Archive for the ‘desenvolvimento-emocional’ Category

A Arte e Cultura na Formação da Moral

terça-feira, junho 2nd, 2009

Gerson Abarca*

Sigmund Freud nos conduziu a entendermos o processo de sublimação para a elaboração da estrutura egóica do indivíduo. A transitoriedade entre amor e ódio, vida e morte é um processo que necessita de elementos intermediários para que as energias psíquicas envolvidas neste processo possam ter suas válvulas de escape. É o que acontece quando praticamos um esporte coletivo, descarregamos raivas e ódios que reprimimos na convivência civilizatória, porque nos conduzimos por regras. Por isto é muito comum choques físicos entre atletas, torcidas raivosas, etc.

Estes dias, levando meus filhos ao estádio de futebol, o menor Helder ficou tentando controlar os torcedores ao seu redor para que não falassem palavrões. Ele ficava gritando que não podia, que era feio xingar. Até que tive que explicar para ele, que no estádio as pessoas xingavam para torcer, mas no fundo não queriam dizer aqueles palavrões. (Tentei moralizar).

A educação moral que melhor pode trazer resultados é aquele no qual potencializamos ações educacionais onde as crianças consigam construir a capacidade moral própria, onde consiga por ela mesma manusear seu código moral adquirido na sua história e cultura de época. Para que esta condição encontre terreno fértil, a criatividade é um grande recurso. Despertar a criatividade é um excelente recurso para levar uma criança a aprender a sair de situações difíceis e utilizar seus valores adquiridos quando necessário.

A criatividade encontra na produção cultural e nas artes a estrutura para sua mais ampla potencialização.

Assim, as cidades, as comunidades, as famílias precisam focar-se na produção de cultura, no aprendizado das artes: música, dança, teatro e artesanato. Pelas artes conseguimos transformar coisas brutas e finas.

Já tive boas experiências de trabalhar a psicologia com a produção de teatro. Junto com o teatrólogo Oscar Ferreira pude ver uma idéia se transformar em um texto e virar peça teatral, para encerrar-se em aplausos, êxtase. Uma condução artística é uma trajetória do nada para o tudo; como a trajetória de um bebê (um ser frágil) para um adulto, capaz de produzir, de amar.

Não fazemos bebês, como artistas fazem uma tela. Mas pelas artes, aprendemos a moldar. Modelamos nossos bebês, para que se tornem adultos maravilhosos.

Assim, ambientes que possuem a capacidade de conviver com a produção artística e cultural e que cultivam culturas e as preservam, tendem a potencializar pessoas com maior sensibilidade para dialogar nas diferenças, para construir com o outro e outras culturas processos civilizatórios. A arte e a cultura para o ser humano são como o mangue para o mar. Este se alimenta e respira por causa do mangue; os seres humanos tornam-se sublimes pela capacidade de sublimar (colocar em estado sublime). Se estou com ódio ou nervoso, nada melhor que uma boa música para relaxar; ou uma boa piada para descontrair.

Brincar – o sintoma da independência

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

 

            O brincar é o elemento revelador do caminho que a criança faz rumo à independência. No brincar a criança revela a busca de autonomia, a capacidade de estar  só sem necessariamente ter a presença dos pais.

            É na fase da latência, quando termina todas as forças de dependência com a pessoa da mãe/pai, que a criança encontra consigo mesma na sua própria produtividade. Por isto mesmo que após os 7 anos aproximadamente que uma criança começa a ter o processo de aprendizado sistematizado. Ela sai do estágio de dependência absoluta, passa ao de dependência relativa e chega no caminho da independência.

            Quando a criança brinca espontaneamente e cria formas de brincar, sozinha ou em grupo, ela está revelando crescimento e autonomia. Ao contrário, quando uma criança está escrava de jogos eletrônicos, computador ou TV, revela incapacidade autônoma, pois não brinca, mas sim reproduz algo que já está pronto. O brincar no mundo da criança é aquilo que a potencializa para construir, elaborar e criar. Se for retirada esta condição de brincar livre da criança, estará sendo comprometida a capacidade de se construir nela uma pessoa autônoma.

            Sabemos que na vida humana, toda regra tem sua exceção. Mas não podemos negar a diferença na forma de ser de um adulto que teve espaço na sua infância para o brincar livremente, daqueles que não conseguiram ter espaço e ambiente para brincar. Os que aproveitaram ao máximo a infância para brincar, tendem na vida adulta a serem mais autônomos, independentes e consequentemente mais alegres. Já, aqueles que não puderam ter espaço para o brincar, na vida adulta tendem às posturas rígidas, controle e manipulação de terceiros e dificuldade autonomia.

            A busca das pessoas por auto-ajuda ou fórmulas mágicas de felicidade, em que nomeiam alguém para motivá-los de fora para dentro, é o resultado de infâncias roubadas no passado. São adultos que se estabelecem no mundo com muita dependência afetiva e intelectual, e por isto esperam muito dos outros.

*Psicólogo – Psicoterapeuta.  

Só aprende quem perde

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

          

          No desenvolvimento do vínculo estabelecido na simbiose (relação de dependência absoluta do bebê/ mãe/bebê) da-se a estrutura emocional na criança para a elaboração das primeiras perdas. A principal delas é a perda do vínculo exclusivo com a mãe. Winnicott (1963) nos apresenta uma cena ilustrativa de processo de perda/separação. A criança espera pela comida e na sala da casa, ouve os barulhos produzidos pela mãe na cozinha que revelam a possibilidade  de que a comida está sendo preparada, logo associa que poderá esperar por mais alguns minutos porque a comida vai chegar, e junto dela a pessoa da mãe, ou de quem cuida.

            Da-se nesta cena o início da construção da dependência relativa, isto é, a criança já consegue elaborar a sua espera. Nesta perda ou início de perda de dependência absoluta, a criança começa a desenvolver sua capacidade intelectual onde relaciona a fome pessoal com os ruídos na cozinha e sua capacidade de estabelecer um tempo de espera (aprende esperar; associa imagens e relaciona sons).  

            Em um ambiente onde os pais conseguem ser eles mesmos com uma freqüência de ritmo e cotidianidade, isto é, freqüência e estabilidade nas ações, a criança se coloca na boa relação com sua perda inicial. Pois antes, sua necessidade era prontamente suprida na relação de dependência absoluta e agora não. Na dependência relativa, a criança começa a aprender a ver-se diferenciado de sua mãe/pai e consegue estabelecer uma relação de espera.

            O primeiro sinal que a criança dá que leva-nos a ter a certeza de suas percepções no mundo é a ansiedade. Pois a ansiedade nasce quando a criança necessita de ver realizar suas necessidades básicas e ao mesmo tempo a presença materna para suprir esta necessidade não vem no tempo esperado pela criança. E a criança percebe este distanciamento e inicia o processo de elaboração de perda com a figura materna. Este processo se dá entre 6 meses e dois anos, o que reafirma a necessidade da mãe estar com seu bebê nos meses iniciais de sua existência. Se este estágio for regido por um ambiente de presença afetiva estável, torna-se mais fácil a separação do bebê de sua mãe, liberando-na ao trabalho e a outras tarefas que a possibilitam de ficar distanciada do bebê por um período mais longo. Exatamente quando as mães voltam a trabalhar. 

* Psicólogo – Psicoterapeuta.

Preocupações maternas primárias – O vir a ser criança

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

Logo após o nascimento, a criança tem nos braços de sua mãe a continuidade de sua existência. E só uma mãe conhecedora das necessidades de seu bebê e identificado com ele na sua história, dará o colo tão esperado pelo bebê e tão desejado por ela. Ele entrega-se totalmente à mãe, sem insegurança. Pois a mãe encontra-se no estado de preocupação materna primária. Ela se antevê, prevê e se coloca por antecipação na vida da criança.

Imagine o momento de a mãe dar um banho na banheira com água quente, o bebê sente o vapor aquecido da água, mas confia. A mãe por sua vez, antes de mergulhar o filho na banheira, testa a temperatura da água – ela consegue identificar com um simples toque na água qual a temperatura ideal para o seu bebê.

Situação que provavelmente não será tão bem vivenciado por mulheres não identificadas com a criança, por exemplo, em uma creche, orfanato, etc., ou até mesmo por mulheres parentes ou amigos da família. Por isto que uma mãe fica ao redor do seu bebê como uma leoa fica vigiando sua prole recém nascida.

É nesta condição de entrega absoluta que a criança pode vir a ser no mundo e no seu futuro, e é por isto que as mães plenamente identificadas com seus bebês se colocam inteiramente à disposição deles. Pois para que o produto seja melhor que a fabrica (vir -a – ser) esta acolhida inicial de dependência absoluta do filho para com a mãe e vise-versa é primordial.

*Psicólogo – Psicoterapeuta.

Convencer Filhos na Educação Religiosa

quarta-feira, maio 20th, 2009

Gerson Abarca*

“… Há mais para ganhar do amor do que da educação”. (Winnicott).

Tenho recebido muitos casais, pais de filhos adolescentes, que estão preocupados com a escolha religiosa dos seus filhos.

Geralmente são pais que sempre tiveram atuação em comunidades religiosas, praticaram os caminhos de catequese com os filhos mas que se vêem perdidos quando na adolescência os filhos já não seguem os passos dos pais.

Imagine ouvir de um filho adolescente que não desejará seguir o caminho religioso dos pais porque os pais tinham muito tempo para a Igreja e pouco tempo para ele. Cruel, não?

É o que vem acontecendo com movimentos espirituais onde a força está nos casais provocando um distanciamento dos filhos nas atividades religiosas. Casais muito dedicados às pastorais e ausentes do ambiente familiar e nos finais de semana sobrecarregados de atividades religiosas provocam um forte distanciamento dos filhos tanto nas atividades pastorais como no estabelecimento de vínculos afetivos.

O que vai garantir, ou pelo menos dar mais segurança aos pais, de que os filhos seguiram os mesmos passos da educação moral que possuem e que ensinaram, é a capacidade de vínculo afetivo estabelecido neste processo de ensinamento da moral, e ao mesmo tempo na capacidade dos pais mostrarem-se aos seus filhos dentro de uma carência moral.

Imagine o pai exigindo que os filhos participem da missa todos os domingos, mas ele mesmo não consegue ir à missa todos os domingos porque naquele horário é o futebol na TV. “Ta na hora de ir à missa, e rezem por mim”.

Imaginem a situação dos pais dizendo aos filhos que precisam rezar o Pai Nosso todos os dias antes de dormir e ao acordar pela manhã. E se não fizerem desta forma levarão uma surra na hora do almoço.

A melhor forma de educar para a moral religiosa, onde a criança fará uma estreita ligação com um ser superior em uma relação de bondade, troca e cumplicidade, é pela condição de ambientes afetivos e com estabilidade de presença afetiva.

A confiança e a crença em algo e nas noções de certo e errado se desenvolve na elaboração de componentes internos da criança.

Como vou convencer uma criança de que Deus é bom se ela não consegue identificar internamente processos de um bom vínculo afetivo com a pessoa do pai e mãe. Se pai e mãe recuperam internamente no filho memórias de um bom vínculo afetivo, a relação com o Deus de amor e bondade, o Deus que corrige e oferece caminhos, torna-se bem mais favorável. A identificação com um Deus pai, um Deus mãe, estará diretamente relacionado com as identificações com pai/ mãe favoráveis dentro de si mesmo.

Vamos observar processos de conversões em pessoas adultas que não tiveram ambiente afetivo e consequentemente não carregam memória de vínculo afetivo. Isto porque sabemos que na questão da Fé, tudo é possível. Porém observamos o quanto o caminho de uma prática religiosa por parte de um neo-convertido (conversão sem histórico religiosa) torna-se mais angustiante, instável.

Vemos o quanto os neo-convertidos, tendem a mudança de grupos religiosos com facilidade. Mudam de igrejas como se muda de roupa. Buscam se preencher na religião pelas necessidades afetivas que nunca foram preenchidas na história pessoal interior.

Educar para que os filhos tenham uma vivência moral, pratiquem uma religião e dêem preferência àquela a qual as introduzimos a fazer-se presença afetiva, é proporcionar ambiência boa e suporte nos momentos mais difíceis.

Educar para a fé, é fazer-se pai e mãe afetivos para que no futuro eles (filhos) possam identificar em Deus, a bondade e o amor que foi cultivado internamente dentro deles.

Por isto, aos casais muito apegados com suas missões religiosas, devem estar atentos da existência dos filhos ao seu redor. Se as atividades pastorais estiverem ocupando mais tempo na vida do casal do que as atividades educacionais familiares, o resultado da fé e moral dos filhos pode não ser o esperado. Depois não adianta reclamar.

Observem como que os movimentos tradicionais da Igreja Católica estão esvaziados de jovens, dos filhos de seus mentores e protagonistas.

Muitos destes movimentos estão envelhecidos, pouco revitalizados.

Socialização, o Sintoma da Maturidade

quarta-feira, maio 13th, 2009

Gerson Abarca*

O processo de desenvolvimento humano se da desde a dependência absoluta, passando pela dependência relativa até à independência.

Até os sete anos de idade, observa-se a manifestação de dependência absoluta, onde os pais são os principais elementos de suporte da criança. Depois, com a entrada no processo de alfabetização inicia-se a dependência relativa, onde já conseguem ter estrutura para agirem em muitas situações por si mesmas e ao mesmo tempo são dependentes porque só na vida adulta a independência surge totalmente.

A busca pela independência é algo que o ser humano jamais vai conseguir atingir totalmente. Na medida em que o ser humano cresce, se estabelece a construção de sua maturidade pelo processo de socialização. Podemos identificar a maturidade de uma pessoa pela capacidade de estabelecer vínculos e relacionar-se com diferentes pessoas em seu ambiente.

Vejam como torna-se um estorno em um ambiente de trabalho, pessoas que não conseguem participar das atividades em equipe, que se fecham em seu mundo pessoal. Ao mesmo tempo em que estas pessoas imaginam que possuem independência, estão totalmente apegados ao seu próprio mundo, revelando-se a dependência absoluta.

A maturidade tem como seu principal elemento a capacidade de socialização. Por isto que nas avaliações da escola se a criança tem bom desempenho na área de socialização, é sinal de que está caminhando de forma madura dentro de sua faixa etária.

O Pecesso Maturacional

quarta-feira, maio 13th, 2009

* Gerson Abarca

Maturação emocional está diretamente relacionado com provisão do ambiente. Quanto mais ambiência protecional e afeto uma criança recebe, mais chance de obter sua maturidade ela terá.

                Os pais não fazem uma criança. Ela já está feita. Eles apenas emprestam as sementes e proporcionam o encontro do espermatozóide e óvulo, tendo na mão o útero como cama acolhedora desta união. Os caracteres genéticos da criança os pais pouco poderão fazer como tamanho, olhos, cabelo, tendências fisiológicas. Como um artista pode modelar um pote de barro ou conduzir a tinta sobre a tela, os pais não podem interferir na estrutura física do filho que eles não fizeram, mas apenas conceberam. Porém os pais podem proporcionar o maior legado na vida de uma pessoa, a maturidade. Neste campo, está nas mãos dos pais a arte. Para isto, damos o nome de provisão que em Winnicott veremos no “processo de maturação” (1963). A maturação completa só poderá ser vislumbrada na vida adulta, após os 22 anos.

                Por isto que na vida adulta dos seus filhos, muitos pais caem em angústias, pois a maturidade tão desejada pode não acontecer e surgem as dúvidas sobre onde erraram e com elas as culpas.

                Mas, se os pais entenderem que não fazem filho, mas que emprestam sementes; que não possuem poder para formatar a beleza dos mesmos, mas possuem mãos para estruturar processos de vínculos afetivos; saberão lidar com situações de frustração quando os filhos na vida adulta não atingirem a maturidade tão esperada. Principalmente se os pais souberem que o ambiente é a somatória das quatro mãos de um porto seguro que são os pais e ao mesmo tempo a comunidade que os cercam.

                A melhor forma de se criar ambiente para o processo maturacional de uma criança, é não esperar nada dela e nem fazer planos para ela, principalmente por que o futuro a ela pertence, dependendo das escolhas que fizer no futuro.

                Assim, a maturidade é a capacidade de lidar com os limites e desejos que o cotidiano nos impõe. As chaves de uma pessoa lidar com estes limites está diretamente ligada com a capacidade que adquiriu de estabelecer vínculos afetivos e consequentemente parcerias 

 

 

 

 

 

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O Nascimento da responsabilidade na Criança

sexta-feira, março 6th, 2009

Gerson Abarca*

A responsabilidade é um conceito em que os pais estão sempre preocupados no processo educacional dos filhos. Levar as crianças a ter noção de responsabilidade é a grande missão educacional da modernidade. Escolas que vendem a idéia que farão das crianças pessoas responsáveis, acabam tendo grande simpatia dos pais. Estes por sua vez, procuram estruturar a agenda dos filhos com muitos compromissos, que às vezes chega ao nível de estresse infantil. É aula de várias modalidades esportivas, música, dança inglês, além da escola e das tarefas. Já ouvi de professores que uma boa forma de despertar a responsabilidade nas crianças é enchê-las de tarefas escolares. O mesmo defende alguns pais, que procuram não deixar tempo vazio na agenda dos filhos com o intuito deles terem postura de responsabilidade.

Porém, responsabilidade não se adquire através de regras, normas, ou compromissos. A responsabilidade é resultado da vivência psico- afetiva já nos primeiros meses de vida da criança. Ela nasce através do sentimento de culpa, onde a criança ao se perceber atacando seu objeto de amor (os seios materno) no ato de amamentar, se culpabiliza e consequentemente procura caminhos para reparar seu dano, provocando a ansiedade pela ambivalência de se usufruir e reter objetos bons e ao mesmo tempo destruí-los. Os seios que oferece o alimento e por isto é intensamente procurado pelo bebê (objeto bom) se transforma em um objeto destruído pelo bebê que morde. Neste ato destrutivo surge a culpa e a reaproximação do bebê junto à mãe. Ele se preocupa em buscar se reencontrar com o objeto destruído, reparando para resgatar o objeto de amor original.

A configuração da preocupação do bebê, encontrando um ambiente materno capaz de dar suporte e potencialidade à reparação dele, fará com que o mesmo aprenda a se reconstruir na relação, dando-se assim a base estruturante psico-afetiva para a responsabilidade. Ele torna-se “responsável por aquilo que cativa”, graças ao ambiente maternal suficientemente bom que acolheu sua busca de reparação.

Podemos exemplificar este processo em situações em que a criança comete uma ação desaprovadora aos pais. De imediato é repreendida com castigo e fica em uma posição ambivalente, parece que angustiada ou deprimida (aquele rostinho de choro). Logo em seguida, a criança se aproxima dos pais como que querendo reparar o erro, de forna afetiva. Os pais, proporcionando uma capacidade de ambiente de acolhida, aceitarão afetivamente este retorno da criança, mas continuarão mantendo postura sobre o castigo definido à criança, porém o ambiente estará afetivamente acolhedor. Assim, a criança terá clareza do motivo da correção dos pais e passará a se preocupar em manter o vínculo saudável com os mesmos procurando não cair no mesmo erro. O ambiente de acolhida proporcionou a reparação, e consequentemente à capacidade de reconstrução de vínculo positivo. A fixação do sentimento destrutivo de ódio foi superada para dar lugar ao restabelecimento do vínculo.

Do contrário, se os pais punissem a criança pelo erro cometido e mantivessem postura rígida sem acolher afetivamente a criança, no lugar da preocupação em reparar o dano a criança desenvolveria ansiedade e um sentimento de ódio fugaz. Quando as crianças não conseguem ter a acolhida para que reparem seus erros cometidos, tornam-se transgressoras, agressivas.

Segundo Winnicotti (1963) “… a capacidade de se preocupar está na base de todo brinquedo e trabalho construtivo”. Quando o ambiente maternal é capaz de levar a criança a se preocupar com sua recomposição a objetos danificados, está sendo construída a capacidade de responsabilidade, de cuidado. Cuidamos daquilo pelo qual depositamos sentimentos e vemos benefícios pessoais, não é por acaso que crianças agressivas tendem a destruir seus brinquedos, também possuem muita dificuldade em criar formas de brincar. Uma criança que pouco brinca ou que pouco cuida de seus brinquedos está revelando grande dificuldade de estabelecimento de vínculo, pois está polarizada no ódio decorrente das energias psíquicas que descarregou aos objetos que eram bons. Isto é, vive na prevalência da manifestação de ódio. Por isto mesmo que dizemos que o amor e o ódio caminham juntos, a diferença é que a polarização do amor é condição para aqueles que no decorrer da vida tiveram ambiente bom para reparar e reconstruir as ações provenientes do ódio, reencontrando-se com o amor.

A culpa, tão necessária para a percepção do objeto danificado, é propulsora do ato responsável. Temos responsabilidade de cuidar daquilo que da retorno emocional positivo.

Assim, a melhor forma de termos crianças responsáveis, é oferecendo a elas ambiente afetivo suficientemente bom, para que possam se reconstruir a cada dia na polaridade ambivalente entre o amor e o ódio, fazendo aflorar o impulso pela vida mais do que pela morte.

*Psicólogo – Psicoterapeuta. Graduado em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista 1990. Especialista em Psicologia Clínica. Autor do Livro “Sexualidade na Contramão”, Ed. Paulus 2004.

Provisão da Criança na Saúde e na Doença

quinta-feira, janeiro 8th, 2009

Gerson Abarca*

Quando pensamos neste tema de provisão, remeto-me a visualizar a cena da criança que no dia de natal, ao acordar vê ao lado de sua cama um lindo pacote de presente. Ao abri-lo detecta que seus pais o presentearam com aquilo que realmente ele imaginava querer ganhar. Vê neste ato, o quanto seus pais são sensíveis a ele e o observam e o nutrem na sua necessidade.

Estes pais estão revelando ser suficientemente bons na medida em que estão atentos à necessidade do filho. Estão suprindo de condições de saúde física e emocional, onde podem oferecer um brinquedo (condição social); cultuam a cultura (consciência do existir no mundo), provocam a espera (remontando a espera satisfatoriamente gratificada do ato de mamar na época de bebê), atenção às necessidades do filho (é observado e amado). Outras situações sociais onde as famílias não têm o mínimo a ser gerado para a sobrevivência dos filhos, o papai noel representará uma maldade cruel no imaginário tanto dos pais (que não poderão dar presentes) quanto da criança (que poderá associar a situação como falta de atenção dos pais).

Tanto nas condições das famílias com estrutura social como as excluídas socialmente, a provisão terá sua condição estruturante na capacidade dos pais em serem continência afetiva adaptado à realidade social em que estão inseridos. Na família com estrutura social, o natal ou outras festas poderão ser o representativo de uma troca comercializada de presentes sem nenhuma conotação afetiva. Já na família sem estrutura social, os vínculos afetivos podem estar em um alto nível de integração que faz superar as necessidades estruturais da criança. A provisão é uma questão emocional mais que social.

Mas para nosso foco temática, o que nos interessa, é de sabermos que cabe aos pais serem mãos de provisão às necessidades fisiológicas e afetivas(egóicas) do filho. Mãos que acalentam e direcionam o desenvolvimento da criança. Sabendo que no primeiro ano de vida cabe com mais intensidade esta tarefa à mãe, que poderá contar com a sensibilidade de seu esposo para ser contingência dela nas suas necessidades elementares, para supri-la e estar em condições de exercer a maternagem com suficiente condição de integração humana. Como se o esposo (pai) reabastecesse a mãe (esposa).

“Prover para a criança é por isso uma questão de prover o ambiente que facilite a saúde mental individual e o desenvolvimento emocional… Se saúde é maturidade, então imaturidade de qualquer espécie é saúde mental deficiente”. (Winnicott – 1962). A maturidade em foco, pode ser observável em cada etapa de desenvolvimento, conforme o que se espera destas etapas.É observável mesmo ao público mais leigo em psicologia, que uma criança de 8 anos com habito de fazer xixi na cama todos os dias, está com um comportamento que reflete uma imaturidade para sua idade. Aqui temos um sintoma que pode representar um bom sinal aos pais de que há algo fora de lugar. E se estes pais estiverem também fora de lugar para enxergarem a necessidade deste filho, não estarão provendo a criança na doença. Pois uma criança mesmo provida na saúde pode adoecer, e se adoecer o processo de percepção da realidade dos pais será o mesmo, a atenção suficientemente boa, para que haja percepção dos fatores desencadeantes da doença e conseqüente acerto dos procedimentos cotidianos em vista de uma superação. Imagine se no dia de natal, ao abrir o pacote de presente a criança tivesse um efeito surpresa negativo, por ver a insensibilidade dos pais de terem oferecido algo que não estivesse no desejo da criança?

Para as mães, é necessário que sejam vivaz no manuseio cotidiano do filho mas que por sua vez consigam envolver o filho neste cotidiano. Não haverá a necessidade de que saiba tudo o que precisa fazer a cada dia e a cada ano, simplesmente é necessário estar atenta e observar as necessidades que emergem de cada dia, no momento certo. As mães robotizadas e padronizadas na forma de educar (algumas seguem até manuais de condutas), tornam-se pouco provisoras e transformam o processo educacional em condição desencadeante de imaturidades e doenças. Não é a toa que vemos emergir muitos adolescentes altamente dependentes de seus pais no que e como fazer as coisas. Precisam até que os pais os informe sobre o que estudar e que hora estudar para escola, geralmente resultantes educacionais de processos sitematizados em formas de cartilhas educacionais e não adaptados às necessidades cotidianas, sentidas e interagidas com a criança. Os pais, cujos filhos são educados por mães funcionais, são geralmente auditores do sistema educacional familiar, chegam sempre cobrando pelas tarefas realizadas e as censuram em caso de não terem suprido a contento. Estas mães atuam até com medo do esposo que passa a cobrar cotidianamente sobre suas condutas, e na relação com os filhos são ausentes.

A criança precisa ser tratada como criança que é, e não como adulto. Ser provisão no respeito da faixa etária em que a criança se encontra. Pois quando os pais querem do filho mais do que a idade dele pode dar, estarão revelando a insensibilidade e falta de percepção real de quem é o filho que educam.

* É Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.

NATAL, NINHO DE AMOR E ESPERANÇA

quinta-feira, dezembro 25th, 2008

 

Nas últimas semanas tenho dedicado nesta categoria a meditar sobre a Teoria do Desenvolvimento Emocional à partir dos estudos de Donald Winnicotti. Para não quebrar a seqüência deste pensamento, pretendo neste artigo associar o sentido da construção afetiva no ser humano com o Natal. Na tentativa de enaltecer este importante momento celebrativo da sociedade, transformando-o em algo sublime.

Na manjedoura Deus se fez Gente, para lembrar-nos e alertar-nos de que com Gente é diferente. Escolhe o ventre de uma mulher, trazendo brilho à fecundidade feminina, fazendo-a protagonista da vida. Mas escolhe também um casal, para lembrar-nos que um ser humano (Gente) só existe a partir de uma Tríade (Pai-Filho-Mãe).

O cenário do presépio é representação simbólica que teve início com São Francisco de Assis, quando ele criou uma forma palpável de sentirmos o nascimento de Jesus Cristo à partir da narrativa dos Evangelistas. Neste cenário vemos a movimentação em torno da pessoa de Jesus, em uma manjedoura e sendo contemplado por José (Pai) e Maria (Mãe), além dos pastores, animais, e Reis Magos. Toda criança que olha para um presépio, para e fica contemplando. O presépio de natal mobiliza em cada um de nós o estado regressivo para nosso próprio momento de nascimento. Retoma a energia afetiva de nossa própria trajetória fecundativa. Por isto mesmo que Deus se Fez Gente, numa Mulher, esposa de um Homem, em uma manjedoura para representar que a manifestação de afeto se dá na simplicidade das relações, e que com Gente a única forma de acontecer a vida é pela manifestação de afeto. Por isto ao vermos um presépio, nos mobilizamos com sentimentos afetivos.

Como o útero da mulher tem seu revestimento de proteção que é o ninho onde o feto se instala por toda a gestação (endométrio), Deus escolheu que o primeiro ninho de amor a se alojar fosse o útero de Maria, para logo em seguida nascer e ser acolhido afetivamente na manjedoura (em um curral). Enquanto isto, os Judeus esperavam por um Rei forte e poderoso, que provavelmente nasceria em um castelo.

Mas em castelos e em ambientes com muitas formalidades e luxo, dificilmente o afeto acontece. Pois afeto é a manifestação mais verdadeira do amor que sentimos uns pelos outros. Afeto é a aliança que liga meu amor ao amor do outro. Deus se Fez aliança de Amor à humanidade na pessoa de Jesus Cristo, e da forma mais simples e humilde possível. Diante de um presépio, até os mais nobres e ricos se dobram emocionalmente.

Mas este ninho de Amor, é também ninho de Esperança anunciado pelo profeta Isaias: “Lobo e cordeiro pastarão juntos, o leão comerá capim junto com o boi, quanto à serpente, a terra será seu alimento. Ninguém fará o mal, ninguém pensará em prejudicar na minha santa montanha”. (Is:65,25).

Isaías profetiza a grande Esperança para a humanidade, de estarmos unidos em um mesmo ideal: da justiça e paz entre todos nas diferenças sociais, culturais e econômicas. Uma esperança que em tempos de CRISES Ético-Moral e econômica, aflora como desejo universal. As pessoas no Planeta Terra já não estão suportando mais tantas disputas pelo poder, tanta ganância pelo ter, tantas diferenças e intransigências relacionais. Deus se faz Gente novamente neste Natal, para fazermos lembrar que com Gente é diferente. Com Gente deve prevalecer o Amor manifestado pelo afeto, e a Esperança de um só Reino, um só Pastor.

Feliz Natal.

Gerson Abarca – É Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.

 

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