Convencer Filhos na Educação Religiosa

Gerson Abarca*

“… Há mais para ganhar do amor do que da educação”. (Winnicott).

Tenho recebido muitos casais, pais de filhos adolescentes, que estão preocupados com a escolha religiosa dos seus filhos.

Geralmente são pais que sempre tiveram atuação em comunidades religiosas, praticaram os caminhos de catequese com os filhos mas que se vêem perdidos quando na adolescência os filhos já não seguem os passos dos pais.

Imagine ouvir de um filho adolescente que não desejará seguir o caminho religioso dos pais porque os pais tinham muito tempo para a Igreja e pouco tempo para ele. Cruel, não?

É o que vem acontecendo com movimentos espirituais onde a força está nos casais provocando um distanciamento dos filhos nas atividades religiosas. Casais muito dedicados às pastorais e ausentes do ambiente familiar e nos finais de semana sobrecarregados de atividades religiosas provocam um forte distanciamento dos filhos tanto nas atividades pastorais como no estabelecimento de vínculos afetivos.

O que vai garantir, ou pelo menos dar mais segurança aos pais, de que os filhos seguiram os mesmos passos da educação moral que possuem e que ensinaram, é a capacidade de vínculo afetivo estabelecido neste processo de ensinamento da moral, e ao mesmo tempo na capacidade dos pais mostrarem-se aos seus filhos dentro de uma carência moral.

Imagine o pai exigindo que os filhos participem da missa todos os domingos, mas ele mesmo não consegue ir à missa todos os domingos porque naquele horário é o futebol na TV. “Ta na hora de ir à missa, e rezem por mim”.

Imaginem a situação dos pais dizendo aos filhos que precisam rezar o Pai Nosso todos os dias antes de dormir e ao acordar pela manhã. E se não fizerem desta forma levarão uma surra na hora do almoço.

A melhor forma de educar para a moral religiosa, onde a criança fará uma estreita ligação com um ser superior em uma relação de bondade, troca e cumplicidade, é pela condição de ambientes afetivos e com estabilidade de presença afetiva.

A confiança e a crença em algo e nas noções de certo e errado se desenvolve na elaboração de componentes internos da criança.

Como vou convencer uma criança de que Deus é bom se ela não consegue identificar internamente processos de um bom vínculo afetivo com a pessoa do pai e mãe. Se pai e mãe recuperam internamente no filho memórias de um bom vínculo afetivo, a relação com o Deus de amor e bondade, o Deus que corrige e oferece caminhos, torna-se bem mais favorável. A identificação com um Deus pai, um Deus mãe, estará diretamente relacionado com as identificações com pai/ mãe favoráveis dentro de si mesmo.

Vamos observar processos de conversões em pessoas adultas que não tiveram ambiente afetivo e consequentemente não carregam memória de vínculo afetivo. Isto porque sabemos que na questão da Fé, tudo é possível. Porém observamos o quanto o caminho de uma prática religiosa por parte de um neo-convertido (conversão sem histórico religiosa) torna-se mais angustiante, instável.

Vemos o quanto os neo-convertidos, tendem a mudança de grupos religiosos com facilidade. Mudam de igrejas como se muda de roupa. Buscam se preencher na religião pelas necessidades afetivas que nunca foram preenchidas na história pessoal interior.

Educar para que os filhos tenham uma vivência moral, pratiquem uma religião e dêem preferência àquela a qual as introduzimos a fazer-se presença afetiva, é proporcionar ambiência boa e suporte nos momentos mais difíceis.

Educar para a fé, é fazer-se pai e mãe afetivos para que no futuro eles (filhos) possam identificar em Deus, a bondade e o amor que foi cultivado internamente dentro deles.

Por isto, aos casais muito apegados com suas missões religiosas, devem estar atentos da existência dos filhos ao seu redor. Se as atividades pastorais estiverem ocupando mais tempo na vida do casal do que as atividades educacionais familiares, o resultado da fé e moral dos filhos pode não ser o esperado. Depois não adianta reclamar.

Observem como que os movimentos tradicionais da Igreja Católica estão esvaziados de jovens, dos filhos de seus mentores e protagonistas.

Muitos destes movimentos estão envelhecidos, pouco revitalizados.

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