A liberdade de optar pelo melhor

Filed under: Formação Humana — vidanova at 8:56 am on domingo, agosto 23, 2009

Costuma-se definir a liberdade como a capacidade de tomar posições espontânea diante do bem e do mal, sem ser arrastado à força para um nem para outro. Embora sempre tenha sido considerada pelo homem como um valor muito precioso, o mundo pré-cristão via a liberdade como privilégio de alguns. Mas o cristianismo universalizou a idéia de liberdade, tanto que S. Paulo disse que todo homem é chamado por Deus a ser livre. (cf. Gál.5,1)

Assim, enquanto o pensamento ateu considera a religião como um ataque à liberdade, sabemos que, historicamente, a verdadeira idéia de liberdade tem influência cristã, tornando-a inseparável da própria fé, porque só o homem livre é capaz de escutar a Deus. No entanto, é preciso que o homem se abra para conhecer o verdadeiro sentido do liberdade tem estado sujeito a más interpretações de sua parte.

Sabemos que o livre arbítrio consiste na capacidade que o homem tem de se auto determinar, de contribuir com a sua própria história, tornando-se, de certa forma, responsável pelo próprio destino. Por ela, o homem pode decidir-se diante de todos os apelos que encontra no caminho de sua existência e escolher, baseado no seu conhecimento e vontade, assumindo a responsabilidade de suas decisões, entre o bem e o mal.

A liberdade de arbítrio é uma faculdade que Deus concebeu ao homem, como participação na Sua própria liberdade, a fim de que este pratique o bem voluntariamente, e não como autômato. Deus é livre para me convidar e até para me conduzir, e eu sou livre para aceitar, uma vez que minha liberdade de resposta encontra sua fonte na liberdade que Deus teve de me escolher. Mas não podemos esquecer de que Deus é o Criador, conhecedor de minhas necessidades muito mais do que eu mesmo, e de que eu sou uma criatura, limitada na meu modo de ver e julgar. Sobretudo, não podemos nos esquecer de quea capacidade de optar nos foi dada por Deus para o nosso próprio crescimento, e para o crescimento da comunidade humana, e não para a nossa destruição ou destruição do outro.

O Bem Absoluto

Á criatura humana tem em si a capacidade de reconhecer o Bem absoluto, que é Deus, como um bem, mas muitas vezes não reconhece os bens relativos ou terrenos nos seus aspectos positivos e negativos. Quando se torna escravo da liberdade anticristã, o homem se esquece que estes bens são atraentes sob alguns aspectos, mas todos são insuficientes para saciar a necessidade que temos do Bem infinito, que é Deus.

E, quando o homem não reconhece a transitoriedade dos bens terrenos, torna-se escravo do própria natureza, rebaixando-se a si mesmo, sem conseguir vislumbrar a quão alta vida Deus o chamou. Condicionado por fatores internos como traumas, enfermidades, complexos, ou por fatores esternos como a propaganda, por exemplo, ele pode, de certa forma, diminuir ou até extinguir sua própria liberdade de arbítrio, enquanto pensa que está caminhando para a liberdade, está em plena escravidão de si e das idéias deste mundo, rumo à auto-destruição.

Infelizmente, muitos fazem depender sua escolha dos costumes, das circunstâncias que estão atravessando ou das opiniões das pessoas com quem convivem. Estes fatores, embora não tirem a liberdade de escolha do homem, restringem a capacidade de reconhecer o que é realmente bom. Outros se tornam escravos da própria razão, deixando de se abrir à novidade do CHAMADO PESSOAL de Deus para si. Há ainda os que fazem suas opções seguindo seus sentidos superficiais (estéticos, afetivos, ideológicos, etc.), esquecidos de que a felicidade do homem não está condicionada a estes valores efêmeros, como toda realidade visível, mas na realização do fim supremo para o qual veio ao mundo.

Se tivesse se deixado aprisionar por sua própria natureza, pelos costumes ou pela lógica, o Profeta Abraão jamais teria deixado sua terra, seu povo e encontrado a plenitude de sua própria vida. Assim também os outros Profetas, Juízes, Reis, Nossa Senhora, os Apóstolos, Paulo e todo o povo das Escrituras resumiriam sua existência à do Jovem Rico da Bíblia, que não quis conhecer e viver a vontade de Deus para si.

O ser humano foi feito para ultrapassar a si mesmo, sua própria natureza, seus próprios sentimentos, e sua própria razão em busca do outro que é Deus. Quem sufoca em si ou nos outros essa tendência, de alguma forma mutila a natureza humana.

Deus intervém para libertar

Desde sua criação, todo homem é dotado da capacidade de responder, por livre opção, às intenções de Deus para com ele. No entanto, muito longe ainda estamos de compreender a verdadeira liberdade à qual Deus nos chamou! A soberania de Deus não é uma dominação cega e indiferente, e sim, interessada em dar ao eleito a qualidade de vida que lhe convém.

Desde o início do tempos, toda intervenção de Deus na história do homem gerou para este a verdadeira liberdade. Mas o homem, sempre desconfiado de Deus e invejoso de seus irmãos, costuma relutar em aceitar a graça e a generosidade do convite divino. Tem sempre muitas objeções a fazer quando é agraciado. Mas os convites de Deus são livres. Deus é livre! E chama o homem a viver também esta liberdade! A liberdade de optar pelo melhor! Deus disse a Josué, que havia tomado seu pai Abraão, mas Josué era livre para escolher a quem servir. (cf.Jos.24,3-15 )

Dia – a – Dia somos chamados, das pequenas às grandes coisas. E realmente a eleição de Deus, muitas vezes, transtorna nossos projetos pessoais, propondo um novo modo de existência, exigindo de nós uma resposta. Mas as propostas de Deus nunca tiram do homem sua liberdade de escolha. E falou claramente pela boca do profeta Ezequiel da responsabilidade individual de cada homem diante das próprias escolhas (Ez. 18)

O homem e a liberdade

Porém o homem sempre teve dificuldades de conviver com a própria liberdade. Os pagãos de outrora sentiam-se governados pela fatalidade, quando na verdade eram livres, e os custaram a reconhecer a própria escravidão, como também o homem de hoje tem buscado liberdade por meios que o escravizam.

Toda a Escritura fala dos convites amorosos de Deus ao homem, revelando Sua vontade para este, enquanto sublinha sua responsabilidade individual e poder de opção. Jesus anunciou sua missão de dar liberdade aos homens (cf. Lc 4,18) e Paulo incansavelmente repetiu: “Irmãos, vós fostes chamados à liberdade” (Gal. 5,13). Toda a Escritura revela que a aparente oposição entre a Soberania divina e a liberdade do homem é uma grande mentira. A verdade é que a graça de Deus e a livre obediência do homem são reais e ambas necessárias à Salvação deste. Sabemos que pertence ao homem escolher entre a bênção e a maldição, a vida e a morte. A cada um cabe entrar e perseverar no caminho que leva à vida!

Só Deus conhece o verdadeiro segredo de inclinar nosso coração sem violentá-lo e de nos atrair sem nos forçar. Deus é inteiramente livre na sua escolha, mas a liberdade da eleição divina não nos autoriza a concluir que seja ilusória a liberdade humana. Há em todo homem uma verdadeira liberdade de opção.

Desde o princípio, Deus quis que o homem escolhesse livremente entre o bem e o mal, entre o Deus e o não Deus, entre a aceitação ou a recusa da vocação que nos confere, entre aderir ou rejeitar as missões quem os confia, e nos deu como orientação unicamente a Sua imagem…
Cristo: Modelo de liberdade

Antes de Cristo, o homem desconhecia o verdadeiro sentido da liberdade. A verdadeira liberdade está enraizada na amor a Deus e não no amor do homem a si mesmo. A liberdade é ser para Deus, e não ser para si. No momento em que o homem não quer mais ir para Deus, mas se empenha em permanecer centrado em si, torna-se, novamente, escravo de si mesmo e tem que renovar sua opção pela graça. Ao renunciar a Deus, renunciou à vida, e, ao voltar-se para si, entregou-se à morte, porque somente Deus é a vida! Separada de Deus, a existência humana torna-se escrava de si e presa à aspiração da carne que é a morte.

Por isto é que S. Paulo nos exorta a fazer-nos o que por graça já somos: livres! Deus é mais íntimo de nossa vontade que nós mesmos, mas sua presença é respeitosa, e não destrói nossa autonomia. Ouvir, deixar-se tocar é uma graça, mas, aderir à ela continua sendo um ato livre e responsável do homem.

Deus, em vez de se apropriar da liberdade humana a multiplicou, porque quer o amor livre do homem, quer que este O siga livremente, encantado e conquistado por Sua pessoa!
Somos livres e, embora constantemente colocados diante da lembrança da morte, somos continuamente convidados à vida, a nos retirarmos da prisão das nossas mesquinharias e sermos levados à visão do que é seguro, vivo, eterno. Somos continuamente decepcionados em nossa veneração aos valores relativos, e convidados a conhecermos a felicidade que não passa!

Todo cristão é livre no sentido de que, em Cristo, recebeu o poder de viver na intimidade do Pai, sem ver entravado pelos laços do pecado, da morte e da lei. Sim, porque o pecado é o verdadeiro déspota de cujo jugo Jesus nos arranca. Tanto que S. Paulo diz: “Deus nos arrancou do império das trevas e nos transferiu para o retiro do seu Filho Bem – Amado, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Col 1,13).

Também a morte, comparsa infalível do pecado, é vencida, de modo que, sabendo que ressuscitará, o homem deve deixar de temê-la. A lei da qual somos livres é a da exterioridade, das ações movidas pelo interesse próprio, e não das que são movidas pelo amor de Deus.

Fomos chamados a uma liberdade tão perfeita, que nem de longe ainda compreendemos. Fomos chamados a nos livrar do espírito de escravos, a sair da ignorância e compreender nossa dignidade de filhos de Deus, destinados à ressurreição e a agir coerentemente com a verdadeira liberdade que Jesus alcançou para nós. Ele, que é a Porta e o Caminho, passou à nossa frente seguindo, indicando-nos e nos tomando pela mão rumo à verdadeira liberdade!

Obediência e liberdade

Longe do que muitos pensam, a liberdade de arbítrio não consiste na possibilidade de pecar livremente. Ao contrário, Jesus, nosso modelo, caminho e porta, conheceu perfeita liberdade de arbítrio ao escolher voluntariamente a morte de cruz, em obediência à vontade de Deus. Livre, Ele se orientou para o fim supremo de todo homem, que é Deus, de forma espontânea, não constrangida ou violenta. Assim entendida, a liberdade é um meio, e não um fim. Ela nos possibilita a praticar o que Deus, de forma espontânea, não constrangida ou violenta. Assim entendida, a liberdade é um meio, e não um fim. Ela nos possibilita a praticar o que Deus quer, (o nosso maior bem) de modo responsável, por decisão espontânea.

Muitos pensam que obediência e liberdade são duas palavras antônimas, o que é um engano profundo, porque a obediência é uma manifestação da liberdade, já que só homem interiormente livre pode optar responsavelmente por obedecer. Quando Jesus se “fez obediente até à morte de cruz”(Fil 2,8), estava encerrando um tempo de escravidão do homem ao pecado, à lei farisaica, e ao medo do morte, e abrindo para este o caminho da perfeição obediência.

Jesus, como verdadeiro homem, foi livre e usou de Sua liberdade para se entregar generosamente à vontade do Pai. Ele certamente sabia a dor que tal atitude poderia causar à Sua natureza humana. Ele não era alguém insensível. Mas, por livre e espontânea vontade, Jesus assumiu a Sua morte no tempo e no lugar previsto pelo Pai. Assim, Jesus fez Sua condenação uma oferenda voluntária. Numa atitude de livre subordinação, disse: “Faça-se a tua vontade, e não a minha, ó Pai”.

Cristo nos convida a manifestar nossa liberdade na obediência à voz de Deus que se faz ouvir nos Mandamentos, na Palavra, na Igreja e nas autoridades por ela instituídas. Fazendo esta livre opção é que o homem encontra a liberdade, passando do temor ao amor, e libertando-se o perigo de servir ao próprio egoísmo e libertinagem. A suprema obediência a Cristo é, assim, a condição da suprema liberdade do cristão, chamado a ser livre na obediência completa ao Pai em Cristo.

Assumir Cristo como modelo da verdadeira liberdade, que não se opõe à obediência, é o desafio de todo cristão. Cristo é para nós o verdadeiro modelo de liberdade responsável, realizada dentro do obediência à vontade do Pai. Como livre que é, Ele aceita a vontade do Pai com o conhecimento mais autêntico, com os olhos bem abertos e o coração jubiloso.

A troca constante

O cristão é chamado à liberdade de tornar disponível para Deus a sua vida, cultura, vocação e profissão, a fim de que Ele realize o projeto único e perfeito que tem para sua vida. Não há autêntica liberdade para o homem que vive para si mesmo, mas somente para aquele que vive em Deus e para Deus.

É, assim, vazio e transitório todo projeto humano que não está compreendido no projeto único de Deus para sua vida. Romper todos os laços que não seja depender só dele para conquistar a verdadeira liberdade é o que caracteriza a atividade espiritual do cristão.

Somos diariamente colocados diante da veneração das grandezas passageiras e levados à visão do que é eterno e seguro, colocados diante da lembrança da morte e convidados à ressuscitar com Cristo, colocados diante das nossas fragilidades e convidados, por Sua enorme confiança, a tão altas missões! Presos a Ele pelos laços do amor, porque só ele tem a vida, mas, ao mesmo tempo livres para optar ou não por ele e pela sua vontade para as nossas vidas.

Cristo nos faz livres, mas permanece espontânea e eternamente preso a nós na Eucaristia. Trocou de lugar conosco e nos convida a viver este colóquio, esta troca constante de liberdades, esperando alguém que lhe responda: – Senhor, eu recebo a tua liberdade e em troca Te dou a minha!

As tábuas da ponte

Filed under: Formação Humana — vidanova at 7:57 am on segunda-feira, agosto 10, 2009

 

Dom Pedro José Conti


Três amigos decidiram viver a própria vida com paixão; depois iriam encontrar-se novamente. O primeiro viajou muito: descobriu novas terras, navegou por novos mares, trouxe para casa produtos nunca vistos; e o seu rosto revelava os sinais da sua intensa experiência. O segundo estudou: trouxe à luz novos pensamentos, apontou ao homem horizontes inesperados, idéias e metodologias de pesquisa antes impensadas; e o seu rosto revelava a nobreza de quem sabe das coisas. O terceiro amigo começou a namorar, casou, teve muitos filhos, precisou trabalhar duro para sustentar a numerosa família; e o seu rosto ficou como de uma pessoa qualquer, sem nenhum vestígio especial.

Quando os três se encontraram de novo, o terceiro amigo não pode esconder a própria decepção: como tinha sido pequena a paixão da vida dele confrontada com as grandes paixões dos outros amigos.

Quando, porém, voltava para casa, desiludido e magoado, um santo homem o parou, tomou-o pela mão e conduziu-o à beira de um rio que passava por perto. Apontou-lhe uma ponte e disse-lhe: “Está vendo aquela ponte e os dois pilares que a sustentam? Os dois pilares são os seus amigos: sem a ciência e sem o conhecimento a ponte não se sustentaria. Mas as tábuas da ponte são você, que sustenta o peso de muitos. Aquelas que você pensa terem sido pequenas coisas e paixões insignificantes são cada uma das tábuas, que uma após a outra, dia após dia, tornaram possível a passagem de muitos de um lado para o outro do rio. O rosto do homem iluminou-se e assumiu aquela altivez que cada um deveria ter, se tomasse consciência do valor grande e profundo de cada gesto pequeno e cotidiano.

Mais uma pequena história. Dessa vez para lembrar os pais no domingo a eles dedicado. Sobretudo aqueles pais que não são famosos, que trabalham humildemente, todos os santos dias do ano inteiro. O suor e o esforço deles passa despercebido. Na realidade a sua labuta é muito grande para as suas famílias e para todos os que sabem reconhecer as contribuições humildes de tantos trabalhadores.

Infelizmente estamos todos um pouco doentes de estrelismo. Damos valor somente àquilo que nos é apresentado como grande, importante, que se destaca. A rotina cotidiana nos parece inútil e vazia. As coisas feitas sempre no mesmo horário e do mesmo modo ficam logo desprezadas. Quantas crianças esquecem-se dos seus pais simplesmente porque eles saem de manhã para trabalhar e só voltam de noite cansados. Quantos adolescentes gostariam ver os seus pais de baixo dos holofotes, recebendo palmas, reconhecimentos e, talvez, dinheiro. Decididamente estamos desprezando as coisas simples, os gestos pequenos, repetidos no cumprimento silencioso e humilde do próprio dever. Um pouco como o arroz e o feijão que as nossas mães cozinham todos os dias. Quem se lembra de agradecer?

Não é por acaso que Jesus escolheu como sinal da Eucaristia o pão. Naquele tempo e na terra dele não tinha nenhum alimento tão cotidiano e indispensável. Uma daquelas coisas tão comuns que nos lembramos delas só quando percebemos a sua falta. Outra “coisa” dessa é a água boa, por exemplo. Por ser tão simples, Jesus escolheu o pão abençoado e repartido como sinal da presença dele, memória do seu amor total na entrega da sua vida. Jesus pode repetir: “Eu sou o pão da vida” – porque nos ama todos os dias, assim como a vida só tem sentido se reaprendemos a amar-nos sempre de novo. Sem precisar de sucesso, de aplausos, de fama e de tudo aquilo que dá vertigem a quem está no topo, e inveja aos que ficam em baixo.

Bendita a vida simples, bendita a rotina do bem, feito no dia a dia, na simplicidade e na sinceridade. Uma vida que não precisa de brilho especial, porque está cheia de gestos luminosos por si mesmos, iluminados pela luz do amor, a única luz que se alimenta e se intensifica por ela mesma.

Para os filhos que sabem ver, cada pai, por humilde, pobre e simples que seja, é uma grande luz. Benditos os pequenos pais que amam com um grande amor as suas famílias todos os dias e a vida inteira, sempre. Como Deus Pai.

 

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por
CNBB

 

“Aproveitar o dia!”

Filed under: Artigos,Formação Humana — vidanova at 9:52 am on terça-feira, julho 7, 2009

rezarEscreve Cardeal Oscar Scheid:

“Os objetivos vão se tornando cada vez mais imediatos, os planos são de curtíssimo prazo, exigindo menos determinação e esforço pessoal. O progresso tecnológico, acelerando as etapas do processo produtivo, tornou possível obter-se tudo em menos tempo. O critério do consumo imediato, do mais barato porque descartável, foi substituindo a escolha do mais autêntico e do melhor. Isto contaminou os valores éticos e morais, passando a se aplicar a todos os aspectos da vida e dos relacionamentos. Daí que muitos jovens desprezam valores, preservados por gerações, como sendo relativos e sem importância. E a vida se torna um carpe diem (”aproveite o dia”) sem responsabilidades pessoais e sem perspectivas de futuro.”

O texto se refere a essa onda do imediatismo que assola a todos nós.Os grandes ideais, as paixões salutares que motivam a vida a prosseguir, os sonhos de felicidade e de conquistas que correspondem com as nossas possibilidades parecem desaparecer aos poucos da vida de muitas pessoas. Isso se agrava pelo consumismo e materialismo que geram uma “cultura do descartável”, visível também nas relações humanas.

Vejamos o que se tenta fazer com a vida: “vale tudo se o resultado é bom, ou seja, não importam os meios, o que vale é se fará alguém melhor.” Então vale matar oito embriões para salvar um (inseminação artificial). Quando se trata de valores vemos também as consequências dessa nova “onda eugênica”, seletiva, descartável e racionalista. “APROVEITAR O DIA”…, o sentido em que escreve o Cardeal aqui é o NEGATIVO. Trata-se da logomarca de uma ideologia predominante no contexto atual em que ensina e estimula as pessoas a viverem e aproveitarem a vida porque ela é apenas “comer e beber”, “viver e morrer”. No Novo Testamento quando o apóstolo Paulo fala acerca dos que não acreditam na ressurreição,  ele usa uma  expressão do Antigo Testamento que retrata o quero dizer: “comamos e bebamos, pois amanhã morreremos!” (cf. 1Cor 15,30-34). Pois bem, hoje se prega isso, que tudo se resume aqui. Portanto, uma grande mentira!

A vida é uma dádiva de Deus, um projeto nos confiado para um fim feliz e duradouro, mas precisa passar pela nossa liberdade responsável. A vida tem a necessidade da responsabilidade nas opções e no assumir delas. Quem ignora a missão que é viver, provocada quase sempre pela falta de sentido, pelo desconhecimento da Verdade, que é Jesus Cristo e o Seu Evangelho, quem traz as marcas do desamor, quem vive no isolamento do seu mundo pessoal e não faz da vida uma doação para amar e servir os outros, então terá esta vida como definitiva. Viverá o “aproveitar o dia” porque pra esta pessoa tudo termina no túmulo, não há esperança de uma vida eterna junto de Deus.

O aproveitar o dia como fruto de uma  vida sem esperança em Deus consiste numa mentalidade atéia que vem atingindo os nossos jovens, principalmente. Isto difere do sentido positivo do APROVEITAR O DIA segundo a vocaçaõ do amor e da fé cristã e católica. Sim, aqui nós podemos dizer que temos de aproveitar o dia porque – como Diz Santa Teresinha – só temos o hoje para amar. Desconhecemos os nossos dias futuros, mas não caminhamos às apalpadelas e nem vivemos como aqueles que não têm esperança.

Queremos viver o hoje amando o Senhor e os irmãos, fazendo o bem e nos confiando à Providência divina. No entanto, isto não tem nada a ver com irresponsabilidade, cruzar os braços e achar que a nossa missão e vocação estão acabadas, não.  Sabemos que  temos que estudar, trabalhar, esforçarmo-nos para passar naquele Concurso que tanto queremos, programar a viagem, o dscanso, o passeio, a visita ao amigo, o ano da cirurgia, aquele curso de línguas, o projeto do casamento… vejamos, isso não é absolutizar o futuro, mas o curso natural da vida, portanto, dom de Deus e necessário para a existência. O que não podemos é viver escravos do amanhã, das vãs preocupações ou mesmo das salutares.

A nós cabe “programar a vida”, ou seja, fazer a nossa parte, mas devemos ser sensatos, prudentes, pois a nossa vida está nas mãos de Deus. Deus confia esta vida à nossa responsabilidade. Conheço algumas pessoas que dizem: “Preciso de um emprego, não consigo arranjá-lo.” No entanto, nada fazem  para consegui-lo. E se fazem e não encontram, cobram de Deus e atribuem a ele a “culpa” disso ou daquilo. Pedem a Deus como se Deus fosse mágico e não providente. A Providência de Deus “quer” se utilizar da nossa colaboração, principalmente da fé e do abandono, mas também do nosso  colocar-se disponível para que a sua graça se utilize de nós. 

Infelizmente muita gente prega erroneamente sobre a Providência de Deus e interpreta o texto bíblico do “não se preocupar com as coisas do amanhã” de forma alienante. Parecida com a questão encontrada na “comunidade dos Tessalonicenses”: “Queriam comer e não trabalhar; pedir o pão da graça evitando as fadigas naturais do dia”. O apóstolo Paulo vai intervir exortativamente, dizendo: “Não vos canseis de fazer o bem…, mas também quem não quiser trabalhar, não coma” (cf. 2Tess 3,6-15).

Agradeço ao Cardeal Scheid por este texto maravilhoso e atualíssimo.  Aproveite o dia para fazer o bem, para amar; aproveite o dia para fazer a tua parte na obra da criação. Lembro sempre da Liturgia do Perído do advento quando diz:”Caminhando entre as coisas que passam, abraçemos as que não passam!”.

Antonio Marcos
Consagrado na Comunidade de Vida Shalom

Fonte:http://www.comshalom.org/blog/antoniomarcos/?p=758

Fama súbita

Filed under: Formação Humana — vidanova at 8:44 am on sexta-feira, julho 3, 2009

O que houve com Susan Boyle, voz fenomenal, 47 anos, internada em maio de 2009 com sinais de colapso nervoso e com a menina Maísa, 7 anos, que chorou duas vezes por sentir-se deslocada diante das câmeras que ela parecia dominar; o que houve com centenas de pessoas a quem a fama feriu por alguns momentos ou para sempre, merece reflexão.

A notoriedade não é para qualquer pessoa nem para qualquer idade. Há formigas que carregam pesados fardos e chegam ao formigueiro. Outras, sucumbem à caminho, ou abandonam a carga. Têm acontecido com cantores, artistas, sacerdotes, jogadores e atletas. A mídia é veículo, mas pode se tornar um fardo acima da capacidade da pessoa. Isso explica os desvios de conduta de alguns jogadores de futebol que jogam tudo para o ar e tiram férias por própria conta; também artistas que abandonam o set de filmagem e vão embora cuidar de sua vida pessoal; também os religiosos que rompem com a vida espiritual pregressa e partem para o seu projeto pessoal, e isso, em todas as igrejas.  

Foram milhares os famosos feridos pela fama. Suicídios, crimes, desrespeito à palavra dada e aos contratos assinados, graves desvios de conduta, sucessivos matrimônios falidos, perda de rumo, graves problemas com a lei ou com o seu público mostram que, tanto entre eles, os notórios e famosos, quanto entre os não notórios cansados de algum fardo, há feridas incuráveis. Mas o drama ganha dimensões catastróficas quando alguém galgou os degraus da fama.

Álcool, drogas, superdoses de medicina, tendência à autodestruição estão na ordem do dia de muitos famosos; não porque são famosos, mas porque no caso deles, a fama tornou-se peso impossível de administrar. Pensaram controlar e acabaram controlados. É que ninguém fica famoso sozinho. Há todo um mecanismo de marketing atrás da fama. É esse mecanismo que sustenta os famosos que, desde o começo se revela maior do que a pessoa promovida.

Os famosos são mais levados do que imaginam ir. Como a criança no carrinho dos tutores que não deseja ir onde a levam, alguns famosos esperneiam, querem fugir do contrato, tentam saltar fora e arcar com menos compromissos, mas nem sempre conseguem. “ The show must go on” dizia-se em Hollywood. Pararam de dizer, mas ainda o fazem.  Em outras palavras, vale o show e não o artista, nem mesmo o artista número um! Há milhões de dólares em questão!

Aí a fama começa a doer. E é sofrimento mortal que alguns tentam amenizar com drogas. Em alguns casos, como o de Elvis Presley, Marilyn Monroe e Michael Jackson e Elis Regina, que perderam o controle do que ingeriam e do pastor Jim Jones que perdeu o controle da fé que anunciava, chega-se ao ponto do não retorno. Algum dia virá a super-dosagem. O tristemente famosos pastor matou-se e matou mais de 800 fiéis ao ver que sua Jonestown corria o risco de não dar certo… Não soube voltar atrás. Apostara demais no seu projeto.

Crianças pagaram um alto preço pela notoriedade. De Shirley Temple a Maísa, há que se distinguir o que para uma criança é brincadeira e quando deixa de ser. No caso de Maísa, a simpática e prendada menina de sete anos, sinalizou com clareza que a brincadeira do ancião e famoso apresentador tinha ido longe demais. A brincadeira dele a feriu. Shirley Temple que, na sua época, encantou milhões de cinéfilos amargou um terrível ostracismo ao deixar a infância. Com ela, Pablito Calvo e centenas de crianças midiáticas. A vida se lhes mudou radicalmente depois daqueles dias de holofotes.

Marilyn Monroe, Janis Joplin, Elvis Presley, Judy Garland, Michael Jackson, Elis Regina, Cássia Heller, quinze ou vinte famosos brasileiros, são apenas alguns dos mais conhecidos entre os mais de mil nomes de pessoas famosas que por um momento, ou por anos a fio perderam o controle e a paz. O caso da subitamente famosa Susan Boyle que, vivendo fama súbita de algumas  semanas, precisou de ajuda logo após ter perdido uma competição, mostra que, às vezes, o peso da fama tira a pessoa do seu eixo.

Não acontece apenas no mundo artístico. Jogadores de futebol, atletas e até religiosos guindados à fama perderam, com facilidade o referencial e mudaram radicalmente de postura. Pensavam controlar a publicidade, mas foram por ela controlados. A fama, tanto quanto a mídia, são cavalos xucros. Feliz de quem consegue montá-la por anos a fio, sem cair. Na arena, a média é de cinco a oito segundos. Na vida, alguns passam décadas diante das luzes. Outros, porém, em menos de dois anos acabam cegos pelos mesmos holofotes que tanto cortejaram. A formiga cortara pedaço maior do que poderia carregar!

Quantos entre nós podem garantir que seriam mais fortes? Oremos pelos famosos. Alguns buscaram desesperadamente os pesos que hoje carregam. Outros não buscaram, mas descobriram-se famosos. Uns e outros sofrem. Mas quem quis a fama sofre mais. Muito provavelmente fez concessões que não deveria ter feito. 

 

Padre Zezinho, SCJ

 

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por
padrezezinhoscj.com

Crianças assassinadas, crianças assassinas

Filed under: Formação Humana — vidanova at 8:48 am on quinta-feira, maio 14, 2009

Maria Emmir Oquendo Nogueira

 Dia 2 de abril de 2008. Os jornais voltam a aterrorizar o mundo com duas notícias para as quais se fica a buscar explicações no labirinto de evidências da crueldade humana: no Brasil, uma criança de seis anos é jogada do sexto andar, provavelmente pelo próprio pai. Nos Estados Unidos, três crianças, de 7,8 e 9 anos planejam os pormenores do assassinato de uma professora. Tendo pego os potenciais assassinos mirins com a arma do crime e um plano minucioso para executá-lo, a diretoria da escola procura os pais que se mostram totalmente surpresos diante do plano que afirmam ignorar.

 Centenas de pessoas, diante do noticiário televisivo devem ter repetido atônitas: “Meu Deus! Crianças de 7, 8 e 9 anos! Crianças de 7, 8 e 9 anos!!!” Eu mesma fiz parte deste coro, para em seguida me questionar o que levou crianças de três famílias diferentes – e provavelmente três séries diferentes na mesma escola – a simplesmente tentar “eliminar” a professora que os havia desgostado. Encontro somente duas respostas: materialismo exacerbado – e, portanto, ausência de Deus e de valores evangélicos – e total desrespeito à vida – que é conseqüência inevitável da primeira resposta.

 Há algumas décadas, Dostoievski afirmava, em triste profecia: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. Será que chegamos a este ponto de anarquia? Parece não restar muita dúvida. Não sei quem são as crianças, se são ricas ou pobres, negras, brancas ou ameríndias, orientais ou ocidentais. Não sei se seus pais são casados ou divorciados, idosos ou jovens, presentes ou ausentes de casa. Creio que ao chegarmos a este ponto não podemos mais ficar arranjando justificativas socioeconômicas para todo comportamento inadequado. Propostas a cada impacto moral, essas justificativas não têm explicado a grande maioria de nossos impasses há pelo menos um século. Diante de um caso como o dessas três crianças é preciso dizer: “Basta! O problema não está aí. O problema não é a riqueza nem a pobreza. Não é a classe social ou o grupo racial. O problema é que o homem tem cada vez mais acintosamente prescindido de Deus!”

 

 Ao prescindir de Deus, Autor da vida, a vida perde seu valor e não é mais digna de nenhum respeito. Descartam-se pessoas jogando-as do 6º andar ou matando-as com requintes de detalhes com menos pejo do que se descartam copos de plástico. Afinal, o plástico polui, leva centenas de anos para degradar-se e é nocivo ao planeta. O corpo, não, é rapidamente degradável e até ajuda na fertilização da terra! Quanto à alma, nem se fala, pois esta turminha que está aí, não crendo nem temendo a Deus, também não crê na existência da alma. Talvez seus pais – se é que tinham fé – eram por demais ocupados para falar-lhes sobre isso, mesmo enquanto os levavam de uma aula para outra. A escola pública há muito é não-confessional nos Estados Unidos – caminho que o Brasil segue em mais um de seus desvarios de “modernidade”. A TV e a internet, que estatisticamente ocupam a maior parte do tempo das crianças americanas (e das brasileiras!) falam de tudo, menos de Deus e apresentam uma profusão inacreditável de valores anti-evangélicos.

 Até hoje, dia 13 de abril, não se tem conclusão clara sobre quem terá espancado e atirado Isabella do 6° andar. Quanto às crianças quase assassinas de 7, 8 e 9 anos, sumiram do noticiário, talvez porque o caso de Isabella trouxesse mais interesse ao público. Nossa reflexão, porém, não se dirige a ninguém que seja “culpado” destes fatos. Dirige-se a nós, a mim e a você que temos em mãos esta revista católica. Nós conhecemos a Deus. Cremos Nele. Possivelmente temos uma experiência pessoal com Jesus crucificado. Isso faz de nós, entre todos, os mais culpáveis, por morosidade e omissão. Conhecemos Aquele que pode trazer salvação ao homem e à humanidade, mas insistimos em nossa letargia e inépcia sendo menos atuantes do que “os filhos do mundo”, como nos diz a Palavra.

 Paradoxalmente, mantemo-nos paralisados diante da TV, espantados com a pouca idade dos quase assassinos americanos ou com a possibilidade de alguém ter jogado uma criança do 6° andar de um prédio bem ali em São Paulo. Alguns de nós nos limitamos a arregalar os olhos, por vezes cheios de lágrimas compassivas. Outros de nós nos contentamos em entreabrir a boca diante das notícias, correr para a TV para conhecer maiores detalhes e discutir os casos no transporte, no elevador, no trabalho, na escola. Afinal, pensamos, ainda que pudéssemos fazer alguma coisa, não faria muita diferença mesmo!

 Não foi desta forma que pensaram os primeiros apóstolos. Deram tudo de si e a própria vida para que todos conhecessem Jesus Vivo, pessoalmente, e, através dessa experiência pessoal com Ele, acolhessem pela fé o Evangelho e a graça da salvação. Estes dois passos são, afinal, o segredo: experiência pessoal com Jesus Ressuscitado e acolhida da graça da salvação pela fé. Quem viver isso será capaz de transformar o mundo através de seu testemunho, de sua ação, de suas obras, da graça de que é instrumento.

 Uma pessoa humana sem Deus é capaz de tudo. Certo. A recíproca, porém, é verdadeira: uma pessoa humana com Deus também é capaz de tudo. Não se trata de medir o alcance de potências humanas, mas a abrangência eterna da força da graça. No primeiro caso, a pessoa humana sem Deus, pela ausência da graça, da fé, da esperança e da caridade é capaz de cometer as mais profundas perversidades. No segundo, o da pessoa que crê e tem uma experiência pessoal com Jesus, precisamente pela força da graça, da fé, da esperança e da caridade, pelo poder da Ressurreição de Jesus, que, agindo em nós é capaz de transformar a mais mínima ação, a mais ínfima obra em um mundo transformado pelo amor.

 Onde fica a decantada “inocência infantil” diante dos instrumentos e planos das crianças de 7 a 9 anos para matar a professora? Existe ou não, afinal, inocência infantil onde não há abertura para a graça, para a fé, para Cristo? Qual a força do pecado original e da concupiscência em uma sociedade que não mais crê, não mais batiza seus filhos e prescinde de Deus? Uma das respostas certamente será: o homem é considerado como objeto descartável, não mais como imagem e semelhança de Deus, mas como algo a ser eliminado quando incomodar. As outras respostas girarão em torno do mesmo conceito: sem Deus o homem perde o seu valor, quer tenha entre 7 e 9 anos, quer seja uma professora adulta, quer seja alguém perdido o suficiente para atirar uma criança prédio abaixo. 

Fonte: www.comshalom.org

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