Os grandes desafios da vida consagrada

Arquivado em: Artigos, Espiritualidade — vidanova at 1:02 pm on segunda-feira, agosto 17, 2009

A missão profética da vida consagrada vê-se provocada por três desafios principais, lançados à própria Igreja e esses desafios tocam diretamente os conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência, estimulando a Igreja, e de modo particular as pessoas consagradas, a pôr em evidência e testemunhar o seu significado antropológico profundo. Na verdade, a opção por esses conselhos, longe de constituir um empobrecimento de valores autenticamente humanas, revela-se antes como uma transfiguração dos mesmos. Os conselhos evangélicos não devem ser considerados como uma negação dos valores inerentes à sexualidade, ao legítimo desejo de usufruir de bens materiais, e de decidir autonomamente sobre si próprio. Essas inclinações, enquanto fundadas na natureza, são boas em si mesmas, mas a criatura humana, enfraquecida como está pelo pecado original, corre o risco da as exercitar de modo transgressivo. A profissão de castidade, pobreza e obediência, torna-se uma admoestação a que não se subestimem as feridas causadas pelo pecado original, e, embora afirmando o valor dos bens criados, relativiza-os pelo simples fato de apontar Deus como o bem absoluto.

A Castidade:

Prometer viver a castidade, significa imediatamente amar ao Pai e a todos os homens com o mesmo amor total, divino e humano de Cristo, que cria uma fraternidade universal com um tipo de relaçao interpessoal que continuará sendo válidas na outra vida, a fim de transcender toda mediação fundada nos sentidos (prazer pelo prazer).

A castidade vem de encontro a concupiscência do prazer, vem dar ao prazer o seu verdadeiro significado.

Celibatário (virgindade consagrada) - vive essa dimensão acrescida da renúncia ao matrimônio e ao exercício da sexualidade como conseqüência lógica desse amor imediato, total para viver inteiramente para o Reino. Evitando toda polarização e toda imediação no amor.

A castidade esponsal da Igreja na vida consagrada

A igreja por si é realmente virgem como Cristo, porque é esposa de Cristo: “Desposei-vos a um único Esposo para vos apresentar a Cristo como virgem pura. (2 Cor. 11,2s)

Quando Jesus comunica seu Espírito à Igreja, comunica-lhe a sua virgindade. Virgindade cristã não significa, então, renúncia ao matrimônio, mas acolhida total do Espírito de Cristo; a renúncia ao matrimônio pode ser um modo significativo de manifestar esta acolhida do Espírito.

Santo Agostinho diz: “Criou a Igreja virgem e por isso é virgem. Na carne há somente virgens consagradas; na fé todos devem ser virgens, homens e mulheres… Virgem é, pois, a Igreja: é virgem, seja virgem!”

Portanto, precisamos cada vez mais entregar nossos sentidos a Deus: o nosso olhar, o nosso gosto, o nosso cheiro, o nosso ouvir, o nosso falar, o nosso tocar, o nosso sentir.

A pobreza: O Pai é a nossa única riqueza

A pobreza de Cristo foi, em face ao Pai, confiança absoluta, que ele expressou numa renúncia explícita a todo outro apoio, para afirmar decididamente que se apoiava somente nele, e proclamar a relatividade de todo o criado diante do valor absoluto do Reino.

Em face aos homens foi disponibilidade de tudo o que era e de tudo o que tinha. Em face a si mesmo, a pobreza foi parte integrante de seu ministério de aniquilamento. Em face dos bens desse mundo liberdade soberana.

Prometer viver na pobreza (fraternidade, unidade), pobreza quer dizer, empenhar-se em confiar infinitamente em Deus, apoiando-se unicamente nele, viver decididamente, para os outros, compartilhando tudo o que se é e tudo o que se tem com os irmãos, não pertencer-se para pertencer a todos, e manter diante de todas as coisas plena liberdade e independência ativa. É portanto, um meio de se vencer a concupiscência do possuir, que atinge uma dimensão muito maior do que somente ajuntar tesouros na terra.

A Obediência: O desafio da liberdade na obediência

A obediência em Cristo foi submissão filial plena e amorosa ao querer do Pai. Foi estado e atitude de perfeita docilidade, ativa e responsável à vontade do Pai. Foi saber-se centro do plano salvífico de Deus, aceitá-lo incondicionalmente com todas as suas consequências.

Fazer voto de obediência significa comprometer-se diante de Deus e diante dos irmãos a viver em atitude de total docilidade à vontade amorosa do Pai e a acolhê-la filialmente como critério único de vida, sejam quais forem as mediações humanas ou sinais que manifestam essa vontade.

Se estivermos atentos a vontade de Deus não esperaremos que as nossas autoridades a revele para nós e nem resistiremos aos absurdos ou mesmo aquilo que para nós é muito difícil. Nós mesmos exporemos a vontade de Deus para elas e as ajudaremos a descobrir conosco o que Deus tem para nós. Contribuiremos positivamente no caminho de Deus para as nossas vidas.

Para vivermos a obediência não podemos assumir uma atitude passiva ou muito menos uma atitude de nos esconder da vontade de Deus e nos colocarmos indispostos, resistentes, a ela, mas uma atitude de descoberta, uma disposição interior, uma determinação de descoberta para vivê-la. Como nós não queremos vivê-la nem queremos descobrí-la. O conhecimento da vontade de Deus nos leva a responsabilidade e não temos como nos abster de cumprí-la.

Grupos de Oração, uma graça da RCC

Arquivado em: Espiritualidade, Grupo de Oração, Novas Comunidades — vidanova at 10:27 am on segunda-feira, julho 27, 2009

“Renova os teus milagres neste dia, como em um novo Pentecostes. Permita que tua Igreja, unida em pensamento e firme em oracão com Maria, a Mãe de Jesus, e guiada pelo abençoado Pedro, possa prosseguir na construção do reino do nosso Divino Salvador, reino de verdade e de justiça, reino do amor e da paz. Amém” (João XXIII). A RCC é a resposta de Deus a esta oração da Igreja.

Como sabemos, a Renovação Carismática Católica surgiu no final de semana de 17 a 19 de fevereiro de 1967, quando um grupo de jovens universitários da Universidade de Duquesne, nos Estados Unidos, teve a experiência que ficou conhecida como “batismo no Espírito Santo”, ou seja, a efusão do Espírito. Era como o voltar à atividade de um grande vulcão que havia permanecido “adormecido” durante séculos: a experiência deste “batismo”, a grande “erupção” do Espírito na vida de tantos católicos que viviam outrora friamente a sua fé.

A vivência dos carismas era algo muito intenso na vida dos primeiros cristãos. Era o cumprimento da promessa de Jesus ao dizer: “O Espírito Santo recordará tudo o que eu vos disse” . Os mesmos milagres que Jesus havia feito e até maiores, os seus discípulos também fizeram. A unção da pregação de Jesus também era presente quando seus seguidores proclamavam a Boa Nova. Era Jesus Vivo atuando pelo poder do Espírito Santo na vida da Igreja!

A Renovação Carismática Católica acredita firmemente. que esta experiência renovada do Espírito está acontecendo hoje na Igreja, e tem como missão propagar esta graça pelos quatro cantos da Terra, Deus derramou sobre sua Igreja esta graça especi4 que nós chamamos de Renovação Carismática Católica. O Espírito Santo é a alma da Igreja. É o motor da Igreja que a faz corresponder aos desafios próprios deste tempo.

Diante disto, Deus vai utilizando formas para que a sua graça penetre na Igreja e atinja toda a humanidade. Assim como Santa: Teresa, São Francisco, os monges, os eremitas e todos os santos e ordens fundadas são meios de que o Senhor se utiliza para fazer penetrar a sua graça na Igreja, no mundo e em cada homem, a RCC é também uma graça, com características e meios próprios, que Deus utiliza para esse fim.

Todos nós que tivemos essa nova experiência da efusão do Espírito Santo somos portadores desta graça para comunicá-la à Igreja e ao mundo. E . os Grupos de Oração são um dos canais de comunicação desta graça. Tudo devemos fazer para preservá-Ia. Devemos ter um zelo especial por ela, procurar vivê-Ia da melhor forma para poder comunicá-la de forma fiel, sem deformá-la, sem abafá-la, sem minimizá-la.

“Existimos, como Shalom, para levar esta graça a precisamos conhecê-la Igreja e à humanidade toda. Precisamos conhecê-la mais. Ser fiel a ela é ser fiel à nossa vocação. Deformá-la é deformar também a nossa vocação. A dimensão carismática é parte essencial da nossa vocação e faz parte da nossa missão. Se colocarmos isto de lado, estaremos sendo inúteis para a Igreja… Na hora em que isto não for importante para nós, estaremos preparados para morrer, porque seremos inúteis para a Igreja. Somos zeladores e comunicadores desta graça… E nossa responsabilidade acolher, animar, comunicar e viver bem esta graça… Todos nós somos responsáveis de vivê-Ia com qualidade e fazê-la multiplicar. Devemos ter um zelo especial para viver esta graça do batismo no Espírito Santo e do exercício dos seus carismas.” (Moysés Azevedo, 1996).

Todas as nossas ações devem estar impregnadas desta graça, porque elas acontecem em vista do desígnio de Deus. Reter esta graça é como reter uma grande fonte num dique. Todos nós precisamos, portanto, estar atentos para não frustrar o desígnio de Deus.

Deus nos constituiu para esta missão. Comunicar esta graça deve ser a nossa prioridade, tudo mais se torna secundário. Devemos estar mobilizados para isto.

O mundo está passando por transformações violentas em todos os níveis: social, econômico, cultural… e Deus nos convocou para comunicarmos esta graça. Precisamos tudo fazer em vista do cumprimento do desígnio de Deus. A graça do Espírito Santo é para toda a Igreja e para toda a humanidade; não apenas para um grupo de privilegiados, os místicos, mas para todos os batizados.

Recebemos uma graça específica a partir da experiência da efusão do Espírito Santo. “O Santo Padre Paulo VI dirigiu aos dez mil participantes reunidos na Basílica de São Pedro no dia imediato ao Pentecostes de 1975 (por ocasião do encerramento do Congresso Mundial da Renovação Carismática na igreja Católica), m discurso que continua sendo até agora, para a Renovação, o documento mais importante para conhecer o que a hierarquia da Igreja pensa e espera dela. Tendo acabado de ler o discurso oficial, o Papa acrescentou, de improviso, estas palavras: “Bebamos com alegria a sóbria embriaguez do Espírito” (Cantalamessa, 1996).
Esta experiência da sóbria embriaguez do Espírito, como já foi dito, realiza no homem uma purificação dos pecados, um novo fervor para o coração, um entusiasmo espiritual, como que um vulcão aceso e uma elevação da sua mente a um conhecimento especial de Deus, uma certa experiência direta de Deus, que “o leva a um estado no qual o homem se sente possuído e conduzido por Deus; porém um estado que, em vez de nos alienar, dissuadindo-nos do envolvimento com os irmãos, conduz-nos a esse dever, exigindo-o e frequentemente tornando-o mais fácil e glorioso… um entusiasmo, mas um entusiasmo baseado na cruz e que se alimenta da cruz” (Cantalamessa, 1996).

Todos estes fatos nos levam a afirmar que estamos dentro da vontade de Deus e respondemos a um pedido seu. Por isso, as reuniões dos grupos de oração devem ser momentos propiciadores da ex periência concreta de Deus, do encontro pessoal com Jesus Cristo, que transforma, muda e como que divide a nossa vida ao meio, que derrama sobre nós o seu poder e o seu amor. Um encontro com Jesus Cristo Ressuscitado que traz as marcas da paixão, como nos descreve o Evangelho de São João (20,19-29).

Este encontro também com a cruz de Cristo, na perspectiva da ressurreição, interpela a alma do homem. Tendo este experimentado o amor de Jesus, não se pode mais negar a ação dele em sua vida. Iniciou-se um relacionamento com o Ressuscitado, com Jesus vivo, real. Não é uma idéia, um pensamento, uma doutrina ou um relacionamento impessoal. Somos apresentados pessoalmente a Jesus. Ele toca a nossa alma, o nosso coração, o nosso corpo, todo o nosso ser.
Desta experiência brota a intimidade com Jesus, que nos fala e escuta; que nos olha e deixa-se olhar; que nos ama e deixa-se amar.

A partir da graça recebida, do contato íntimo com Jesus que produz muitas outras graças, somos impulsionados a ser suas autênticas testemunhas, a anunciá-lo a todos os que ainda não o conhecem: “Como o Pai me enviou, assim também eu vos envio. Tendo assim falado, soprou sobre eles e lhes disse: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,21-22). Somos chamados a ser testemunhas concretas de que Deus cura, liberta, transforma a vida dos homens, porque aconteceu em nossas vidas.

“Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido” (At 4,20). “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos próprios olhos, o que temos contemplado e as nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da vida - porque a vida se manifestou, e nós a temos visto; damos testemunho e vos anunciamos a vida eterna, que estava no Pai e que se nos manifestou, o que vimos e ouvimos nós vos anunciamos, para que também vós tenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (I Jo 1,1-3).

Os grupos de oração também são um dos meios eficazes para que possamos comunicar esta graça da experiência pessoal com Jesus Cristo. Por isso mesmo devem ser vividos com todo o fervor, com todo o poder do Espírito, com a manifestação dos seus carismas. A oração comunitária deve ser vivida com todo o entusiasmo, como se ela fosse a última, capaz de fazer com que as pessoas que participam conosco sintam-se atraídas por Jesus, tenham uma experiencia com a sua salvação, a salvação cristã, que antes de tudo “não é apenas algo de negativo, um “tirar”, ainda que seja o pecado. E sobretudo algo positivo: é um “dar”, um infundir vida nova, vida do Espírito: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo” (Mt 3,1 1). É um renascimento. A destruição do pecado surge como o caminho e a condição para a doação do Espírito, que e o objetivo último, a doação suprema (Cantalamessa, 1997).

Além de tudo isto, as reuniões de oração devem ser também recheadas dos dons carismáticos. Não podemos ter medo de exercitá-los, pelo contrário, esses dons devem fluir livre e eficazmente para que este encontro seja cheio da ação e do poder do Espírito Santo.

O Espírito Santo é a alma da vida cristã. Omitir, deixar de ensinar, nao incentivar o exercício dos dons carismáticos do Espírito nos Grupos de Oração é deixar o encontro incompleto, é ferir a vontade de Deus, é diminuir os canais da ação de Deus no meio do seu povo. Os homens não querem apenas ouvir vozes que falem de Deus, mas ter uma experiência real com Ele. O Espírito Santo deve passar sem obstáculo por meio de nossas orações para que os encontros com Deus sejam sempre mais intensos e fecundos.

Por escola de Formação Shalom

O Espírito move a Igreja a rezar

Arquivado em: Espiritualidade — vidanova at 7:53 am on terça-feira, maio 12, 2009

Os textos conciliares do Vaticano II falam com insistência da importância da oração, especialmente da oração litúrgica, na vida dos presbíteros e dos Bispos. Mas gosto de lembrar sobretudo o texto de Atos 6,4, no qual Pedro, na primeira repartição dos ministérios feita na Igreja, reserva a si e aos outros apóstolos a oração e o anúncio da Palavra: Nós, ao contrário, nos dedicaremos à oração e ao ministério da Palavra. Pedro, ou melhor, o Espírito Santo por sua boca, naquela ocasião afirmou um princípio fundamental para a Igreja: que um pastor pode delegar quase tudo a outros na sua vida, mas não pode delegar a oração!

Esta passagem dos Atos, relativa à instituição dos diáconos, lembra sob muitos aspectos o texto do Êxodo em que se fala da instituição de juízes. Pedro repete na Igreja o que Moisés havia feito no povo de Israel (cf. Ex 18,13-24).
Aceitando o conselho de Jetro, Moisés escolhe para si, entre todas as funções possíveis, aquela de “estar diante de Deus em nome do povo e apresentar as questões a Deus”. Isto não impede que Moisés exerça uma atividade legislativa e que continue a ser o verdadeiro guia do povo; apenas estabelece uma prioridade.

A propósito de “apresentar as questões a Deus”, ouvi esta história do Papa João XXIII. Ele mesmo contava que, nos primeiros dias de pontificado, acordava bruscamente de noite com muitos problemas na cabeça, um mais angustiante do que o outro, e dizia a si mesmo: “É absolutamente necessário que eu diga isto ao Papa!” Mas depois, de repente, lembrava-se de que o Papa agora era ele mesmo, e então dizia: “Bem, então falarei disto com Deus!”, e voltava a dormir.

A decisão tomada por Moisés provinha de uma experiência recente do povo eleito. Este havia superado há pouco uma ameaça de destruição proveniente dos amalecitas. Num momento de vida ou morte para todo o povo e em que cada qual se empenhava ao máximo para rechaçar o ataque de Amalec, onde estava Moisés, seu chefe? No monte, com os braços levantados em oração! Os outros lutavam com Amalec e ele lutava com Deus. Mas foi ele quem decidiu a vitória do povo (cf. Ex 17,8-16). Amalec - explica Orígenes - é aqui o símbolo das forças hostis que se opõem ao caminho do povo de Deus: Amalec é o demônio, é o mundo, o pecado. Quando este povo - e especialmente os seus pastores - reza, é mais forte e rechaça Amalec; quando não reza (quando Moisés, cansado, deixa cair os braços), Amalec é mais forte.

São Bernardo, no De consideratione, escrito a convite do Papa Eugênio III, aplica esta lição à vida do pastor da Igreja. A certa altura, pede licença para desempenhar o papel de Jetro, sogro de Moisés, e diz coisas que com toda simplicidade me permito lembrar, sabendo que elas julgam, antes de mais nada, a mim que as estou dizendo. Diz assim: “Não confies muito no grau de oração que agora possuis: ele pode deteriorar-se. Temo que no meio das tuas ocupações que são muitas, não tendo esperança alguma de que tenham um fim, tua alma se torne árida. Por isto é mais prudente que te subtraias a tais ocupações em tempo, em vez de ser arrastado por elas, aos poucos, para onde não queres ir, isto é, para a dureza do coração. Eis para onde poderiam levar-te estas malditas ocupações, se te entregares totalmente a elas, sem deixar nada para ti. Visto que todos te têm à disposição, sê também tu um dos que dispõem de ti. Recorda-te, pois, não digo sempre, não digo com freqüência, mas ao menos de vez em quando, de restituir-te a ti mesmo. Usa também tu de ti mesmo, como tantos outros, ou pelo menos depois dos outros”.

Quando fala de “malditas ocupações”, São Bernardo está investindo contra todos aqueles compromissos, particularmente numerosos no seu tempo, que obrigavam um pastor da Igreja, e especialmente o Papa, a servir de árbitro de pequenos litígios de Estado ou de família, a dirimir questões entre eclesiásticos, freqüentemente determinadas apenas por ambição e interesse: a ser, em resumo, uma espécie de juiz em sessão permanente, como era Moisés antes de ouvir o conselho de Jetro. O Santo lembra com força a palavra de Jesus: Ó homem, quem me constituiu juiz sobre vós? (Lc 12,14), como também a de Paulo: Ninguém que milite no serviço de Deus se ocupa dos negócios da vida civil (2Tm 2,4). E conclui dizendo: “A razão demonstra de maneira invencível que, se estivesse em nosso poder fazer o que é conveniente, seria necessário preferir em tudo e por tudo, seria necessário praticar ou exclusivamente ou antes de tudo, aquela virtude que serve a tudo, isto é, a piedade (cf. 1Tm 4,8)” (De consideratione, I, 2-6).

A esta altura, o nosso pensamento é invadido espontaneamente por uma visão: uma visão que é nostálgica, porque evoca o que existia nos inícios da Igreja, mas que eu gostaria que fosse profética, antecipando o que será novo, dentro em breve e de maneira generalizada, na Igreja. A “visão” é a de casas de Bispos que se apresentam, antes de mais nada, como “casas de oração” (e não de administração de negócios, ainda que estes fossem negócios eclesiásticos); visão de paróquias, cuja igreja pode dizer-se realmente “casa de oração para todo o povo” (cf. Mt 11,17) e que, como tal, não esteja aberta, como todos os edifícios públicos, somente nas “horas de trabalho” (nas quais o povo, em geral, não pode ir à igreja!) mas também em outras horas, também à noite. Vi pessoalmente como pode ser uma atração poderosa para o povo que de noite enche os centros das cidades, ver uma igreja aberta e iluminada, com pessoas que dentro dela rezam e cantam ao Senhor. Numa destas ocasiões, uma pessoa nos confiou que naquela noite havia saído de casa para suicidar-se, mas passando por ali havia ouvido cânticos; entrou e reencontrou a esperança olhando para o rosto das pessoas que ali estavam reunidas.

Portanto, rezar. Mas não basta; Jesus nos ensinou que se pode fazer da oração a própria urdidura, ou o pano de fundo contínuo do próprio dia-a-dia. Devemos tender a isso, pois é possível. “Rezar incessantemente (cf. Lc 18,1; 1Ts 5,17) - escreve Agostinho - não significa estar continuamente de joelhos ou com os braços levantados. Existe outra oração, aquela interior, e é o teu desejo. Se o teu desejo for contínuo, será contínua também a tua oração. Quem deseja a Deus e o seu repouso, mesmo que cale com a língua, canta e ora com o coração. Quem não ‘deseja’, pode gritar quanto quiser, mas para Deus será como um mudo” (Enarr. Ps 37,14; 86,1).

Devemos descobrir e cultivar esta oração de desejo, ou “de coração”. “Desejo” significa aqui uma coisa muito profunda: é tensão habitual a Deus, é desejo de todo o ser, é saudade de Deus. Agora a oração se torna para nós como um rio temporário que, às vezes, encontrando certo tipo de terreno, desaparece no subsolo (desaparece quando a atividade que estamos desenvolvendo nos absorve mais), mas que, apenas reencontrado o terreno apropriado, volta à superfície e corre à luz do sol (isto é, torna-se oração acolhedora e explícita).

No início talvez sejam mais raros os momentos em que aflora na superfície, mas depois, aos poucos, aumentando em nós o espírito de oração, esta oração “subterrânea” vem à tona com freqüência sempre maior, até invadir todos os espaços disponíveis do dia, até tornar-se, como em Jesus, o pano de fundo de tudo. Como uma espécie de “inconsciente espiritual” que age também sem o nosso conhecimento (sem que a nossa mente se dê conta). Também de noite. Quantas almas experimentaram a verdade daquela frase do Cântico dos Cânticos que diz: Durmo, mas meu coração vela! (Ct 5,2); acordando de noite, davam-se conta, com espanto, de que seu coração estava orando.
Quantas almas experimentaram também a verdade da palavra do salmista que diz: Quando te recordo no meu leito, passo vigílias meditando em ti; pois foste um socorro para mim, e, à sombra de tuas asas, eu grito de alegria (Sl 63,7-8).

A oração contínua, ou de desejo, não deve fazer-nos negligenciar a necessidade vital que temos de um tempo específico e exclusivo para rezar, possivelmente em lugar solitário, como fazia Jesus. Ele nos disse: Quando orares, entra em teu quarto, e, fechando a porta, ora a teu Pai no segredo (Mt 6,6). Há casos em que é preciso tomar ao pé da letra este conselho de Jesus, porque o próprio quarto - depois de fechada a porta e desligado o telefone - tornou-se para muitos, não só leigos, mas também religiosos, o último refúgio de oração neste mundo, em que podemos orar sem ser perturbados. Sem este tempo exclusivo de oração, é uma ilusão aspirar à oração “incessante”, ou do coração.

Quando chega este momento estabelecido para colocar-nos em oração, é preciso interromper decididamente as ocupações e os pensamentos de antes; fazer como Jacó, que durante a noite lutou com Deus, atravessou descalço a torrente, deixando na outra margem todas as pessoas que lhe eram caras e todas as coisas (cf. Gn 32,23ss). É preciso entrar no próprio castelo interior, levantando as pontes levadiças. Para usar as palavras de um escritor espiritual da Idade Média, “é preciso que coloques uma nuvem de esquecimento entre ti e todas as criaturas”, para estar em condições de entrar “na nuvem do não-conhecimento” que está sobre ti, entre ti e o teu Deus, isto é, para entrar na contemplação (cf. Anônimo. Nuvem do não conhecimento. 5, Milano: Áncora, 1981, 138s).

É difícil, mas devemos esforçar-nos por fazê-lo, do contrário toda a oração ficará enfraquecida e dificilmente conseguirá elevar-se. É aconselhável dedicar os primeiros momentos deste tempo de oração a purificar o próprio Espírito, confessando as próprias culpas e implorando o perdão de Deus, visto que “nada de contaminado” pode unir-se a Deus (cf. Sb 7,25).

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por Frei Patrício Sciadini, ocd

“Salvem a criança, pois tem o direito de viver e ser feliz!”

Arquivado em: Bioética, Espiritualidade, Santos — vidanova at 7:47 am on sexta-feira, maio 8, 2009

Neste mês de maio, mês em que celebramos o dia das mães, também trouxemos para vocês um pouco da história da Santa Gianna Beretta Molla. Esta mulher, filha de Deus, esposa e mãe que deu a sua vida para que sua filha tivesse o direito de viver…

Gianna Beretta Molla, o décimo segundo filho do casal Alberto Bereta e Maria de Micheli, ambos da Ordem Terceira Franciscana, nasceu em Magenta (Milão,Itália), no dia 4 de outubro de 1922, dia de São Francisco. Desde sua primeira juventude, acolhe plenamente o dom da fé e a educação cristã, recebidas de seus ótimos pais. Esta formação religiosa ensina-lhe a considerar a vida como um dom maravilhoso de Deus, a ter confiança na Providência e a estimar a necessidade e a eficácia da oração.

 No dia 4 de abril de 1928, com cinco anos e meio, fez a Primeira Comunhão. Desde esse dia, mesmo muito pequena, todos os dias acompanhava sua mãe à Santa Missa. Foi Crismada dois anos depois na Catedral de Bérgamo.

 Durante os anos de estudos e na Universidade, enquanto se dedicava diligentemente aos seus deveres, vincula sua fé com um compromisso generoso de apostolado entre os jovens da Ação Católica e de caridade para com os idosos e os necessitados nas Conferências de São Vicente. Formou-se com louvor em medicina e cirurgia em 30 de novembro de 1949 pela Universidade de Pavia (Itália), em 1950 abre seu consultório médico em Mêsero (nos arredores de Milão). Entre seus clientes, demonstra especial cuidado para as mães, crianças, idosos e pobres.

  Especializou-se em Pediatria na Universidade de Milão em 1952, mas freqüentou a Clínica Obstétrica Mangiagalli, pois por seu grande amor às crianças e às mães pretendia unir-se ao seu irmão, Padre Alberto, médico e missionário no Brasil que, com a ajuda do seu outro irmão engenheiro, Francesco, construíram um hospital na cidade de Grajaú, no Estado do Maranhão. A Beata Gianna, por sua saúde frágil, foi desaconselhada pelo Bispo Dom Bernareggi em vir ao Brasil.

 Enquanto exercia sua profissão médica, que a considerava como uma “missão”, aumenta seu generoso compromisso para com a Ação Católica, e consagra-se intensivamente em ajudar as adolescentes. Através do alpinismo e do esqui, manifesta sua grande alegria de viver e de gozar os encantos da natureza. Através da oração pessoal e da dos outros, questiona-se sobre sua vocação, considerando-a como dom de Deus. Opta pela vocação matrimonial, que a abraça com entusiasmo, assumindo total doação “para formar uma família realmente cristã”.

 Em 1954 conheceu o engenheiro Pietro Molla. Noivaram em 11 de abril de 1955. Prepara-se ao matrimônio com expansiva alegria e sorriso. Na basílica de São Martinho, em Magenta, casa aos 24 de setembro de 1955, tendo a cerimônia sido presidida por seu outro irmão Padre Giuseppe. Transforma-se em mulher totalmente feliz. Em novembro de 1956, já é a radiosa mãe de Pedro Luís (Pierluigi); em dezembro de 1957 de Mariolina (Maria Zita) e, em julho de 1959, de Laura. Com simplicidade e equilíbrio, harmoniza os deveres de mãe, de esposa, de médica e da grande alegria de viver.

 Na quarta gravidez, aos 39 anos em setembro de 1961 no final do segundo mês de gravidez, vê-se atingida pelo sofrimento e pela dor. Aparece um fibroma no útero. Três opções lhe foram apresentadas: retirar o útero doente, o que ocasionaria a morte da criança, abortar o feto, ou a mais arriscada, submeter-se a uma cirurgia de risco e preservar a gravidez. Antes de ser operada, embora sabendo o grave perigo de prosseguir com a gravidez, suplica ao cirurgião “Salvem a criança, pois tem o direito de viver e ser feliz!”, então, entrega-se à Divina Providência e à oração. Submeteu-se à cirurgia no dia 6 de setembro de 1961. Com o feliz sucesso da cirurgia, agradece intensamente a Deus a salvação da vida do filho. Passa os sete meses que a distanciam do parto com admirável força de espírito e com a mesma dedicação de mãe e de médica. Receia e teme que seu filho possa nascer doente e suplica a Deus que isto não aconteça.

 Alguns dias antes do parto, sempre com grande confiança na Providência, demonstra-se pronta a sacrificar sua vida para salvar a do filho: “Se deveis decidir entre mim e o filho, nenhuma hesitação: escolhei - e isto o exijo - a criança. Salvai-a”. Deu entrada, para o parto, no hospital de Monza, na sexta-feira da Semana Santa de 1962. Na manhã do dia seguinte, 21 de abril de 1962, nasce Gianna Emanuela. Apenas teve a filha por breves instantes nos braços. Apesar dos esforços para salvar a vida de ambos, na manhã de 28 de abril, em meio a atrozes dores e após ter repetido a jaculatória “Jesus eu te amo, eu te amo” morre santamente. Tinha 39 anos. Seus funerais transformaram-se em grande manifestação popular de profunda comoção, de fé e de oração. A Serva de Deus repousa no cemitério de Mêsero, distante 4 quilômetros de Magenta, nos arredores de Milão (Itália).

 “Meditata immolazione” (imolação meditada), assim Paulo VI definiu o gesto da Beata Gianna recordando, no Ângelus dominical de 23 de setembro de 1973, “uma jovem mãe da Diocese de Milão que, para dar a vida à sua filha sacrificava, com imolação meditada, a própria”. É evidente, nas palavras do Santo Padre, a referência cristológica ao Calvário e à Eucaristia.

 O milagre da beatificação aconteceu no Brasil, em 1977, na cidade de Grajaú, no Maranhão, naquele hospital onde queria ser missionária, onde foi beneficiada uma jovem que tinha dado à luz.

 Foi Beatificada pelo Papa João Paulo II, em 24 de abril de 1994 no Ano Internacional da Família, tendo sido considerada esposa amorosa, médica dedicada e mãe heróica, que renunciou à própria vida em favor da vida da filha, na ocasião da gestação e do parto.

Vida que brota da cruz

Arquivado em: Espiritualidade — vidanova at 7:54 am on quarta-feira, abril 22, 2009

Sobre o gólgota, lugar do crânio, dos condenados à morte, a justiça definitivamente estava desmoralizada, calcada aos pés dos que, por inveja, deram cabo à vida de Jesus. Onde a vida foi exterminada, o amor de Deus se manifestou plenamente e superou a morte. O justo, execrado e morto, agora ressuscitado, vive para reunir os filhos do mesmo Pai, ao seu redor.

Quem não ama permanece na morte. Quem ama doa a vida. Os filhos de Deus se dispersaram, divididos pelo ódio. Jesus, um por todos os rompidos entre si, pelo seu gesto de doação, quebra as correntes da vingança, faz cessar a reprodução dos esquemas da violência. Seu gesto de aceitação da morte, solidário com todos os crucificados da história, desmonta o conflito armado, uns contra os outros como feras que se devoram.

O justo tomou sobre si as culpas de todos os pecadores e as pregou na cruz, para dali declarar libertos os condenados a pagar as consequências de seus crimes. “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”. O gesto do perdão equivale à reconciliação, superação do mal. A conversão é sinônimo de regeneração, deixando-se amar por aquele que por nós morreu e ressuscitou. Nesse dinamismo do amor manifestado pelo Pai ao seu Filho, retomamos novos caminhos.

Nunca se paga o mal com o mal. Não posso justificar a reprodução do mal botando culpa em Deus e no mundo por causa das estruturas perversas da sociedade. Não é lícito praticar um ato mau para dele se obter um bem, um benefício, assim como não é legítimo fazer justiça com as próprias mãos. A experiência da vida nos diz: um erro não justifica um outro, na intenção de vingança. A cadeia intermitente da vingança provoca maior violência, que deve ser superada a começar de dentro do nosso coração.

A vida é feita de encontro, de aceitação, de inclusão. Se você quiser seguir Jesus Cristo compreenda que o discipulado requer sacrifício, renúncia a si mesmo, tomando a cruz de suas responsabilidades e amando sem egoísmo. Foi isso que o Pai reservou a Jesus, seu Filho. Busquemos sempre mais em Cristo crucificado e ressuscitado a motivação para viver e servir.

 

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por
Dom Aldo Di Cillo Pagotto, Site: CNBB
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