Tempo de sofrimento pode ser tempo de crescimento

Faz certo tempo que tenho partilhado o testemunho de minha família. Dos milagres que nosso Senhor operou durante a gestação e nascimento de nossos dois filhos. Foram três experiências de UTI devido aos problemas nas duas gestações.

Nosso primeiro filho nasceu ao sexto mês de gestação por força do flagelo da eclâmpsia. Ele ficou mais de 60 dias na UTI, como também minha esposa, que passou 22 dias hospitalizada.

No último texto, partilhei sobre nossa filha, que nasceu bem no oitavo mês de gestação. No entanto, por ser pequena e estar abaixo do peso, precisou ir para a UTI, a fim de ganhar peso. Porém, lá ela contraiu uma infecção. Foi desenganada pelos médicos a ponto de recebermos, na madrugada, a ligação do hospital, para irmos nos despedir dela.

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O trauma de receber a ligação

Já não tenho certeza se voltamos a dormir naquela madrugada, mas me lembro de como passamos aquele dia, até a hora da visita na parte da tarde. Em 2013, não tínhamos os meios de comunicação que temos nos dias de hoje em nossos celulares. Para sermos encontrados, era preciso efetuar uma ligação para nós. Como isso não é barato, o telefone tocava poucas vezes. Com a experiência do susto do telefonema que havíamos recebido na madrugada, cada vez que o celular tocava, sentíamos gelar a alma! Imagine a experiência de aguardar a morte tocar ao telefone… E quantos não estão, neste exato momento, passando por isso!

São várias crianças na UTI neonatal. Não podíamos passar muito tempo com eles na hora da visita. Eram 30 minutos certinhos. Revesávamos esse tempo entre minha esposa e eu, cada um ficando 15 minutos com nossa filha. Como a hora da visita era a mesma para todo mundo, ali, na sala de espera da UTI, interagíamos com outros casais em situação semelhante a nossa.

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Só pode testemunhar aquele que viu ou vivenciou algo; e é justamente isso que venho fazendo desde os últimos posts. Tenho partilhando tudo o que pude lembrar daquilo que o Senhor fez na vida de minha família. De modo particular, a gestação e o nascimento de nossos dois filhos, o André e a Maria Júlia.

No último texto, eu falei sobre o que foi a gestação de nossa filha, que, ao nascer, foi conduzida para a UTI neonatal para ganhar peso, pois, ao oitavo mês de gestação, devido a uma má irrigação sanguínea no útero, estava com somente 1300g. Em torno do décimo quinto de dia UTI, ela foi acometida de uma infecção generalizada, o que causou uma parada cardiorrespiratória. Fomos chamados às pressas para nos despedirmos dela ainda com vida.

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O susto da ligação do hospital foi muito grande

O toque do telefone estava alto, e aquele som ficou gravado em nosso interior de tal forma que, toda vez que ele tocava novamente, vinha a dolorosa recordação do que ele anunciara naquela madrugada: a médica da UTI que nos chamava para ver nossa filha pela última vez viva. E esse toque, por assim dizer, fúnebre, desesperado, doloroso, lembrava-nos que algo ainda pior poderia ser anunciado novamente. Por fim, troquei o som. Inútil foi, pois enquanto a Maria Júlia estivesse em estado grave na UTI, qualquer ligação nos assustaria.

Ao dirigir às pressas para o hospital, tomei consciência da gravidade da coisa e rompi o silêncio no carro: “Amor, você sabe que quando nos ligam assim, fora da hora de visita, é para se despedir, né?”. A Elisa só sinalizou com a cabeça.

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No último texto, contei-lhe como foi o caminho percorrido por nós, na tentativa de ter outro bebê. Foram três anos de discernimento ligados aos médicos, psicólogos e pessoas que nos acompanhavam na Canção Nova.

1600x1200-KatarzynaBialasiewiczFoto: KatarzynaBialasiewicz

Um novo milagre se fez

Novo milagre se fez: o Senhor dos deu nova gestação! Dessa vez, de uma menina! Maria Júlia é o seu nome. Pensamos em Maria por causa de Nossa Senhora, colocamo-nos debaixo de Seu manto e de sua intercessão.

Apesar de todo caminho percorrido junto às pessoas que nos ajudaram, tocamos em fragilidades que, de certa forma, eram esperadas. Era a luta interior do medo em confronto com a segurança. As preocupações versus a realidade. Iniciou-se um tempo de tensão constante, oriunda das dificuldades que enfrentamos na primeira gestação. Com o passar dos meses, essa tensão ia intensificando-se. O controle dos pensamentos era a coisa mais difícil. Por causa da sua insistência, aos poucos foi necessário admiti-los e, a partir daí, procurarmos meios de nos trazer controle. Por exemplo: compramos um daqueles aparelhinhos de aferir pressão em casa. Às vezes, era ele que nos acalmava. De vez em quando, uma simples dor de cabeça já era motivo para aferirmos a pressão da Elisa. “Só para ter a certeza de que não era nada sério”. Intensificamos o acompanhamento psicológico e oração.

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Os sinais de Deus nos nutria para ter outro filho

Inverno de 2009. Foi ali que parei a narrativa da primeira fase de nosso testemunho de família.

Agora, vamos adiante! Após sete anos, finalmente consegui colocar para fora grande parte do que se passou no coração de nossa família: os sentimentos, os ensinamentos e a experiência de Deus que tivemos no momento da prova e da dor. Nosso filho nasceu com seis meses de gestação devido à eclâmpsia que minha esposa passou. Foram muitas complicações que nos colocaram frente a frente com a morte. Para a glória de Deus, ambos superaram esse tempo!

1600x1200Foto:  Darrya/ by Getty Images

“A mulher, quando está para dar à luz, sente tristeza, porque é chegada a sua hora; mas, depois de ter dado à luz a criança, já não se lembra da aflição, pelo prazer de haver nascido um homem no mundo” (João 16,21).

A presença de nosso bebê em casa trouxe-nos uma alegria imensa, tal e qual o versículo acima. Tanto quanto ele precisava de nós, sua presença era a nossa necessidade. Estar com ele era mais intenso do que os sentimentos que tínhamos com as lembranças dolorosas. Os sinais de Deus que vivemos nos nutriam e mantinham em pé.

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Um caminho duro, mas fecundo

Chegamos ao fim da primeira fase de partilha da história de minha família. Essa fase foi marcada pelo início da gestação do nosso primeiro filho, o André. Foi um caminho difícil, pois, ao sexto mês de gestação, minha esposa enfrentou a eclâmpsia. Nosso filho nasceu nesse susto. A Elisa passou 22 dias hospitalizada, dentre os quais, 15 dias na UTI com muitas complicações. Ao mesmo tempo, nosso filho ficou 76 dias na UTI infantil.

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A prematuridade deixou meu filho na UTI por mais de sessenta dias

Estamos na reta final de um tempo de profunda experiência de Deus, vivido no sofrimento da eclâmpsia que minha esposa passou, ao sexto mês de gestação. Nosso filho teve que nascer e foi direto para a UTI neo natal, pois era prematuro demais, pensando somente 930g. Após superarmos, por meio da ajuda de Deus e muitos milagres, 22 dias de internação da minha esposa, dos quais 15 dias foram em UTI, agora ela estava em casa. Mas a jornada com o nosso filho estava apenas no começo, pois ele precisou passar 67 dias na UTI.

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Desde a primeira semana em casa, após a alta da minha esposa, não deixamos de comparecer à UTI neo natal nenhum dia. Durante todo esse tempo, tivemos altos e baixos. A gente se mantinha em oração e procurando colher de Deus os pequenos sinais que nos dariam esperanças, pois nunca foi fácil viver tudo isso, as vezes faltava a força de continuar. Era um sentimento difícil de descrever. Depois de um turbilhão de coisas que passamos, estávamos no meio de um tempo que não era esperado, que não tínhamos preparo pra viver, e que por isso, não sabíamos lidar.

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Uma maravilhosa jornada

Há algum tempo, pus-me a escrever parte do testemunho de vida de minha família. Selecionei a fase que passamos do nascimento prematuro de nosso primeiro filho ao estabelecimento completo da sua saúde. Minha esposa enfrentou o flagelo da eclâmpsia ao sexto mês de gestação. Nosso filho foi retirado de seu ventre e levado para a UTI neonatal. Logo em seguida, as complicações oriundas da eclâmpsia sobrevieram a minha esposa, obrigando-a a passar 15 dias na UTI.

1600x1200-ElisangelaFoto: ImagineGlof by Getty Images/iStock.by Getty Images

Dez dias se passaram, após o parto, para que os rins da Elisa, pouco a pouco, voltassem a funcionar.

Começamos a viver dias de grandes vitórias! De acordo com que os rins iam voltando a funcionar, as hemodiálises iam se espaçando. O inchaço que a acometia estava diminuindo. Por consequência, sua pressão estava passando por um controle melhor, apesar de ainda estar alta.

Foram até aqui, ao todo, 15 dias de UTI. Todos os dias eu ia até o André, na UTI neonatal, e passava cerca de 20 minutos com ele. Saia de lá para estar pelo menos por 15 minutos com a Elisa na UTI adulto. O tempo que ela passou hospitalizada foram, ao todo, 22 dias.

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Sofrimento como caminho de conversão

Na oração da “Salve Rainha”, num dado trecho, dizemos:

“… a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.”

Essa é a nossa condição: vivemos em um vale de lágrimas! Falo, com toda convicção, que não tem jeito de passar por essa vida sem ter sofrimentos.

A realidade do ser humano: ter sofrimentosFoto: Wesley Almeida/cancaonova.com

O ser humano passa todo o tempo buscando o Paraíso, mas o que é o Paraíso? É a comunhão perfeita com Deus. Nossa alma tende, constantemente, para Deus, mas nós confundimos essa inclinação pelo Senhor, pelas meras experiências de prazer e euforia nas coisas passageiras deste mundo. Mesmo as coisas que consideramos das mais importantes, como a graça de ter uma boa família, não plenifica o nosso coração. Ao contrário, quando qualquer um de nós tem uma experiência com o Senhor, a alegria é tão intensa, que todo o resto diminui frente a isso!

 É fundamental aceitar o sofrimento como condição da existência

O sofrimento é um trampolim que podemos utilizar para um encontro com Deus. Como não dá passar por essa vida sem sofrer, podemos fazer do sofrimento algo fecundo: um caminho de conversão. A cruz foi o meio que nosso Senhor Jesus utilizou para conduzir todos à salvação. A dor é como fogo que nos prova, provoca-nos a sermos melhores e nos impulsiona para estarmos próximos daquilo que realmente traz sentido à vida: Deus e as pessoas.

Imagine se você tomar nas mãos as suas dores e ter uma atitude ativa: “Onde essa dor está me provocando a ser melhor?”, “O que tenho a aprender com isso, que possa ajudar os outros?”, “O que Cristo faria nessa hora?”. Isso é ter uma atitude ativa diante da dor e não mais ser um coitado; é ter nas mãos a realidade da própria vida.

Era essa a minha postura diante de tudo o que venho partilhando com você, sobre a eclâmpsia que minha esposa sofreu e os seus desdobramentos.

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No centro de hemodiálise, comecei a dar-lhe apoio e palavras de esperança para ela não desistir

Semana passada, estava partilhando sobre o retorno de minha esposa à UTI após o parto prematuro de seis meses de nosso filho. Foi preciso retirá-lo devido ao flagelo da eclâmpsia que a Elisa passou.

Nesta semana, partilho como o quadro de saúde dela era grave, pois estava sofrendo muito devido à parada dos rins, a pressão elevada em demasia e o inchaço que a acometia.

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Foto: sudok1 / iStock. by Getty Images

Num desses dias em que fui visitá-la, coincidiu de ela estar descendo do andar da UTI e sendo levada para a hemodiálise. Pedi para visitá-la ali. Fui liberado, mas minha sogra não pôde entrar. Eu a encontrei em um estado de inchaço cada vez pior. Os médicos estavam administrando altas dosagens de diuréticos para “ressuscitarem” seus rins. Por isso, em cada sessão de hemodiálise, era retirado de seu corpo mais de cinco litros de água!

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Como lidar com os sentimentos ao deixar minha esposa e meu filho na UTI entre a vida e morte?

Semana passada, tratamos dos momentos finais da gestação de nosso bebê e seu nascimento. Tão logo ele nasceu, minha esposa começou a passar muito mal, a ponto de ter que ser novamente conduzia à UTI. Minha sogra e eu fomos obrigados a ir embora do hospital deixando ambos, mãe e filho.

Todas as pessoas com os quais partilhamos sobre os acontecimentos que precederam o nascimento do André demonstraram os mesmos sentimentos que nos possuía: frustração, angústia, humilhação… Juntava-se a isso uma grande compaixão pela minha situação e de nossos familiares presentes em casa.

 

Minha esposa e meu filho entre a vida e a morte na UTIFoto: Andrei Malov / iStock. by Getty Images

Após o parto, as complicações

A pressão da Elisa tornou a subir após o parto, contrariando assim toda a expectativa da médica e nossa. O processo normal de recuperação da eclâmpsia seria diminuir a pressão após a retirada do bebê, no entanto, essa certeza foi substituída por um descontrole total da pressão. Ela desenvolveu uma síndrome rara chamada Hellp, sofrendo novo aumento de pressão, inchaço e insuficiência renal aguda. Felizmente, ela não desenvolveu todo o quadro da síndrome, pois seria fatal. Eu nem sei quantos remédios de controle de pressão ela estava tomando, mas eram vários.

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