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Amizade: na dor, disfarce do Amor

quarta-feira, março 3rd, 2010

Em momentos de sofrimento e de dor em nossas vidas o que mais queremos é alguém com quem contar. Em uma cultura individualista, como a nossa, é difícil encontrar uma pessoa com quem possamos partilhar as nossas angústias, alguém que nos escute, que nos ajude a levantar em nossas quedas, que vá ao fundo do buraco nos resgatar. Por isso, nessas horas, determinadas pessoas se destacam, aproximando-se de nossas feridas, desrespeitando as nossas placas de “proibido seguir adiante” e enxergando nelas o nosso silencioso pedido de socorro. Assim são os amigos: aqueles que permanecem ao nosso lado quando todos se foram.


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“Se queres adquirir um amigo, adquire-o na provação” (Eclo 6,7)
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Davi pôde experimentar, de forma concreta, essa Palavra. Apesar de ter conhecido Jônatas logo depois da vitória sobre Golias, a amizade entre eles amadureceu em meio à dor da inveja e da perseguição de Saul. Foi na provação, no sofrimento que Davi pôde experimentar a Providência Divina na amizade de Jônatas. Ele não estava sozinho, mas tinha um amigo ao seu lado.

Talvez este também seja o grande desejo do seu coração: em meio à dor que tem vivido ter alguém com quem contar. Convido você para olhar em volta e tentar enxergar essa pessoa a partir das atitudes concretas que Jônatas teve para com o seu amigo Davi.

Diante da inveja e da perseguição de seu pai, Saul, Jônatas intercedeu pela vida de Davi (cf. I Sm 19,4). Em nossos momentos de sofrimento, um amigo é capaz de interceder por nós pedindo aos homens e a Deus pela nossa situação. Ele não vê limites para o seu clamor e mesmo sem poder fazer nada, “bombardeia” o céu com suas orações, confiante em que o Senhor é capaz de mudar aquela realidade. Santa Teresinha dizia que “Pensar em um amigo é rezar por ele”. Amigo intercede, clama e não se conforma com aquilo que os olhos alcançam: ele sempre vê mais longe. Vê em nossos limites oportunidades para a graça de Deus se manifestar.

Dessa forma, Davi retoma seu lugar na corte de Saul por intermédio das mãos de seu amigo (cf. I Sm 19,7). Quando estamos sofrendo, perdidos em meio aos nossos sentimentos, a nossa primeira atitude é abandonar o nosso “território”, nossos sonhos, nossa coragem, a alegria de viver, o entusiasmo, a nossa esperança. Somente uma verdadeira amizade é capaz de “nos desinstalar”, de nos levar além, de nos devolver a nós mesmos. Um amigo tem a capacidade de nos devolver o que perdemos, de nos fazer retomar os territórios da nossa vida que, durante o caminho, fomos entregando sem lutar, sem resistir. Ele nos coloca onde devemos estar, fazendo-nos retomar o nosso lugar – como antes – diante da nossa vida, dos outros e diante de Deus.

Jônatas não mediu esforços para ajudar Davi. Ele estava disposto a fazer tudo para ver a vida de seu amigo em segurança (cf. I Sm 20,4). Para aqueles que nos amam, não há limites, porque sempre há a esperança da vitória. Estão sempre dispostos a fazer tudo o que está ao alcance deles para nos ver restaurados. É só observar os verdadeiros amigos de alguém que está preso, nas drogas, na prostituição ou doente. Eles não desistem e fazem tudo o que está ao seu alcance para ver o amigo de pé novamente. Quando todos já desistiram, quando todas as esperanças acabaram, eles continuam lá, confiantes em que o milagre pode acontecer.

Não há nada mais forte e capaz de restaurar uma vida de maneira completa do que o amor. Uma amizade pura e sem interesses é uma fonte de bênçãos inesgotável. Jônatas não estava preocupado com seus interesses, mas queria salvar a vida de seu amigo de todo o perigo. Por isso ele abençoou a vida de Davi não só com palavras, mas com a sua presença (cf. I Sm 10, 13). O amor puro de um amigo é a Providência de Deus na vida de muitas pessoas, pois é capaz de curar, de equilibrar, encorajar, levantar, restaurar, abençoar de maneira concreta e eficaz. O amor sincero de um amigo, mesmo que de forma limitada, é a imagem do amor ilimitado do Senhor por nós. A presença de um amigo é o disfarce que Jesus mais usa para entrar em nossa vida.

Então, conseguiu enxergar os amigos que o Senhor colocou ao seu redor? Ainda não? Olhe com calma. Sugiro que você – a partir do que leu – pense em pessoas próximas, como seus pais, seus irmãos… Mas se mesmo assim você não conseguir enxergar ninguém, eu tenho uma novidade para você: o Amor não quer usar disfarces! Jesus quer se manifestar pessoalmente na sua vida e lhe mostrar que Ele é o seu verdadeiro Amigo. Lembre-se de que amizades são sempre “disfarces” do Senhor. Mas por saber que a sua dor é grande demais, Cristo quer que você veja de forma clara – sem disfarces – que Ele é o seu verdadeiro Amigo.

Essa é grande alegria em ter amigos: eles são a forma adequada para o Senhor se manifestar em nossas vidas em cada momento, pois sempre nos remetem ao Amigo verdadeiro, que é o próprio Jesus. Se isso não acontece, se sua amizade não o tem levado para Deus, é hora de olhar em volta mais uma vez e trocar essa falsificação de amigo por um amigo de verdade, alguém que, atrás do disfarce, revele o Senhor.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

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> Amar um amigo é amá-lo como a si mesmo

> Amizade desarmada
>Davi e Jônatas: uma amizade que incomoda

Você será tratado da mesma forma que Jesus

terça-feira, novembro 10th, 2009

Você será tratado da mesma forma que Jesus Deus é amor, e onde existe amor, ali Deus está. Já reparou que, embora com muito esforço, lutas e quedas, esmorecimentos e desânimos, você segue o Senhor e quer andar observando Suas leis e mandamentos Esforça-se por conhecer Sua Palavra e ser uma pessoa cheia do Espírito Santo? Luta para viver, na prática, a Palavra, mas é alvo de perseguições e calúnias? Falam de você, prejudicam-no e maltratam? E que, quando você era uma pessoa “comum”, nada disso acontecia? Então, você pensa: “Certamente estou errado. Não estou no caminho correto”.

Muitos deixam o caminho do Senhor por causa das dificuldades e oposições, por causa do que as pessoas dizem e dos comentários que fazem, do que elas inventam a seu respeito e pelas várias perseguições que suporta. Não é um simples complexo de perseguição; não se trata de sentir que você é perseguido ou rejeitado. Realmente é isso mesmo o que acontece.

Pergunte a si mesmo e ao Senhor: “Por que acontece tudo isso?” Sabe qual é a resposta? Porque você é discípulo de Jesus. O próprio Jesus disse: “Já que trataram de Beelzebul o dono da casa, com quanto maior razão dirão o mesmo dos de sua casa! (Mt 10,25b).

Você não pode se esquecer de que Jesus é o único justo. Ele foi o homem mais equilibrado que houve na face da terra; no entanto, foi incompreendido, perseguido e caluniado. Colocaram mil barreiras a Ele, apertaram o cerco até O condenarem e O levarem à morte. Você é discípulo de Jesus, O segue e tem sua Palavra. Pela graça do Senhor, você tem a mentalidade do Espírito Santo. Se trataram assim a Jesus, vão tratá-lo da mesma forma. Não por você, mas causa do Senhor.

E será sempre assim. As trevas sempre irão se opor à luz. Quando você começa a ser luz, as trevas o atacam e perseguem. Não tenha receio, pois o próprio Jesus chamou de bem-aventurados aqueles que são perseguidos. Vamos conferir:

Felizes os perseguidos por causa da justiça: deles é o reino dos céus. Felizes sois vós quando vos insultam, vos perseguem e mentindo dizem contra vós toda a espécie de mal por minha causa. Alegrai-vos e regozijai-vos, porque grande é a vossa recompensa nos céus: foi assim, com efeito, que perseguiram os profetas que vos precederam. (Mt 5,10-12).

Essa é a última bem-aventurança. Jesus a amplia mais porque sabia que era essa a mais difícil. Nesses versículos, Jesus não diz isso só por dizer, não se trata de mera retórica. O Senhor nos garantiu: “bem-aventurado sereis”. Você será feliz! É uma grande sorte ser assim. “Bem-aventurado será quando o insultarem, o perseguirem e, mentindo, disserem contra você toda a espécie de mal por minha causa.”

Aí está o precioso: “por minha causa”. Não é pelo fato de fazer sua vontade ou por seus erros humanos, mas “por minha causa”. E quando fizer isso “por minha causa”, não tema, não receie, isto é uma sorte, é uma grande sorte.

Alegrai-vos e regozijai-vos, porque grande é a vossa recompensa nos céus: foi assim, com efeito, que perseguiram os profetas que vos precederam (Mt 5,12).

Felizes sois vós quando os homens vos odeiam, quando vos rejeitam, e quando insultam e proscrevem vosso nome como infame por causa do Filho do Homem (Lc 6,22).

Os verdadeiros profetas, os cristãos verdadeiros, os homens do mundo ultrajam, perseguem, caluniam e se opõem. Os falsos profetas, os cristãos medíocres, sem qualidade de sal e de luz, os homens deste mundo elogiam, falam bem, exaltam. Aí está o teste para saber de que lado você está. Se os homens elogiam você, se eles falam bem de você e o tratam bem, se batem nas suas costas, dizendo: “Está tudo bem, maravilhoso”, parece então que, na visão de Jesus, você não tem a qualidade de um verdadeiro cristão, de um profeta verdadeiro.

Se pelo reino de Deus, por causa de suas atitudes cristãs, de sua linguagem renovada, por sua fé e porque segue os mandamentos do Senhor sem medo e sem receio de nada, você é rejeitado e perseguido, alegre-se. Você está tendo um sinal evidente de que, com toda a sua fraqueza, está sendo um verdadeiro cristão. Por tal razão, Jesus o chama de bem-aventurado.

Não existe Cristianismo sem cruz. “Sofrimento sem sofrimento não é sofrimento. Dor sem dor não é dor”.

Seu Mestre foi à sua frente com uma cruz às costas, flagelado e coroado de espinhos. O que o espera é isso também. Quando o Pai o trata assim, Ele não está sendo cruel; pelo contrário, trata-o como filho que não é deste mundo, mas está destinado a viver neste mundo e a dar a vida por eles. O Pai o trata com austeridade, porque você é filho d’Ele e Ele o quer para Si, a Seu lado, na feliz eternidade para todo o sempre.

Se você sofre por causa de Jesus, alegre-se. Se sofre por causa do Reino, se é incompreendido e perseguido, caluniado e ultrajado por causa do Evangelho, alegre-se! Bem-aventurados sereis.

Trecho do livro “O Pão da Palavra – Volume 1” de monsenhor Jonas Abib   

Perca o controle da sua vida para não perdê-la

terça-feira, outubro 27th, 2009

Crescemos numa sociedade que nos educou a ter o controle de todas as coisas. Desde o controle remoto da TV até a medicina - que a todo momento busca prever e remediar os males -, absolutamente tudo nos impulsiona a ter todas as situações em nossas mãos. Inocentemente, começamos a acreditar que não precisamos de ninguém, que sabemos tudo e que as nossas palavras são a verdade. Nos tornamos autosuficientes, fechados em nossas concepções e ideias que vão se adequando conforme a nossa necessidade e a nossa aparente “felicidade”. Somos criados para buscar a nossa independência pessoal.


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Acontece que nessa ilusão de ter todas as coisas sob o nosso controle, quando não sabemos como agir diante de uma situação, fugimos para não encará-la ou nos desesperamos, porque não sabemos o que fazer. Muitas vezes até Deus foi descartado de nossas vidas e, por isso, não há mais a quem recorrer. Por fim , na busca de independência pessoal, acabamos ficando sozinhos.

Isso não acontece somente com pessoas que estão longe do Senhor, pelo contrário, você pode estar todos os dias na Igreja, ser um consagrado, ou até mesmo um padre, e ainda assim não ter se colocado na posição de discípulo, de alguém que tem Jesus como o Mestre de sua vida. Na batalha para ser de Deus, buscamos ter tanto o domínio de nossas lutas que tiramos o Senhor do trono do nosso coração e nos sentamos nele. Caímos novamente no erro de Adão e Eva e desejamos ser como deuses (Gn3,5), senhores de tudo, de todos e de nós mesmos.

Pode ser que essa autosuficiência seja fruto de nossa criação, de traumas da nossa história ou das próprias lutas da vida que nos levaram a ser assim. Não importa! Quando encontramos Jesus, e nos entregamos a Ele, não estamos mais sozinhos. Não precismos lutar e nem provar para ninguém – nem para Deus – que somos fortes e estamos no controle de todas as situações. Não somos mais órfãos, sem amparo e nem apoio, mas temos um Pai que nos ama e tem, verdadeiramente, o controle de todas as coisas.

O nosso papel é se colocar em uma atitude filial e até mesmo infantil. Precisamos ser como crianças, que sabem de seus limites e reconhecem no Pai a segurança e o apoio. O que eu não posso, eu sei que Ele pode realizar. Quanto a mim, somente me abandono, me permito entrar na escola da vida mais uma vez – independente de quantos anos eu tenho –, me sentar na cadeira e me colocar como aluno, nas matérias da minha história nas quais eu me considerava doutor.

Assim, reconheço que sou muito menos do que imaginava, enxergo a minha verdade, os meus limites e me abandonando no Pai. Perco o controle, mas não por causa das situações, mas porque me disponho a colocar tudo, absolutamente tudo, nas mãos de Deus. Perco o domínio da minha vida, para não perdê-la.

Independente de qual é a situação que você está vivendo, pare de bancar o papel de forte. Você não precisa vestir a fantasia de super-homem ou mulher-maravilha, mentir para si mesmo, acreditando ser capaz de manter o controle dessa situação. Deus conhece você e o vê! Ele é Pai e sabe muito bem quem você é, suas vitórias e derrotas e, justamente por causa disso, te ama tanto.

Não importa se passou a vida inteira lutando na solidão, não tendo ninguém para lutar por você e com você. Pode ser até mesmo que você começou a ler este texto buscando respostas para o seu problema, buscando ter o controle da situação. Não importa se você não tenha achado a força necessária para sozinho enfrentar essa batalha. Ou melhor, que bom que isso não aconteceu! Você não encontrou forças para lutar sozinho, mas encontrou quem pode lutar por você e com você.

Seja criança novamente e, sem forças, peça ajuda ao seu Pai, que mais que um super-herói, é Deus. Se permita perder o controle da sua vida e experimente a alegria do cuidado e do carinho daqueles que são chamados filhos do Senhor.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com

Vídeo: Orar em meio a tribulação

terça-feira, setembro 15th, 2009

Mesmo na dor, uma amizade verdadeira gera frutos

quarta-feira, setembro 9th, 2009

Em um relacionamento, nem todos os momentos são de alegria e felicidade, como diz o ditado popular: “nem tudo são flores”. No decorrer do caminho, aparecem situações que nos impelem, que nos questionam, que nos paralisam e que nos fazem sofrer.

Situações que muitas vezes independem de nós. São fatores externos, mas que atingem diretamente as nossas vidas. E pode ser que esses fatores até mesmo possam levar dois amigos a se afastarem, por necessidade ou porque eles não sabem lidar com a situação naquele momento. É nesta hora que o sofrimento cresce e não há nada que possamos fazer a não ser esperar. O amigo tão próximo agora precisa se colocar distante e o coração chora a saudade de quem está perto.

Não há muito o que fazer nesses momentos, a não ser esperar e sofrer as demoras desse tempo. É preciso respeito e paciência com a outra pessoa e consigo. Mesmo tendo a consciência de tudo isso, e do que precisamos fazer, não é fácil e nem menos doloroso. Mas é necessário e precisamos lidar com os nossos sentimentos.

Nesses momentos de escuridão, onde não enxergamos nada, Deus nos dá a possibilidade de equilibrar e temperar os nossos sentimentos e até mesmo nos rever. Se nos dispomos a olhar para o interior e tirar o amadurecimento da dor, poderemos experimentar a consolação do Pai e nos surpreender com o Seu amor.

Acredito que num relacionamento de amizade, a comunhão que se cria entre os corações parte da doação. Um amigo doa ao outro um pouco de si, da sua vida, da sua história. Quando amamos alguém verdadeiramente, somos capazes de encontrar um pedaço de nós mesmos nessa pessoa. A comunhão é real se partilhamos o coração e a vida!

Deus é pedagógico e nos ensina que amar é muito mais do que estar perto; é “tocar” no outro com a alma e não com as mãos. Um amor que é muito maior do que o visível, o palpável, que vai além dos limites físicos, que transcende. Deus nos ensina a amar como Ele ama.

Eu posso amar um amigo concretamente e até mesmo “tocar” em seu coração a partir das pessoas que ele ama. Elas trazem em si um pouco dele e são capazes de atualizar no meu coração a felicidade e a alegria do encontro. Essas pessoas são capazes de trazer consolo e alívio a um coração marcado pela dor da ausência. São capazes de fazer presente o velho amigo em um simples “oi”, em um sorriso ou em um abraço apertado. O amor por aquele amigo, comum ao seu coração e ao daquela pessoa, supera qualquer obstáculo e qualquer distância e faz tudo se tornar um eterno presente.

A dor que é bem vivida, pode nos levar além do que os nossos olhos podem ver e nos fazer experimentar a novidade de Deus no coração de novas pessoas. Você pode até mesmo buscar alguém pensando no seu amigo, mas, com essa iniciativa, já estará correndo o risco de encontrar uma nova amizade. É a experiência do amor de Deus que transborda, transcende, contagia e une pessoas a partir de pessoas, corações a partir de corações, vida por meio de vida.

Pode ser que a distância que você vive hoje, seja física ou não, se trate de uma grande oportunidade de experimentar o amor de forma nova e surpreendente. Buscando estar perto de alguém, você se aproxima de outros e também entra em suas vidas. Uma amizade verdadeiramente em Deus não se fecha, mas nos lança a novas experiências. É a dinâmica do amor: quando amamos não há restrição, mas transbordamento e impacto na vida de outras pessoas. Uma amizade verdadeira, mesmo na dor da distância, gera frutos.

Seu irmão,
Renan Félix

renan@geracaophn.com