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Davi e Jônatas: uma amizade que incomoda

terça-feira, março 9th, 2010

Fomos criados em um mundo de ideias liberais, que, em vez de nos tornarem livres, nos aprisionam cada vez mais em suas concepções e realidades. Numa sociedade permeada por uma erotização desmedida em todas as realidades, principalmente quando se fala em relacionamentos. Não se acredita mais no matrimônio, em um namoro santo, em uma amizade sadia, no amor gratuito e sem interesses sexuais. Pensar em amizades verdadeiras, em um mundo assim, é bater de frente com toda uma concepção maliciosa e deturpada do amor e apresentar a realidade, na qual é possível viver uma amizade sadia.

Alguns dos grandes testemunhos deixados a nós por Davi e Jônatas – príncipe de Israel e pastor de ovelhas respectivamente – são o companheirismo, a fidelidade, a lealdade e o amor puro e manifestado de diversas formas, que pode haver em uma amizade entre dois homens. Uma amizade que incomoda um mundo que praticamente exterminou a ideia de um relacionamento desinteressado e sadio entre homens e mulheres e que agora volta suas armas para as amizades masculinas. São termos, ideologias e opiniões que a todo o momento colocam em dúvida esse tipo de relacionamento ou o transformam em uma caricatura muito distante da verdade que habita no amor verdadeiro entre dois amigos.

O amor entre Davi e Jônatas era puro e concreto. Diz a Palavra de Deus que, ao se despedirem, – para nunca mais se verem – eles se beijaram e choraram (cf. I Sm 20,41b). Mas alguns olhares estragados pelos ideais, que andam por aí, conseguem ler essa passagem e ver sinais de uma relação erótica entre os dois. Minha mãe diz que, muitas vezes, nós vemos só o que queremos ver. O que a Sagrada Escritura testemunha é a liberdade que habita no coração de dois homens, que encontraram em Deus uma amizade verdadeira, os quais, justamente por terem o Senhor como fundamento desse relacionamento, são livres o suficiente para demonstrar o quanto se amam.

As atitudes afetuosas desses personagens bíblicos não são as únicas que encontramos na Palavra de Deus. O Evangelho é permeado de relatos de um Jesus que amava os amigos homens de maneira livre e concreta, cheia de demonstrações públicas de afeto. Quando descreve a alegria do reencontro do pai com o filho, que havia se perdido e consumido todos os bens herdados, o Senhor afirma que o  pai corre ao encontro do herdeiro, abraça-o e o cobre de beijos (cf. Lc 15,20). O Filho de Deus não teve vergonha de chorar diante de uma multidão de pessoas no túmulo de se amigo Lázaro, fato que demonstrou a todos de maneira concreta o quanto Ele o amava (cf. Jo 11,35-36). O mesmo Jesus, na Última Ceia, após lavar os pés dos amigos, se coloca em tal liberdade com os apóstolos, que João – o discípulo amado – repousa a cabeça sobre Seu peito (cf. Jo 13,25). São manifestações concretas de quem ama de verdade e por isso não tem medo de demonstrar esse sentimento.

Parece que o mundo fica incomodado com aqueles que vivem as coisas como elas devem ser, de forma pura e sadia, arrumando logo um jeito de distorcer a situação ou levantar dúvidas. É mais fácil para alguns escreverem livros dizendo que era Maria Madalena que estava a lado de Jesus na Última Ceia do que admitir que, na sua castidade plena e livre, Ele tinha reclinado em seu peito o discípulo que mais amava. É mais fácil levantar suspeitas sobre a amizade de Davi e Jônatas do que admitir que um homem verdadeiramente amou um amigo e ao saber de sua morte é capaz de declarar que aquela amizade lhe era mais cara do que o amor das mulheres (cf. II Sm 1,26). É mais fácil criar mentiras do que se decidir viver pela Verdade.

Decidi passar a minha vida lutando pela Verdade, na Verdade e com a Verdade. Viver testemunhando ao mundo que é possível estabelecer relacionamentos sadios com homens e mulheres, sem medo de demonstrar o afeto e o amor, próprios entre os que decidiram viver uma vida nova em Cristo. Uma vida pautada na busca de equilíbrio, mas sem medo de ser um sinal de contradição em meio a uma sociedade que desacreditou o amor verdadeiro.

Deus me deu a graça de ter amigos de verdade. Homens que, com o seu testemunho, me edificam e me levam mais para Ele. Amigos casados, solteiros, padres, seminaristas que decidiram seguir o exemplo de Jesus de não ter medo de amar e demonstrar o quanto amam de forma concreta. Homens que, por se cumprimentarem com um abraço, com um gesto de afeto, não deixam de ser homens; pelo contrário, dão ao mundo o testemunho coerente do amor evangélico, o amor capaz de dar a vida (cf. Jo 15,13).

Não podemos ser ingênuos e pensar que é fácil testemunhar com a vida uma amizade verdadeira. Quem quer viver uma vida de santidade precisa estar disposto a sofrer, a não ser compreendido e a experimentar que a decisão pelo Senhor e por amar de forma pura e casta nos amadurece e nos faz homens muito melhores.

Viver assim é um desafio! Você aceita?

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

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Amizade: na dor, disfarce do Amor

quarta-feira, março 3rd, 2010

Em momentos de sofrimento e de dor em nossas vidas o que mais queremos é alguém com quem contar. Em uma cultura individualista, como a nossa, é difícil encontrar uma pessoa com quem possamos partilhar as nossas angústias, alguém que nos escute, que nos ajude a levantar em nossas quedas, que vá ao fundo do buraco nos resgatar. Por isso, nessas horas, determinadas pessoas se destacam, aproximando-se de nossas feridas, desrespeitando as nossas placas de “proibido seguir adiante” e enxergando nelas o nosso silencioso pedido de socorro. Assim são os amigos: aqueles que permanecem ao nosso lado quando todos se foram.


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“Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação” (Eclo 6,7)
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Davi pôde experimentar, de forma concreta, essa Palavra. Apesar de ter conhecido Jônatas logo depois da vitória sobre Golias, a amizade entre eles amadureceu em meio à dor da inveja e da perseguição de Saul. Foi na provação, no sofrimento que Davi pôde experimentar a Providência Divina na amizade de Jônatas. Ele não estava sozinho, mas tinha um amigo ao seu lado.

Talvez este também seja o grande desejo do seu coração: em meio à dor que tem vivido ter alguém com quem contar. Convido você para olhar em volta e tentar enxergar essa pessoa a partir das atitudes concretas que Jônatas teve para com o seu amigo Davi.

Diante da inveja e da perseguição de seu pai, Saul, Jônatas intercedeu pela vida de Davi (cf. I Sm 19,4). Em nossos momentos de sofrimento, um amigo é capaz de interceder por nós pedindo aos homens e a Deus pela nossa situação. Ele não vê limites para o seu clamor e mesmo sem poder fazer nada, “bombardeia” o céu com suas orações, confiante em que o Senhor é capaz de mudar aquela realidade. Santa Teresinha dizia que “Pensar em um amigo é rezar por ele”. Amigo intercede, clama e não se conforma com aquilo que os olhos alcançam: ele sempre vê mais longe. Vê em nossos limites oportunidades para a graça de Deus se manifestar.

Dessa forma, Davi retoma seu lugar na corte de Saul por intermédio das mãos de seu amigo (cf. I Sm 19,7). Quando estamos sofrendo, perdidos em meio aos nossos sentimentos, a nossa primeira atitude é abandonar o nosso “território”, nossos sonhos, nossa coragem, a alegria de viver, o entusiasmo, a nossa esperança. Somente uma verdadeira amizade é capaz de “nos desinstalar”, de nos levar além, de nos devolver a nós mesmos. Um amigo tem a capacidade de nos devolver o que perdemos, de nos fazer retomar os territórios da nossa vida que, durante o caminho, fomos entregando sem lutar, sem resistir. Ele nos coloca onde devemos estar, fazendo-nos retomar o nosso lugar – como antes – diante da nossa vida, dos outros e diante de Deus.

Jônatas não mediu esforços para ajudar Davi. Ele estava disposto a fazer tudo para ver a vida de seu amigo em segurança (cf. I Sm 20,4). Para aqueles que nos amam, não há limites, porque sempre há a esperança da vitória. Estão sempre dispostos a fazer tudo o que está ao alcance deles para nos ver restaurados. É só observar os verdadeiros amigos de alguém que está preso, nas drogas, na prostituição ou doente. Eles não desistem e fazem tudo o que está ao seu alcance para ver o amigo de pé novamente. Quando todos já desistiram, quando todas as esperanças acabaram, eles continuam lá, confiantes em que o milagre pode acontecer.

Não há nada mais forte e capaz de restaurar uma vida de maneira completa do que o amor. Uma amizade pura e sem interesses é uma fonte de bênçãos inesgotável. Jônatas não estava preocupado com seus interesses, mas queria salvar a vida de seu amigo de todo o perigo. Por isso ele abençoou a vida de Davi não só com palavras, mas com a sua presença (cf. I Sm 10, 13). O amor puro de um amigo é a Providência de Deus na vida de muitas pessoas, pois é capaz de curar, de equilibrar, encorajar, levantar, restaurar, abençoar de maneira concreta e eficaz. O amor sincero de um amigo, mesmo que de forma limitada, é a imagem do amor ilimitado do Senhor por nós. A presença de um amigo é o disfarce que Jesus mais usa para entrar em nossa vida.

Então, conseguiu enxergar os amigos que o Senhor colocou ao seu redor? Ainda não? Olhe com calma. Sugiro que você – a partir do que leu – pense em pessoas próximas, como seus pais, seus irmãos… Mas se mesmo assim você não conseguir enxergar ninguém, eu tenho uma novidade para você: o Amor não quer usar disfarces! Jesus quer se manifestar pessoalmente na sua vida e lhe mostrar que Ele é o seu verdadeiro Amigo. Lembre-se de que amizades são sempre “disfarces” do Senhor. Mas por saber que a sua dor é grande demais, Cristo quer que você veja de forma clara – sem disfarces – que Ele é o seu verdadeiro Amigo.

Essa é grande alegria em ter amigos: eles são a forma adequada para o Senhor se manifestar em nossas vidas em cada momento, pois sempre nos remetem ao Amigo verdadeiro, que é o próprio Jesus. Se isso não acontece, se sua amizade não o tem levado para Deus, é hora de olhar em volta mais uma vez e trocar essa falsificação de amigo por um amigo de verdade, alguém que, atrás do disfarce, revele o Senhor.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

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Amizade desarmada

terça-feira, fevereiro 23rd, 2010

Em um mundo de inseguranças e desconfianças, fica cada vez mais difícil estabelecer relacionamentos profundos. Parece que todos têm medo de se expor, de mostrar sua verdade, por isso, sempre se aproximam das pessoas com desconfiança. Se somarmos a essa cultura de medo relacionamentos que não deram certo, traições e decepções, veremos pessoas cada vez mais isoladas e que optam por uma vida de solidão, mesmo que isso não seja o que realmente desejam.


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Uma amizade verdadeira só vai ser viável se ambos estiverem dispostos a se revelar e a expor a sua verdade para que esta torne esse relacionamento cada vez mais sólido e profundo. Isso precisa partir de ambos os lados, porque se um dos dois estabelecerem reservas, a amizade será como um barco de dois remadores, no qual só um rema: só vai rodar, sem sair nunca do lugar.

“Jônatas fez uma aliança com Davi, que amava como a si mesmo. Tirando a túnica com que estava vestido, deu-a a Davi, bem como suas vestes, e mesmo sua espada, seu arco e até seu cinturão” (I Sm 18,3-4).

Davi e Jônatas, mais uma vez, nos ensinam com sua amizade. A primeira atitude de Jônatas foi entregar tudo a Davi. Mesmo sendo um guerreiro, o filho do rei de Israel, ele entregou àquele simples pastor todas as suas defesas, suas seguranças e até mesmo seu cinturão, sinal de sua realeza. Ele entendeu que uma amizade de verdade começa com entrega, com despojamento, renúncia e transparência. Jônatas mais do que entregar tudo a Davi, se mostrou de forma total: sem defesas, máscaras ou títulos. Naquele momento ele se revelava ao amigo sem restrições.

Uma amizade sem entrega não subsiste! É evidente que essa entrega não se dá de uma hora para outra, no impulso de um momento, mas pouco a pouco com o decorrer do tempo. O mais importante que a Palavra quer nos revelar, no exemplo de Jônatas, é a necessidade de haver em nosso coração o desejo e a determinação de nos revelarmos ao outro de forma plena.

Davi não era amigo do príncipe de Israel, mas de Jônatas, um homem como ele. Quando nos entregamos e expomos os nossos corações e os nossos sentimentos, nos igualamos com aquele amigo e embarcamos na aventura daqueles que se arriscam por amor. Jesus viveu se arriscando por amor, revelando toda a Sua verdade aos que amava. Seja em Sua glória no Tabor ou em Sua miséria no Calvário, Cristo sempre se arriscava perante aqueles que amava. Ele se arriscava em perder, em ser abandonado, em ser traído, mas também se dava a oportunidade de ser cada vez mais amado por se revelar de forma total.

Não há seguranças para aqueles que amam verdadeiramente. Assim como não há como ter certeza de que aquele amigo não nos trairá. É arriscar-se como Jesus fez ao escolher Judas, para quem revelou os Seus segredos, amou intensamente, mas também foi roubado, vendido e traído. Amar sempre é um risco que nos aproxima mais do Senhor.

Correr esse risco vale a pena se vivermos a amizade no amor que se doa e que quer fazer o outro feliz. Diz a Palavra que depois de Jônatas entregar suas armas a Davi, este tinha êxito em todas as batalhas (cf. I Sm 18,5). Quando alguém percebe que um amigo se revelou – ou está se revelando – de forma completa, confiando totalmente nele, isso lhe dá forças para ir além de suas limitações e vencer as suas batalhas interiores. Ao revelar o seu amor sem restrições a alguém, você poderá testemunhar as libertações que esse sentimento gera na pessoa, mas também em sua vida.

Somente uma amizade desarmada será capaz de experimentar, em plenitude, tudo aquilo que o Senhor quer realizar. Nosso relacionamento com os irmãos sempre é um reflexo do relacionamento com Deus. Por isso, à medida que confiamos nas pessoas e nos revelamos a elas, sinalizamos que estamos cada vez mais entregues ao Senhor e por isso não temos medo de nos dar. Somos d’Ele e por isso não temos o que temer.

Experimente se arriscar em amar como Jesus fez, e esteja preparado para tudo, mas principalmente para ser amado e curado de forma verdadeira e plena.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

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Amar um amigo é amá-lo como a si mesmo

quinta-feira, fevereiro 18th, 2010

Quem entendeu que para se estabelecer uma verdadeira amizade é preciso amar a Deus em primeiro lugar, logo se vê impelido a buscar estabelecer relacionamentos, mas aprendendo com o Senhor como amar os seus amigos. O próprio Jesus nos deixou claro, com atos e palavras, que para amar de verdade é necessário amar ao próximo como a nós mesmos (cf. Mt 22,39). Sendo assim mais uma vez a prefiguração de uma amizade verdadeira, da amizade em Cristo, é demonstrada no relacionamento entre Davi e Jônatas.


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“Aconteceu que, terminando ele [Davi] de falar com Saul, Jônatas apegou-se a Davi. E Jônatas passou amá-lo como a si mesmo” (I Sm 18,1).

Essa é a primeira descrição bíblica da amizade entre os dois, que começa justamente na plenitude cristã da forma de amar. Quando eu amo alguém como a mim mesmo, entendo que ele é outra pessoa e não fico tentando modelá-lo conforme a minha vontade. Percebo que ele soma na minha vida justamente porque é diferente, sendo assim, fazê-lo parecido comigo é perder tudo o que as diferenças acrescentariam na vida um do outro.

Outra característica dessa forma de amar é a tolerância, o acolhimento e a misericórdia. Se eu amo a um amigo como me amo, entendo que ele é uma pessoa e não um super-herói. Não exijo perfeição porque ele é tão humano quanto eu, acolhendo assim suas limitações e fraquezas da mesma forma que acolho seus dons e qualidades. Aprendo com seus erros e posso contar com ele para me levantar quando os meus erros também me fizerem cair. Por conhecer minhas misérias e do que elas são capazes de fazer na minha vida, não espero dele perfeição, por isso não deixo a decepção habitar em meu coração.

Se eu estabeleço uma amizade desta forma, entendo que meu amigo é uma pessoa e não uma propriedade particular, um território reservado unicamente para ocultar minhas inseguranças e saciar minhas carências. A felicidade dele é a minha felicidade, por essa razão eu o deixo livre para ser amado por outros. Por amá-lo e reconhecê-lo como alguém muito especial, quero que também os outros conheçam os tesouros do seu coração. Isso não me leva ao sentimento de ter sido colocado de lado ou ameaçado, pois já experimentei o quanto aquele amigo me ama. Sei que sou único em sua vida e por isso não preciso de exclusividade, pelo contrário, permito que o amor cresça, transborde e atinja a muitos outros.

Jônatas, quando viu a necessidade de Davi partir, não o impediu; pelo contrário, foi o primeiro a incentivá-lo a ir. Ele sabia que, em uma amizade verdadeira, a liberdade do outro é peça fundamental e que, muitas vezes, forçá-lo a estar perto é uma maneira mais rápida de perdê-lo. Não havia entre eles apego desequilibrado, mas amor verdadeiro, que liberta e não aprisiona. E mesmo sendo esta a última vez que o viu antes de morrer, Jônatas viveu com a certeza de que havia um pedaço seu no coração de Davi, onde quer que ele estivesse.

Amar o próximo como a si mesmo é experimentar o amor de Deus em sua vida e permitir que ele transborde na vida dos outros. É a vocação própria do homem: amar. Porque sou profundamente amado, também quero amar profundamente. Justamente por isso não há como amar um amigo de verdade antes de fazer uma experiência profunda de amar e ser amado pelo Senhor. O amor aos irmãos é reflexo limitado do Amor ilimitado de Deus por nós. Só podemos dar o que temos. Se não nos sentimos amados, não nos amamos e não temos condições alguma de amar o outro.

A experiência do amor cristão é a da renúncia, do desapego, da oblação, do sacrifício. É amar para dar a vida a todo instante e não somente em momentos extremos. É dar a vida no silêncio, na oração e nas ações que não esperam nada em troca. Somente quem ama nas pequenas renúncias de uma amizade é capaz de amar com entrega total de vida. Jesus amou assim: amou na simplicidade do dia a dia, sendo capaz de dar toda a vida no momento decisivo. Ele deu o exemplo e nos deixou o ensinamento: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13).

Amar um amigo como a si mesmo é amar da forma como Jesus amava: se doar em amor buscando não a realização pessoal, mas a felicidade do outro. Não é fácil, mas é possível! Abrace a oportunidade de ser expressão concreta do Amor de Deus na vida daqueles que ama e derrame a sua vida em amor.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

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Perca o controle da sua vida para não perdê-la

terça-feira, outubro 27th, 2009

Crescemos numa sociedade que nos educou a ter o controle de todas as coisas. Desde o controle remoto da TV até a medicina - que a todo momento busca prever e remediar os males -, absolutamente tudo nos impulsiona a ter todas as situações em nossas mãos. Inocentemente, começamos a acreditar que não precisamos de ninguém, que sabemos tudo e que as nossas palavras são a verdade. Nos tornamos autosuficientes, fechados em nossas concepções e ideias que vão se adequando conforme a nossa necessidade e a nossa aparente “felicidade”. Somos criados para buscar a nossa independência pessoal.


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Acontece que nessa ilusão de ter todas as coisas sob o nosso controle, quando não sabemos como agir diante de uma situação, fugimos para não encará-la ou nos desesperamos, porque não sabemos o que fazer. Muitas vezes até Deus foi descartado de nossas vidas e, por isso, não há mais a quem recorrer. Por fim , na busca de independência pessoal, acabamos ficando sozinhos.

Isso não acontece somente com pessoas que estão longe do Senhor, pelo contrário, você pode estar todos os dias na Igreja, ser um consagrado, ou até mesmo um padre, e ainda assim não ter se colocado na posição de discípulo, de alguém que tem Jesus como o Mestre de sua vida. Na batalha para ser de Deus, buscamos ter tanto o domínio de nossas lutas que tiramos o Senhor do trono do nosso coração e nos sentamos nele. Caímos novamente no erro de Adão e Eva e desejamos ser como deuses (Gn3,5), senhores de tudo, de todos e de nós mesmos.

Pode ser que essa autosuficiência seja fruto de nossa criação, de traumas da nossa história ou das próprias lutas da vida que nos levaram a ser assim. Não importa! Quando encontramos Jesus, e nos entregamos a Ele, não estamos mais sozinhos. Não precismos lutar e nem provar para ninguém – nem para Deus – que somos fortes e estamos no controle de todas as situações. Não somos mais órfãos, sem amparo e nem apoio, mas temos um Pai que nos ama e tem, verdadeiramente, o controle de todas as coisas.

O nosso papel é se colocar em uma atitude filial e até mesmo infantil. Precisamos ser como crianças, que sabem de seus limites e reconhecem no Pai a segurança e o apoio. O que eu não posso, eu sei que Ele pode realizar. Quanto a mim, somente me abandono, me permito entrar na escola da vida mais uma vez – independente de quantos anos eu tenho –, me sentar na cadeira e me colocar como aluno, nas matérias da minha história nas quais eu me considerava doutor.

Assim, reconheço que sou muito menos do que imaginava, enxergo a minha verdade, os meus limites e me abandonando no Pai. Perco o controle, mas não por causa das situações, mas porque me disponho a colocar tudo, absolutamente tudo, nas mãos de Deus. Perco o domínio da minha vida, para não perdê-la.

Independente de qual é a situação que você está vivendo, pare de bancar o papel de forte. Você não precisa vestir a fantasia de super-homem ou mulher-maravilha, mentir para si mesmo, acreditando ser capaz de manter o controle dessa situação. Deus conhece você e o vê! Ele é Pai e sabe muito bem quem você é, suas vitórias e derrotas e, justamente por causa disso, te ama tanto.

Não importa se passou a vida inteira lutando na solidão, não tendo ninguém para lutar por você e com você. Pode ser até mesmo que você começou a ler este texto buscando respostas para o seu problema, buscando ter o controle da situação. Não importa se você não tenha achado a força necessária para sozinho enfrentar essa batalha. Ou melhor, que bom que isso não aconteceu! Você não encontrou forças para lutar sozinho, mas encontrou quem pode lutar por você e com você.

Seja criança novamente e, sem forças, peça ajuda ao seu Pai, que mais que um super-herói, é Deus. Se permita perder o controle da sua vida e experimente a alegria do cuidado e do carinho daqueles que são chamados filhos do Senhor.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com