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O Nascimento da responsabilidade na Criança

sexta-feira, março 6th, 2009

Gerson Abarca*

A responsabilidade é um conceito em que os pais estão sempre preocupados no processo educacional dos filhos. Levar as crianças a ter noção de responsabilidade é a grande missão educacional da modernidade. Escolas que vendem a idéia que farão das crianças pessoas responsáveis, acabam tendo grande simpatia dos pais. Estes por sua vez, procuram estruturar a agenda dos filhos com muitos compromissos, que às vezes chega ao nível de estresse infantil. É aula de várias modalidades esportivas, música, dança inglês, além da escola e das tarefas. Já ouvi de professores que uma boa forma de despertar a responsabilidade nas crianças é enchê-las de tarefas escolares. O mesmo defende alguns pais, que procuram não deixar tempo vazio na agenda dos filhos com o intuito deles terem postura de responsabilidade.

Porém, responsabilidade não se adquire através de regras, normas, ou compromissos. A responsabilidade é resultado da vivência psico- afetiva já nos primeiros meses de vida da criança. Ela nasce através do sentimento de culpa, onde a criança ao se perceber atacando seu objeto de amor (os seios materno) no ato de amamentar, se culpabiliza e consequentemente procura caminhos para reparar seu dano, provocando a ansiedade pela ambivalência de se usufruir e reter objetos bons e ao mesmo tempo destruí-los. Os seios que oferece o alimento e por isto é intensamente procurado pelo bebê (objeto bom) se transforma em um objeto destruído pelo bebê que morde. Neste ato destrutivo surge a culpa e a reaproximação do bebê junto à mãe. Ele se preocupa em buscar se reencontrar com o objeto destruído, reparando para resgatar o objeto de amor original.

A configuração da preocupação do bebê, encontrando um ambiente materno capaz de dar suporte e potencialidade à reparação dele, fará com que o mesmo aprenda a se reconstruir na relação, dando-se assim a base estruturante psico-afetiva para a responsabilidade. Ele torna-se “responsável por aquilo que cativa”, graças ao ambiente maternal suficientemente bom que acolheu sua busca de reparação.

Podemos exemplificar este processo em situações em que a criança comete uma ação desaprovadora aos pais. De imediato é repreendida com castigo e fica em uma posição ambivalente, parece que angustiada ou deprimida (aquele rostinho de choro). Logo em seguida, a criança se aproxima dos pais como que querendo reparar o erro, de forna afetiva. Os pais, proporcionando uma capacidade de ambiente de acolhida, aceitarão afetivamente este retorno da criança, mas continuarão mantendo postura sobre o castigo definido à criança, porém o ambiente estará afetivamente acolhedor. Assim, a criança terá clareza do motivo da correção dos pais e passará a se preocupar em manter o vínculo saudável com os mesmos procurando não cair no mesmo erro. O ambiente de acolhida proporcionou a reparação, e consequentemente à capacidade de reconstrução de vínculo positivo. A fixação do sentimento destrutivo de ódio foi superada para dar lugar ao restabelecimento do vínculo.

Do contrário, se os pais punissem a criança pelo erro cometido e mantivessem postura rígida sem acolher afetivamente a criança, no lugar da preocupação em reparar o dano a criança desenvolveria ansiedade e um sentimento de ódio fugaz. Quando as crianças não conseguem ter a acolhida para que reparem seus erros cometidos, tornam-se transgressoras, agressivas.

Segundo Winnicotti (1963) “… a capacidade de se preocupar está na base de todo brinquedo e trabalho construtivo”. Quando o ambiente maternal é capaz de levar a criança a se preocupar com sua recomposição a objetos danificados, está sendo construída a capacidade de responsabilidade, de cuidado. Cuidamos daquilo pelo qual depositamos sentimentos e vemos benefícios pessoais, não é por acaso que crianças agressivas tendem a destruir seus brinquedos, também possuem muita dificuldade em criar formas de brincar. Uma criança que pouco brinca ou que pouco cuida de seus brinquedos está revelando grande dificuldade de estabelecimento de vínculo, pois está polarizada no ódio decorrente das energias psíquicas que descarregou aos objetos que eram bons. Isto é, vive na prevalência da manifestação de ódio. Por isto mesmo que dizemos que o amor e o ódio caminham juntos, a diferença é que a polarização do amor é condição para aqueles que no decorrer da vida tiveram ambiente bom para reparar e reconstruir as ações provenientes do ódio, reencontrando-se com o amor.

A culpa, tão necessária para a percepção do objeto danificado, é propulsora do ato responsável. Temos responsabilidade de cuidar daquilo que da retorno emocional positivo.

Assim, a melhor forma de termos crianças responsáveis, é oferecendo a elas ambiente afetivo suficientemente bom, para que possam se reconstruir a cada dia na polaridade ambivalente entre o amor e o ódio, fazendo aflorar o impulso pela vida mais do que pela morte.

*Psicólogo – Psicoterapeuta. Graduado em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista 1990. Especialista em Psicologia Clínica. Autor do Livro “Sexualidade na Contramão”, Ed. Paulus 2004.

Relacionamento Paterno Infantil*

segunda-feira, dezembro 15th, 2008

Gerson Abarca*

As projeções que o sujeito faz no mundo está diretamente relacionado com as experiência de campo relacional (Holding) estabelecidos no vínculo materno/ paterno/filial desde os primeiros vínculos estabelecidos do bebê com a mãe. (Winnicott – 1958)

No processo analítico, observa-se às manifestações deste vínculo na transferência do paciente ao analista pelo nível de fixação e projeção. A percepção neurótica – da história sendo repetida – será percebida pelo paciente na medida em que o analista tiver a capacidade de conduzir o processo analítico no tempo e no conteúdo do paciente, sem antecipar-se ou atropelar o insight do mesmo. A boa interpretação é como se fosse o alimento do paciente, colocada no momento certo para que seja o ponto real do paciente e não meras conclusões de analista. Será sentido pelo paciente como o alimento dado afetuosamente pela mãe suficientemente boa.

Mães funcionais, que entendendo de todos os mecanismos para profilaxia de trato com o bebê podem desencadear na criança as mesmas sensações de perda e abandono das mães com ausência de afeto (ausentes pela insuficiência da maternagem). O analista técnico e experiente poderá cair na tentação e impaciência da espera do analisando para pontuar a melhor interpretação. Assim, este analista será tão insuficiente como à mãe funcional. Como transcreve Winnicott em um fragmento da fala de uma paciente: “uma boa sessão analítica em que se dá a interpretação correta no momento oportuno é uma boa alimentação.” (Winnicott – 1958).

A técnica pela técnica aproxima o terapeuta da mãe insuficiente e faz provocar no processo analítico a emergência de impulsos destrutivos no analisando, como acontece com a análise infantil, com a necessidade ansiosa do analista em interpretar, para mostrar serviço. A seqüência de uma construção interpretativa na análise infantil se dá de forma lenta e dentro de um ciclo contínuo de sessões. A reação do paciente em relação a uma interpretação funcional do analista muitas vezes vem em forma de uma ação destrutiva pelo impulso negativo que a interpretação fora de lugar ocasiona, levando a criança a agredir o analista ou a transferir a destruição ao analista nos brinquedos, danificando-os ou destruindo parcialmente objetos da sala terapêutica. Quando nos colocamos aliados à família e compactuados na necessidade de dar aos pais a resposta e o resultado que eles esperam para o filho, deixamos de ser continentes na história de vínculos afetivos da criança, e passamos a ser bonecos dos pais.

Assim acontece na relação do terceiro (pai) quando entra como elemento que quebrará a relação de vinculo mãe/ filho. Se o pai teme interferir no clima relacional mãe/filho, estará impossibilitando o crescimento do filho para novas etapas de desenvolvimento. Fará o jogo da mãe e perpetuará a simbiose de dependência. Do contrário, a entrada do pai na relação com o filho, provocará angústia e ansiedades no filho, que estava acomodado na relação materna filial; porém os resultados serão altamente favoráveis na construção da autonomia da criação. Assim acontece na análise infantil, cujos pais muitas vezes atacam ao processo, ou por interrupção ou por julgarem não ver resultados, mas pelo fato de sentirem que a análise está provocando no filho um processo de separação para a construção da própria identidade. Mas os pais tendem querer que os filhos continuem dependentes deles.

Também no adulto em análise, observa-se o apego paterno/filial, onde o processo transferencial se da na necessidade de ser orientado, conduzido pelo analista. Uma repetição de uma fase onde o filho necessitava dos direcionamentos de um pai. Se o analista se sujeitar a este jogo estará desenvolvendo não um processo analítico, mas sim uma psicoterapia indutiva. Estará suprindo e direcionando as necessidades do paciente contribuindo para a manutenção da neurose de ser suprido e conduzido. Deixará o paciente na condição de filho e manterá a dependência no paciente.

*Baseado no estudo do livro: O Ambiente e os Processos de Maturação. Teoria do desenvolvimento emocional. (Winnicott) Artmed.

QUANDO A CRIANÇA CONSEGUE FICAR SÓ

quarta-feira, dezembro 3rd, 2008

Gerson Abarca*

O processo da construção da identidade pessoal e da configuração da capacidade de se estar só  passa pelo caminho da dualidade na relação mãe/filho nos primeiros meses, e evolui para a tríade com o vínculo e estruturação do complexo de Édipo, (onde a relação se estabelece com um terceiro - a figura paterna -), acontecendo o processo de relacionamento cruzado entre masculino e feminino na tríade mãe/ filho/ pai; depois o desenvolvimento evolui para a relação unipessoal, pela construção da própria identidade, que passa de processos narcisicos primários aos secundários, até o narcisismo estrutural. Entendendo aqui narcisismo como a formação pessoal de olhar para si mesmo, sendo primária na relação mãe/filho, secundário na relação mãe/filho/pai e  estrutural quando o indivíduo forma sua identidade (self) - ( WINNICOTT - 1962 )

É na condição unipessoal, que vamos perceber a capacidade do indivíduo ficar só. A criança que brinca no seu espaço pessoal, em uma intrínseca relação com seu brinquedo e ele mesmo, está demonstrando a construção de seu ego pessoal, de estar consigo mesma. É notório em processo de análise infantil, que crianças com dificuldades de perdas de vínculos ou relacionamentos simbióticos (dependência com a figura materna) ou em pleno campo de batalha edípica por ciúmes de irmãos na relação com os pais, tendem a se posicionar em análise com grande apego ao terapeuta, ou fazem muito o uso dos jogos de competição, revelando um frenético movimento de disputa e apego, isto é, só brincam na condição de existir um outro.

Crianças em processo de alta psicoterapeutica, quando já passado os processos de elaboração dos medos de separação dos vínculos materno filial e onde já se elaborou o complexo de Édipo na sua condição de possessão, tendem a construção de brinquedos e brincadeiras pessoais, dando ao analista a condição de ver com transparência os processos transferênciais. É a criança capaz de estar só, sentindo-se segura consigo mesma. A condição de estar só é terreno maturacional na criança que refletirá em posturas de autonomia para estabelecimentos de vínculos sociais, onde aumenta sua capacidade de estabelecer novas amizades e amizades duradouras; na escola com postura de autonomia aos estudos sem a necessidade de monitoramento intensivo dos pais e professores; e na incorporação de regras, pela construção de processo moral, em que torna-se capaz de fazer suas escolhas integrada com o contexto social em que vive. Ao vermos uma criança fantasiando com seu brincar de forma intensa e prazerosa, temos a certeza que ela está se conduzindo na sua individualidade.

Estar só e seguro, é resultado de uma mente que segue seu ciclo maturacional. No adulto isto é percebido quando consegue se encontrar consigo mesmo e na sua individualidade: como é no estudo; ler um livro; fazer sua oração pessoal; dormir sozinho, estar em uma longa viagem; esperar em uma fila de banco ou consultório, etc. Como acontece com os cônjuges em um coito orgástico, que após o ápice de prazer encontram-se sós estando juntos na seguridade de amor manifesto. Os corpos repousantes no degustar do gozo. Amo a ti por que sei que também me amas (Lacan).

O estar só é percebido naqueles que conseguem ser por si sem que haja necessidade de um outro para existir. Necessidade enquanto dependência.

A busca por um processo analítico incomoda muita gente quando tem que se deparar com o estar no seu silêncio mesmo tendo um analista ao seu lado. O não suportar o silêncio pode ser um sintoma de uma mente que não evolui da díade para a tríade e da tríade para o seu próprio eu. “A paz que você procura está no silêncio que você não faz” (LARRAÑAGA). Silenciar-se é um ato de maturidade emocional, evolução da díade para tríade até  chegar na condição unipessoal. O que somos na vida adulta é resultado de uma longa caminhada que teve início desde os primeiros vínculos afetivos de criança.

*É Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.Autor do livro “O poder da T.V. no mundo da criança e do adolescente”, Ed Paulus-SP

Desenvolvimento Emocional – Sentimento de Culpa*

segunda-feira, novembro 17th, 2008

Gerson Abarca* *

Culpa na vida humana reflete a experiência do conflito na  realidade existencial entre amor e ódio. A culpa é o elemento intermediário capaz de integrar estes dois sentimentos, como se fosse a espessura de uma moeda  - cara e coroa – amor e ódio. Na moeda fina, a culpa é integração das duas vivências, já na moeda de espessura grossa a culpa é o equivalente à dificuldade de se transitar entre os dois sentimentos que estão co-relacionados.

Viver com culpa é não permitir-se viver, pois para se viver é condição a transitoriedade entre amor e ódio. Mas por sua vez, viver sem culpa é a não percepção existencial da bipolaridade de amor e ódio dentro de nós, condição observada nos delinqüentes, que ficam desprovidos de qualquer sentimento de culpa diante de seus atos delinqüentes. É o resultado de uma mente que não conheceu limites.

Já a culpa como fator estruturante, é necessária para que cada indivíduo a perceba em momentos que necessita reparar um erro, a culpa como condição de auto percepção de si no mundo.Como uma mãe que ao amar seu filho,  diante de um processo de correção, castiga, mas  vê neste castigo uma necessidade de limites.Este castigo corretivo dispertará a culpa por ter ofendido um objeto de amor, que a remeterá  na busca  pela continuidade  de manifestação deste amor para com seu filho. Este processo cíclico e permanente é o resultado da vivência de culpa que integra. Já, uma mãe, disprovida de sentimento de culpa, ao invés de corrigi vai espancar e não se preocupará de ter ofendido seu objeto de amor, o filho, que aliás, não conseguirá pontuar a existência de amor nesta relação, mas sim o resultado de uma  relação onde a mãe não conseguiu sair de seu próprio mundo.

“O sentimento de culpa – implica a tolerância da ambivalência…”(Winnicott - 1958), do conflito causado na ansiedade vivenciada no conflito entre amor e ódio.

Em Melanie Klein temos no conceito de “Posição depressiva” a relação duálica entre mãe e filho, em um estágio bem precoce do relacionamento onde a criança ao ser gratificada pelo seio materno se vê na condição de ataque ao mesmo. Nesta ansiedade vivida entre o seio bom e o seio mal, provocado pela ação destrutiva do bebê ou pela ausência da mãe no processo de amamentação, dá-se início à vivência de culpa. Culpa esta que estará configurando-se em estruturante ou destrutiva e quem sabe sem a existência dela. A culpa que nos impulsiona para revitalizar o amor é aquela que não nos faz negar dentro de nós o sentimento de ódio, ou raiva que são provenientes de qualquer vínculo amoroso: na amizade, no trabalho, na família; mas quando negamos o ódio que está intrínseco ao amor vivido, como parte de uma moeda de duas caras, passamos a desejar apenas o amor e seus benefícios provenientes do vínculo amoroso, que quando despertado em um repente de ódio, de cisão com o objeto amado, torna-se obsessão, compulsão, depressão – chicote sobre si mesmo –, prevalecendo a culpa destrutiva e o distanciamento de amor ao objeto amado. Já a ausência de culpa é o resultado de vínculos afetivos que não se estabeleceram, a ausência total de um ambiente sem traços afetivos.

**Psicólogo – Psicoterapeuta. Diretor do Instituto Pensamento.

* Winnicott,W.D - O Ambiente e os Processos de Maturação. Teoria do desenvolvimento emocional.  Artmed-RS. 2008

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