A prematuridade deixou meu filho na UTI por mais de sessenta dias

Estamos na reta final de um tempo de profunda experiência de Deus, vivido no sofrimento da eclâmpsia que minha esposa passou, ao sexto mês de gestação. Nosso filho teve que nascer e foi direto para a UTI neo natal, pois era prematuro demais, pensando somente 930g. Após superarmos, por meio da ajuda de Deus e muitos milagres, 22 dias de internação da minha esposa, dos quais 15 dias foram em UTI, agora ela estava em casa. Mas a jornada com o nosso filho estava apenas no começo, pois ele precisou passar 67 dias na UTI.

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Desde a primeira semana em casa, após a alta da minha esposa, não deixamos de comparecer à UTI neo natal nenhum dia. Durante todo esse tempo, tivemos altos e baixos. A gente se mantinha em oração e procurando colher de Deus os pequenos sinais que nos dariam esperanças, pois nunca foi fácil viver tudo isso, as vezes faltava a força de continuar. Era um sentimento difícil de descrever. Depois de um turbilhão de coisas que passamos, estávamos no meio de um tempo que não era esperado, que não tínhamos preparo pra viver, e que por isso, não sabíamos lidar.

O processo natural, após ter conhecimento da gravidez, seria sonhar com o quarto do bebê, pensar no nome, começar a montar um enxoval, imaginar os dias com ele em casa, experimentar  como seria ser pai e ser mãe… Víamos vídeos e líamos bastante sobre os cuidados com o bebê, como educar… Do nada, absolutamente tudo isso se dissolve por um problema que causou um tremendo risco de vida para minha esposa e meu bebê.

E agora, em casa, sem ter tido um tempo adequado pra passar por cada etapa que citei acima, com o quarto do nosso filho incompleto, sem roupinha nenhuma que pudesse caber num corpinho de pouco mais de 1kg, e principalmente, sem a sua presença ali. Tudo estava sem conexão. Nada daquilo parecia ter um sentido.

 

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Dia após dia, precisávamos administrar esses sentimentos com as minúsculas alterações do quadro de saúde dele. Em um dia, ele ganhava 25 gramas. Em outro dia, perdia bastante por conta de problemas ao qual ficava exposto: infecções, dificuldades em mamar, as vezes “esquecia” de respirar…

Ele só sairia da UTI, depois de longo tempo sem intercorrências, sabendo mamar e com mais de 1k800g.

Como perseverar no sofrimento?

O primeiro passo foi a gente aceitar que estávamos passando por aquilo. A negação dessa realidade, nos colocaria em um mundo inexistente. Nos colocaria fora da realidade tentando viver alguma coisa que não estaria acontecendo.

Viver um sofrimento grande como esse, traz um estado de tristeza constante. Inventar coisas ou pensamentos para tentar eliminar essa tristeza é bobagem. Às vezes nos sentimos mais fortes, as vezes mais fragilizados. São os altos e baixos.

A perseverança é como um silencio interior. As coisas não mudam por força de pensamento. Ficar remoendo a coisa acaba mexendo com os sentimentos, daí, sabe-se lá onde isso vai parar. A realidade que causa o sofrimento está aí. As vezes não há o que fazer. Somente estar em oração e ter paciência.

Esse silencio interior só pode ser rompido se for para falar com Deus. Permanecer em oração não significa ficar o tempo todo rezando, mas com as atitudes na vida, procurar agradar a Deus. Por exemplo não ficar reclamando, fugir das ocasiões de pecado, trabalhar a constância e a fé. Os sacrifícios e mortificações são um caminho seguro de dar sentido a tudo o que se vive.

Há problemas que precisam ser vividos. E às vezes não tem solução fácil e rápida! Tentar se desvencilhar do sofrimento inconsequentemente só transfere o problema de lugar. É importante pedir a Deus um sentido pra todo o sofrimento que se está passando. Foi como eu disse a uns textos atrás. “Onde essa dor está me provocando a ser melhor?”, “O que tenho a aprender com isso, que possa ajudar os outros?”, “O que Cristo faria nessa hora?” São três perguntas que nos colocam em submissão frente a Deus e a realidade, e que fazem as coisas todas terem outra perspectiva.

Por fim, a paciência tudo alcança. O exercício da paciência é fundamental para se viver! Sem a paciência, estragamos tudo. Ela não é sinônimo de passividade. Veja, tudo o que escrevi acima é o oposto da passividade. É a postura daquele que é paciente.

Perder a cabeça não ajuda em nada, só atrapalha.

Na semana que vem, pretendo narrar o desfecho.

 

 


Roger de Carvalho, é membro da Canção Nova desde o ano 2000. Ingressou na comunidade aos 19 anos de idade.

 

4 Comentários

  1. Eliane Brene Medeiros Bordim

    Lembro-me que comemorávamos cada grama que o André ganhava e cada ml de leite que ele tomava…

    • Quando vivenciamos a realidade de uma UTI neo natal, nossa vida muda, pois vendo um bebe tão pequeno e fragil, ao mesmo tempo tão forte lutar pela vida, nos encoraja a cada dia mais lutar pela vida humana. Nos mostra que é Deus quem sempre esta e estará no comando. Sempre fui a favor da vida, e hoje após meu filho ter passado pela UTI luta ainda mais.

  2. Minha filha também nasceu de 6 meses, com 750g (perdeu peso e chegou a 680g) e 36cm. Foram 71 dias de internação. Além dos problemas do nascimento prematuro pegou infecção hospitalar. Não foi fácil, mas o Senhor Misericordioso, por intercessão de Nossa Senhora, nos deu a vitória. Sempre digo que meus familiares, amigos e irmãos em Cristo foram a minha voz quando eu perdia a força para rezar. Hoje Maria Vitória está com 11 anos e sem nenhuma sequela, para Honra e Glória do Senhor. Meu esposo e eu havíamos escolhido o nome Vitória (sem sabermos que ela teria uma luta grande e sairia vitoriosa). Acrescentamos Maria em homenagem a Nossa Senhora, por sugestão de minha irmã mais velha (que já está glória do Senhor), pois enquanto eu estava na sala de parto, meus pais e meus irmãos em Cristo estavam rezando o terço pedindo a intercessão da Virgem Santíssima. Glórias e louvores a Ti, Senhor.

  3. Sandra Maria Muniz De Sousa Muniz

    É como se vivenciasse todo o sofrimento.

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