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A amizade por Santo Agostinho
“Nem os bosques amenos, nem os jogos e cantos, nem os lugares suavemente perfumados, nem os banquetes sumptuosos, nem os prazeres da alcova e do leito, nem, tão pouco, os livros e versos podiam disfarçar a amargura do amigo que havia perdido. Tudo me causava horror, até a própria luz.
Os meus olhos buscavam por toda a parte o amigo que a morte me levara, e o mundo não mo devolvia. Cheguei a odiar todas as coisas, porque nada o continha, e ninguém mais me podia dizer como antes, ao chegar depois de uma ausência: «Aí vem ele!»
A alma não me obedecia, e com razão, porque para mim, era mais real e melhor o amigo querido que perdera do que o fantasma que mandava que tivesse resignação.
O que mais me confortava e alegrava eram sobretudo as consolações de outros amigos, com os quais partilhava o amor por aquilo que amava em Teu lugar.
Ama-se de tal modo os amigos que a consciência se julga culpada se não é capaz de amar aquele que ama, ou se não procura retribuir o amor com amor, e apenas procura na pessoa do amigo o sinal exterior da sua benevolência. Daqui, esse luto quando alguém morre, as trevas de dores, o coração umedecido pela mudança da doçura em angústia e a morte dos vivos pela perda da vida dos mortos.
Feliz o que Vos ama, feliz o que ama o amigo e Vós, e o inimigo por amor de Vós. Só não perde nenhuma amigo aquele a quem todos são queridos n’Aquele que nuca perdemos. E quem é Esse, senão o nosso Deus, o Deus que criou o céu e a terra e os enche porque, enchendo-os, os criou? Ninguém Vos perde, a não ser quem Vos abandona; e, se Vos deixa, para onde vai, para onde foge, senão de Vós manso, para Vós irado? Onde é que não encontra, no seu castigo, a vossa lei? ‘A vossa lei é a verdade’, e ‘Vós a mesma verdade’.”
S. Agostinho (354-430, filósofo e teólogo cristão, in Confissões)
Amizade: dom irrevogável
Eu não me canso de afirmar que amizade é um dom de Deus. Dom é dádiva, presente, bem que se goza, uma concessão da Providência. É graça! É uma iniciativa amorosa do coração do Senhor que sabe das nossas necessidades e que vem em nosso auxílio. Mas existem situações e circunstâncias que vão acontecendo e que podem nos levar a temer no fundo da alma. Imaginar que podemos perder o que tão especial Deus nos concedeu, nos leva muitas vezes a paralisar diante das situações. O medo nos faz esquecer uma grande verdade: “os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis” (Rm 11,29).
Irrevogável é aquilo que nada e nem ninguém pode revogar. Se amizade é dom de Deus, ela não pode se perder por qualquer situação. Vem de Deus, por isso é irrevogável. Existem processos dentro de um relacionamento de amizade que são próprios. Descobrir as diferenças, entrar em crise, questionar-se faz parte do processo de amadurecimento. Mas se a amizade vem realmente de Deus, foi uma iniciativa Dele, ela permanece.
Fomos formados em uma cultura que não admite nenhum tipo de sofrimento ou renúncia por nada. Isso inclui os relacionamentos. Diante de uma situação que me gera algum sofrimento dentro de uma amizade, eu posso cair na tentação de desistir dela para não sofrer, para não me deparar com os meus limites que o relacionamento com aquele amigo está me fazendo enxergar. Ou então, já dentro do momento de crise, eu não espero a tempestade passar e já pulo do barco no meio dela. Prefiro me arriscar a morrer afogado, do que esperar para ver o que vai acontecer. Prefiro morrer logo, do que sofrer o que é necessário.
Tudo precisa passar por uma certa ‘crise’ para amadurecer . São momentos decisivos que nos afligem, mas que nos levam a uma maturidade. Um momento de crise em uma amizade é um momento de muito sofrimento, de dor, mas que se bem vivido pode levar a um amadurecimento profundo. Não podemos negar que é muito difícil, de uma hora para outra, ter que viver com uma pessoa que você ama tanto um processo tão doloroso. Ficamos sem chão, sem entender, sem saber o que fazer ou como se comportar. Nos parece que o mundo caiu e que tudo que com tanto amor foi construído, agora está desmoronando. Afundamos em nossos sentimentos e esquecemos que “os dons de Deus são irrevogáveis”.
Nesse momento precisamos ter paciência e esperar o tempo que é necessários para o outro e para nós mesmos. Esperar nunca é fácil pois queremos tudo para ontem. Mas esperar amadurece, cria força e resistência. Um amigo que sabe esperar o tempo do outro, o processo próprio que o outro está vivendo, demonstra de forma concreta o seu amor. Suspende-se a fase de demonstrações explícitas de amor e entra em cena o tempo de amar no silêncio, na reserva e na espera. É a hora do amor que “é paciente, que desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo ”(I Cor 13, 4.7).
A amizade que era pública, passa pelo tempo do silêncio da cruz e do sepulcro. A escuridão rodeia os sentimentos e a visão do coração. Não enxergamos nada e precisamos caminhar pela fé. Olhar para dentro do coração e fazer memória de quanto amor e quanto bem aquela pessoa te fez viver. Esperar sabendo que perto do amanhecer a escuridão é mais intensa. Mas acreditar que o sol vai nascer e que a pedra do sepulcro vai rolar. Só experimenta a ressurreição de uma amizade, quem tem a coragem de passar pelo tempo da escuridão, do silêncio e da espera do sepulcro.
Amizade é dom irrevogável! Só a perco, se eu renuncio ou não aceito vivê-la. Se eu renuncio o presente, eu não posso ganhá-lo. Mas se eu tenho a coragem de enfrentar, mas também esperar e pagar o preço que for preciso por um verdadeiro amigo, poderei experimentar a novidade, a alegria e o poder da ressurreição: “Eis que eu renovo todas as coisas!” (Ap 21,5)
Seu irmão,
Renan Félix
renan@geracaophn.com
Soltando a língua: Amizade dom de Deus
Esse é um quadro do programa Revolução Jesus, na TV Canção Nova, que tratou do tema amizade. Quem apresenta é o Juninho, membro da Comunidade Canção Nova e meu grande amigo. Nesse vídeo ele fala um pouco da nossa amizade. Confere aí!
A amizade nos sacraliza
Sempre acreditei no valor de uma amizade. Amizade é algo tão sagrado ao coração de Deus, que Jesus teve seus amigos e fez questão de manifestar a importância deles em sua vida – mais do que com palavras –, mas com atos. Foi por Lázaro, seu amigo, que Ele chorou e demonstrou o mais íntimo de sua humanidade: Ele o amava (João 11,5).
Jesus nos deixa o exemplo e nos mostra o quanto um amigo é importante em nossas vidas. Era na casa de Lázaro, em Bethânia, que Ele descansava e ia para se refazer e se refugiar.

Uma amizade parte do princípio da comunhão de duas pessoas. Comunhão que não depende da mesma forma de pensar, de semelhanças, mas que depende de uma comunhão de coração acima de tudo. Um amigo mais que alguém parecido com você, é alguém que tem a capacidade de enxergá-lo como você é. De perceber no seu “lindo sorriso” a tristeza de sua alma. De perceber que – mesmo com medo – você é capaz de ir adiante, de ir além. De lhe mostrar os caminhos e acompanhá-lo quando estes se tornarem mais difíceis, estando sempre pronto para levantá-lo quando você cair.
Diante de uma amizade verdadeira corremos um grande risco: o risco de crescer. Uma amizade verdadeira nos faz deparar com nossas limitações, mas acima de tudo nos encoraja a ir além delas.
No olhar, você pode perceber uma amizade. Por isso, não precisa ser proclamada, se percebe. Esse perceber passa além do proclamar, do ver junto e do estar junto. Percebe-se no jeito de falar, no olhar preocupado, na ansiedade da chegada e na dor da partida.
A distância e o tempo não são empecilhos. Se os amigos permanecem longe um do outro parece que é uma eternidade, mas quando se encontram parece que foi ontem a última risada. É o coração que determina, é ele que faz o tempo parar ou correr diante de um amigo.
Mais que saber ser amigo na dor, um amigo sabe sê-lo na alegria. Ele se alegra com as vitórias e realizações do outro. Ele chora junto, sofre junto, espera junto, ama junto.
Deus me concedeu a graça de ter poucos, mas grandes amigos. Pessoas que são capazes de entrar no que há de mais sagrado em mim e tirar o melhor. De me levantar quando caio e de sempre me mostrar o horizonte. Quando sofro, sofro com eles e por eles. Quando me alegro é a alegria deles que me emociona. É com eles que experimento o amor e o cuidado de Deus.
Um amigo é algo sagrado ao coração de Deus. A amizade nos sacraliza. Obrigado, amigo, por fazer parte do que há de sagrado em mim.
Deus abençoe!
Renan Félix
renan@geracaophn.com
Quando começa uma amizade?
Talvez essa seja a grande pergunta que incomoda tanto aqueles que têm amigos quanto aqueles que querem vir a ter um. Os que os têm querem entender de que forma alguém ganhou tanto espaço em sua vida; os que não os têm, querem saber como um amigo pode surgir em sua vida.
Por experiência própria, posso afirmar que amigo nunca é alguém que você escolhe. Amizade é dom, vem de Deus e por isso mesmo, muitas vezes, se manifesta em nossas vidas de maneira surpreendente. Quando você vê, pronto: ganhou um amigo!

Todo o processo de amizade é um processo de separação, de sacralização. Uma mesa qualquer é uma mesa qualquer. Mas uma mesa separada para a celebração da Santa Missa, não é uma mesa qualquer, mas um altar. Ela foi separada para o sagrado. Da mesma forma, um amigo é alguém que era comum, apenas um irmão, mas foi separado para o que há de mais especial em nosso interior. Ele saiu do comum e foi colocado no santuário do nosso coração. Nele nós depositamos o que há de mais sagrado do nosso ser, sem medo de que seja usado contra nós ou que não seja dado o devido valor. Uma amizade é sagrada por trazer em si o que há de mais santo no coração de duas pessoas. Ela comporta o intocável, aquilo que não se consegue dizer, mas apenas viver e sentir.
É bonito perceber que quando alguém vai sendo formado por Deus, para ser seu amigo, as coisas que dizem respeito a essa pessoa ganham peso e têm importância na sua vida. O que ela vive é importante e não passa despercebido. As alegrias dela são as suas alegrias; as tristezas dela são as suas tristezas. Não há mais como viver impassível ao que ela vive. Você vive na sua alma aquilo que o outro vive na carne.
Amizade é um processo que pode ser construído com anos ou com minutos. O tempo não importa quando falamos de amigos. Amizade não conhece tempo, porque é dom, é graça de Deus. Ela vive em um período de graça que você não sabe quando começou nem quando vai acabar. Vive em um tempo que não tem tempo. Quando você percebe, aquele que até então era só mais um, traz agora uma visão sua que você mesmo não conseguia ver. Ele entrou, faz parte e não há como dividir, como separar. Como dizia Santo Agostinho: “Um amigo é metade da alma”.
Quando começa uma amizade? Quando eu paro de buscá-la por mim mesmo e deixo Deus me surpreender com o que Ele tem de melhor. Ele vem e não me deixa caminhar sozinho. Ele me dá um companheiro de viagem, alguém que possa olhar e entender tudo o que se passa comigo, sem que eu necessite lhe dizer uma só palavra. Como Amigo, Deus me dá um amigo.
Seu amigo,
Renan Félix
renan@geracaophn.com