Ó Virgem Maria, esperança nossa, salve!

Saiba o significado da invocação “Esperança nossa, salve”, da tradicional oração a Virgem Maria chamada “Salve Rainha”.

Na oração “Salve Rainha”, com toda a Igreja, saudamos a Santíssima Virgem Maria: “Esperança nossa, salve”. No entanto, os hereges do nosso tempo não suportam que nós saudemos e chamemos a Virgem Maria de “nossa esperança”. Eles dizem que só Deus é nossa esperança, e que Ele amaldiçoa quem põe sua confiança nas criaturas. Para convencer as pessoas de sua opinião, quase sempre usam as Sagradas Escrituras, como a conhecida frase do profeta Jeremias: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17, 5); ou a passagem das Bodas de Caná, dizendo que o próprio Jesus Cristo teria maltratado sua Mãe, chamando-a de “Mulher” (Jo 2, 4). Nesse caso, teria Jesus pecado por desobediência ao preceito: “Honra teu pai e tua mãe” (Ex 20, 12), um dos Dez Mandamentos da Lei de Deus?

Valendo-se de uma interpretação equivocada, dizem: Maria é uma simples criatura, uma mulher qualquer. Depois, perguntam: como uma criatura pode ser a nossa esperança? Isto é o que dizem os hereges. “Entretanto quer a Santa Igreja que cada dia todos os eclesiásticos e todos os religiosos em voz alta, e em nome de todos os fiéis, invoquem e chamem a Maria com este nome de esperança nossa”1. A Igreja Católica proclama que a Bem-aventurada Virgem Maria é sinal de esperança e de consolação para nós, novo povo de Deus, que peregrina sobre a Terra: “a Mãe de Jesus, assim como, glorificada já em corpo e alma, é imagem e início da Igreja que se há de consumar no século futuro, assim também, na terra, brilha como sinal de esperança segura e de consolação, para o Povo de Deus ainda peregrinante, até que chegue o dia do Senhor (cf. 2 Pd 3, 10)”2.

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Como a Virgem Maria pode ser nossa esperança?

O Doutor Angélico, Santo Tomás de Aquino, diz que podemos pôr nossa esperança numa pessoa de dois modos, como causa principal ou como causa mediante, ou seja, que exerce uma mediação. UM súdito que deseja obter do rei uma graça, pode alcançá-la diretamente dele, como soberano senhor, ou obtê-la através do seu ministro ou protegido, como intercessor. No último caso, a graça concedida veio do rei, mas por intermédio do seu mediador. Por isso, quem alcança esta graça, com razão, chama o seu intercessor de sua esperança.

Deus, o Rei dos Céus, é infinitamente bom e deseja enriquecer-nos com as suas abundantes graças. No entanto, porque para que estas sejam derramadas é necessária a confiança da nossa parte, Jesus Cristo nos deu sua própria Mãe por advogada e intercessora, para aumentar a nossa fé. Além disso, concedeu-lhe plenos poderes para ser nosso auxílio em todas as nossas necessidades. Por ter nos concedido tão grandes favores, o Senhor quer que coloquemos na Santíssima Virgem a esperança de nossa salvação e de todo nosso bem.

Sem dúvida, são amaldiçoados por Deus, como diz o profeta Jeremias, aqueles que põem sua esperança e confiança somente nas criaturas: “Maldito o homem que confia no homem” (Jr 17, 5). Pois, este é o modo de agir dos pecadores que, em troca da amizade e dos favores dos “amigos”, não se incomodam em ofender Deus. Todavia, somos abençoados por Deus e lhe somos agradáveis se esperamos na Santíssima Virgem, a tão poderosa Mãe de Deus, para alcançar-nos as graças e a salvação eterna. Pois, Deus quer que honremos a Virgem de Nazaré, aquela excelsa criatura, que neste mundo O amou e honrou mais do que todos os anjos e homens juntos.

A esperança em Deus e na Santíssima Virgem

Com muita razão chamamos a Virgem Maria de esperança nossa, pois esperamos obter, pela sua intercessão, o que não alcançaríamos só com nossas orações. Invocamos Nossa Senhora para que a dignidade da intercessora supra a nossa falta de méritos. Dessa forma, compreendemos que invocar a Santíssima Virgem com tal esperança não é desconfiar da misericórdia de Deus, mas temer pela nossa própria miséria e indignidade.

A Igreja tem motivos suficientes para aplicar a Nossa Senhora as palavras do Eclesiástico: “Sou a mãe do puro amor, do temor [de Deus], da ciência e da santa esperança, em mim se acha toda a graça do caminho e da verdade, em mim toda a esperança da vida e da virtude” (Eclo 24, 24-25). A Virgem Maria é a Mãe da santa esperança, Mãe que faz nascer em nós, não a esperança vã dos bens transitórios desta vida, mas a santa esperança dos bens grandiosos e eternos da vida bem-aventurada no Reino dos Céus.

Santo Efrém tinha o costume de saudar a Mãe de Deus com as seguintes palavras: “Salve, esperança de minha alma, […] salve, ó segura salvação dos cristãos, auxílio dos pecadores, defesa dos fiéis, salvação do mundo”3. Estas saudações parecem destoar dos ensinamentos de São Boaventura, que dizia: “depois de Deus, outra esperança não temos senão Maria e por isso a invoca ‘como única esperança nossa depois de Deus’”4. No entanto, esta é também a convicção de Santo Efrém, que nesse sentido reflete sobre a Providência divina, segundo a qual Deus determinou que todos os que são salvos, o sejam por meio da Santíssima Virgem. Tamanha era a sua confiança na Mãe da Igreja, que assim a invocava: “Senhora, não deixeis de guardar-nos e de proteger-nos sob vosso manto, já que depois de Deus não temos outra esperança senão a vós”5. A Virgem Maria é nosso único refúgio, socorro e asilo. São Bernardo parece nos dar o motivo de toda essa confiança que a Igreja sempre depositou na Santa Mãe de Deus, quando diz: “Considerai, ó homem, o desígnio de Deus, desígnio cuja finalidade é dispensar-nos mais profundamente sua misericórdia. Querendo ele remir o gênero humano, depositou o preço inteiro da redenção nas mãos de Maria para que o reparta à sua vontade”6.

Assista à palestra do Padre Paulo Ricardo sobre A Salve Rainha explicada”:

A Virgem Maria, Mãe da Esperança

Deus ordenou que Moisés fizesse o propiciatório de ouro puríssimo, dizendo que daí lhe queria falar: “Farás também uma tampa de ouro puro, cujo comprimento será de dois côvados e meio, e a largura de um côvado e meio. Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa […] Ali virei ter contigo, e é de cima da tampa, do meio dos querubins que estão sobre a arca da aliança, que te darei todas as minhas ordens para os israelitas” (Ex 25, 17-8.22). “Maria é este propiciatório de onde o Senhor fala aos homens e concede-nos o perdão, a graça e todos os seus demais dons”7. Por isso, o Verbo Eterno, antes de encarnar-se no seio da Virgem de Nazaré, mandou o arcanjo São Gabriel pedir-lhe o consentimento (cf. Lc 1, 26-38). Dessa forma, o Altíssimo queria que o mundo ficasse devendo a Maria a realização do mistério da Encarnação.

Em consequência de sua participação na Encarnação do Verbo, todos os bens, todas as graças, todos os auxílios que já recebemos, ou ainda receberemos até ao fim do mundo, nos serão concedidos por intermédio de Maria. Esta afirmação pode parecer um tanto quanto exagerada, mas consideremos o seguinte: quem pode o mais, pode o menos. Se por Nossa Senhora recebemos Jesus Cristo, a Graça incriada e eterna, Deus feito homem, Salvador da humanidade, podemos receber dela todas as graças necessárias para a nossa salvação. É verdade que a Virgem Maria é uma simples criatura, mas foi concedida a ela a mais alta dignidade possível a uma pessoa humana: a graça de ser Mãe de Deus e consequentemente Mãe da Humanidade. Por isso, podemos invocar confiantemente a Santíssima Virgem, como nossa esperança:

Ó Maria, sois tão amável e agradecida para com os que vos amam; quem será tão louco ou infeliz que não vos ame? Nas dúvidas e confusões ilustrais o entendimento daqueles que a vós recorrem nas suas aflições. Consolais nos perigos aqueles que em vós confiam. Acudis a quem por vós chama; vós, depois do vosso divino Filho, sois a segura salvação de vossos fiéis servos. Salve, pois, ó esperança dos desesperados, ó refúgio dos abandonados. Sois onipotente, ó Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo quanto vós quereis8.

Nossa Senhora, esperança de todos nós

São Germano, reconhecia na Santíssima Virgem a fonte de todo nosso bem e a libertação de todos os males, por isso a invocava com toda a confiança:

Ó Senhora minha, sois a minha única consolação dada por Deus, vós o guia da minha peregrinação, vós a fortaleza das minhas débeis forças; a riqueza das minhas misérias, a liberdade das minhas cadeias, e a esperança da minha salvação. Ouvi as minhas orações, tende compaixão dos meus suspiros, ó minha Rainha, que sois meu refúgio, minha vida, meu auxílio, minha esperança, minha fortaleza!9

Santo Antonino compartilhava do mesmo pensamento ao aplicar a Nossa Senhora estas palavras do livro da Sabedoria: “Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas. De todos esses bens eu me alegrei, porque é a Sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe” (Sb 7, 11-12). Já que a Virgem Santíssima é a Mãe e a dispensadora de todos os bens, bem podemos afirmar que todos os homens, especialmente aqueles que vivem no mundo como devotos desta Mãe e Rainha, com a devoção mariana adquiriram também todos os bens. Por isso, sem restrições, podemos dizer que quem ama a Mãe de Deus encontra todo o bem, acha todas as graças e todas as virtudes, porque ela, por sua intercessão, alcança-nos tudo quanto nos é necessário para enriquecer-nos com a divina graça. A própria Virgem Maria nos ajuda a compreender, através das Escrituras, que com ela recebemos graças abundantes de Deus, as Suas misericórdias, se verdadeiramente a amamos: “Comigo estão a riqueza e a glória, os bens duráveis e a justiça. […] Deixo os meus haveres para os que me amam e acumulo seus tesouros” (Pr 8, 18.21). Por isso, voltemos o nosso olhar para as mãos da Santíssima Virgem, para recebermos, por suas mãos maternas, os bens que desejamos.

Numerosos são os testemunhos de pessoas que encontraram em Nossa Senhora o caminho da salvação: “Oh! Quantos soberbos, com a devoção de Maria, acharam a humildade; quantos coléricos, a mansidão; quantos cegos, a luz; quantos desesperados, a confiança; quantos transviados, a salvação!”10 Isto a própria Virgem profetizou no sublime cântico “Magnificat”: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações” (Lc 1, 48). Sim, ó Virgem Maria, todas as gerações te chamarão “Bem-aventurada”, porque a todas tendes dado a vida e a glória; pois em vós, os pecadores encontram o perdão de seus pecados e os justos, a perseverança no caminho de Jesus Cristo. A este respeito, o piedoso Landspérgio imagina o Senhor falando-nos a respeito da Virgem Maria:

Homens, pobres filhos de Adão que viveis no meio de tantos inimigos e de tantas misérias, procurai honrar com especial afeto a minha e vossa Mãe; pois eu dei Maria ao mundo para vosso exemplo, para que dela aprendais a viver como é devido. Dei-a como vosso refúgio para que a ela recorrais em vossas aflições. Esta minha filha eu a fiz tal, que ninguém a pudesse temer, nem ter repugnância de recorrer a ela. Exatamente por isso a formei tão benigna e compassiva, que nem sabe desprezar os que a invocam, nem sonegar seus favores a quem a [ela] suplica. A todos abre o manto de sua misericórdia e não despede alma nenhuma desconsolada11.

Louvada seja Deus, bendita seja a Sua infinita bondade, que nos concedeu esta excelsa Mãe, intercessora e advogada, tão terna e amorosa! São Boaventura, tão abrasado de amor para com nosso Redentor e nossa amantíssima Advogada, expressa assim a sua confiança em Jesus e em Maria:

Ainda que o Senhor me tenha reprovado quanto quiser, […] eu sei que ele não pode negar-se a quem o ama e a quem de todo coração o busca. Eu o abraçarei com o meu amor e sem me abençoar não o deixarei; sem me levar consigo, ele não poderá ausentar-se.

Se mais não puder, ao menos esconder-me-ei dentro de suas chagas, onde ficarei para que me não possa encontrar fora de si. Finalmente, se o meu Redentor, por causa de minhas culpas, me lançar fora dos seus pés, eu me prostrarei aos pés de Maria, sua Mãe, e deles não me afastarei enquanto ela não me alcançar o perdão. Por ser Mãe de misericórdia, nem recusa nem jamais recusou compadecer-se de nossas misérias, e socorrer os infelizes que imploram o auxílio. E assim, senão por obrigação, ao menos por compaixão, não deixará de induzir o Filho a perdoar-me12.

Assista ou ouça programa do Padre Paulo Ricardo sobre Maria e o Vaticano II”:

O convite a uma virgem na Terra para fazer parte do coro das virgens nos Céus

O Papa São Gregório Magno conta que uma virgem, chamada Musa, distinguia-se por uma grande devoção a Santíssima Virgem. No entanto, a piedosa religiosa encontrava-se em grande perigo de perder a sua inocência por causa dos maus exemplos das companheiras. Certo dia, a Mãe de Deus apareceu a ela, na companhia de muitos santos, e lhe perguntou: “Musa, não queres entrar para o coro destas virgens? Musa disse que sim e ouviu como resposta da Rainha do céu o seguinte: Pois bem; nesse caso deixa as tuas companheiras e prepara-te; dentro de trinta dias estarás entre as santas virgens”. Em obediência, Musa afastou-se de suas amigas e trinta dias depois estava para morrer, vítima de uma gravíssima enfermidade. “Outra vez apareceu-lhe a Mãe de Deus chamando-a por seu nome, ao que Musa respondeu: Sim, ó minha Rainha, já vou. Com estas palavras expirou na paz do Senhor”13.

Oração de Santo Afonso Maria de Ligório a Virgem Maria, esperança nossa

Ó Mãe do santo amor, ó vida, refúgio e esperança nossa! Bem sabeis que vosso Filho Jesus Cristo, não contente de constituir-se nosso perpétuo advogado junto ao Eterno Pai, quis ainda que os empenhásseis junto a ele para impetrar as divinas misericórdias. Ele dispôs que as vossas orações concorressem para nossa salvação, e deu-lhes tanto poder, que alcançam quanto pedem. Eu miserável pecador, para vós me volto, ó esperança dos miseráveis. Espero, ó Senhora minha, que, pelos merecimentos de Jesus Cristo e pela vossa intercessão, me hei de salvar. Assim o espero e confio tanto que, se a minha salvação eterna estivesse na minha mão, certamente eu a poria na vossa.

Pois mais confio em vossa misericórdia e proteção, que em todas as minhas obras. Mãe e esperança minha, não me desampareis como eu mereço; olhai para as minhas misérias e movei-vos à piedade, socorrei-me e salvai-me. Confesso que com meus pecados tenho muitas vezes posto obstáculo às luzes e aos socorros que me tendes alcançado do Senhor. Porém vossa piedade para com os miseráveis e vosso poder junto a Deus excedem o número e a malícia de todos os meus pecados. É patente ao céu e a terra que quem é de vós protegido certamente não se perde.

Esqueçam-me, pois, todas as criaturas, vós, porém, não me esqueçais, ó Mãe de Deus onipotente. Dizei a Deus que eu sou vosso servo; dizei-lhe que vós me protegeis, e serei salvo. Ó Maria, tenho confiança em vós; nesta esperança vivo e nela quero e espero morrer, dizendo sempre: Minha única esperança é Jesus e depois de Jesus, Maria14.

Natalino Ueda, servo inútil de Jesus por Maria.

Links relacionados:

TODO DE MARIA. A fé, a esperança e a caridade de Maria.

TODO DE MARIA. A origem da festa de Nossa Senhora da Luz.

TODO DE MARIA. Maria, imagem perfeita da beleza de Deus.

Referências:

1 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Glórias de Maria, p. 97.

2 CONCÍLIO VATICANO II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 68.

3 SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO. Op. cit., p. 98.

4 Idem, ibidem.

5 Idem, p. 99.

6 Idem, ibidem.

7 Idem, ibidem.

8 Idem, p. 100.

9 Idem, ibidem.

10 Idem, p. 101.

11 Idem, ibidem.

12 Idem, p. 102.

13 Idem, p. 103.

14 Idem, p. 103-104.

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