Intenções de oração do Papa para o mês de agosto

Filed under: Santa Sé — vidanova at 8:59 pm on quinta-feira, julho 31, 2008

As intenções de oração do Papa Bento XVI, confiadas ao Apostolado de Oração, para o mês de agosto, são:

Geral: Para que a família humana saiba respeitar o desígnio de Deus sobre o mundo e se torne, assim, sempre mais consciente do grande dom de Deus que a Criação representa para nós.

Missionária: Para que seja promovida e alimentada a resposta de todo o povo de Deus à comum vocação à santidade e à missão, com um atento discernimento dos carismas e um constante empenho de formação espiritual e cultural.

Todos os meses o Santo Padre confia suas intenções de oração ao Apostolado de Oração, iniciativa seguida por 50 milhões de pessoas dos cinco continentes.

Doze desafios da Igreja, segundo João Paulo II

Filed under: Papa João Paulo II — vidanova at 8:57 pm on quinta-feira, julho 31, 2008

Quais são os desafios que a Igreja Católica tem de enfrentar, e em particular seus bispos, neste turbulento início de século? O papa João Paulo II respondeu a esta pergunta ao receber os bispos da América Latina entre março de 2001 e fevereiro de 2003.

Ao final dos encontros que os prelados mantiveram com o papa e expoentes da Cúria Romana em sua qüinqüenal visita “ad limina apostolorum”, o pontífice entregou uma série de discursos aos bispos separados em grupos e foi analisando com eles a situação da Igreja católica atualmente.

As análises do bispo de Roma se referiam de maneira particular à vida dos católicos latino-americanos –que constituem quase a metade dos católicos do mundo.

Em uma intervenção pronunciada ante a assembléia plenária da comissão Pontifícia para a América Latina, celebrada de 24 a 27 de março no Vaticano, o arcebispo Leonardo Sandri, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado do Vaticano, apresentou aos cardeais e bispos presentes uma síntese dos desafios da Igreja, tal como expôs o papa.
A seguir, os doze desafios expostos pelo papa. Os textos entre aspas estão tomados literalmente da conferência de dom Sandri.

1. Anúncio de Jesus Cristo

O primeiro desafio é “anunciar a Jesus Cristo para alimentar a fé dos fiéis e fazer que os ensinamentos do Evangelho amadureçam neles, transmitindo a mensagem de Cristo em toda sua integridade e beleza, sem deixar de lado sua exigência”. Esta missão deve ser “realizada mediante a pregação da Palavra de Deus, a celebração dos sacramentos e o estímulo à caridade”.

Isso significa apresentar “antes de tudo a pessoa e missão de Cristo, único mediador entre Deus e os homens”. “O anúncio de Jesus Cristo deve ser claro e preciso, explícito e profético”.

2. Comunhão

“Só quando é claramente perceptível uma profunda convivência e unidade dos pastores entre si e com o sucessor de Pedro, como também dos bispos com seus sacerdotes, se poderá dar uma resposta confiável aos desafios que provêm do atual contexto social e cultural”, explicou dom Sandri citando intervenções do papa.

Isso implica, acrescentou, “a conservação do depósito da fé em sua pureza e integridade e a unidade de todo o Colégio dos bispos sob a autoridade do sucessor de Pedro”.

3. Sacerdotes

É “particularmente urgente uma figura de pastor que não só atende aos fiéis próximos, mas que incansavelmente vá a busca dos desorientados e afastados”.

Para isso, antes de tudo, o papa insistiu na necessidade de que os bispos mantenham com os sacerdotes uma relação “de proximidade”. “Uma grande desilusão, especialmente entre o clero jovem, é não perceber a estima do bispo”.

O papa insistiu desta forma na “formação humana, espiritual, intelectual e pastoral permanente”: “trata-se de que (os sacerdotes) apareçam sempre dotados de uma sólida espiritualidade, imitando a Cristo, Bom Pastor, e com uma bagagem intelectual que lhes faça cada dia mais idôneos para transmitir a mensagem evangélica aos homens e mulheres de hoje”.

4. Pessoas consagradas

“Os pastores da Igreja não só devem promover as vocações ao clero diocesano, mais estreitamente vinculado à sua missão, mas também à vida consagrada, assim como velar para que se respeite a identidade de cada instituto, fomentando assim mesmo entre os fiéis a estima pela vida religiosa”.

Por sua parte, os religiosos devem “manter a comunhão e o diálogo com os outros componentes do Povo de Deus, e em primeiro lugar com os próprios bispos. Devem, também, distinguir-se por um especial acatamento e obediência aos pastores da Igreja e às diretrizes da Sé Apostólica”.

 

5. Seminários

Os seminaristas “devem ser recebidos, sentir-se amados e ser convenientemente atendidos nos seminários e casas de formação mediante um processo que ajude a desenvolver a vocação e podem um dia ser servidores de Deus em benefício dos fiéis e de tantos irmãos necessitados”.

Isso exige, portanto, uma adequada “seleção dos formadores” dos seminários. Ao mesmo tempo, “a escassez de sacerdotes não justifica que se faça uma devida e exigente seleção dos candidatos, nem que diminua o nível intelectual exigido”.

6. Pastoral vocacional

“A promoção das vocações sacerdotais é tarefa de todo o povo de Deus e ninguém deve sentir-se excluído deste compromisso”.

 Para alcançar este objetivo, o papa propõe várias estratégias. As três decisivas são: “contar com famílias sadias, estáveis, fundadas nos verdadeiros valores”; “servir-se de organizações de tipo paroquial, escolar ou vinculadas aos movimentos apostólicos que sejam capazes de oferecer uma educação baseada na fé, e que proporcionem um ambiente propício para a inserção de um estilo de vida que mostre interesse pelos demais”; “o testemunho dos sacerdotes e das pessoas consagradas”.

 

7. Leigos

“É necessário um renovado convite aos seculares a participar nos âmbitos que lhes são próprios, ou seja, a inspiração cristã da ordem temporal, a defesa e promoção dos bens da família e a vida, a cultura, a economia, a política, de modo que, como cidadãos e como filhos de Deus e membros da Igreja, assumam suas responsabilidades nestes âmbitos segundo os critérios do Evangelho e a doutrina da Igreja”.

 “Os bispos devem contar com o laicato, outorgando-lhe a confiança que merecem e não recusando atribuir-lhe encargos para os que estejam capacitados”. O “florescer de movimentos e novas comunidades eclesiais” deve ser considerado “como um fenômeno esperançoso que merece especial atenção por parte dos bispos’’.

8. Família

O papa constata “uma crise generalizada e radical desta instituição fundamental”. Pelo que pede enfrentar vários desafios:

 –“A necessidade de uma sólida preparação dos que vão contrair matrimônio”.

–“Impulsionar as condições sociais, econômicas e legais que melhor salvaguardem a unidade e a estabilidade dos lares”.

–Servir a família como “um lugar privilegiado onde se vive e transmite a fé”.

– “Fazer um discernimento pastoral sobre as formas alternativas de união que hoje afetam a instituição da família, especialmente aquelas que consideram como realidade familiar as simples uniões de fato, desconhecendo o autêntico conceito de amor conjugal”.

–“Promover os movimentos e associações de espiritualidade matrimonial”.

9. Missa dominical

“Não se constrói nenhuma comunidade cristã se esta não tem sua raiz e centro na celebração da sagrada Eucaristia”. “Entre as numerosas atividades que desenvolve uma paróquia nenhuma é tão vital ou formativa para a comunidade como a celebração dominical do dia do Senhor e sua Eucaristia”.

10. O mundo da cultura (Universidades e escolas católicas)

“Em algumas ocasiões, a cultura que nos envolve nem sequer propõe a existência de Deus, simplesmente prescinde Dele”. “Para inserir a seiva nova do Evangelho na sociedade contemporânea a Igreja deve servir-se também das Universidades e escolas católicas”.

Para isso, o papa considera que “é necessário que as escolas e Universidades católicas mantenham bem definida sua própria identidade”.

11. Situação social

A Igreja “há de participar das análises das conquistas e expectativas da sociedade, tratando de interpretar à luz do Evangelho os assuntos temporais e sociais para orientar a mesma sociedade, não recusando quando seja o caso a denúncia da injustiça e propondo princípios de caráter moral que hão de orientar também a atuação da vida civil”.

Nesta obra a Igreja deve “favorecer o diálogo entre as partes interessadas em caso de conflito” e também oferecer uma atenção pastoral aos emigrantes.

12. A atenção aos pobres, aos necessitados, aos indígenas…

Após recordar que “amando os pobres o cristão imita as atitudes do Senhor”, o papa propõe:

–”Manter a voz profética diante do perpetuar das situações de discriminação”.

–”Orientar a criatividade para a busca de meios e atividades, por parte de todos e cada um na construção de seu próprio porvir”.

–”A Igreja não pode conformar-se com a busca de um simples bem-estar ou comodidade de vida, mas deve promover o bem integral da pessoa, o respeito à verdadeira dignidade de cada ser humano, o qual implica o respeito aos direitos humanos fundamentais e do sentido de responsabilidade, solidariedade e cooperação para construir um mundo melhor para todos”.

Nota da Redação: As intervenções do papa em sua língua original (castelhano e português) podem ser consultadas em “Discursos do Santo Padre João Paulo II aos bispos de América Latina em visita ad \”Limina Apostolorum Petri et Pauli\”, 2001-2003”, livro editado pela comissão Pontifícia para América Latina (pcal@latinamer.va).

Fonte: ZENIT

13 Idéias geniais para se libertar da TV

Filed under: Moral Católica — vidanova at 8:02 am on quinta-feira, julho 24, 2008

La Familia Internacional

Como se sabe, a televisão tem destruído muitos lares em virtude da falta de diálogo que passa a existir entre os membros da família. Ao longo destes 50 anos, tornou´se verdadeiro vício de forma que, atualmente, não é difícil encontrarmos em toda casa um aparelho de TV para cada membro da família, para que não haja a ´concorrência interna´ pelos programas que passam no mesmo horário. A família torna´se, assim, prisioneira da televisão.

Com o objetivo de despertar o hoje incomum diálogo familiar, a criatividade e o compartilhamento do afeto entre os membros da família, transcrevemos abaixo 13 idéias para se libertar da TV sugeridas pela organização argentina ´TV La Familia Internacional´. Como advertem os seus diretores, ´não se trata, de maneira alguma, de um boicote´, mas cortar a dependência da TV para promover uma vida mais sã, motivar o diálogo e dedicar mais tempo para brincar com as crianças, para pensar, para passear e compartilhar o tempo em conjunto com os demais membros. A idéia é apenas experimentar! Por que não tentar? Por que não tentar se dedicar mais à sua própria família?

Remova a sua TV para um lugar menos importante na casa. Isto ajudará muito no seu processo de libertação.

Esconda o controle remoto.

Não permita a existência de uma TV no quarto de seus filhos, pois ela os distancia da vida familiar e do contato com os demais membros, não os deixa dormir bem e também torna difícil controlar a programação imprópria para menores. Se você remover a TV do quarto de seus filhos, compense´os com algo que gostem e que lhes faça bem.

Não assista a TV durante as refeições pois é um ótimo momento para se cultivar o diálogo familiar.

Determine claros limites para se assistir aos programas da TV, por exemplo, meia hora, uma hora… Estabeleça as normas de forma positiva, isto é, não diga: ´você não vai ver televisão!´, mas ´você pode ver tanto tempo por dia´ ou ´vamos fazer tal coisa´.

Não use a TV como babá. Faça com que seus filhos participem das tarefas domésticas, para que se sintam úteis. Dê´lhes a oportunidade de sentir que podem ajudá´lo bastante.

Fixe alguns dias da semana como dias sem TV e realize noites de entretenimento familiar.

Não faça da TV instrumento de recompensa ou castigo pois isto aumenta ainda mais o seu poder de influência.

Escute o rádio ou a sua música favorita ao invés de deixar a TV ligada em um outro cômodo da casa, usando´a como ´som ambiente´.

Não pague para assistir TV; ao invés, utilize essa verba para comprar jogos ou livros. Não se assuste se o seu filho lhe disser: ´não tenho o que fazer!´. Isto irá despertar´lhe a criatividade.

Não permita que a TV supere o mais importante: o diálogo familiar, a criatividade, a leitura e a diversão.

Pense sempre na possibilidade de assistir cada vez menos TV. Quando você conseguir se libertar, ficará espantado com quanto tempo perdeu para se dedicar à família, à criatividade, ao amor e às outras formas de entretenimento. Contudo, após a libertação, passará você a controlar o botão de liga/desliga da TV… E o mais importante: à hora que você bem quiser!

TV La Familia Internacional

Presidência: Buenos Aires (Argentina)

Tel.: 00´5411´4766´0712

Matar a alma

Filed under: Bioética — vidanova at 7:59 am on quinta-feira, julho 24, 2008

Na ética marcada pela subjetividade, enquanto busca de valores entendidos unilateralmente como saciedade dos desejos intimistas, é-nos difícil entender a defesa de valores objetivos ou maiores do que simplesmente a vontade pessoal. Aliás, isto é muito comum na realidade atual. Apregoa-se a busca desenfreada de prazeres e defesa de interesses convenientes ao gosto de cada um ou de determinados grupos, a ponto de se desmerecerem verdades e princípios da dignidade da vida, da pessoa humana, do corpo, do sexo, das instituições, da família… A própria mídia tem sido, não raro, manipuladora de tais mentalidades, teorias e práticas, favorecendo a criação da ética de conotação eminentemente consumista.

Às vezes se confundem defesa de valores éticos inerentes à própria vida e dignidade
humana com a pura defesa de verdades religiosas, argumentando-se que o Estado é laico e não se rege por nenhuma religião. Pode coincidir, muitas vezes, o enunciado de uma verdade inerente à ética e, nessa perspectiva, com o enunciado religioso. Nas não se pode rejeitá-lo com a não aceitação da verdade religiosa. Isto, por exemplo, no caso da aceitação legal do uso de células embrionárias para pesquisa científica, foi usado como argumento para sua aprovação. O princípio vital da ética e da moral de que o fim não justifica os meios não pode ser desqualificado. O desrespeito à vida humana não é negociável por lei humana nenhuma, a ponto de ela ser desumana. Podem-se fazer leis humanas a despeito da ética, mas quem é cidadão com ética não pode consentir com elas.

Vozes proféticas se fazem ouvir em defesa da verdade e da ética, principalmente no que se refere à defesa da vida, do meio ambiente, da dignidade humana, dos deixados de lado no desenvolvimento social, da família, da criança, dos jovens, dos idosos, dos discriminados, da boa política… Tais profetas são freqüentemente perseguidos, caluniados, mortos… A retaliação por parte dos culpados e denunciados se faz sentir com a busca de defeitos em alguns membros falhos de instituições sérias para se desmoralizar as mesmas e não se levar a sério a verdade de suas proposições e verdades. Jesus encoraja os profetas. “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado… O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia… Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” (Mt 10, 26-28).

A morte da alma se traduz com a morte do ideal do amor vivido, da justiça defendida, do ser humano respeitado e promovido em sua dignidade, da criança amparada, da família protegida, do desenvolvimento da ciência e da economia com benefício também para os empobrecidos, dos sem nada assistidos e promovidos em sua dignidade, da cidadania para cada ser humano, a partir de sua fecundação até a velhice e morte natural, da natureza preservada…

O Criador convoca todo ser humano a cuidar da obra criada. Ele retribui infinitamente mais o bem que fizermos nessa direção. Se Ele cuida de cada ser, mesmo dos menores, muito mais dos que colaboram em preservar a vida ao invés de matá-la! Quem a promove ganha a existência plenificada de realização, com o amor infinito de Deus!


 

Fonte: CNBB – por Dom José Alberto Moura, 64 anos – Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (Norte de Minas Gerais).

LUTERO E A BÍBLIA

Filed under: Conheça Mais,Seitas e Religiões — vidanova at 7:56 am on quinta-feira, julho 24, 2008

Por Lluís Pifarré

Tradução: Carlos Martins Nabeto

Fonte: http://www.apologeticacatolica.org/

É opinião bastante corrente que a obra mais significativa de Lutero foi a tradução que fez das Sagradas Escrituras para a língua alemã, fato que permitiu que muitas pessoas de qualquer condição pudessem tomar conhecimento direto da Palavra de Deus. É também uma opinião, ou melhor, uma acusação bastante divulgada – e o próprio Lutero foi um dos que a propagou de maneira mais repetitiva – que a Igreja Católica, movida por um excesso de zêlo, não facilitava a leitura da Bíblia aos seus fiéis, para evitar que deformassem sua mensagem em razão da livre interpretação pessoal.

No entanto, consideramos ser esta uma acusação injusta e injustificável quando afirmada de forma impensada. Em primeiro lugar, porque é o próprio Lutero quem nos informa que ao ingressar no Convento dos Agostinianos da cidade alemã de Erfurt, movido por seu desejo de tornar-se frade, o mestre dos noviços deste Convento, fr. Johan Greffenstein, depositou em suas mãos “uma Bíblia de capa vermelha”; e que este novo noviço ficou tão entusiasmado com a sua leitura que quase a memorizou. Devemos recordar que o estudo e o conhecimento das Sagradas Escrituras era uma regra obrigatória nas comunidades religiosas e constituía a fonte fundamental de inspiração para os frades de vida ascética e contemplativa. Ao mesmo tempo, nas diversas bibliotecas das escolas, universidades e mosteiros da Idade Média, existiam Bíblias de várias edições, já que era a base do ensino teológico e elemento essencial da pregação e da liturgia. São testemunhos desta atividade bíblica os mais de 8.000 manuscritos antigos que se conservam da Vulgata latina, além do que, entre os anos de 1450 e 1522, foram impressas mais de 160 vezes a denominada “Biblia Pauperum”, tida como que o catecismo das pessoas mais simples.

A respeito da publicação de Bíblias na língua alemã, devemos ressaltar que muito antes de ser publicada a Bíblia de Lutero, já tinham sido catalogadas nada menos que 18 traduções, sendo 14 em alto alemão e 4 em baixo alemão. Delas é possível destacar a tradução completa da Bíblia, promovida no século XIV na Baviera, cuja publicação teve tão boa acolhida que o impressor Johan Mentelin a editou em outras 13 oportunidades, convertendo-a numa espécie de “Vulgata alemã”. Poderíamos acrescentar a este balanço as numerosas edições parciais dos Saltérios, Epistolários e Evangeliários, muitos deles traduzidos em diversas línguas vernáculas. Um dos inúmeros poemas populares existentes na Alemanha do século XV, intitulado “A Barca dos Loucos”, fazia referência a este dinamismo bíblico em um de seus versos: “Todos os países estão atualmente inundados das Sagradas Escrituras e daquelas coisas que afetam a saúde das almas”.

Se este conjunto de dados desmente a acusação genericamente feita contra a Igreja Católica, sobre o seu suposto desinteresse para dar a conhecer a Bíblia, será o historiador Francesc Falk quem esclarecerá melhor a falta de base destas acusações, através do seu livro “Die Babel am Ausgange del Mittelalters” (=As Bíblias Produzidas na Idade Média), publicado na Mogúncia em 1905. Nesta obra, afirma que na linha cronológica existente entre a invenção da imprensa (cerca do ano 1450) até o ano de 1520, foram traduzidas mais de 156 edições de Bíblias católicas, número que para aquela época não era nada mal. Devemos recordar também da tradução da Bíblia organizada pelo Card. Jiménez de Cisneros, publicada em 6 volumes em julho de 1517, sob a denominação “Bíblia Poliglota Complutense”, em cuja confecção interveio uma prestigiosa equipe de humanistas, filólogos e orientalistas que, entre outras coisas, tiveram o acerto de transcrever de forma paralela os textos originais do grego, hebraico e aramaico ao lado da correspondente tradução latina.

Retomando a questão de Lutero e sua tradução da Bíblia, é conveniente enquadrá-la no contexto da situação social e tecnológica do século XV na Europa, visto que graças a invenção da imprensa foi possível multiplicar as traduções da Bíblia em línguas vernáculas. Tal evento facilitou a possibilidade de pôr em contato com a Bíblia o povo simples e pouco culto, incrementando a tendência biblicista e anti-escolástica que se manifestava em muitos mosteiros e universidades alemãs do século XVI. Um dos mais importantes impulsores deste ambiente foi o famoso filólogo holandês Erasmo [de Roterdan], que em 1515 escrevia em sua “Epiclesis”: “Discordo daqueles que se opõem a que os ignorantes venham a ler as divinas letras traduzidas em língua vulgar. Desejaria que todas as moças lessem o Evangelho e as Epístolas Paulinas. E oxalá que o agricultor, com a mão no arado, fosse cantando alguma passagem da Bíblia; e fizesse o mesmo o tecelão em seu tear; e o caminhante aliviasse a fastidiosa viagem com essas histórias! Disso deveriam tratar as conversas de todos os cristãos”[1].

No mosteiro de Vintemberg, Lutero tinha lido e assimilado esta exortação de Erasmo e, querendo tornar-se braço executor do humanista holandês, proporá levar a cabo a tradução da Bíblia para dá-la a conhecer a todos os alemães. Iniciou esta tarefa traduzindo o Novo Testamento para a língua alemã, aproveitando os últimos meses que lhe restavam de sua estadia no bem equipado castelo de Wartburg, situado na comarca da Turíngia, lugar em que se escondeu ao fugir da sentença condenatória do Edito de Worms. Nesta tarefa exigente, manifestou sua capacidade de trabalho, pois em um período de três meses (de dezembro de 1521 até princípios de março de 1522, data em que saiu do esconderijo para acorrer novamente a Vintemberg), praticamente terminou a tradução do Novo Testamento.

Seis meses depois, mais concretamente em setembro de 1522, saiu impressa esta tradução do Novo Testamento, sob o título “Das Newe Testament Eutzsch, Wittemberg”, em que não aparecia nem o ano nem o nome do impressor, nem tampouco o nome de seu autor, talvez para obter uma maior difusão do livro. Nesta primeira edição foram impressos 3.000 exemplares que logo se esgotaram, pois em finais do ano seguinte já era publicada uma segunda edição. Segundo cálculos de um dos biógrafos de Lutero, Hartman Grisar, até o ano de 1527 foram feitas 16 edições em Vintemberg, sem contar as mais de 50 edições em outras cidades alemãs. Lutero efetuou a tradução alemã do Novo Testamento recorrendo aos procedimentos usados naquele tempo, que consistiam em partir da Vulgata latina, do original grego da Septuaginta [LXX] – apesar de Lutero não ser especialista na língua helênica – e também das anteriores traduções alemãs da Bíblia[2].

Levado por seu ardor evangelista, que era alimentado por suas vivências subjetivas interiores, Lutero considerava que as anteriores traduções da Bíblia não refletiam o sentido teológico que desejava dar-lhes; e considerando mais o sentido que a letra dos textos, utilizou uma linguagem tão viva, natural e popular que qualquer leitor o poderia entender sem maiores dificuldades. Com a tradução do Novo Testamento, Lutero pretendia corroborar suas próprias doutrinas e aproveitou a ocasião para acusar a Igreja de não ter entendido o autêntico Evangelho (e, de passagem, para desacreditar e injuriar o papado e a Sé Romana, especialmente através das polêmicas ilustrações que acompanhavam algumas páginas da edição, realizadas pelo famoso desenhista Lucas Cranach “o Velho”).

Quanto à tradução do Antigo Testamento, sua edição foi retardada por algum tempo, em parte devido ao insuficiente conhecimento que Lutero tinha da língua hebraica. Isto o obrigou a pedir a colaboração de uma equipe formada por ilustres auxiliares reformistas e por alguns reconhecidos lingüistas[3]. Tal como já tinha feito com o Novo Testamento, voltou a se servir da tradução grega da Septuaginta [LXX], da Vulgata latina e das antigas traduções alemãs. A tradução completa da Bíblia só foi concluída e impressa no ano de 1534 e estava dividida em 6 partes. Esta primeira edição era acompanhada de prefácios e notas marginais, juntamente com diversas gravuras (muitas delas realizadas por artistas desconhecidos) altamente ofensivas aos católicos. Esta edição teve uma boa acolhida em todas as comarcas da Alemanha, obrigando a se realizar uma nova edição no ano seguinte. Calcula-se que entre o período de 1534 e 1584 cerca de 100.000 exemplares foram vendidos, uma cifra considerável para aquela época.

Com a intenção de melhorar estas traduções, Lutero continuou revisando a sua Bíblia nos anos seguintes, auxiliado por seus clássicos colaboradores. De fato, a correção linguística da sua Bíblia supera a de muitas edições das antigas Bíblias alemãs, já que estas refletiam um alemão bastante tosco e rudimentar, que dependia dos dialetos existentes. Além disso, estas antigas traduções copiavam quase que literalmente a Vulgata [latina], reproduzindo uma série de latinismos e hebraísmos de difícil compreensão, que já não se adaptavam suficientemente à língua popular da Germânia do século XVI.

É indubitável que Lutero colocou em tensão todas as forças de seu espírito e também de seu corpo na tradução da Bíblia para o alemão, com o objetivo de não perder nenhuma de suas típicas matizes e de sua estrutura sintática. Isto lhe exigiu traduzir de forma literal e dar a muitas das frases originais das Sagradas Escrituras alguns sentidos diferentes dos tradicionais, obrigando-o a introduzir termos que não tinham correspondência com os textos originais, mudando seu significado conceitual, de modo que a Palavra de Deus passava a adquirir um sentido suspeitamente subjetivista. Lutero nos descreve o método simples e direto em que se inspirou para sua peculiar tradução: “Não se deve perguntar às sílabas da língua latina como se deve falar em alemão; deve-se na verdade perguntar à mãe de família em sua casa, às crianças da rua, ao homem comum na praça e observar-lhes a boca para comprovar como falam e, segundo tudo isto, traduzir”[4].

Os católicos, surpresos pela grande difusão da Bíblia de Lutero, tentaram contrapor a esta influência a publicação de diferentes edições da Bíblia. Talvez as mais conhecidas sejam as do dominicano Johan Dietenberger, publicada na Mogúncia em 1534 e que teve uma boa acolhida. Ainda que se ajustasse à Vulgata latina, devemos assinalar que também se beneficiava consideravelmente da tradução luterana. Outra edição da Bíblia foi a do prestigioso teólogo Johan Eck[5], “Bibel auf hochteusch verdolmetsch, Ingolstadt”, de 1537. Esta tradução era mais exata que a de Dietenberger, embora não tenha gozado de tanto sucesso, talvez por sua linguagem mais figurada, áspera e difícil. Alguns anos antes, Jeronimo Emser, falecido em 1527, havia publicado um Novo Testamento fazendo uso de uma linguagem clara e acessível, que em alguns aspectos se inspirou no estilo popular do Novo Testamento luterano.

Os adversários de Lutero o acusaram de falta de ortodoxia doutrinal e de torcer os textos sagrados para acomodá-los às sua opiniões teológicas particulares e subjetivas. O já citado Jeronimo Emser afirma que na tradução luterana do Novo Testamento havia encontrado mais de 1.400 erros e falsidades de todos os tipos. Diante destes ataques, Lutero respondia com grande arrogância: “Minha doutrina é a de Cristo e a de Cristo não é outra que a contida na Bíblia. Se me argumentam com um texto da Escritura, eu lhes responderei com Cristo, contra a letra da Escritura”[6]. A partir do ponto de vista teológico e doutrinário, são de maior gravidade as acusações que se referem à arbitrária seleção que fez do cânon dos livros bíblicos, de tal maneira que aqueles em que encontrava apoio suficiente para confirmar sua doutrina eram exaltados como verdadeiros, divinos e proféticos; ao contrário, aqueles que não expressavam esta concordância, mereciam sua rejeição. O Profeta de Vitemberg não faz cerimônias para sustentar que sua própria interpretação da Bíblia está acima, inclusive, da autoridade dos Apóstolos: “Aquele que não favorece o conhecimento de Cristo não é apostólico, ainda que o diga Pedro ou Paulo; ao contrário, aquele que prega a Cristo é apostólico, ainda que o diga Judas [Iscariotes], Anás, Pilatos e Herodes”[7].

Para Lutero, o Novo Testamento era constituído principalmente pelo Evangelho de São João e pelas Cartas de São Paulo e São Pedro; ao contrário, os três Evangelhos sinóticos não lhe mereciam muito apreço. No prólogo de uma de suas edições do Novo Testamento, escreve: “Deve-se distinguir entre livros e livros. Os melhores são o Evangelho de São João e as Epístolas de São Paulo, especialmente aquelas aos Romanos, aos Gálatas e aos Efésios, e a 1ª Epístola de São Pedro; estes são os livros que te manifestam a Cristo e te ensinam tudo o que precisas para a salvação, ainda que não conheças nenhum dos outros livros. A Epístola de São Tiago, diante destas, nada mais é que palha, pois não apresenta nenhuma marca evangélica”[8]. De outro lado, nega que a Epístola aos Hebreus pertença a São Paulo; e da Epístola de São Judas, diz que é um extrato da de São Pedro e, portanto, desnecessária. A respeito do Apocalipse, expressa sua rejeição, pois não concebe que Cristo aja como um juiz severo: “Não encontro neste livro nada que seja apostólico, nem profético”[9]. Quanto aos livros do Antigo Testamento, faz uso do mesmo procedimento arbitrariamente seletivo de aceitá-los ou rejeitá-los conforme coincidam ou não com as suas próprias interpretações teológicas[10]. Apesar disso, a Bíblia de Vitemberg seguiu seu incessável curso e continuou a ser aceita por um amplo setor do povo alemão e também dos países do norte da Europa.

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Notas:

[1] Opera Omnia, VI, 3.

[2] O texto grego que lhe serviu de base foi o “Novum Testamentum Graece”, de Nicolas Gerbel, que por sua vez dependia do “Novum Testamentum”, de Erasmo [de Roterdan]. Também se serviu das Anotações de Lorenzo Valla e das Apostilas de Nicolas de Lira.

[3] Esta equipe, que era uma espécie de “Academia Luterana”, era formada pelo helenista Felipe Melancton, o professor de exegese bíblica Gaspar Cruciger, o professor de hebraico J. Jonas, o humanista e hebraísta de Leipzig Bernat Ziegler, o pregador J. Bugenhagen e o destacado discípulo de Reuchlin, Joan Foster, autor de um dicionário de hebraico. O diácono J. Rörer era o corretor e redator do protocolo.

[4] Senbrief, 637. As citações de Lutero correspondem às O. C. da edicão de Weimar.

[5] Jonan Eck, conhecido como “o teólogo de Ingolstadt”, debateu e venceu Lutero, na famosa disputa teológica que ocorreu em Leipzig no mês de julho de 1519, na grande sala do castelo de Pleissemburg, regido então pelo duque da Saxônia, Jorge o Barbudo.

[6] WA 39, 1.

[7] Prólogo às Epístolas de Tiago e Judas (Bibel VII, 384).

[8] Prólogo do Novo Testamento de 1546 (Bibel VI, 10).

[9] (Bibel VII, 404)

[10] Do Antigo Testamento, [Lutero] rejeitará – como “livros apócrifos” – Judite, Sabedoria de Salomão, Tobias, Eclesiástico, Baruc, 1 e 2Macabeus, além de algumas partes do livro de Ester e outros fragmentos [de Daniel].

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