Arquivado em: Sem categoria — vanessalacquaneti at 7:54 am on quarta-feira, dezembro 10, 2008
Como é bom ter amigos! Tenho recebido inúmeros e-mails por esses dias, de mensagens, histórias, poesias e palavras de amor. As minhas próximas postagens serão uma partilha destas histórias!
Este e-mail recebi de Renato Tarallo, meu irmão da comunidade de aliança da Canção Nova de São Paulo. Minha cara! Um beijo, Renato e Neusa, e meninas lindaaas, italianinhas!
Responsabilidade Social
O Psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo.
Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são ’seres invisíveis, sem nome’. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da ‘invisibilidade pública’, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
- ‘Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência’, explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. ‘Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão’, diz.
Apesar do castigo do sol forte, do trabalho pesado e das humilhações diárias, segundo o psicólogo, os garis são acolhedores com quem os enxerga. E encontram no silêncio a defesa contra quem os ignora.
A função daquele trabalho de mestrado era compreender e analisar a condição de trabalho dos garis, e a maneira como eles estão inseridos na cena pública. Ou seja, estudar a condição moral e psicológica à qual eles estão sujeitos dentro da sociedade.
“Eu vesti um uniforme que era todo vermelho, boné, camisa e tal. Eu tinha a expectativa de me apresentar como novo funcionário, recém-contratado pela USP pra varrer rua com eles. Mas os garis sacaram logo, entretanto nada me disseram. Existe uma coisa típica dos garis: são pessoas vindas do Nordeste, negros ou mulatos em geral. Eu sou branquelo, mas isso talvez não seja o diferencial, porque muitos garis ali são brancos também. Você tem uma série de fatores que são ainda mais determinantes, como a maneira de falarmos, o modo de a gente olhar ou de posicionar o nosso corpo, a maneira como gesticulamos.
Os garis conseguem definir essas diferenças com algumas frases que são simplesmente formidáveis. Um exemplo: Nós estávamos varrendo e, em determinado momento, comecei a papear com um dos garis. De repente, ele viu um sujeito de 35 ou 40 anos de idade, subindo a rua a pé, muito bem arrumado com uma pastinha de couro na mão. O sujeito passou pela gente e não nos cumprimentou, o que é comum nessas situações. O gari, sem se referir claramente ao homem que acabara de passar, virou-se pra mim e começou a falar: ‘É Fernando, quando o sujeito vem andando, você logo sabe se o cabra é do dinheiro ou não. Porque peão anda macio, quase não faz barulho. Já o pessoal da outra classe você só ouve o toc-toc dos passos. E quando a gente está esperando o trem logo percebe também: o peão fica todo encolhidinho olhando pra baixo. Eles não. Ficam com olhar só por cima de toda a peãozada, segurando a pastinha na mão’”.
“No primeiro dia de trabalho os garis já deixaram muito claro que eles sabiam que eu não era um gari. Fui tratado de uma forma completamente diferente. Os garis são carregados na caçamba da caminhonete junto com as ferramentas. É como se eles fossem ferramentas também. Eles não deixaram eu viajar na caçamba, quiseram que eu fosse na cabine. Tive de insistir muito para poder viajar com eles na caçamba. Chegando ao lugar de trabalho, continuaram me tratando diferente. As vassouras eram todas muito velhas. A única vassoura nova já estava reservada para mim. Não me deixaram usar a pá e a enxada, porque era um serviço mais pesado. Eles fizeram questão de que eu trabalhasse só com a vassoura e, mesmo assim, num lugar mais limpinho, e isso tudo foi dando a dimensão de que os garis sabiam que eu não tinha a mesma origem socioeconômica deles.”
“No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse: ‘E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?’ E eu bebi. Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.”
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari? “Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente à lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angústia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.”
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou? “Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se estivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.”
E quando você volta para casa, para seu mundo real? “Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador. Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma ‘COISA’. ” Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
Leia mais sobre a experiência do psicólogo Fernando Braga ! www.responsabilidadesocial.com
Comentário:
Alguns comentam sobre a minha forma de denunciar as injustiças sociais, como se não coubesse à nós, carismáticos, falar em nome da verdade sobre temas que envolvem a vida destes nossos amados irmãos, vítimas de tantos preconceitos em nossa sociedade. Mas tenho claro em mim que o nosso Deus, Aquele que inspirou a Moisés os dez mandamentos, o Deus da Sagrada Escritura, não chama o seu povo a uma luta simplesmente política e econômica. Estamos em uma luta contra todas as forças da morte, onde quer que elas se manifestem, e uma luta pela vida em seu sentido mais amplo. Senão, não haveria todos os anos, na Igreja do Brasil, motivos para se criar uma campanha, as tão faladas “Campanhas da Fraternidade”. Enquanto houver pessoas sofrendo na América Latina, especialmente no Brasil, haverão campanhas, haverão profetas, haverão “gritos” de todas as partes, que não podem se calar em meio as injustiças que assolam nosso povo, principalmente pela imensa desigualdade social.
Certa vez li algumas palavras de Pe. Gustavo Gutiérrez, da arquidiocese de Lima, que diz que as forças de morte estão presentes na América Latina não apenas no aspecto físico, mas também psicológico e cultural, e fizeram dos nossos pobres “estranhos em suas próprias terras”. Eles estão tolhidos por hostilidade, medo e manipulação, vítimas de uma estrutura perversa e mesquinha.
O Deus que reverenciamos não é um Deus que deseja a pobreza, o preconceito e a anulação de ninguém. Contemplo os nossos irmãos índios na luta pelas terras na Reserva Raposa Serra do Sol. É a lei do mais forte contra o fraco. O que querem fazer? As áreas para os nossos índios se desenvolverem são insuficientes para reproduzir seu modo de vida. O destino desses índios é a pressão urbana, e por experiência, no Brasil, eles vivem em grande penúria nas zonas urbanizadas. A desnutrição e a mortalidade infantil são altíssimas.
Muitos são os exemplos de preconceitos que atingem o nosso país, os quais “ofuscam” o verdadeiro rosto de Cristo nos nossos irmãos. E nós não podemos nos calar. Aliás, sou contra aqueles que dizem: “os católicos carismáticos são alienados”. Não, não somos. E vamos lutar até o fim para ver os nossos povos contemplando a vida, vida em abundância, não nos esquecendo que o nosso Jesus é um pobre servo, sofredor, e veio em uma manjedoura simples por amor de todos nós, sem distinção de classes e etnias!
Vanessa Lacquaneti