Para os românticos, a vida deveria iniciar na velhice e terminar na infância. A utopia de ser viver a melhor fase da existência com corpo e mente joviais move obras, desde “O Retrato de Dorian Gray”, de Oscar Wilde, passando pelo famoso texto falsamente atribuído a Chaplin até chegar na célebre frase de Mark Twain, de que “a vida seria infinitamente mais feliz se nós pudéssemos nascer com a idade de 80 anos e gradualmente nos aproximássemos dos 18″. Mas ninguém antes de Benjamin Button usufruiu do envelhecimento de forma fantasiosa.
O personagem, obviamente, nunca existiu. Ainda assim, o filme de David Fincher consegue o feito de fincar na realidade uma história fantástica, em tons de fábula e que personifica o desejo tão anunciado em outras obras de ficção. Esse é o maior mérito de “O Curioso Caso de Benjamin Button”, longa-metragem que estreia hoje nos cinemas e vem com fome de papar alguns Oscar esse ano.
Fincher adaptou um breve conto escrito nos anos 20 pelo norte-americano F. Scott Fitzgerald. Button, o homem que nasce idoso e rejuvenesce com o passar dos anos, ganhou o rosto icônico de Brad Pitt, um astro obstinado a abandonar sua beleza em favor de uma boa interpretação. Nem tanto pelos seus dotes artísticos, e mais pelo furor de ver um Pitt “velho”, a escolha do protagonista é perfeita.
Ao contrário da maldição proposta pelo Dorian Gray de Wilde, de ver os entes queridos e o amor de sua vida envelhecendo e falecendo na contramão de sua existência, Benjamin Button observa o mundo com otimismo. Participa de importantes momentos históricos como uma testemunha ocular, quase como um Forrest Gump mais lúcido. A escolha de Eric Roth, roteirista do premiado filme de Tom Hanks, não foi à toa.
Assim como na história do homem com Q.I. abaixo da média que se vê em importantes fatos do século 20, “O Curioso Caso de Benjamin Button” usa o real em seu favor. Fincher começa seu conto no final da Primeira Guerra Mundial e encerra numa grande tragédia, a passagem do furacão Katrina por New Orleans em 2005. O mundo passa pelos olhos dos personagens de Pitt e Cate Blanchett, a amada de Button que vive o dilema de ver seu homem ficar mais jovem enquanto ela envelhece. Enquanto sua filha, Caroline (Julia Ormond), lê o diário, a história de jovem idoso desenvolve-se na tela.
Essa relação tênue entre realidade e o fantástico é o grande mérito de “O Curioso Caso de Benjamin Button”. David Fincher enfim parece ter alcançado o diálogo entre a precisão técnica e o sucesso – os anteriores “Clube da Luta” e “Zodíaco”, apesar de excelentes, fracassaram. Nem os seus projetos mais comerciais “Alien 3″, Seven” e “O Quarto do Pânico” alcançaram a fama merecida. Aqui, ele consegue mostrar seus arroubos estéticos com a câmera sem macular uma história apaixonante, positivista e provocativa.
Fonte: Pipoqueira


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