Os beatos Francisco e Jacinta e o premente apelo de Nossa Senhora do Rosário de Fátima à conversão e à penitência pela salvação dos pecadores.

Hoje celebramos os beatos Francisco a Jacinta Marto, cuja vida foi um contínuo apelo à conversão e à penitência pela salvação dos pecadores. Por isso, na iminência do início da Quaresma, a vida dos dois irmãos Francisco e Jacinta – que ficaram conhecidos, com a Irmã Lúcia, como os “três pastorinhos de Fátima” – nos ajuda a repensar as nossas vidas e a fazer propósitos bem concretos de penitência, de mudança de vida. Como a maioria de nós, os pastorinhos eram católicos comuns. A segunda conversão dos três aconteceu a partir de revelações privadas, que mudaram para sempre suas vidas e podem também mudar as nossas.

Os beatos Francisco e Jacinta e o premente apelo de Nossa Senhora do Rosário de Fátima à conversão e à penitência pela salvação dos pecadores.

Os beatos Francisco e Jacinta Marto

Antes das aparições, Lúcia, Jacinta e Francisco eram crianças católicas comuns, que moravam no vilarejo de Aljustrel, na diocese de Leiria-Fátima, Portugal. Os pastorinhos brincavam como todas as outras crianças, gostavam de jogos e de danças. Os três viviam um catolicismo verdadeiro. Porém, como a maioria dos católicos, limitavam-se ao mínimo necessário para cumprir suas obrigações. Mas, depois das aparições do Anjo da Guarda de Portugal, em 1916, os três pastorinhos viveram uma conversão radical de vida e passaram a fazer orações, penitências e sacrifícios pelos pecadores. Em 1917, em uma de suas aparições, Nossa Senhora do Rosário falou-lhes com voz e coração de mãe: convidou-os a oferecerem-se como vítimas de reparação e ofereceu-se para conduzi-los, seguros, até Deus. “Foi então que das suas mãos maternas saiu uma luz que os penetrou intimamente, sentindo-se imersos em Deus como quando uma pessoa ― explicam eles ― se contempla num espelho”[1].

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A experiência de conversão do beato Francisco Marto

A respeito dessa luz, Francisco exclamava: “‘Nós estávamos a arder naquela luz que é Deus e não nos queimávamos. Como é Deus? Não se pode dizer. Isto sim que a gente não pode dizer’. Deus: uma luz que arde, mas não queima”[2]. Experiência semelhante teve Moisés, quando ouviu Deus falar da sarça ardente. O Senhor estava preocupado com a escravidão do Seu povo e decidido a libertá-lo por meio dele (cf. Ex 3, 2-12). Tantos quantos acolhem esta presença de Deus tornam-se morada e consequentemente “sarça ardente” do Altíssimo.

O que mais o impressionava e absorvia o beato Francisco era Deus naquela luz imensa, que tocou no mais íntimo do interior dos três pastorinhos. Entretanto, só a Francisco, Deus se revelou “tão triste”, como costumava dizer. Certa noite, seu pai ouviu o Menino soluçar e perguntou-lhe por que chorava; e o filho respondeu: “Pensava em Jesus que está tão triste por causa dos pecados que se cometem contra Ele”[3]. O Beato vive movido pelo único desejo ― ainda mais expressivo se considerarmos que se tratava de uma criança de apenas nove anos de idade ― de “consolar e dar alegria a Jesus”.

A vida de Francisco sofreu uma transformação radical, que certamente não é comum em crianças da sua idade. O Menino entrega-se a uma vida espiritual intensa, que se traduz na oração assídua e fervorosa, chegando a uma verdadeira forma de união mística com Deus. Essa experiência levou Francisco a uma progressiva purificação do espírito, através da renúncia aos próprios gostos e até mesmo às brincadeiras inocentes de criança.

Francisco suportou os grandes sofrimentos da “gripe espanhola”, que o levou à morte em 1919, sem nunca se lamentar. “Tudo lhe parecia pouco para consolar Jesus; morreu com um sorriso nos lábios. Grande era, no pequeno Francisco, o desejo de reparar as ofensas dos pecadores, esforçando-se por ser bom e oferecendo sacrifícios e oração”[4]. E Jacinta, sua irmã, quase dois anos mais nova do que ele, vivia animada pelos mesmos propósitos.

A conversão profunda da beata Jacinta Marto

Na sua solicitude materna, a Santíssima Virgem apareceu em Fátima e pediu aos homens para “não ofenderem mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido”[5]. Ela veio movida pela dor de mãe, não somente por causa das ofensas contra seu Filho, mas também porque a sorte de seus filhos está em jogo. Por isso, Maria Santíssima dizia insistentemente aos três pastorinhos: “Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, porque vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas”[6].

A pequena Jacinta sentiu e viveu como própria esta aflição da Virgem Maria, oferecendo-se heroicamente como vítima pela salvação dos pecadores. Um dia, quando ela e Francisco já tinham contraído a doença, que os obrigava a ficar na cama, a Senhora do Rosário foi visitá-los em casa, conta Jacinta: “Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu. E a mim perguntou-me se queria ainda converter mais pecadores. Disse-lhe que sim”. Algum tempo depois, vendo que aproximava-se o momento da partida de seu irmão, Jacinta recomenda-lhe: “Dá muitas saudades minhas a Nosso Senhor e a Nossa Senhora e diz-lhes que sofro tudo quanto Eles quiserem para converter os pecadores”[7]. De fato, Francisco feleceu no dia 4 de Abril de 1919 e sua irmã no ano seguinte, no dia 20 de Fevereiro de 1920, como disse a Santíssima Virgem. Jacinta ficou tão impressionada com a visão do inferno, que aconteceu durante a aparição de 13 de Julho, que nenhuma mortificação ou penitência lhe parecia demais para salvar os pecadores.

A beata Jacinta teve algumas visões que os outros dois pastorinhos não tiveram, como a citada acima. Certo dia, estavam na propriedade dos pais de Lúcia logo depois do almoço. A Beata sentou-se nas lajes do poço e Francisco foi com Lúcia procurar o mel silvestre nas proximidades. Passado um pouco de tempo, Jacinta chama por Lúcia:

Não viste o Santo Padre?

Não! – respondeu Lúcia.

Não sei como foi! Eu vi o Santo Padre em uma casa muito grande, de joelhos, diante de uma mesa, com as mãos na cara, a chorar. Fora da casa estava muita gente e uns atiravam-Ihe pedras, outros rogavam-lhe pragas e diziam-lhe muitas palavras feias. Coitadinho do Santo Padre! Temos que pedir muito por Ele[8].

Irmã Lúcia disse que não sabiam o nome do Papa, pois Nossa Senhora não lhes disse o seu nome. Os pastorinhos não sabiam se era Bento XV, Pio XII, Paulo VI ou João Paulo II. Sabiam somente que era o Papa que sofria e isso fazia-lhes sofrer também. Hoje, como em outros tempos, o Papa recebe críticas e até xingamentos. Não cabe a nós julgar, mas certamente devemos rezar pelo Papa Francisco e pelo Papa Emérito Bento XVI.

Os beatos Francisco e Jacinta e o premente apelo de Nossa Senhora do Rosário de Fátima à conversão e à penitência pela salvação dos pecadores.

Procissão no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Fátima

A mensagem do Papa São João Paulo II aos pequeninos

No final da homilia na cerimônia de beatificação de Francisco e Jacinta, o Papa João Paulo II dirigiu palavras profundas e comoventes às crianças presentes. Podemos acolher essas palavras como dirigidas a nós também, ainda que não sejamos mais crianças, se nos fizermos pequeninos – “Eu Te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos” (cf. Mt 11, 25):

A minha última palavra é para as crianças: Queridos meninos e meninas, vejo muitos de vós vestidos como Francisco e Jacinta. Fica-vos muito bem! Mas, logo ou amanhã, já deixais essa roupa e… acabam-se os pastorinhos. Não haviam de acabar, pois não?! É que Nossa Senhora precisa muito de vós todos, para consolar Jesus, triste com as asneiras que se fazem; precisa das vossas orações e sacrifícios pelos pecadores.

Pedi aos vossos pais e educadores que vos metam na “escola” de Nossa Senhora, para que Ela vos ensine a ser como os pastorinhos, que procuravam fazer tudo o que lhes pedia. Digo-vos que “se avança mais em pouco tempo de submissão e dependência de Maria, que durante anos inteiros de iniciativas pessoais, apoiados apenas em si mesmos”[9]. Foi assim que os pastorinhos se tornaram santos depressa. Uma mulher que acolhera a Jacinta em Lisboa, ao ouvir conselhos tão bons e acertados que a pequenita dava, perguntou quem lhos ensinava. “Foi Nossa Senhora” ― respondeu. Entregando-se com total generosidade à direção de tão boa Mestra, Jacinta e Francisco subiram em pouco tempo aos cumes da perfeição.

Eu Te bendigo, ó Pai, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.

Eu Te bendigo, ó Pai, por todos os teus pequeninos, a começar da Virgem Maria, tua humilde Serva, até aos pastorinhos Francisco e Jacinta.

Que a mensagem das suas vidas permaneça sempre viva para iluminar o caminho da humanidade![10].

Ladainha dos Beatos Francisco e Jacinta Marto

Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.
Cristo, tende piedade de nós. Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós. Senhor, tende piedade de nós.

Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós.
Nossa Senhora das Dores, rogai por nós.
Nossa Senhora do Carmo, rogai por nós.
Virgem dos Pastorinhos, rogai por nós.

Beato Francisco Marto, rogai por nós.
Beata Jacinta Marto, rogai por nós.
Crianças chamadas por Jesus Cristo, rogai por nós.
Crianças chamadas a contemplar a Deus no Céu, rogai por nós.
Pequeninos a quem o Pai revela os mistérios do Reino, rogai por nós.
Pequeninos privilegiados do Pai, rogai por nós.
Louvor perfeito das maravilhas de Deus, rogai por nós.
Imagens do abandono filial, como crianças ao colo da mãe, rogai por nós.
Vítimas de reparação em benefício do Corpo de Cristo, rogai por nós.

Confidentes do Anjo da Paz, rogai por nós.
Custódios, como o Anjo da Pátria, rogai por nós.
Adoradores com o Anjo da Eucaristia, rogai por nós.
Videntes da Mulher revestida com o Sol, rogai por nós.
Videntes da Luz que é Deus, rogai por nós.
Filhos prediletos da Virgem Mãe, rogai por nós.
Ouvidos atentos à solicitude materna da Virgem Maria, rogai por nós.
Advogados da Mensagem da Senhora mais brilhante que o Sol, rogai por nós.
Arautos da palavra da Mãe de Deus, rogai por nós.
Profetas do triunfo do Coração Imaculado de Maria, rogai por nós.
Cumpridores dos desígnios do Altíssimo, rogai por nós.
Fiéis depositários da Mensagem, rogai por nós.
Emissários da Senhora do Rosário, rogai por nós.
Missionários dos pedidos de Maria, rogai por nós.
Portadores dos apelos do Céu, rogai por nós.
Zeladores do Vigário de Cristo, rogai por nós.
Confessores da vida heroica na verdade, rogai por nós.
Consoladores de Jesus Cristo, rogai por nós.
Exemplos da caridade cristã, rogai por nós.
Servos dos doentes e dos pobres, rogai por nós.
Reparadores das ofensas dos pecadores, rogai por nós.
Amigos dos homens junto do trono da Virgem Maria, rogai por nós.
Lírios de candura a exalar santidade, rogai por nós.
Pérolas brilhantes a resplandecer beatitude, rogai por nós.
Serafins de amor aos pés do Senhor, rogai por nós.
Oblações a Deus para suportar os sofrimentos em ato de reparação, rogai por nós.
Exemplo admirável na partilha com os pobres, rogai por nós.
Exemplo incansável no sacrifício pela conversão dos pecadores, rogai por nós.
Exemplo de fortaleza nos tempos da adversidade, rogai por nós.

Enamorados de Deus em Jesus, rogai por nós.
Pastorinhos que nos guiais ao Cordeiro, rogai por nós.
Discípulos da escola de Maria, rogai por nós.
Interpeladores da humanidade, rogai por nós.
Frutos da árvore da santidade, rogai por nós.
Dom para a Igreja Universal, rogai por nós.
Sinal divino para o Povo de Deus, rogai por nós.
Testemunhas da graça divina, rogai por nós.
Estímulo à vivência do batismo, rogai por nós.
Experiência da presença amorosa de Deus, rogai por nós.
Eloquentes na intimidade de Deus, rogai por nós.
Intercessores, junto de Deus, pelos pecadores, rogai por nós.
Construtores da Civilização do Amor e da Paz, rogai por nós.
Lâmpadas a alumiar a humanidade, rogai por nós.
Luzes amigas a iluminar as multidões, rogai por nós.
Luzeiros a refulgir no caminho da humanidade, rogai por nós.
Chamas ardentes nas horas sombrias e inquietas, rogai por nós.
Candeias que Deus acendeu, rogai por nós.

Cristo, ouvi-nos. Cristo, ouvi-nos.
Cristo, atendei-nos. Cristo, atendei-nos.

Oração conclusiva

Deus de infinita bondade, que amais a inocência e exaltais os humildes, concedei, pela intercessão da Imaculada Mãe do vosso Filho, que, à imitação dos bem-aventurados Francisco e Jacinta, Vos sirvamos na simplicidade de coração para podermos entrar no reino dos Céus. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amém[11].

Links relacionados:

PADRE PAULO RICARDO. Aparições Marianas: o que são e qual o seu papel na vida cristã?

TODO DE MARIA. As modas do mundo e a perdição dos cristãos.

TODO DE MARIA. Os três pastorinhos e a visão do inferno.

TODO DE MARIA. Penitências e sacrifícios dos pastorinhos.

Referências:


[2]  Idem, ibidem.

[3]  Idem, 2.

[4]  Idem, ibidem.

[5]  Idem, 3.

[6]  Idem, ibidem.

[7]  Idem, ibidem.

[8]  PADRE LUÍS KONDOR. Memórias da Irmã Lúcia, p. 47.

[9]  SÃO LUÍS MARIA GRIGNION DE MONTFORT. Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem, 155.

[10]  PAPA JOÃO PAULO II. Op. cit., 6.


Natalino Ueda é brasileiro, católico, formado em Filosofia e Teologia. Na consagração a Virgem Maria, segundo o método de São Luís Maria Grignion de Montfort, explicado no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção a Santíssima Virgem”, descobriu o caminho fácil, rápido, perfeito e seguro para chegar a Jesus Cristo. Desde então, ensina e escreve sobre esta devoção, o caminho “a Jesus por Maria”, que é hoje o seu maior apostolado.

1 Comentário

  1. Valdirene Magalhães de Paiva Soares

    E ainda hoje, pessoas “atiram pedras” aos Santo Padre. E o que mais impressiona que são católicos que se dizem proclamadores da verdade, fechados a Misericórdia anunciada assim como os fariseus diante da prostituta e dos cobradores de impostos. Hoje o farisaísmo impera de forma semelhante no catolicismo e não se pode mais ouvir a mensagem de santos, dos pastorinhos e de Nossa Senhora que sempre ensinaram a obediência como caminho de salvação.

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