QUANDO A CRIANÇA CONSEGUE FICAR SÓ
O processo da construção da identidade pessoal e da configuração da capacidade de se estar só passa pelo caminho da dualidade na relação mãe/filho nos primeiros meses, e evolui para a tríade com o vínculo e estruturação do complexo de Édipo, (onde a relação se estabelece com um terceiro – a figura paterna -), acontecendo o processo de relacionamento cruzado entre masculino e feminino na tríade mãe/ filho/ pai; depois o desenvolvimento evolui para a relação unipessoal, pela construção da própria identidade, que passa de processos narcisicos primários aos secundários, até o narcisismo estrutural. Entendendo aqui narcisismo como a formação pessoal de olhar para si mesmo, sendo primária na relação mãe/filho, secundário na relação mãe/filho/pai e estrutural quando o indivíduo forma sua identidade (self) – ( WINNICOTT – 1962 )
É na condição unipessoal, que vamos perceber a capacidade do indivíduo ficar só. A criança que brinca no seu espaço pessoal, em uma intrínseca relação com seu brinquedo e ele mesmo, está demonstrando a construção de seu ego pessoal, de estar consigo mesma. É notório em processo de análise infantil, que crianças com dificuldades de perdas de vínculos ou relacionamentos simbióticos (dependência com a figura materna) ou em pleno campo de batalha edípica por ciúmes de irmãos na relação com os pais, tendem a se posicionar em análise com grande apego ao terapeuta, ou fazem muito o uso dos jogos de competição, revelando um frenético movimento de disputa e apego, isto é, só brincam na condição de existir um outro.
Crianças em processo de alta psicoterapeutica, quando já passado os processos de elaboração dos medos de separação dos vínculos materno filial e onde já se elaborou o complexo de Édipo na sua condição de possessão, tendem a construção de brinquedos e brincadeiras pessoais, dando ao analista a condição de ver com transparência os processos transferênciais. É a criança capaz de estar só, sentindo-se segura consigo mesma. A condição de estar só é terreno maturacional na criança que refletirá em posturas de autonomia para estabelecimentos de vínculos sociais, onde aumenta sua capacidade de estabelecer novas amizades e amizades duradouras; na escola com postura de autonomia aos estudos sem a necessidade de monitoramento intensivo dos pais e professores; e na incorporação de regras, pela construção de processo moral, em que torna-se capaz de fazer suas escolhas integrada com o contexto social em que vive. Ao vermos uma criança fantasiando com seu brincar de forma intensa e prazerosa, temos a certeza que ela está se conduzindo na sua individualidade.
Estar só e seguro, é resultado de uma mente que segue seu ciclo maturacional. No adulto isto é percebido quando consegue se encontrar consigo mesmo e na sua individualidade: como é no estudo; ler um livro; fazer sua oração pessoal; dormir sozinho, estar em uma longa viagem; esperar em uma fila de banco ou consultório, etc. Como acontece com os cônjuges em um coito orgástico, que após o ápice de prazer encontram-se sós estando juntos na seguridade de amor manifesto. Os corpos repousantes no degustar do gozo. Amo a ti por que sei que também me amas (Lacan).
O estar só é percebido naqueles que conseguem ser por si sem que haja necessidade de um outro para existir. Necessidade enquanto dependência.
A busca por um processo analítico incomoda muita gente quando tem que se deparar com o estar no seu silêncio mesmo tendo um analista ao seu lado. O não suportar o silêncio pode ser um sintoma de uma mente que não evolui da díade para a tríade e da tríade para o seu próprio eu. “A paz que você procura está no silêncio que você não faz” (LARRAÑAGA). Silenciar-se é um ato de maturidade emocional, evolução da díade para tríade até chegar na condição unipessoal. O que somos na vida adulta é resultado de uma longa caminhada que teve início desde os primeiros vínculos afetivos de criança.
*É Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.Autor do livro “O poder da T.V. no mundo da criança e do adolescente”, Ed Paulus-SP
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