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“As nuvens carregadas de chuva roubavam, lentamente, as cores de tudo o que estava à nossa volta e todo o dia parecia fim de tarde. Foi quando aos poucos vi Deus assenta-se conosco à mesa, sem barulho, no silêncio do momento barulhento do café do fim de tarde.
O cheiro de pão se misturava ao sabor do café com leite, enquanto o vento soprava lá fora as gotas da chuva na janela da cozinha, que por sinal, parecia ser o menor canto da casa, lugar da partilha e do sagrado, gravado em nosso coração pelo criador.” ( Francisco Barbosa)
 

“Honra teus pais por atos, palavras, paciência”.Eclo 3,9 

O que é honrar?

            Segundo o dicionário Aurélio: do Lat. Honrare v. tr., conferir honras a;enobrecer;distinguir;v. refl., sentir-se enobrecido, elevado, engrandecido.

           É, hoje percebo que mais que amar minha família, preciso honrar, prestar honras, enobrecer tornar nobre dentro de mim aqueles que me são caros. Fazer memória dos que amo é poder ver nos fatos de minha vida um Deus que se fez homem e morou em um casebre, onde podia faltar tudo, mas não faltava: o amor.

           Lembro de meus anos de infância a casa de telha que abrigava minha família, das vezes que éramos acordados pela chuva que nos molhava, porém as mãos de  meu pai nos cobria e nos afastava daqueles pingos frios de chuva.

           Lembro-me das muitas vezes que no sacrifício cotidiano e nas ofertas diárias minha mãe abria mão de vestidos e roupas para que eu e meus irmãos tivéssemos aquele tênis, aquela camisa dos sonhos.   Como não enobrecer, como diz o autor sagrado:honrar, aqueles que me fizeram ser o homem que hoje sou?

            Quantas vezes cansado eu chegava, mas a comida quente me esperava. Quantas vezes minhas impaciências e revoltas eram mergulhadas no olhar doce de minha mãe que me esperava voltar para dentro de mim e me perceber filho. Minha casa… Como não dizer que em meio as dores e sofrimentos éramos uma família santuário de vida?

              Penso que a casa é para o casal e os filhos, o que o mosteiro é para o monje. A luta que travamos conosco mesmo para aceitar e suportar os defeitos do outro, a cada dia, com paciência e compreensão, faz-nos santos. As cruzes do lar, o desemprego, as doenças, as dúvidas, os vícios do conjuge, a dificuldade com os parentes, a preocupação com os problemas dos filhos, etc., tudo isso, torna-se na familia como que o “fogo” que queima as ervas daninhas de nossa alma e nos encaminha para a perfeição cristã. É preciso saber aproveitar toda e qualquer dificuldade do lar para fazer dela um degrau de crescimento na fé e no amor a Deus, pois “tudo concorre para o bem dos que amam a Deus” (Rom 8,28).

                Os espinhos do lar são as pequenas cruzes com as quais o Senhor nos santifica a cada dia. Os santos afirmavam que as provações mais difíceis de suportar são aquelas que nos vêm através dos bons, das pessoas que mais amamos. Alguém os chamou de “os bons carrascos”. As vezes são nossos pais, irmãos, esposa, filhos, ou simplismente, bons amigos…

              A familia  é chamada a ser templo, ou seja, casa de oração: uma oração simples, cheia de esforço e de ternura. Uma oração que se faz vida, para que toda a vida se transforme em oração.

              Não posso esquecer da comida mineira que com tanto tempero, temparava meu coração imperfeito no amar… Não, não posso esquecer de honrar meus pais pelos dias e noites não dormidas me esperando voltar como um filho pródigo que retornava para a casa.

                                            Adriano Gonçalves