Como comungar? Catequeses de S. Cirilo de Jerusalém, Século IV.

As Catequeses de S. Cirilo de Jerusalém (313-386) são consideradas como sendo a coleção catequética, após a de Agostinho, a mais completa da Antiguidade. Nestas catequeses ele também ensina sobre como comungar:

20. Depois disso, ouvis o canto que vos convida, ao som de uma melodia divina, à comunhão dos santos mistérios; ele diz: “Provai e vede como ele é bom. Feliz o homem que tem nele o seu refúgio!” (SI 34,9)- Não confieis a sentença à vossa garganta corporal, mas à fé indubitável. Porque provando, não é pão e vinho que provais, mas o corpo e o sangue de Cristo que eles significam.

21.Quando, pois, te aproximas, não caminhes com as palmas das mãos estendidas, nem com os dedos afastados; mas faze de tua mão esquerda um trono para a direita, porque é esta que deve receber o Rei, e, na cavidade de tua mão, recebe o corpo de Cristo, dizendo: “Amém”. Com cuidado, então, santifica teus olhos pelo contato com o santo corpo, depois toma-o e cuida para que nada se perca. Porque se perdesses, seria como se fosses privado de um de teus próprios membros. Dize-me, com efeito, se te tivessem sido dadas placas de ouro, não as segurarias com o maior cuidado, cuidando para que nenhuma delas se perdesse ou sofresse algum dano? Não terás, pois, muito mais cuidado para com ura objeto mais precioso que o ouro e as pedras preciosas, a fim de não perder uma migalha dele?

22.       Em seguida, depois de ter comungado do corpo de Cristo, aproxima-te também do cálice de seu sangue. Não estendas as mãos, mas inclinado, e num gesto de adoração e respeito, dizendo “Amém”, santifica-te tomando também do sangue de Cristo. E enquanto os lábios ainda estiverem úmidas, toca-os de leve com tuas mãos, e santifica teus olhos, tua fronte e teus outros sentidos. Depois, enquanto esperas a oração, dá graças a Deus que te julgou digno de tão grande mistério”.[1]

“O versículo do Sl 34,9 é ligado também por Ambrósio (Sobre os mistérios, 58) ao alimento eucarístico. Teodoro de Mopsuéstia (2a bom. sobre a missa) e João Crisóstomo (bom. 47, PG, 63, 898) indicam a mesma disposição das mãos para receber o corpo de Cristo. O Amém é notado por Teodoro (ibid.) e por Ambrósio (Sur les sacr. IV, 25). O contato do corpo ou do sangue de Cristo com certos órgãos dos sentidos é mencionado por Teodoro (ibid.) e a frase sobre a umidade dos lábios se encontra literalmente em Crisóstomo (ibid.), pertencendo, pois, a um ritual comum às Igrejas de Jerusalém e de Antioquia. O leitor nào poderá deixar de reparar que certas “novidades ‘’ locais destes vinte últimos anos têm fundamentos sólidos”.[2]


[1] Cat. tnyst. V, 20-22, SC, n. 126 bis, pp. 168-173, trad. P. Paris.

[2] SPANNEUT, Michel. Os Padres da Igreja (Séculos IV-VII).  Tradução João Paixão Nerro. Edições Loyola, São Paulo 2002

 

Padre Leandro Couto 

Comunidade Canção Nova


Padre Leandro Couto

Natural de Borda da Mata MG, membro da comunidade Canção Nova desde 2007. Atualmente na Missão Canção Nova Cuiabá MT.