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Para não dizer que não falei das MÃES

sexta-feira, maio 6th, 2011

Houve um tempo em que ficava muito mal humorado com as comemorações do dia das mães. Sempre olhava pelo senso crítico da exploração comercial deste dia. O comércio faturando e as mães sendo enganadas. Um presentinho, beijinhos e depois novamente escrava dos filhos.

Nas escolas em que assessorava, cheguei até a indicar que não fizessem festas com teatrinhos melodramáticos, pois sempre acontecia uma choradeira daqueles que as mães, por causa de trabalho, não podiam comparecer na escola, ai os filhinhos desabavam em choro, e no trabalho as mães se torturavam se condenando por não poderem estar presentes.

E aqueles filhos adotivos, daquelas adoções realizadas sem critérios, os conflitos existenciais apareciam…Onde está minha verdadeira mãe!!.

Pasmem, já cheguei até a usar uma frase do Psiquiatra José Ângelo Gaiarça em uma palestra  no dia das mães: “Se toda mãe fosse boa não haveria doente mental”. Com certeza deixei muita mãe triste naquela noite.

Mas, com meus três filhos crescendo, fui observando o valor que eles depositam no dia das mães. E depois fui me tocar que eu também adorava ligar para minha mãe Aurora desejando-lhe um feliz dia das mães. Ela ficava toda derretida de emoção.

Agora, se o dia é explorado ou não pelo comércio, que assim seja. Afinal de contas muita cidade deste país vive do comércio. E a vida é para ser festejada, e presente é para retribuir em  agradecimento.

Mãe é realmente um ser fundamental para a existência da saúde emocional. É dela sim a maior força de energia psíquica que move uma criança durante todos os anos da infância de uma pessoa. É pela “maternagem” ( capacidade de cuidar e proteger com afeto segundo Winnicott), que chegamos à vida adulta com potencial para amar.

Vamos celebrar com muita alegria o dia das mães. Afinal de contas, todo ser humano teve seu primeiro ninho no útero de uma mulher.

A Arte e Cultura na Formação da Moral

terça-feira, junho 2nd, 2009

Gerson Abarca*

Sigmund Freud nos conduziu a entendermos o processo de sublimação para a elaboração da estrutura egóica do indivíduo. A transitoriedade entre amor e ódio, vida e morte é um processo que necessita de elementos intermediários para que as energias psíquicas envolvidas neste processo possam ter suas válvulas de escape. É o que acontece quando praticamos um esporte coletivo, descarregamos raivas e ódios que reprimimos na convivência civilizatória, porque nos conduzimos por regras. Por isto é muito comum choques físicos entre atletas, torcidas raivosas, etc.

Estes dias, levando meus filhos ao estádio de futebol, o menor Helder ficou tentando controlar os torcedores ao seu redor para que não falassem palavrões. Ele ficava gritando que não podia, que era feio xingar. Até que tive que explicar para ele, que no estádio as pessoas xingavam para torcer, mas no fundo não queriam dizer aqueles palavrões. (Tentei moralizar).

A educação moral que melhor pode trazer resultados é aquele no qual potencializamos ações educacionais onde as crianças consigam construir a capacidade moral própria, onde consiga por ela mesma manusear seu código moral adquirido na sua história e cultura de época. Para que esta condição encontre terreno fértil, a criatividade é um grande recurso. Despertar a criatividade é um excelente recurso para levar uma criança a aprender a sair de situações difíceis e utilizar seus valores adquiridos quando necessário.

A criatividade encontra na produção cultural e nas artes a estrutura para sua mais ampla potencialização.

Assim, as cidades, as comunidades, as famílias precisam focar-se na produção de cultura, no aprendizado das artes: música, dança, teatro e artesanato. Pelas artes conseguimos transformar coisas brutas e finas.

Já tive boas experiências de trabalhar a psicologia com a produção de teatro. Junto com o teatrólogo Oscar Ferreira pude ver uma idéia se transformar em um texto e virar peça teatral, para encerrar-se em aplausos, êxtase. Uma condução artística é uma trajetória do nada para o tudo; como a trajetória de um bebê (um ser frágil) para um adulto, capaz de produzir, de amar.

Não fazemos bebês, como artistas fazem uma tela. Mas pelas artes, aprendemos a moldar. Modelamos nossos bebês, para que se tornem adultos maravilhosos.

Assim, ambientes que possuem a capacidade de conviver com a produção artística e cultural e que cultivam culturas e as preservam, tendem a potencializar pessoas com maior sensibilidade para dialogar nas diferenças, para construir com o outro e outras culturas processos civilizatórios. A arte e a cultura para o ser humano são como o mangue para o mar. Este se alimenta e respira por causa do mangue; os seres humanos tornam-se sublimes pela capacidade de sublimar (colocar em estado sublime). Se estou com ódio ou nervoso, nada melhor que uma boa música para relaxar; ou uma boa piada para descontrair.

Brincar – o sintoma da independência

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

 

            O brincar é o elemento revelador do caminho que a criança faz rumo à independência. No brincar a criança revela a busca de autonomia, a capacidade de estar  só sem necessariamente ter a presença dos pais.

            É na fase da latência, quando termina todas as forças de dependência com a pessoa da mãe/pai, que a criança encontra consigo mesma na sua própria produtividade. Por isto mesmo que após os 7 anos aproximadamente que uma criança começa a ter o processo de aprendizado sistematizado. Ela sai do estágio de dependência absoluta, passa ao de dependência relativa e chega no caminho da independência.

            Quando a criança brinca espontaneamente e cria formas de brincar, sozinha ou em grupo, ela está revelando crescimento e autonomia. Ao contrário, quando uma criança está escrava de jogos eletrônicos, computador ou TV, revela incapacidade autônoma, pois não brinca, mas sim reproduz algo que já está pronto. O brincar no mundo da criança é aquilo que a potencializa para construir, elaborar e criar. Se for retirada esta condição de brincar livre da criança, estará sendo comprometida a capacidade de se construir nela uma pessoa autônoma.

            Sabemos que na vida humana, toda regra tem sua exceção. Mas não podemos negar a diferença na forma de ser de um adulto que teve espaço na sua infância para o brincar livremente, daqueles que não conseguiram ter espaço e ambiente para brincar. Os que aproveitaram ao máximo a infância para brincar, tendem na vida adulta a serem mais autônomos, independentes e consequentemente mais alegres. Já, aqueles que não puderam ter espaço para o brincar, na vida adulta tendem às posturas rígidas, controle e manipulação de terceiros e dificuldade autonomia.

            A busca das pessoas por auto-ajuda ou fórmulas mágicas de felicidade, em que nomeiam alguém para motivá-los de fora para dentro, é o resultado de infâncias roubadas no passado. São adultos que se estabelecem no mundo com muita dependência afetiva e intelectual, e por isto esperam muito dos outros.

*Psicólogo – Psicoterapeuta.  

Só aprende quem perde

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

          

          No desenvolvimento do vínculo estabelecido na simbiose (relação de dependência absoluta do bebê/ mãe/bebê) da-se a estrutura emocional na criança para a elaboração das primeiras perdas. A principal delas é a perda do vínculo exclusivo com a mãe. Winnicott (1963) nos apresenta uma cena ilustrativa de processo de perda/separação. A criança espera pela comida e na sala da casa, ouve os barulhos produzidos pela mãe na cozinha que revelam a possibilidade  de que a comida está sendo preparada, logo associa que poderá esperar por mais alguns minutos porque a comida vai chegar, e junto dela a pessoa da mãe, ou de quem cuida.

            Da-se nesta cena o início da construção da dependência relativa, isto é, a criança já consegue elaborar a sua espera. Nesta perda ou início de perda de dependência absoluta, a criança começa a desenvolver sua capacidade intelectual onde relaciona a fome pessoal com os ruídos na cozinha e sua capacidade de estabelecer um tempo de espera (aprende esperar; associa imagens e relaciona sons).  

            Em um ambiente onde os pais conseguem ser eles mesmos com uma freqüência de ritmo e cotidianidade, isto é, freqüência e estabilidade nas ações, a criança se coloca na boa relação com sua perda inicial. Pois antes, sua necessidade era prontamente suprida na relação de dependência absoluta e agora não. Na dependência relativa, a criança começa a aprender a ver-se diferenciado de sua mãe/pai e consegue estabelecer uma relação de espera.

            O primeiro sinal que a criança dá que leva-nos a ter a certeza de suas percepções no mundo é a ansiedade. Pois a ansiedade nasce quando a criança necessita de ver realizar suas necessidades básicas e ao mesmo tempo a presença materna para suprir esta necessidade não vem no tempo esperado pela criança. E a criança percebe este distanciamento e inicia o processo de elaboração de perda com a figura materna. Este processo se dá entre 6 meses e dois anos, o que reafirma a necessidade da mãe estar com seu bebê nos meses iniciais de sua existência. Se este estágio for regido por um ambiente de presença afetiva estável, torna-se mais fácil a separação do bebê de sua mãe, liberando-na ao trabalho e a outras tarefas que a possibilitam de ficar distanciada do bebê por um período mais longo. Exatamente quando as mães voltam a trabalhar. 

* Psicólogo – Psicoterapeuta.

Preocupações maternas primárias – O vir a ser criança

sexta-feira, maio 22nd, 2009

Gerson Abarca*

Logo após o nascimento, a criança tem nos braços de sua mãe a continuidade de sua existência. E só uma mãe conhecedora das necessidades de seu bebê e identificado com ele na sua história, dará o colo tão esperado pelo bebê e tão desejado por ela. Ele entrega-se totalmente à mãe, sem insegurança. Pois a mãe encontra-se no estado de preocupação materna primária. Ela se antevê, prevê e se coloca por antecipação na vida da criança.

Imagine o momento de a mãe dar um banho na banheira com água quente, o bebê sente o vapor aquecido da água, mas confia. A mãe por sua vez, antes de mergulhar o filho na banheira, testa a temperatura da água – ela consegue identificar com um simples toque na água qual a temperatura ideal para o seu bebê.

Situação que provavelmente não será tão bem vivenciado por mulheres não identificadas com a criança, por exemplo, em uma creche, orfanato, etc., ou até mesmo por mulheres parentes ou amigos da família. Por isto que uma mãe fica ao redor do seu bebê como uma leoa fica vigiando sua prole recém nascida.

É nesta condição de entrega absoluta que a criança pode vir a ser no mundo e no seu futuro, e é por isto que as mães plenamente identificadas com seus bebês se colocam inteiramente à disposição deles. Pois para que o produto seja melhor que a fabrica (vir -a – ser) esta acolhida inicial de dependência absoluta do filho para com a mãe e vise-versa é primordial.

*Psicólogo – Psicoterapeuta.

Convencer Filhos na Educação Religiosa

quarta-feira, maio 20th, 2009

Gerson Abarca*

“… Há mais para ganhar do amor do que da educação”. (Winnicott).

Tenho recebido muitos casais, pais de filhos adolescentes, que estão preocupados com a escolha religiosa dos seus filhos.

Geralmente são pais que sempre tiveram atuação em comunidades religiosas, praticaram os caminhos de catequese com os filhos mas que se vêem perdidos quando na adolescência os filhos já não seguem os passos dos pais.

Imagine ouvir de um filho adolescente que não desejará seguir o caminho religioso dos pais porque os pais tinham muito tempo para a Igreja e pouco tempo para ele. Cruel, não?

É o que vem acontecendo com movimentos espirituais onde a força está nos casais provocando um distanciamento dos filhos nas atividades religiosas. Casais muito dedicados às pastorais e ausentes do ambiente familiar e nos finais de semana sobrecarregados de atividades religiosas provocam um forte distanciamento dos filhos tanto nas atividades pastorais como no estabelecimento de vínculos afetivos.

O que vai garantir, ou pelo menos dar mais segurança aos pais, de que os filhos seguiram os mesmos passos da educação moral que possuem e que ensinaram, é a capacidade de vínculo afetivo estabelecido neste processo de ensinamento da moral, e ao mesmo tempo na capacidade dos pais mostrarem-se aos seus filhos dentro de uma carência moral.

Imagine o pai exigindo que os filhos participem da missa todos os domingos, mas ele mesmo não consegue ir à missa todos os domingos porque naquele horário é o futebol na TV. “Ta na hora de ir à missa, e rezem por mim”.

Imaginem a situação dos pais dizendo aos filhos que precisam rezar o Pai Nosso todos os dias antes de dormir e ao acordar pela manhã. E se não fizerem desta forma levarão uma surra na hora do almoço.

A melhor forma de educar para a moral religiosa, onde a criança fará uma estreita ligação com um ser superior em uma relação de bondade, troca e cumplicidade, é pela condição de ambientes afetivos e com estabilidade de presença afetiva.

A confiança e a crença em algo e nas noções de certo e errado se desenvolve na elaboração de componentes internos da criança.

Como vou convencer uma criança de que Deus é bom se ela não consegue identificar internamente processos de um bom vínculo afetivo com a pessoa do pai e mãe. Se pai e mãe recuperam internamente no filho memórias de um bom vínculo afetivo, a relação com o Deus de amor e bondade, o Deus que corrige e oferece caminhos, torna-se bem mais favorável. A identificação com um Deus pai, um Deus mãe, estará diretamente relacionado com as identificações com pai/ mãe favoráveis dentro de si mesmo.

Vamos observar processos de conversões em pessoas adultas que não tiveram ambiente afetivo e consequentemente não carregam memória de vínculo afetivo. Isto porque sabemos que na questão da Fé, tudo é possível. Porém observamos o quanto o caminho de uma prática religiosa por parte de um neo-convertido (conversão sem histórico religiosa) torna-se mais angustiante, instável.

Vemos o quanto os neo-convertidos, tendem a mudança de grupos religiosos com facilidade. Mudam de igrejas como se muda de roupa. Buscam se preencher na religião pelas necessidades afetivas que nunca foram preenchidas na história pessoal interior.

Educar para que os filhos tenham uma vivência moral, pratiquem uma religião e dêem preferência àquela a qual as introduzimos a fazer-se presença afetiva, é proporcionar ambiência boa e suporte nos momentos mais difíceis.

Educar para a fé, é fazer-se pai e mãe afetivos para que no futuro eles (filhos) possam identificar em Deus, a bondade e o amor que foi cultivado internamente dentro deles.

Por isto, aos casais muito apegados com suas missões religiosas, devem estar atentos da existência dos filhos ao seu redor. Se as atividades pastorais estiverem ocupando mais tempo na vida do casal do que as atividades educacionais familiares, o resultado da fé e moral dos filhos pode não ser o esperado. Depois não adianta reclamar.

Observem como que os movimentos tradicionais da Igreja Católica estão esvaziados de jovens, dos filhos de seus mentores e protagonistas.

Muitos destes movimentos estão envelhecidos, pouco revitalizados.

O Pecesso Maturacional

quarta-feira, maio 13th, 2009

* Gerson Abarca

Maturação emocional está diretamente relacionado com provisão do ambiente. Quanto mais ambiência protecional e afeto uma criança recebe, mais chance de obter sua maturidade ela terá.

                Os pais não fazem uma criança. Ela já está feita. Eles apenas emprestam as sementes e proporcionam o encontro do espermatozóide e óvulo, tendo na mão o útero como cama acolhedora desta união. Os caracteres genéticos da criança os pais pouco poderão fazer como tamanho, olhos, cabelo, tendências fisiológicas. Como um artista pode modelar um pote de barro ou conduzir a tinta sobre a tela, os pais não podem interferir na estrutura física do filho que eles não fizeram, mas apenas conceberam. Porém os pais podem proporcionar o maior legado na vida de uma pessoa, a maturidade. Neste campo, está nas mãos dos pais a arte. Para isto, damos o nome de provisão que em Winnicott veremos no “processo de maturação” (1963). A maturação completa só poderá ser vislumbrada na vida adulta, após os 22 anos.

                Por isto que na vida adulta dos seus filhos, muitos pais caem em angústias, pois a maturidade tão desejada pode não acontecer e surgem as dúvidas sobre onde erraram e com elas as culpas.

                Mas, se os pais entenderem que não fazem filho, mas que emprestam sementes; que não possuem poder para formatar a beleza dos mesmos, mas possuem mãos para estruturar processos de vínculos afetivos; saberão lidar com situações de frustração quando os filhos na vida adulta não atingirem a maturidade tão esperada. Principalmente se os pais souberem que o ambiente é a somatória das quatro mãos de um porto seguro que são os pais e ao mesmo tempo a comunidade que os cercam.

                A melhor forma de se criar ambiente para o processo maturacional de uma criança, é não esperar nada dela e nem fazer planos para ela, principalmente por que o futuro a ela pertence, dependendo das escolhas que fizer no futuro.

                Assim, a maturidade é a capacidade de lidar com os limites e desejos que o cotidiano nos impõe. As chaves de uma pessoa lidar com estes limites está diretamente ligada com a capacidade que adquiriu de estabelecer vínculos afetivos e consequentemente parcerias 

 

 

 

 

 

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