Quando Danny Boyle, ou outra direção britânica, conseguem atingir seu objetivo – em qualquer gênero que seja – dificilmente alguém faz uma história melhor. E este é certamente o caso do ganhador do Oscar de melhor filme Quem quer ser um milionário?, de Boyle. A produção mostra a encantadora história de um adolescente de favela que, por acaso, termina parecido com uma versão indiana de Who Wants to be a Millionaire?. Há muito tempo que um filme estrangeiro não recebe tantos elogios – e isso veio via Bollywood, e, ainda por cima, com um diretor britânico. Mas, Quem quer ser um milionário? é algo mais que uma atividade cinematográfica com o humor sutil de “entretenimento”? Ou essa pode ser uma história que vale a pena ser contada, fruto do estilo de Boyle?
Muitos temas têm impulsionado o ainda jovem Boyle, 52 anos, desde o início do que agora se pode chamar uma bela carreira. Desde o começo, ele tem percorrido seu caminho dirigindo gêneros esgotados, usando o gasto e o usado com estilo, boa narração de histórias, e temas desafiadores. O primeiro filme de Boyle, Cova Rasa (1996), fez um passeio fúnebre e cômico por um grupo de desagradáveis yuppies que abusavam da heroína para celebrar sua vultosa fortuna.
Também com o seu audacioso Transpotting – sem limites (1996), uma ironia, o obsceno brinca com a afeição do interior. O filme é baseado numa novela de Irvine Welsh sobre um grupo de rapazes de Glasgow cuja principal diversão, quando não estavam usando drogas, era observar o trem. Demais para Rob Roy e para a doce Robbie Burns. Misturando êxtase e perdição, Transpotting causa horror nos telespectadores. Além disso, algo sobre aquela premissa – de que devemos permitir gente estúpida amoral – ofende o moralista que existe em nós. Janet Maslin, do The New York Times, muito irritada consigo mesma, disse que o filme é “perversamente irresistível” por causa da sua violência e “inescusável alegria” no ponto de vista (o filme é narrado pelo personagem principal).
Boyle pode e comete erros – grandes. A energia que fez Cova Rasa e Transpotting valerem a pena, praticamente desapareceu nas tentativas de Boyle em dirigir de acordo com a tendência. Primeiro veio A Praia (2000). E, assim como DiCaprio como ator e personagem, o filme aspira tanto à beleza quanto a grandeza.
Essa mesma importância indefinida caracteriza sua mais recente aventura de alto custo, Sunshine – alerta solar (2007), uma aventura de ficção cientifica em que o planeta Terra envia uma expedição para reacender o Sol. Assim como em A Praia, o filme trabalha com noções sobre luz, apesar de isso demonstrar ironia, já que as trevas triunfam de certa forma. Os cenários são maravilhosos, as cenas atordoantes, mas, em nome de quê? O filme ecoa os mestres das histórias espaciais – Tarkovsky, Kubrick, e até Spielberg -, mas nunca se funde em uma temática inteligível. Talvez Kenneth Turan, revisor do LA Times tenha compreendido isso ao chamar o trabalho de Boyle de “superficial e simples”, o máximo que se pode esperar de uma produção de cinema que não coloca um olhar sensível sobre algo sério.
Bem, pode ser e pode não ser. Apesar de tudo, Boyle sucedeu A Praia com o consideravelmente seguro filme de zumbis 28 dias depois (2002), em que ativistas do PETA libertam um vírus que, menos de 20 segundos depois da infecção, transforma pessoas comuns em monstros furiosos antes de morrerem uma morte nojenta e pavorosa. O filme é muito assustador e violento, apesar de no final, mostrando o que as pessoas podem fazer, os zumbis não pareçam tão maus assim. Ao mesmo tempo, é muito comovente a forma como Boyle lamenta a fragilidade da vida e da civilização.
Esse vestígio de doçura se desenvolveu em Caiu do céu (2004), um filme sobre a afirmação da vida e sobre espiritualidade. É uma narrativa séria – apesar de fantástica – sobre um menino de sete anos que tinha visões de santos que ele gostava e cujas vidas estudava. Na verdade, Boyle incentivou o roteirista Frank Cottrell a ampliar aqueles santos e visões. Do começo ao fim, Boyle é quase perfeito, provendo muitas imagens e detalhes. Ele acredita nas visões do menino como se fosse verdade, como M. Night Shyamalan tratou a criança que via pessoas mortas em O Sexto Sentido (1999), ou melhor, como a pessoa que queria encontrar Deus em Sono Mortal (1998). Nos dois, um garoto tem sede de saber se algum familiar falecido está bem. Em Caiu do céu, o jovem Damiao (Alex Etel) tem a dificuldade de calcular como vai gastar seus milhões em caixa, um presente que aparentemente caiu do céu. O filme é engraçado, estimulante e esperançoso, uma história sobre o profundo anseio humano que encontra uma agradável sorte no usufruto deste mundo.
Isso nos transporta a Quem quer ser um milionário?. O filme corre regularmente, narrando a história com uma notável qualidade cinematográfica, livre, profundo, arrojado, toda a produção feita com meticulosa e surpreendente habilidade. Muitos telespectadores fingem simplesmente livrar-se de suas ondas de agitação. Dez minutos e podemos saber o final, a premissa traçou o plano, uma ingênua trama tirada das novelas de Vikas Swarup. Mesmo assim dá para esquecer o final conhecido e curtir a aventura, deixando de lado qualquer plausibilidade.
Quem quer ser um milionário? é, em geral, a história de mais um pobre diabo que ficou rico do dia pra noite (ele tem um amor também), desta vez passado na enorme Mumbai, com um enxame de pessoas do tipo desagradável . O filme mostra tudo isso – as favelas, a autoridade cruel dos criminosos. Como um órfão morador de favela, Jamal Malik (interpretado por três atores, mas protagonizado por Dev Patel), parece um improvável herói, ainda mais o vencedor de um show de perguntas na televisão. Conhecendo a sua situação, o incrível é como ele e seu irmão Salim (Madhur Mittal) conseguiram sobreviver por tanto tempo. Para os jurados do programa aquele menino de favela jamais poderia saber todas as respostas, então eles enviam policiais para torturá-lo e descobrir como ele estaria trapaceando. E essa investigação cruel dá início aos flashbacks que narram a história. Para o jovem Jamal (20 anos) tudo isso é o “destino”, elemento básico da teologia bolliwoodiana.
Divertido e contagiante, Quem quer ser um milionário?, venceu de forma espetacular o Globo de Ouro: file, roteiro, diretor e trilha sonora. E isso não é surpresa, falo sério. Os seres humanos parecem um tanto bobos quanto a esse tipo de coisa, mesmo que suas consciências digam para preferirem um realismo intenso, cruel. Com simplicidade, essas histórias absurdas como Quem quer ser um milionário? dialogam com outra parte do nosso ser – a necessidade da alma humana de consertar alguma parte da incalculável miséria deste mundo. São fábulas.
Fonte: Christianity Today International
Ficha Técnica
Título Original: Slumdog Millionaire
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 120 minutos
Ano de Lançamento (EUA / Inglaterra): 2008
Site Oficial: www.quemquerserummilionario.com.br
Estúdio: Celador Films / Film4
Distribuição: Fox Searchlight Pictures / Europa Filmes
Direção: Danny Boyle
Roteiro: Simon Beaufoy, baseado em livro de Vikas Swarup
Produção: Christian Colson
Música: A.R. Rahman
Fotografia: Anthony Dod Mantle
Desenho de Produção: Mark Digby
Figurino: Suttirat Anne Larlarb
Edição: Chris Dickens
Elenco
Dev Patel (Jamal K. Malik)
Ayush Mahesh Khedekar (Jamal K. Malik – criança)
Tanay Chheda (Jamal K. Malik – jovem)
Freida Pinto (Latika)
Rubiana Ali (Latika – criança)
Tanvi Ganesh Lonkar (Latika – jovem)
Madhur Mittal (Salim)
Azharuddin Mohammed Ismail (Salim – criança)
Ashutosh Lobo Gajiwala (Salim – jovem)
Chirag Parmar (Arvind – criança)
Janet de Vigne (Ada)
William Relton (Peter)
David Gilliam (Clark)
Mia Drake (Adele)
Arfi Lamba (Bardi)
Taira Colah (Nasreen)
Anil Kapoor (Prem Kumar)
Feroz Abbas Khan (Amitabh Bachchan)
Saurabh Shukla (Sargento Srinivas)
Sunil Kumar Agrawal (Sr. Chi)
Mahesh Manjrekar (Javed)
Sanchita Choudhary (Mãe de Jamal)
Himanshu Tyagi (Sr. Nanda)
Sharib Hashmi (Prakash)
Sinopse
Jamal K. Malik (Dev Patel) é um jovem que trabalha servindo chá em uma empresa de telemarketing. Sua infância foi difícil, tendo que fugir da miséria e violência para conseguir chegar ao emprego atual. Um dia ele se inscreve no popular programa de TV “Quem Quer Ser um Milionário?”. Inicialmente desacreditado, ele encontra em fatos de sua vida as respostas das perguntas feitas.
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