Com muita Fé, mas Suicida
quarta-feira, setembro 30th, 2009O suicídio é um problema que continua deixando muitas famílias apavoradas. Antigamente tinha-se a idéia que as pessoas que suicidavam iriam direto para o inferno, como se fosse um pecado mortal. Hoje, com o avanço dos estudos da psicologia e psiquiatria, esta visão de associar suicídio com pecado está ultrapassada. Pois sabemos que para uma pessoa suicidar-se, é preciso estar com grande perda de sua condição para raciocinar e agir adaptado ao cotidiano. Geralmente os que suicidam estão sem clareza do que realmente estão fazendo.
Hoje mesmo, deparei-me com um jovem que vive, mas apresenta vários tipos de condutas com seu próprio corpo que caracteriza um ato suicida. Este jovem escreveu com uma gilete em sua perna a frase “ eu sou um idiota” e se encheu de piercing pelo corpo e brincos de alargamento da orelha. Ele está se maltratando. Mas há casos de pessoas suicidas (com tendência suicida) que possuem este sintoma por transtorno comportamental. Lembro-me de uma paciente que era uma “jovem santa”, isto é, vivia profundamente o desejo de santidade, atuava na Igreja e em sua comunidade de vida cristã de forma intensa. Eu aprendi muito com a fé desta jovem. Mas ela tinha um forte impulso para o suicídio, e foi em crise de desejo de se matar que ela chegou até meu consultório. Na primeira entrevista de seu tratamento, perguntei o motivo que a levava a procurar minha ajuda e ela dizia que é por que seus familiares e membros de comunidade a trouxeram, pois por ela mesma já estaria morta. Mas no decorrer da conversa ela revelou que sofria muito com aqueles impulsos e que no fundo amava a vida e desejava viver. Perguntei a ela se eu seria um profissional que pudesse ajudá-la e ela confirmou que sim. Tive a agilidade de dizer-lhe que não havia me especializado em atender mortos, mas sim vivos, e que se quisesse receber a minha ajuda precisaria estar vida. Ela riu muito e estabelecemos um acordo, de quando ela tivesse impulso de morte, ligasse para mim; também que ela deveria manter a psicoterapia e o uso de medicação psiquiátrica.
Muitos episódios de intervenção desta jovem em crises suicida aconteceram durante o tratamento, mas ela acabava cumprindo o acordo e eu intervia solicitando a família que fosse ao encontro dela nos locais onde planejava realizar o suicídio. Fizemos um longo tratamento e aprendi muito com os conhecimentos religiosos desta jovem, o que levou-me a questionar se realmente eu tinha fé, diante de tamanha fé dela.
Hoje sei que esta jovem tornou-se mulher, esposa e tem filhos, vive a sua profissão e com certeza, de vez em quando deve ter suas crises suicidas. Mas no processo psicoterapêutico ela aprendeu a dominar seus impulsos e entender os motivos que a levavam ao desejo de morte. Por isto, não podemos associar este tipo de transtorno comercial com ausência de fé, ao contrário, além de tratamento que esta jovem realizou, a sua fé e prática religiosa, sua profissão e suporte familiar, conduziram-na para a vida.
Assim, o suicídio pode também habitar mentes com muita fé.
Gerson Abarca



