Desenvolvimento Emocional – Sentimento de Culpa*

Gerson Abarca* *

Culpa na vida humana reflete a experiência do conflito na  realidade existencial entre amor e ódio. A culpa é o elemento intermediário capaz de integrar estes dois sentimentos, como se fosse a espessura de uma moeda  – cara e coroa – amor e ódio. Na moeda fina, a culpa é integração das duas vivências, já na moeda de espessura grossa a culpa é o equivalente à dificuldade de se transitar entre os dois sentimentos que estão co-relacionados.

Viver com culpa é não permitir-se viver, pois para se viver é condição a transitoriedade entre amor e ódio. Mas por sua vez, viver sem culpa é a não percepção existencial da bipolaridade de amor e ódio dentro de nós, condição observada nos delinqüentes, que ficam desprovidos de qualquer sentimento de culpa diante de seus atos delinqüentes. É o resultado de uma mente que não conheceu limites.

Já a culpa como fator estruturante, é necessária para que cada indivíduo a perceba em momentos que necessita reparar um erro, a culpa como condição de auto percepção de si no mundo.Como uma mãe que ao amar seu filho,  diante de um processo de correção, castiga, mas  vê neste castigo uma necessidade de limites.Este castigo corretivo dispertará a culpa por ter ofendido um objeto de amor, que a remeterá  na busca  pela continuidade  de manifestação deste amor para com seu filho. Este processo cíclico e permanente é o resultado da vivência de culpa que integra. Já, uma mãe, disprovida de sentimento de culpa, ao invés de corrigi vai espancar e não se preocupará de ter ofendido seu objeto de amor, o filho, que aliás, não conseguirá pontuar a existência de amor nesta relação, mas sim o resultado de uma  relação onde a mãe não conseguiu sair de seu próprio mundo.

“O sentimento de culpa – implica a tolerância da ambivalência…”(Winnicott – 1958), do conflito causado na ansiedade vivenciada no conflito entre amor e ódio.

Em Melanie Klein temos no conceito de “Posição depressiva” a relação duálica entre mãe e filho, em um estágio bem precoce do relacionamento onde a criança ao ser gratificada pelo seio materno se vê na condição de ataque ao mesmo. Nesta ansiedade vivida entre o seio bom e o seio mal, provocado pela ação destrutiva do bebê ou pela ausência da mãe no processo de amamentação, dá-se início à vivência de culpa. Culpa esta que estará configurando-se em estruturante ou destrutiva e quem sabe sem a existência dela. A culpa que nos impulsiona para revitalizar o amor é aquela que não nos faz negar dentro de nós o sentimento de ódio, ou raiva que são provenientes de qualquer vínculo amoroso: na amizade, no trabalho, na família; mas quando negamos o ódio que está intrínseco ao amor vivido, como parte de uma moeda de duas caras, passamos a desejar apenas o amor e seus benefícios provenientes do vínculo amoroso, que quando despertado em um repente de ódio, de cisão com o objeto amado, torna-se obsessão, compulsão, depressão – chicote sobre si mesmo –, prevalecendo a culpa destrutiva e o distanciamento de amor ao objeto amado. Já a ausência de culpa é o resultado de vínculos afetivos que não se estabeleceram, a ausência total de um ambiente sem traços afetivos.

**Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.

* Winnicott,W.D - O Ambiente e os Processos de Maturação. Teoria do desenvolvimento emocional.  Artmed-RS. 2008

Tags: , , ,

One Response to “Desenvolvimento Emocional – Sentimento de Culpa*”

  1. jucélia disse:

    BOa tarde

    Muito bom a sua forma de explicar,gostaria que vc me indicasse algum filme ou livro para eu entender melhor essa doença de transtorno emocional bipolar.Pois tenho uma pessoa muito querida que ten essa doença.

    Bjs

    jucélia

Leave a Reply

Subscribe to RSS feed