeira temporada capixaba, parecia que não cabíamos em São Paulo. Mas nossos projetos estavam apenas começando. Celina que atuava na saúde pública em Bauru-SP e eu já na reta final da faculdade de psicologia, desenvolvemos um belo projeto social na cidade de Assis-SP, onde Celina sai de Bauru e vai coordenar o CECAB, (Centro de Capacitação Popular) que situava em uma periferia de Assis-SP. No ano de 1989, voltamos ao Espírito Santo, para matar saudade. Mas desta vez escolhemos o mês de julho.

Chegamos pelo litoral e outras imagens encantadoras nos reservavam. A praia de Conceição da Barra e Dunas de Itaúnas. Ficamos vislumbrados com aquele pedacinho de litoral. Em Dunas parecia estarmos em uma praia particular de paulistas, já em Conceição da Barra, a acolhida de mineiros, a praia mineira. Uma vida mansa, mas que já nos despertava para outras questões sociais, pois neste ano a prefeitura de Conceição da Barra havia inaugurado o calçadão, víamos os coqueiros sendo plantados já adultos. Sem dúvida uma bela obra, cuja inicial do nome do prefeito da época podíamos observar da janela do quarto do hotel que ficava bem próximo da praia. Com a letra M, a decoração do calçadão enchia os olhos dos moradores da cidade. Estivemos rapidamente na praia de Guriri, que pela falta de investimentos na época, não nos atraiu a permanecermos por mais que um período do dia, algo meio parecido com o que acontece ainda hoje com turistas que estão subindo o litoral com destino à Bahia. Mas esta questão era comentada pelos moradores de Conceição da Barra que defendendo os investimentos no calçadão, diziam que em Guriri por questões ambientais, não se podia fazer nada na praia, por isto que ela era desinteressante. Um comerciante até dizia que tentou fazer investimentos em Guriri, mas via que o Ibama atrapalhava, na época estava iniciando o projeto Tamar em Guriri. Interessante que 20 anos depois, o cenário é outro, a Praia de Conceição da Barra sofre com as intervenções na orla sem critérios ambientais e a praia de Guriri segue soberana, transformando-se no grande potencial turístico do litoral norte capixaba.

Nosso destino nesta viagem seria novamente Montanha, pela forte amizade que mantínhamos por Pe. Domênico, e aproveitaríamos a oportunidade para convidá-lo a celebrar nosso casamento em janeiro de 1991 na cidade de Assis-SP. Antes de partirmos para Montanha, agendamos um horário com o Bispo Dom Aldo Gerna, que para nós era uma referência de luta em defesa dos oprimidos. Dom Aldo nos acolheu em sua residência no Bispado de São Mateus, e orgulhosamente nos apresentava a nova Catedral. Falava do projeto que representava uma casa que acolheria a todos na forma de uma assembléia participativa. Mostrava as pinturas do artista plástico Cláudio Pastro, revelando grande sensibilidade intelectual e cultural. Mas ao sairmos da Catedral Dom Aldo teve que se recolher rapidamente, pois avistara um carro preto, com vidros pretos, estacionado à frente: “Preciso entrar, pois nestes dias temos recebido ameaças de morte, o conflito no campo está se agravando e nossos posicionamentos em defesa dos oprimidos têm me valido o martírio”, refletiu conosco Dom Aldo. Presenciávamos a reflexão de um dos principais Bispos na causa da Evangélica Opção pelos pobres no Brasil.

Partimos para Montanha, a lá vivenciamos outro fato sócio político que nos deixou estagnados e mais apaixonados pelo povo capixaba. Conhecemos Verino Sossai, um pequeno agricultor com ampla atuação na vida pública de Montanha, cidadão de classe média e chefe de família, muito atuante na Comunidade Católica. Neste mês de julho a Paróquia de Montanha organizava cursos de capacitação para jovens da Pastoral da Juventude, pudemos presenciar um curso ministrado por Verino na qual os jovens gostaram muito, possuía o dom de comunicar com eles. Depois de duas semanas pela região de montanha com muita convivência fraterna, tomamos rumo a São Mateus, para retornarmos a São Paulo. Conosco novamente o sentimento de que nossos corações ficavam partidos. Chegamos a São Mateus e ficamos sabendo que Verino Sossai estava preso. A notícia corria como se ele fosse um criminoso. Pensava comigo:- “Mas como pode! Uma liderança daquela ser presa como bandido?” As artimanhas do conflito agrário estava longe de ser desvendado por nós, meros turistas. As notícias que recebíamos frequentemente
em São Paulosobre o Espírito Santo era marcada sempre por questão de corrupção política, mas o conflito agrário estávamos apenas vendo alguns confusos sinais perpassarem por nós.

Ao chegarmos
em São Paulo, recebíamos a notícia que um líder sindicalista rural havia sido assassinado no norte do Espírito Santo, e por ironia do destino, era Verino Sossai. Naquele ano, iniciava-se uma temporada de caça à lideranças  populares do meio rurais…Passamos a acompanhar mais intensamente as notícias do Estado não só pela ótica da grande imprensa, mas também pelo víeis dos movimentos sociais organizados em redes por todo o Brasil.

Depois de 20 anos, temos presenciado ainda os conflitos agrários, hoje por conta da demarcação das terras quilombolas. Neste conflito, o limite entre sermos todos irmãos em busca de uma solução em conjunto, muitas vezes dá lugar ao desejo de poder e posse. Esta paixão capixaba parece que aquece na medida em que os fatos sócios políticos esquentam.

Com todo este envolvimento, só nos restaria um encontro mais definitivo com o Espírito Santo, mas isto eu conto depois.

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