{"id":3751,"date":"2016-02-15T11:35:19","date_gmt":"2016-02-15T13:35:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/?p=3751"},"modified":"2016-02-15T17:24:49","modified_gmt":"2016-02-15T19:24:49","slug":"estreia-2016-mensagem-do-reitor-mor-a-familia-salesiana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/estreia-2016-mensagem-do-reitor-mor-a-familia-salesiana\/","title":{"rendered":"Estreia 2016 - Mensagem do reitor-mor a Fam\u00edlia Salesiana"},"content":{"rendered":"<h3><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-3757 size-full\" src=\"http:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/files\/2016\/01\/dom-bosco-estreia-20161.jpg\" alt=\"\" width=\"949\" height=\"535\" srcset=\"https:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/files\/2016\/01\/dom-bosco-estreia-20161.jpg 949w, https:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/files\/2016\/01\/dom-bosco-estreia-20161-300x169.jpg 300w, https:\/\/blog.cancaonova.com\/cleberrodrigues\/files\/2016\/01\/dom-bosco-estreia-20161-900x507.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 949px) 100vw, 949px\" \/><\/h3>\n<p>Todos os anos o reitor-mor Pe. \u00c1ngel Fern\u00e1ndez Artime, 10\u00ba sucessor de Dom Bosco apresenta\u00a0uma mensagem com o objetivo de motivar e renovar a Fam\u00edlia Salesiana para mais um per\u00edodo de desafios e realiza\u00e7\u00f5es. Essa mensagem, institu\u00edda por Dom Bosco e tornada tradi\u00e7\u00e3o por seus sucessores, \u00e9 chamada de &#8220;Estreia&#8221;. \u00c9 um dos materiais mais aguardados para a realiza\u00e7\u00e3o do trabalho pastoral na congrega\u00e7\u00e3o.\u00a0Neste ano de 2016, a Estreia, traz como lema <strong>\u201cCom Jesus, percorramos juntos a aventura do esp\u00edrito!\u201d <\/strong>e disponibilizo, na \u00edntegra, o texto produzido pela Ag\u00eancia Info Salesiana e adaptado pela Inspetoria Salesiana Nossa Senhora Auxiliadora (S\u00e3o Paulo, Brasil). Que Dom Bosco, atrav\u00e9s deste material, nos eduque para a Santidade! Boa leitura.<!--moreContinue lendo...--><\/p>\n<h3><strong>\u00a0<iframe loading=\"lazy\" width=\"853\" height=\"480\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/BWRNmGJly8o\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/strong><\/h3>\n<h3><strong>1. SAUDA\u00c7\u00c3O E MOTIVA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/h3>\n<p>Conservo em minha mente e no meu cora\u00e7\u00e3o as lembran\u00e7as incancel\u00e1veis da festa do bicenten\u00e1rio do nascimento de Dom Bosco, que vivemos no m\u00eas de agosto na terra santa salesiana de Valdocco e do Colle Don Bosco. Enche-me de alegria ouvir os ecos das celebra\u00e7\u00f5es que se deram em muitos \u00e2ngulos do mundo para festejar este acontecimento. Gra\u00e7as ao Esp\u00edrito Santo, a Fam\u00edlia Salesiana est\u00e1 muito viva! O bicenten\u00e1rio do nascimento do nosso pai Dom Bosco ofereceu-nos a possibilidade de recordar a sua hist\u00f3ria, aprofundar as suas intui\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas e reavivar alguns aspectos da sua espiritualidade. Foi este o programa proposto pelo meu predecessor P. Pascual Ch\u00e1vez, programa que se tornou fecundo. Entrela\u00e7ando os fios da hist\u00f3ria, a miss\u00e3o e a espiritualidade salesiana das origens, descobrimos o que significa viver a nossa voca\u00e7\u00e3o salesiana com paix\u00e3o. Como toda voca\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m a nossa envolve uma hist\u00f3ria de amor entre Deus e a pessoa concreta, uma mulher, um homem ou um jovem. Apenas dando import\u00e2ncia \u00e0s origens do nosso carisma, do qual deriva a voca\u00e7\u00e3o\u00a0salesiana, conseguiremos projetar juntos a miss\u00e3o juvenil que recebemos como Fam\u00edlia Salesiana, e faremos transparecer a espiritualidade da qual bebemos e nos alimentamos. Caros irm\u00e3os e irm\u00e3s da Fam\u00edlia Salesiana, venho novamente neste ano at\u00e9 voc\u00eas para apresentar a \u2018Estreia\u2019, e o fa\u00e7o com palavras de fraternidade e afeto; manifesto-lhes este renovado intenso desejo de aproximar-me com os mesmos sentimentos com que Dom Bosco se propunha. Sei que muitos esperam esta apresenta\u00e7\u00e3o. A Estreia permite ver a riqueza da fam\u00edlia que formamos. Quer ser uma ajuda para estreitar v\u00ednculos de comunh\u00e3o e compartilhar itiner\u00e1rios de miss\u00e3o, movidos pelo Esp\u00edrito Santo que, na Igreja do nosso tempo, estimula-nos a percorrer caminhos novos. Por isso dizemos \u201cCom Jesus, percorramos juntos a aventura do Esp\u00edrito\u201d. Como poder\u00e3o ler nas p\u00e1ginas a seguir, desejo falar de Deus e de Jesus Cristo, fundamento da nossa vida pessoal e da nossa Fam\u00edlia Salesiana; mas falo tamb\u00e9m da miss\u00e3o, que descrevo como \u201caventura do Esp\u00edrito\u201d, e da comunh\u00e3o entre n\u00f3s e como Igreja, que formulo com a express\u00e3o \u201cpercorrer juntos\u201d. Este tempo de servi\u00e7o como Reitor-Mor permitiu-me conhecer melhor e amar ainda mais a Congrega\u00e7\u00e3o e a Fam\u00edlia Salesiana. Tive o privil\u00e9gio de poder ser testemunha de muitos caminhos pelos quais hoje o Esp\u00edrito Santo conduz a nossa Fam\u00edlia. Estou convencido de que o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 sendo muito generoso conosco e espera de n\u00f3s a mesma disponibilidade que encontrou em Dom Bosco, em Madre Mazzarello, em Domingos S\u00e1vio e nos muit\u00edssimos que, na escola de santidade da nossa grande fam\u00edlia religiosa, estiveram dispostos a seguir Jesus com radicalidade, deixando-se guiar pelo Esp\u00edrito de Deus.<\/p>\n<h3><strong>2. COM JESUS<\/strong><\/h3>\n<p>Dizer \u201cCOM JESUS\u201d no in\u00edcio do t\u00edtulo da Estreia indica-nos que Ele \u00e9 a porta de entrada e o centro de toda a nossa reflex\u00e3o. O itiner\u00e1rio que propomos nestas p\u00e1ginas \u00e9 muito mais do que uma estrat\u00e9gia pastoral; \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que s\u00f3 com Jesus, em Jesus e por Jesus poderemos trilhar um caminho que seja realmente significativo e decisivo para as nossas vidas. An\u00e1logo aos chamados de Jesus no Evangelho, hoje como ent\u00e3o, Ele fixa e contempla cada pessoa com aten\u00e7\u00e3o, no fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, e ali faz ressoar o seu convite a segui-lo. \u00c9 disto que se trata na vida crist\u00e3: o in\u00edcio de uma voca\u00e7\u00e3o, o sentir-se chamado pelo pr\u00f3prio nome. Ela \u00e9, essencialmente, seguimento de Jesus. \u00c9 Jesus que toma a iniciativa, que se associa no caminho, que busca o encontro com solicitude. O seu olhar de elei\u00e7\u00e3o e o seu chamado pessoal pedem uma decis\u00e3o cheia de confian\u00e7a e de abandono n\u2019Ele. Porque, quando Jesus chama algu\u00e9m para que o siga, n\u00e3o apresenta um programa detalhado, nem apresenta motivos ou estabelece condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O chamado de Jesus envolve uma aventura, um risco. Trata-se de percorrer a sua mesma estrada, sem um mapa. Seguir Jesus significa desacomodar-se, levantar-se e p\u00f4r-se em caminho, \u00e9 n\u00e3o ficar \u00e0 beira da estrada, como quem v\u00ea passar algu\u00e9m que suscita entusiasmo, pol\u00eamica ou disputa. O que sabemos dos chamados de Jesus no Evangelho foi-se repetindo ao longo dos s\u00e9culos e \u00e9 o mesmo chamado que fez a cada um de n\u00f3s, Fam\u00edlia Salesiana, e o que faz a cada jovem que se encontra com Ele, e que deseja e decide ser um dos seus. Decis\u00e3o essa que comporta a aud\u00e1cia do disc\u00edpulo que vence toda forma de temor e torna leves as dificuldades inerentes ao seguimento, como s\u00e3o a rejei\u00e7\u00e3o, a exclus\u00e3o, a incompreens\u00e3o ou os riscos. Encontrar Jesus, ou melhor, ser encontrado por Ele, desperta admira\u00e7\u00e3o, atra\u00e7\u00e3o, fasc\u00ednio. Mas n\u00e3o basta. Talvez, a experi\u00eancia mais importante envolvida no seguimento seja a amizade pessoal com o Mestre. Amizade que se compreende e vive como entrega, fidelidade e confian\u00e7a. Onde n\u00e3o houver amizade pessoal, n\u00e3o poder\u00e1 existir seguimento, mesmo havendo outras qualidades, como o entusiasmo ou a laboriosidade at\u00e9 a exaust\u00e3o. O chamado coloca-nos diante de um espl\u00eandido horizonte de amizade, requer ades\u00e3o cordial \u00e0 pessoa de Jesus e uma mudan\u00e7a radical de vida. Um seguir e caminhar com Jesus que vai se transformando em comunh\u00e3o com Ele (Jo 1,31-51); um seguir e um caminhar com Jesus que \u00e9 tamb\u00e9m permanecer com Ele, dado que se liga a uma experi\u00eancia pessoal de verdadeiro encontro (Jo 15,14-16). O que expus brevemente, procurando ir ao essencial, deve ser, meus caros irm\u00e3os e irm\u00e3s, o ponto de partida e de chegada, a m\u00e1xima prioridade das nossas a\u00e7\u00f5es de educadores e evangelizadores dos jovens e das jovens. A partir deste momento, o convite que lhes fa\u00e7o \u00e9 de percorrer pessoalmente, \u00e0s vezes com outros educadores e educadoras dos milhares de presen\u00e7as da nossa Fam\u00edlia no mundo, e sempre com os jovens \u2013 sempre com eles e sempre para eles \u2013 um itiner\u00e1rio de f\u00e9 no qual reavivar a nossa rela\u00e7\u00e3o com Jesus. Sim, \u00e9 disso que se trata! Deixar-nos tomar pela sua pessoa, deixar-nos seduzir n\u00e3o s\u00f3 por um ideal ou uma miss\u00e3o, mas pelo Deus vivo encarnado n\u2019Ele. Deixar-nos transformar, pouco a pouco, por este Deus apaixonado por uma vida mais digna e feliz para todos. N\u00f3s mesmos, e particularmente os nossos jovens, temos desejo de Deus e necessidade de Deus. \u201cA It\u00e1lia, a Europa e o mundo nestes dois s\u00e9culos mudaram muito, mas a alma dos jovens n\u00e3o mudou: ainda hoje os jovens e as jovens est\u00e3o abertos \u00e0 vida e ao encontro com Deus e com os outros, mas existem muitos deles que correm o risco do desencorajamento, da anemia espiritual, da marginaliza\u00e7\u00e3o\u201d, disse-nos, como Fam\u00edlia Salesiana, o Papa Francisco.[1]<\/p>\n<p>E dever\u00edamos estar convencidos de que esta abertura ao encontro com Deus, esta necessidade de Deus, se converte num acontecimento decisivo para todos n\u00f3s, especialmente para os nossos jovens, quando o Cristo do Evangelho, sem supress\u00f5es ou acr\u00e9scimos, \u00e9 experimentado como Aquele que d\u00e1 sentido pleno \u00e0 vida, passando \u201cda admira\u00e7\u00e3o ao conhecimento e do conhecimento \u00e0 intimidade, ao enamoramento, \u00e0 sequela, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o\u201d.[2] Este desejo \u00e9 um desafio educativo e pastoral que devemos enfrentar se quisermos cultivar e desenvolver uma espiritualidade crist\u00e3 para o nosso tempo. Quando isso \u00e9 entendido e se come\u00e7a a viv\u00ea-lo, altera-se muitas vezes a perspectiva pessoal, porque cada um de n\u00f3s vai tomando consci\u00eancia da gratuidade de Deus, que Ele nos amou e nos ama, e pousa o seu olhar sobre cada um dos seus filhos e filhas. Isso nos leva a buscar muito seriamente este encontro, que se realiza geralmente de maneira gradual, que amadurece ordinariamente de modo lento, com os altos e baixos da limitada resposta humana, que requer tempo e espa\u00e7o, que envolve um processo de liberdade. \u00c9 por isso que, compartilhando a sua mesma experi\u00eancia e convic\u00e7\u00e3o pessoal, o Papa Francisco convida, numa entrevista concedida no in\u00edcio do seu pontificado, a \u201centrar na aventura da busca do encontro e do deixar-se buscar e deixar-se encontrar por Deus\u201d.[3]<\/p>\n<h3><strong>3. PERCORRAMOS JUNTOS<\/strong><\/h3>\n<p>Pensando no caminho da vida como lugar em que se joga tudo e o que nela \u00e9 mais importante, podemos olhar, como imagem b\u00edblica, para Jesus que percorre as estradas da Galileia com os seus, encontrando-se com muitas pessoas, pregando, curando&#8230; Jesus que percorre as estradas entre o povo, entre as suas vicissitudes, e rodeado, \u00e0s vezes, dos que passam por necessidades, tamb\u00e9m de curiosos, dos que buscam novidade, dos que s\u00e3o fascinados pela sua pessoa, dos indiferentes, dos que o veem como um perigo e querem tir\u00e1-lo do meio deles. Percorrer o caminho, como experi\u00eancia humana, \u00e9 conhec\u00ea-lo e reconhec\u00ea-lo, conhecer quais os caminhos pelos quais Ele passa e saber que nos encontraremos mais adiante, onde se encontram as sombras que refrescam, onde est\u00e3o as fontes que saciam. \u00c9 fazer experi\u00eancia de caminhar por lugares pedregosos, subir por caminhos \u00e0s vezes \u00edngremes e dif\u00edceis; outras vezes, mais f\u00e1ceis e tranquilos. Como no caso do peregrino que caminha buscando a f\u00e9 ou devido \u00e0 pr\u00f3pria f\u00e9, o nosso percorrer o caminho da vida com Jesus \u00e9 um caminho que trilhamos n\u2019Ele (Cl 2,6), que trilhamos com Ele porque nos fascinou, e o fazemos juntos. A mensagem da Estreia, como podemos perceber nos desafios e propostas das p\u00e1ginas finais, entende sublinhar intensamente que este itiner\u00e1rio, este caminhar, n\u00f3s o fazemos n\u00e3o de forma isolada, mas unidos, entre n\u00f3s e com os jovens.<\/p>\n<p>Por que unidos? Porque a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e eclesial \u00e9 algo essencial na mensagem crist\u00e3, sobre o que se falar\u00e1 nestas p\u00e1ginas. Trata-se, essencialmente, de uma experi\u00eancia em que o crente se sente sustentado por um grande Amor e por uma comunidade; uma comunidade em caminho, que tem um projeto em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Tudo isso far\u00e1 com que vivamos uma vida que vale a pena ser vivida e que \u00e9 a alegria de ser crist\u00e3o.[4]<\/p>\n<h3><strong>4. A AVENTURA DO ESP\u00cdRITO<\/strong><\/h3>\n<h4><strong>4.1. Uma aventura muito diferente de qualquer busca de novidade<\/strong><\/h4>\n<p>H\u00e1, em muitas culturas, um primeiro significado para a palavra aventura que se traduz como algo semelhante a um tipo de vida em que as pessoas procuram, como objetivo \u00faltimo, viver novas experi\u00eancias, nas quais s\u00e3o essenciais alguns elementos como a intui\u00e7\u00e3o, a incerteza, o risco, a boa sorte, o \u00eaxito ou o falimento. Este conceito de aventura fala-nos, assim entendido, de buscadores ativos de novas emo\u00e7\u00f5es nas quais descobrir itiner\u00e1rios desconhecidos, experimentar os pr\u00f3prios limites e, ao mesmo tempo, demonstrar a pr\u00f3pria capacidade de arriscar. Todas elas seriam condi\u00e7\u00f5es imprescind\u00edveis para um bom \u201caventureiro\u201d. Desde outra perspectiva, e como exemplo, sabemos que o pensamento europeu do Romantismo acreditava que \u201cviajar n\u00e3o consiste tanto em explorar novos ambientes quanto afastar-se do solo natal para entrar em contato com o mundo desconhecido. Neste sentido, a viagem \u00e9 formativa quando a pessoa retorna mudada&#8230; ou n\u00e3o retorna\u201d.[5] A inten\u00e7\u00e3o destas p\u00e1ginas \u00e9 individuar caminhos de interioridade e de espiritualidade para percorrer um tipo de aventura muito particular: a aventura do Esp\u00edrito.<\/p>\n<h4><strong>4.2. A aventura do Esp\u00edrito \u00e9 um ITINER\u00c1RIO DE INTERIORIDADE<\/strong><\/h4>\n<p>Aqueles que est\u00e3o mais familiarizados com o estudo da interioridade come\u00e7am frequentemente a sua reflex\u00e3o dizendo que muito se escreveu nos \u00faltimos anos sobre esta palavra; ela, algumas vezes, refere-se aos itiner\u00e1rios interiores que o ser humano tenta percorrer para recuperar o sentido da vida; outras vezes, ao anseio de uma felicidade sempre buscada e, com frequ\u00eancia, n\u00e3o encontrada. \u00c9 grande o risco de falhas de desaten\u00e7\u00e3o neste caminho de busca. Com tonalidade um tanto cr\u00edtica, fala-se de receitas que proliferam e que aconselham como adquirir um ritmo sadio de vida, ou como recuperar diversos aspectos da sa\u00fade ps\u00edquica e espiritual; como chegar ao equil\u00edbrio interior; como aceitar a si mesmo para ser feliz etc. Pareceria que se tenha oferecido um \u2018supermercado espiritual\u2019, no qual escolher e colocar na sacola de compras o que temos mais \u00e0 flor da pele. Encontramos ofertas esot\u00e9ricas, ex\u00f3ticas, de \u201cbijuteria <em>new-age<\/em>\u201d ou pseudoespiritualidade de todo tipo.[6]<\/p>\n<p>Adverte-se que o perigo est\u00e1 nos falsos itiner\u00e1rios de interioridade oferecidos pelo mercado ou pela realidade idol\u00e1trica de certos convites a uma interioridade \u201cde fuga\u201d do mundo. Nem sequer \u00e9 segura \u201ca ideologia da autorrealiza\u00e7\u00e3o obsessiva monotem\u00e1tica do \u2018o que est\u00e1 acontecendo comigo\u2019, \u2018como me sinto?\u2019&#8230; um universo que gira ao redor do pr\u00f3prio eu e que afasta da disponibilidade ao servi\u00e7o e ao interesse pelos outros\u201d.[7] Pareceu-me tamb\u00e9m sugestiva uma \u2018met\u00e1fora\u2019 insinuando que em determinadas ocasi\u00f5es \u201cse tem a sensa\u00e7\u00e3o de que nos coube viver num tempo em que as rela\u00e7\u00f5es consigo mesmo t\u00eam mais a ver com um hotel, onde \u00e0s vezes se hospeda, do que como \u00e2mbito no qual o encontro consigo mesmo enriquece a identidade. Parecer\u00edamos, frequentemente, mais perto de confirmar a morte da interioridade do que promover o seu avigoramento\u201d.[8] Embora o que foi exposto anteriormente, quando visto positivamente, nos fale de busca no desejo de preencher vazios da vida, \u00e9 certo que \u00e0s vezes estas buscas respondem a um ac\u00famulo de mal-estares pessoais ocultos ou silenciosos, que chegam a ser intoler\u00e1veis. E \u00e9 nesta situa\u00e7\u00e3o que cada pessoa, n\u00f3s mesmos e os nossos jovens, n\u00e3o devemos cair na armadilha narcisista, no eu intimista que encerra o sujeito nos pr\u00f3prios interesses e o aprisiona no seu pequeno mundo. A realidade que estamos a descrever leva-nos a ver em n\u00f3s mesmos, Fam\u00edlia Salesiana no mundo, e nos pr\u00f3prios jovens com os quais compartilhamos a vida, que \u00e9 real o perigo de perder ou ter perdido (ou simplesmente jamais ter encontrado) o gosto pela vida interior e a capacidade de descobrir n\u00edveis de profundidade na pr\u00f3pria vida. N\u00e3o se pode cultivar a interioridade se \u2018se consome\u2019 o tempo como espectador da vida dos outros, detendo-se simplesmente a ver as apar\u00eancias. Creio que devemos levar mais a s\u00e9rio esta provoca\u00e7\u00e3o e acompanhar os nossos jovens e as pessoas com as quais interagimos, para que se viva em estado de busca, para que sejam e sejamos buscadores do essencial. Porque quando uma pessoa, um jovem, n\u00e3o descobre, nem tem interesse em caminhar a partir de dentro e dentro de si mesmo, pode converter-se em algu\u00e9m incapaz de imaginar ou sonhar o pr\u00f3prio presente e o seu futuro. E, para progredir neste caminho, o que podemos entender por interioridade? Com as palavras de uma religiosa carmelita que dedicou a vida nesta busca que a levou a Deus, \u201cinterioridade \u00e9 a consci\u00eancia viva de que tudo est\u00e1 dentro do Absoluto, de Deus, do amor, da vida. A interioridade n\u00e3o \u00e9 o lugar aonde eu me retiro por decis\u00e3o pessoal, mas \u00e9 chegar a perceber que estou dentro de Algu\u00e9m\u201d.[9] Esta irm\u00e3 compreendeu que a interioridade \u00e9 algo que faz parte da ess\u00eancia da nossa exist\u00eancia. \u00c9 a for\u00e7a que impele para Deus, \u00e9 a consci\u00eancia de viver \u2018dentro\u2019 de Deus, e experimentar essa consci\u00eancia e essa alegria. \u201cParece-me \u2013 acrescenta \u2013 que todos t\u00eam a possibilidade de descobrir a pr\u00f3pria interioridade, decifr\u00e1-la e, conhecendo-a, am\u00e1-la e viver\u00a0dela\u201d.[10] O Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica tamb\u00e9m tem algo semelhante quando diz: \u201cO desejo de Deus est\u00e1 inscrito no cora\u00e7\u00e3o do homem, j\u00e1 que o homem \u00e9 criado por Deus e para Deus; e Deus n\u00e3o cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem h\u00e1 de encontrar a verdade e a felicidade que n\u00e3o cessa de procurar\u201d.[11] Creio que n\u00e3o se trata de uma vis\u00e3o pessimista reconhecer ou diagnosticar que, em muitas culturas, especialmente nas mais ocidentais do nosso planeta, a experi\u00eancia religiosa \u00e9 socialmente marginalizada, ou seja, mutila-se a interioridade reduzindo-a \u00e0 dimens\u00e3o puramente ps\u00edquica, sem reconhecer o seu potencial de abertura ao transcendente. E \u00e9 por isso que a pessoa deve tentar encontrar as pegadas ou os sinais de Deus na sua experi\u00eancia interior, penetrando nas suas intimidades, naquilo que ressoa em sua mente e no seu cora\u00e7\u00e3o, porque \u201cDeus est\u00e1 no seu interior como pensamento, consci\u00eancia, cora\u00e7\u00e3o, realidade psicol\u00f3gica e ontol\u00f3gica\u201d.[12] Desde a perspectiva crist\u00e3, a interioridade n\u00e3o \u00e9 um lugar no qual eu me retiro, mas a tomada de consci\u00eancia de que estou dentro de Algu\u00e9m ou com Algu\u00e9m. Percebo-me como um \u201ceu\u201d recebido de Algu\u00e9m, como dom de Algu\u00e9m. Quando damos um significado \u00e0 consci\u00eancia da dimens\u00e3o interior (isto \u00e9, que esse Algu\u00e9m \u00e9 a pessoa de Jesus, ou \u00e9 Deus Pai), tal consci\u00eancia converte-se em busca espiritual. Portanto, uma espiritualidade sem interioridade \u00e9 impens\u00e1vel.<\/p>\n<h4><strong>4.3. A aventura do Esp\u00edrito \u00e9 um ITINER\u00c1RIO DE ESPIRITUALIDADE<\/strong><\/h4>\n<p>Como se poderia definir a espiritualidade? Em sua ess\u00eancia, poder\u00edamos dizer que a espiritualidade \u00e9 viver sob a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito. Em termos mais completos do te\u00f3logo Hans Urs Von Balthasar, \u201ca espiritualidade \u00e9 a atitude b\u00e1sica, pr\u00e1tica ou existencial, pr\u00f3pria do homem, consequ\u00eancia ou express\u00e3o de uma vis\u00e3o religiosa \u2013 ou mais em geral, \u00e9tica \u2013 da exist\u00eancia\u201d.[13] Isso significa que n\u00e3o se entende a espiritualidade como algo acrescentado \u00e0 pessoa, como algo acidental ou circunstancial, mas que ela se refere \u00e0 mesma ess\u00eancia da nossa condi\u00e7\u00e3o de seres humanos. Por conseguinte, nada na pessoa, nem as atitudes, nem os comportamentos, nem as rela\u00e7\u00f5es podem ficar \u00e0 margem da espiritualidade. Esta, portanto, penetra todas as dimens\u00f5es da pessoa. Tem a ver com a sua identidade, os seus valores, com o que d\u00e1 significado, esperan\u00e7a, confian\u00e7a e dignidade \u00e0 sua exist\u00eancia e se explicita na rela\u00e7\u00e3o consigo mesmo, com o pr\u00f3ximo e com quanto transcende a natureza humana, o mist\u00e9rio de Deus. E, em nosso caso, como crentes crist\u00e3os e seguidores de Jesus, n\u00e3o falamos apenas de espiritualidade em geral, mas de espiritualidade crist\u00e3, porque temos em Cristo a fonte, a raz\u00e3o, a meta e o sentido da nossa vida e da espiritualidade com que a vivemos. Descobrimo-nos, ent\u00e3o, habitados por Deus, e cremos que h\u00e1 um lugar para Ele em\u00a0nosso cora\u00e7\u00e3o, e descobrimo-nos como privilegiados por uma rela\u00e7\u00e3o muito pessoal. Como isso \u00e9 belo, sabendo que somos ao mesmo tempo \u2018mendicantes de Deus\u2019. A espiritualidade crist\u00e3 \u00e9, pois, e antes de tudo, um dom do Esp\u00edrito. Ele \u00e9 o \u201cMestre interior\u201d do itiner\u00e1rio espiritual de cada pessoa. Ele suscita em n\u00f3s a sede de Deus (Jo 4,7) e, ao mesmo tempo, sacia esta nossa sede. A vida no Esp\u00edrito \u00e9, para S\u00e3o Paulo, \u201cvida escondida com Cristo em Deus\u201d (Cl 3,3), vida do \u201chomem interior que se renova a cada dia\u201d (2Cor 4,16), \u201cvida nova\u201d (Rm 6,4). \u00c9 o Esp\u00edrito que faz do crist\u00e3o a morada de Deus, capaz de acolh\u00ea-lo. \u00c9 o Esp\u00edrito que d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 vida espiritual, gerando o homem como filho de Deus. Os mestres espirituais de todos os tempos aludem constantemente a este espa\u00e7o interior no qual se d\u00e1 o di\u00e1logo com Deus. Santo In\u00e1cio de Loyola falava de \u201csentir e apreciar interiormente as coisas de Deus\u201d. Santa Teresa d\u2019\u00c1vila compara a vida interior a um castelo interior com muitas moradas e na principal delas habita o pr\u00f3prio Deus. S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz alude ao \u201claborat\u00f3rio interior\u201d para referir-se ao espa\u00e7o interior onde se experimenta a intimidade com Deus. Nos Evangelhos, quando Jesus de Nazar\u00e9 se refere \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, alude a um lugar secreto, escondido, habitado por Deus: \u201cTu, por\u00e9m, quando rezares, entra no teu quarto, fecha a porta e reza ao teu Pai em segredo; e o teu Pai, que v\u00ea no segredo, haver\u00e1 de recompensar-te\u201d (Mt 6,6).<\/p>\n<h4><strong>4.4. Uma aventura que \u00e9 VIDA ABERTA AO ESP\u00cdRITO SANTO<\/strong><\/h4>\n<p>A consequ\u00eancia de todo este dinamismo deve ser sondar, avaliar, indagar sobre o fasc\u00ednio que \u00e9 viver a vida permanecendo abertos ao Esp\u00edrito Santo, que habita essa vida. Deus vem ao nosso encontro e convida-nos a caminhar com Ele e participar da sua vida por meio do Esp\u00edrito. De fato, como sugere o padre Vecchi ao falar da nossa espiritualidade salesiana, acreditamos que \u201ctudo o que no mundo orienta para Deus, tudo o que expl\u00edcita ou implicitamente se refere \u00e0 presen\u00e7a ou \u00e0 interven\u00e7\u00e3o de Deus, tudo o que leva \u00e0 busca de Deus tem o Esp\u00edrito como for\u00e7a oculta\u201d.[14] Contudo, conhecer a Deus e a sua busca \u00e9 mais do que um nosso desejo pessoal. \u00c9, antes de tudo, um Dom que nos \u00e9 oferecido e est\u00e1 em sintonia com a nossa condi\u00e7\u00e3o de buscadores do Absoluto, muito embora muitas vezes os nossos passos sejam curtos e incertos. E \u00e9 nesta perspectiva que permanecemos centrados em Jesus para percorrer, com Ele, um verdadeiro itiner\u00e1rio que seja aventura, novidade, ar fresco do Esp\u00edrito, sabendo que n\u00e3o se trata de algo destinado \u00e0s elites, mas a qualquer pessoa, qualquer homem e mulher, qualquer jovem aberto a Deus; sabendo que toca a pr\u00f3pria vida de maneira decisiva; sabendo que sempre nos levar\u00e1 a um encontro mais profundo e \u00edntimo com Jesus; notando que se alargam as capacidades da pr\u00f3pria pessoa, que se exprime principalmente na comunica\u00e7\u00e3o de Deus \u2013 mist\u00e9rio sempre inacess\u00edvel \u2013 que nos fala e\u00a0com o qual nos comunicamos de diversas maneiras, que leva sempre a sair de si mesmos e ir ao encontro dos outros, vivendo a f\u00e9 na atividade ordin\u00e1ria da vida cotidiana. Tudo isso seria express\u00e3o da espiritualidade crist\u00e3.<\/p>\n<h3><strong>5. CONDUZIDOS PELO ESP\u00cdRITO SANTO<\/strong><\/h3>\n<h4><strong>5.1. Jesus \u201cevento do Esp\u00edrito\u201d<\/strong><\/h4>\n<p>A a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo chega ao seu \u00e1pice, por des\u00edgnio do Pai, na pessoa de Cristo. Toda a sua exist\u00eancia \u00e9 um evento do Esp\u00edrito,[15]desde o momento da sua concep\u00e7\u00e3o quando \u00e9 preconizado a Maria, a jovem de Nazar\u00e9, que \u201co Esp\u00edrito Santo descer\u00e1 sobre ti, e o poder do Alt\u00edssimo te cobrir\u00e1 com a sua sombra\u201d (Lc 1,35). Ainda antes do in\u00edcio do seu minist\u00e9rio na Galileia \u201cJesus recebe o Esp\u00edrito, e Deus se declara Pai que o ama (Mt 3,17): \u00e9 constitu\u00eddo Filho antes de agir como ap\u00f3stolo\u201d.[16] Enquanto Jesus se recolhe em ora\u00e7\u00e3o depois do Batismo \u201co c\u00e9u se abriu e o Esp\u00edrito Santo desceu sobre Ele\u201d (Lc 3,21b-22a), e por meio do Esp\u00edrito o Pai o unge como Messias e o apresenta como o Filho Amado. Cheio de Esp\u00edrito Santo, \u201c\u00e9 conduzido pelo Esp\u00edrito ao deserto&#8230;\u201d (Lc 4,1-13). No Esp\u00edrito, chegando ao deserto, vence as tenta\u00e7\u00f5es e demonstra-se particularmente Filho do Pai. Sempre no Esp\u00edrito, retorna \u00e0 Galileia, chega em Nazar\u00e9 e atribui a si mesmo, publicamente, a profecia de Isa\u00edas: \u201co Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre mim\u201d (Lc 4,18).[17] Em s\u00edntese, estas simples refer\u00eancias a cita\u00e7\u00f5es neotestament\u00e1rias mostram-nos de maneira evidente como a vida de Jesus foi marcada pela presen\u00e7a e pela a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus e como a sua vida foi um aprendizado, um aprender continuado a viver como Filho do Pai buscando sempre e em tudo a sua vontade. 5.2. Maria, mulher do Sim, guiada pelo Esp\u00edrito Maria de Nazar\u00e9 \u00e9, antes de tudo, a jovem crente amada por Deus, com quem Deus mesmo dialoga mediante o seu Anjo (segundo a narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica), significando ou dando a entender que a presen\u00e7a e a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito \u00e9 realizada num encontro respeitoso que \u00e9 proposta e resposta. A mesma presen\u00e7a do Esp\u00edrito depender\u00e1, em definitivo, do seu sim. Em Lc 1,35 \u2013 como citei anteriormente \u2013 o Anjo comunica-Lhe o plano de Deus, ao qual Maria responde: \u201cEis-me aqui, sou a serva do Senhor, seja feito em mim o que disseste\u201d (Lc 1,35). A partir deste sim, Ela n\u00e3o podia imaginar quais seriam os caminhos que haveria de percorrer guiada pelo Esp\u00edrito e, simplesmente, entregou-se inteiramente a Deus. Esteve presente em Can\u00e1, no in\u00edcio da miss\u00e3o do filho; esteve aos p\u00e9s da cruz no Calv\u00e1rio, no momento em que seu filho entregava a pr\u00f3pria vida; esteve em ora\u00e7\u00e3o com os disc\u00edpulos depois da ressurrei\u00e7\u00e3o e estava presente quando o Esp\u00edrito Santo irrompe em Pentecostes. Uma vida toda marcada pelo sim a Deus e pela abertura ao seu Esp\u00edrito. \u201cN\u2019Ela, a M\u00e3e, a f\u00e9 resplende como dom, abertura, resposta e fidelidade\u201d.[18]<\/p>\n<h4><strong>5.3. Pedro e Paulo \u201ctocados\u201d pelo Esp\u00edrito de Deus<\/strong><\/h4>\n<p>Ao contemplar Pedro, o pescador impetuoso da Galileia, em toda a sua trajet\u00f3ria de seguimento do Senhor, com suas promessas e suas infidelidades, com seus sucessos e seus erros, aprende-se a grande li\u00e7\u00e3o: \u00e9 o Esp\u00edrito que impele este indiscut\u00edvel l\u00edder, cheio de nobreza e de amor ao Mestre, a seguir os projetos de Deus e n\u00e3o os deformar como simples desejos humanos. Aquele que era um judeu crente e observante, confiante na presen\u00e7a ativa de Deus no seu povo e disposto a fazer prevalecer as suas raz\u00f5es, mesmo com a for\u00e7a, se rende diante da evid\u00eancia de quem era o seu Senhor. O primeiro dos ap\u00f3stolos no caminho da Igreja nascente, chorou o seu pecado, mas n\u00e3o duvidou do perd\u00e3o. Esta foi a sua grandeza, n\u00e3o isenta de resist\u00eancias at\u00e9 o momento da verdadeira convers\u00e3o. E \u00e9 assim que, em definitivo, quando deixamos o Esp\u00edrito agir, ele nos confirma que, como Pedro, devemos converter-nos de novo para sempre seguir Jesus, e n\u00e3o o preceder indicando-lhe o que n\u00f3s acreditamos ser o caminho (cf. Mt 16,22-23).[19] Paulo de Tarso foi o observante da Lei que, escandalizado diante da inaceit\u00e1vel mensagem de um homem, certo Jesus morto na cruz, sentiu o dever de perseguir os crist\u00e3os e acabou sendo aprisionado por Jesus Cristo. Esta experi\u00eancia, da qual ele mesmo fala como de algo maior do que uma vis\u00e3o ou ilumina\u00e7\u00e3o, \u00e9 descrita por ele sobretudo como uma revela\u00e7\u00e3o e uma voca\u00e7\u00e3o recebidas justamente no encontro com o Ressuscitado. \u00c9 aqui que Paulo verdadeiramente nasceu de novo, \u00e9 aqui que recebeu o Esp\u00edrito Santo e foi curado da sua cegueira espiritual e f\u00edsica. Poder\u00edamos dizer que Paulo se decidira contra Jesus quando Jesus se decidira a seu favor. Esta experi\u00eancia muda radicalmente a sua vida, pondo todas as suas energias a servi\u00e7o de Jesus Cristo e do seu Evangelho, tendo encontrado a raz\u00e3o do valor absoluto, diante do qual n\u00e3o pode haver limites: Jesus Cristo.[20]<\/p>\n<h4><strong>5.4. Dom Bosco, aberto ao Esp\u00edrito para dizer o seu sim ao Senhor nos jovens<\/strong><\/h4>\n<p>A vida espiritual de Dom Bosco foi uma ampla e paciente peregrina\u00e7\u00e3o para a profundidade da sua rica e intensa vida interior. Este processo de interioridade, como tudo na sua a\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, foi um caminho que percorreu dando um passo por vez, ciente de que a meta que Deus lhe propunha n\u00e3o podia ser alcan\u00e7ada com um \u00fanico movimento. Precisou de acompanhantes, precisou de tempo, precisou de um aprendizado. Dom Bosco, desde crian\u00e7a, n\u00e3o podia deixar de sonhar, imaginava um mundo diferente para os seus jovens, um mundo melhor. Antes de tudo, por\u00e9m, desejava saber o que Deus esperava dele. A a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo nele foi concretizada ao cham\u00e1-lo ao estado sacerdotal e ao formar progressivamente nele um cora\u00e7\u00e3o de ap\u00f3stolo dos jovens. Trilhou o seu caminho interior para compreender, para deixar-se surpreender pelos planos de Deus. As suas m\u00e3os estavam marcadas pelo peso da\u00a0realidade da sociedade piemontesa do s\u00e9culo XIX; o seu cora\u00e7\u00e3o ardente, pela salva\u00e7\u00e3o da juventude; os seus p\u00e9s, no caminho de comprometimento pelos mais pobres. Entretanto, tudo isso n\u00e3o foi fruto de improvisa\u00e7\u00e3o. Dom Bosco preocupou-se com a sua vida espiritual para viver em plenitude as suas motiva\u00e7\u00f5es \u00faltimas, a for\u00e7a que o anima e os seus ideais \u00edntimos. Dom Bosco tamb\u00e9m entendeu que a \u201caventura do Esp\u00edrito\u201d n\u00e3o era uma experi\u00eancia para poucos jovens com qualidades excepcionais, ou uma c\u00f4moda evas\u00e3o dos compromissos. Todo jovem que entrava no Orat\u00f3rio, qualquer que fosse o seu estado ou condi\u00e7\u00e3o, era convidado a viver uma vida crist\u00e3 plena, chamado a viver alegremente a vida do Esp\u00edrito. Uma das suas intui\u00e7\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es mais brilhantes foi ter introduzido, no seu trabalho pastoral cotidiano, a ideia do gosto pela vida espiritual. Na vida daqueles jovens, ele inseria jatos de luz, de cores, de notas alegres de vida crist\u00e3. No Orat\u00f3rio, n\u00e3o se aprendia apenas uma profiss\u00e3o, o sentido do dever, mas, ao mesmo tempo, a dimens\u00e3o espiritual da vida era refinada, belamente \u201ceducada\u201d.<\/p>\n<h3><strong>6. DESAFIOS E PROPOSTAS<\/strong><\/h3>\n<p>Tentei concentrar, nas p\u00e1ginas anteriores por quanto poss\u00edvel, a reflex\u00e3o sobre o que pode servir de fundamento para percorrer um caminho com Jesus, que seja aut\u00eantico caminho no Esp\u00edrito, algo que nos leve a nos apaixonar para vivermos n\u00f3s mesmos e acompanhar os nossos jovens numa verdadeira Aventura do Esp\u00edrito que possa encher de plenitude e de sentido as suas vidas, e as nossas. Em nosso caminhar como Fam\u00edlia Salesiana com os jovens \u201cdos nossos mundos\u201d, onde nos encontramos com eles, temos visto, com dor, n\u00e3o poucas vezes, rapazes e mo\u00e7as nos quais existem muitas sementes de bem \u2013 como nos dizia Dom Bosco \u2013 mas que vivem feridos, que se sentem perdidos, que t\u00eam fome de Algu\u00e9m que os veja com a ternura que s\u00f3 Deus possui, que desfa\u00e7a os seus temores, que liberte as suas melhores energias e os dons recebidos, que fa\u00e7a ver a p\u00e9rola preciosa escondida na sua terra e que torne rica e valorosa a sua exist\u00eancia. Chegando a este ponto, o grande desafio \u00e9 encontrar caminhos, meios e propostas que nos permitam convidar os jovens a unir-se para percorrer um caminho que seja um verdadeiro sopro de vida, de ar fresco de Deus, de presen\u00e7a do Esp\u00edrito em suas vidas. Proponho-lhes algumas pistas que possam ajudar \u00e0 maneira de tempestade de ideias, como sinais de tr\u00e2nsito para a nossa viagem.<\/p>\n<h4><strong>A. Investigar<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Aprendamos a \u2018investigar\u2019: exercitemo-nos e eduquemo-nos a descobrir e enriquecer a pr\u00f3pria interioridade, desde os primeiros anos, desde a inf\u00e2ncia e da adolesc\u00eancia. Que os nossos jovens sintam que podem contar com algu\u00e9m que, diante\u00a0da cultura da dispers\u00e3o, proponha-lhes o desafio da interioriza\u00e7\u00e3o; diante da fuga, o enfrentamento do sentido da vida.<\/p>\n<p>\u2192 Ajudemos os jovens a adquirir capacidades e habilidades para entrar no pr\u00f3prio mundo interior: educar \u00e0 escuta e ao gosto do sil\u00eancio; cultivar a capacidade contemplativa, de surpresa e admira\u00e7\u00e3o; apreciar a experi\u00eancia da gratuidade&#8230; Estas habilidades devem ser propostas e exercitadas.<\/p>\n<p>\u2192 Ajudemos os jovens a explorar, no profundo do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, a presen\u00e7a de Deus, que \u00e9 Amor, Vida e Novidade perene. Fa\u00e7amos juntos a experi\u00eancia de descobrir e reconhecer Aquele que \u00e9 mais \u00edntimo do que a nossa pr\u00f3pria intimidade e mais elevado do mais elevado do nosso ser.[21]<\/p>\n<p>\u2192 Aprendamos a crescer na vida em Deus mediante a aceita\u00e7\u00e3o humilde dos pr\u00f3prios limites, da pr\u00f3pria hist\u00f3ria pessoal e do pr\u00f3prio pecado.<\/p>\n<h4><strong>B. Buscar Deus<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Aprendamos, junto com os jovens, a ser buscadores de Deus e ler a pr\u00f3pria vida como b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, a admirar-nos com a sua Presen\u00e7a e com os seus tra\u00e7os em n\u00f3s, a reconhec\u00ea-lo como Aquele que nos procura, Aquele que est\u00e1 presente, Aquele que vive em n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u2192 Tenhamos a coragem e a capacidade de nos perguntarmos na ora\u00e7\u00e3o se aquilo que fazemos ou deixamos de fazer est\u00e1 de acordo com a vontade do Deus-Amor que habita em n\u00f3s, e proponhamos este mesmo exerc\u00edcio aos jovens.<\/p>\n<p>\u2192 Promovamos a pedagogia do desejo de Deus, que leve a buscar o sentido religioso da vida e dessedentar-se no \u201cpo\u00e7o de \u00e1gua viva que \u00e9 Jesus\u201d.[22]<\/p>\n<h4><strong>C. Encontrar-se com Jesus<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Proponhamos aos jovens experi\u00eancias ousadas, que nos levem ao Encontro Pessoal com Jesus, a um Encontro capaz de fascinar-nos e testar a nossa vida, sabendo que \u201cquanto mais conhecermos Cristo, muito mais o seguiremos, tanto mais o Esp\u00edrito entrar\u00e1 em n\u00f3s e os nossos olhos ser\u00e3o capazes de v\u00ea-lo\u201d.[23]<\/p>\n<p>\u2192 Sugiramos aos jovens estrat\u00e9gias para amadurecer uma verdadeira amizade com Jesus, que, sem d\u00favida, ir\u00e1 modelando os seus olhares, as suas mentalidades e os seus valores.<\/p>\n<h4><strong>D. Ser dos Seus<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Testemunhemos aos jovens a nossa alegria de seguir Jesus e anunciemos a eles que \u00e9 belo ser crist\u00e3o: \u201cGostaria de faz\u00ea-los [os jovens] compreender que \u00e9 belo ser crist\u00e3o! &#8230; e \u00e9 belo e \u00e9 adequado tamb\u00e9m crer!\u201d[24]<\/p>\n<p>\u2192 Deixemo-nos conduzir pelo Esp\u00edrito, que move os nossos cora\u00e7\u00f5es e os dos jovens a optar decididamente a ser dos Seus. Alimentemos e cuidemos da nossa liga\u00e7\u00e3o com Ele por meio da ora\u00e7\u00e3o, da Palavra de Deus, da Reconcilia\u00e7\u00e3o e da Eucaristia.<\/p>\n<h4><strong>E. Apropriar-se dos valores fundamentais<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Eduquemo-nos desde os primeiros anos a valorizar e \u201capreciar em todos os \u00e2mbitos da exist\u00eancia a fam\u00edlia, a amizade, a solidariedade para com quem sofre, a ren\u00fancia ao pr\u00f3prio eu para servir o outro, o amor pelo saber, pela arte, pelas belezas da natureza\u201d.[25] Anunciemos a imensa alegria de crer num Deus que assumiu plenamente o humano e participa da cria\u00e7\u00e3o, e denunciemos com ousadia tudo o que impede a todos poderem reconhecer, contemplar e desfrutar da sua Presen\u00e7a no nosso mundo.<\/p>\n<p>\u2192 Acompanhemos os jovens em sua experi\u00eancia de f\u00e9 na comunidade crist\u00e3 e eclesial como espl\u00eandida oportunidade para a descoberta e o amadurecimento pessoal da pr\u00f3pria vida em Cristo.<\/p>\n<p>\u2192 Proponhamos aos jovens o desafio de aceitar a vida como dom, como servi\u00e7o que nos torna melhores, que liberta do pr\u00f3prio ego\u00edsmo e d\u00e1 sentido \u00e0 nossa vida. O Esp\u00edrito de Deus sempre nos impelir\u00e1 a doar-nos, porque esta \u00e9 \u201ca l\u00f3gica de Deus\u201d.<\/p>\n<h4><strong>F. Amadurecer um projeto de vida<\/strong><\/h4>\n<p>\u2192 Colaboremos com os jovens, com f\u00e9 e profunda convic\u00e7\u00e3o pessoal, para que possam amadurecer o pr\u00f3prio projeto de vida, trilhando um caminho que, no viver a vida como doa\u00e7\u00e3o, em todo tipo de servi\u00e7o e profiss\u00e3o, possam ir das primeiras experi\u00eancias significativas, mesmo se circunstanciais, ao empenho total de uma vida que responda ao chamado de Deus. Quem penetra os caminhos do Esp\u00edrito n\u00e3o recebeu apenas algumas qualidades como se fossem presentes de anivers\u00e1rio, mas \u201cpossui uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo gen\u00e9tico de acordo com o qual vai crescendo\u201d.[26]<\/p>\n<h3><strong>EP\u00cdLOGO<\/strong><\/h3>\n<p>Ofereci como pistas estes Desafios e Propostas com o desejo secreto de que possam ajudar toda a nossa Fam\u00edlia Salesiana, nos mais diversos contextos geogr\u00e1ficos e pastorais do mundo. \u00c9 poss\u00edvel que, se n\u00e3o todos, alguns destes desafios e propostas possam ser adequados e oportunos em rela\u00e7\u00e3o aos momentos pastorais que est\u00e3o sendo vividos e \u00e0 realidade evangelizadora, catequ\u00e9tica e pastoral do territ\u00f3rio. Permito-me concluir com tr\u00eas simples contribui\u00e7\u00f5es que poder\u00e3o iluminar o nosso esfor\u00e7o de caminhar neste ano da Miseric\u00f3rdia que iniciamos, justamente na experi\u00eancia de um Deus que por ser assim precisa encontrar-nos, n\u00f3s e os jovens, com um cora\u00e7\u00e3o que o busca. O primeiro \u00e9 este: compartilho plenamente o pensamento e os sentimentos do precedente Reitor-Mor ao sugerir \u00e0 Fam\u00edlia Salesiana que o desejo dos jovens de \u201cver Jesus\u201d j\u00e1 \u00e9 para n\u00f3s motivo fundamental para chegar a ser disc\u00edpulos de Cristo, dado que se pergunta: quem apresentar\u00e1 a Jesus os sonhos e as necessidades dos jovens? Quem dar\u00e1 possibilidade aos jovens de ver Jesus? Em nosso acompanh\u00e1-los e caminharao lado deles enra\u00edza-se o nosso ser e transforma-nos em verdadeiros companheiros e ap\u00f3stolos dos jovens.[27] O segundo \u00e9 este: no caminho que estamos a propor \u201cn\u00e3o poder\u00edamos fazer nada melhor do que isto: orientar os jovens para a santidade\u201d.[28] Acompanh\u00e1-los no caminho de amadurecimento da F\u00e9 at\u00e9 metas elevadas, a sermos n\u00f3s os primeiros a acreditar neste caminho, que o tomamos n\u00f3s mesmos como meta da nossa vida, sendo determinante o nosso testemunho pessoal. Assim fez Dom Bosco, que p\u00f4s tudo em jogo para realizar o seu sonho (o projeto de Deus sobre ele) em favor dos jovens. Por \u00faltimo, n\u00e3o esque\u00e7amos que os processos s\u00e3o lentos e devem ser graduais, como mostra a mesma paci\u00eancia e pedagogia de Deus.<\/p>\n<p>Com essa finalidade assim nos recordava Jo\u00e3o Paulo II na Juvenum Patris: \u201cConforte-vos a inexaur\u00edvel paci\u00eancia de Deus na sua pedagogia para com a humanidade, exerc\u00edcio incessante de paternidade revelada na miss\u00e3o de Cristo mestre e pastor, e na presen\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, enviado para transformar o mundo. A escondida e poderosa efic\u00e1cia do Esp\u00edrito \u00e9 dirigida a fazer maturar a humanidade segundo o modelo de Cristo. Ele \u00e9 o animador do nascimento do homem novo e do mundo novo (cf. Rm 8,4-5).<\/p>\n<p>Deste modo o vosso trabalho educativo aparece como um minist\u00e9rio de colabora\u00e7\u00e3o com Deus e ser\u00e1 certamente fecundo\u201d.[29] Maria, M\u00e3e Auxiliadora, Senhora do Sim, que acolheu o Esp\u00edrito de Deus no seu cora\u00e7\u00e3o e na sua vida, assista-nos nesta bela e apaixonante responsabilidade que temos pelos jovens na Igreja de hoje, como Fam\u00edlia Salesiana, e torne realidade um dos desejos que o Papa Francisco nos dirigia, quase ao final da sua carta neste hist\u00f3rico ano do Bicenten\u00e1rio do nascimento de Dom Bosco: \u201cDom Bosco vos ajude a n\u00e3o frustrar as aspira\u00e7\u00f5es profundas dos jovens: a necessidade de vida, abertura, alegria, liberdade, futuro; o desejo de colaborar na constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo e fraterno, no desenvolvimento para todos os povos, na tutela da natureza e dos ambientes de vida.<\/p>\n<p>Ao seu exemplo, os ajudareis a experimentar que s\u00f3 na vida da gra\u00e7a, isto \u00e9, na amizade com Cristo, se realizam plenamente os ideais mais aut\u00eanticos. Ter a alegria de acompanh\u00e1-los na busca da s\u00edntese entre f\u00e9, cultura e vida, nos momentos em que se tomam decis\u00f5es dif\u00edceis, quando se procura interpretar uma realidade complexa\u201d.[30]<\/p>\n<p>Sa\u00fado-vos com todo o afeto e a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Senhor,<\/p>\n<p><strong>P. \u00c1ngel Fern\u00e1ndez Artime, SDB <\/strong><\/p>\n<p>Reitor-Mor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os anos o reitor-mor Pe. \u00c1ngel Fern\u00e1ndez Artime, 10\u00ba sucessor de Dom Bosco apresenta\u00a0uma mensagem com o objetivo de motivar e renovar a Fam\u00edlia Salesiana para mais um per\u00edodo de desafios e realiza\u00e7\u00f5es. 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