Resumo da Encíclica Caritas in Veritate do Sumo Pontífice Bento XVI Sobre o desenvolvimento humano integral na Caridade e na Verdade.

Em sua encíclica Carita in Veritate Bento XVI discorre da seguinte forma: “A caridade na verdade que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor – “caritas” – é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometer-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz”.

Bento XVI define a caridade como “a via mestra da doutrina social da Igreja. Para a Igreja – instruída pelo Evangelho – a caridade é tudo porque, como ensina São João (cf. 1Jo 4, 8.16) e como recordou na sua primeira carta encíclica, “Deus é Caridade” (Deus caritas est); da caridade de Deus tudo provém, por ela tudo toma forma, para ele tudo tende. A caridade é o dom maior que Deus concedeu aos homens; é sua presença e nossa esperança. Daqui a necessidade de conjurar a caridade com a verdade, não só na direção assinalada por são Paulo da “veritas in caritate” (Ef. 4,15), mas também na direção inversa e complementar da “caritas in veritate”. A verdade há de ser procurada, encontrada e expressa na “economia” da caridade, mas esta por sua vez há de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade”.

Portanto, “a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade é ‘lógos’ que cria ‘diálogos’ e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade”.

Afirma ainda que, “a caridade é amor recebido e dado; é ‘graça’ (cháris). A sua nascente é o amor fontal do Pai pelo Filho no Espírito Santo. É amor que, pelo Filho, desce sobre nós. É amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. A esta dinâmica de caridade recebida e dada, propõe-se dar resposta a Doutrina Social da Igreja. Tal Doutrina é “caritas in veritate in re sociali”, ou seja, proclamação da verdade do amor de Cristo na sociedade. Donde o desenvolvimento, o bem-estar social, uma solução adequada dos graves problemas socioeconômicos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mas ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada.

Bento XVI afirma que: “Caritas in veritate” é um princípio à volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princípio que ganha forma operativa em critérios orientadores da ação moral. Destes emanam dois desejos: a justiça e o bem comum. A justiça é o primeiro caminho da caridade ou, como chega a dizer Paulo VI, “a medida mínima” dela, parte integrante daquele amor “por ações e em verdade” (Jo 3,18). A caridade manifesta sempre, mesmo nas relações humanas, o amor de Deus; dá valor teologal e salvífico a todo empenho de justiça no mundo. O bem comum, amar alguém é querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado à vida social das pessoas: o bem comum. É o bem daquele “nós todos”, formados por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidades sociais.

Por tanto, a releitura da Populorum progressio, mais de quarenta anos depois da sua publicação, incita a permanecer fiéis à sua mensagem de caridade e de verdade, considerando-a no âmbito do magistério específico de Paulo VI e, mais em geral, dentro da tradição da doutrina social da Igreja. Nesta Encíclica Paulo VI nos comunica duas grandes verdades: Primeira, que a Igreja inteira, em toda a sue ser e agir, quando anuncia, celebra e atua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do homem. Segunda verdade é que o autêntico desenvolvimento do homem diz respeito unicamente à totalidade da pessoa em todos às suas dimensões. A Populorum Progressio não representa um corte com o Concílio Vaticano II, está inserida na grande corrente da tradição, é capaz de falar ainda a nó hoje. Esta indica o desenvolvimento, humana e cristãmente entendido como o coração da mensagem social cristã e propôs a caridade como principal força ao serviço do desenvolvimento.

Na Populorum Progressio, Paulo VI quis dizer-nos antes de mais nada, que o progresso, e na sua origem e na sua essência, uma vocação. A vocação ao progresso impele aos homens a realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais. Que vem a ser promover o todos os homens e o homem todo. O evangelho é elemento fundamental do desenvolvimento, porque lá cristo, com a própria revelação do mistério do pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo. A verdade do desenvolvimento consiste na sua integridade: se não é desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, não é verdadeiro desenvolvimento.

A Populorum Progressio, sublinha repetidamente a urgência das reformas, pedindo para que, à vista dos grandes problemas da injustiça no desenvolvimento dos povos, se atue com coragem e sem demora. Esta urgência é ditada também pela caridade na verdade. É a caridade de Cristo que nos impele: “caritas Christi urget nos” (2 Cor 5, 14). A urgência não está inscrita só nas coisas, não deriva apenas do encalçar dos acontecimentos e dos problemas, mas também do que está em jogo: a realização de uma autêntica fraternidade.

Com o termo “desenvolvimento”, Paulo VI queria indicar, antes de mais nada, o objetivo de fazer sair os povos da fome, da miséria, das doenças endêmicas e do analfabetismo. O desenvolvimento econômico devia ser capaz de produzir um crescimento real, extensivo a todos e concretamente sustentável. É verdade que o desenvolvimento foi e continua a ser um fator positivo, que tirou da miséria milhões de pessoas, e ultimamente, deu a muitos países a possibilidade de se tronarem atores eficazes da política internacional.

A complexidade e gravidade da situação econômica atual preocupa-nos, com toda justiça, mas devemos assumir com realismo, confiança e esperança as novas responsabilidades a que nos chama o cenário de um mundo que tem necessidade de uma renovação cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projetar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experiências positivas e rejeitar as negativas. Para tal a é atribuído um papel central, embora não exclusivo, aos poderes públicos. Porque o conjunto das mudanças sociais e econômicas faz com que as organizações sindicais sintam maiores dificuldades no desempenho de seu dever de representar os interesses dos trabalhadores. Pois, as redes tradicionais de solidariedade encontram obstáculos cada vez maiores a superar. A mobilidade laboral, associada a generalizada desregulamentação, constitui, um fenômeno importante, não desprovidos de aspectos positivos por que capaz de estimular a produção de nova riqueza i o intercâmbio entre culturas diversas. No plano cultural, as diferenças, relativamente aos tempos de Paulo VI, são ainda mais acentuadas.

Os direitos à alimentação e à água reserva um papel importante para a consecução de outros direitos, a começar pelo direito primário à vida. Por isso, e necessária a maturação duma consciência solidaria que considere a alimentação e o acesso à água como direitos universais de todos os seres humanos, sem distinções nem discriminações. Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento atual é a importância do tema do respeito pela vida, que não pode ser de modo algum separado das questões relativas ao desenvolvimento dos povos. A abertura a vida esta no centro do verdadeiro desenvolvimento. Outro aspecto da vida atual, intimamente relacionado com o desenvolvimento, é a negação do direito à liberdade religiosa. Não me refiro só às lutas e conflitos que ainda se disputam no mundo por motivações religiosas, embora estas às vezes sejam apenas a cobertura para razões de outro género, tais como a sede de domínio e de riqueza. As violências refreiam o desenvolvimento autêntico e impedem a evolução dos povos para um bem-estar socioeconômico e espiritual maior. Isto aplica-se de modo especial ao terrorismo de índole fundamentalista, que gera sofrimento, devastação e morte, bloqueia o diálogo entre as nações e desvia grandes recursos do seu uso pacífico e civil.

Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de “ser mais”. O homem não é um átomo perdido num universo casual, mas é uma criatura de Deus, à qual quis dar uma alma imortal e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspirações tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situações em que vive, se tudo fosse somente história e cultura e o homem não tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, então poder-se-ia falar de incremento ou de evolução, mas não de desenvolvimento.

A caridade na verdade coloca o homem perante a admirável experiência do dom. A verdade, que é dom tal como a caridade, é maior do que nós, conforme ensina santo Agostinho. Também a verdade acerca de nós mesmos, da nossa consciência pessoal é-nos primariamente dada; com efeito, em qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela “não nasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano”.

A atividade econômica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão da lógica mercantil. Está há de ter como finalidade prossecução do bem comum, do qual se deve ocupar também e sobretudo a comunidade política. Desde sempre a Igreja defende que não se há de considerar o agir econômico como antissocial. A doutrina social da Igreja sempre defendeu que a justiça diz respeito a todas as fases da atividade econômica, porque esta sempre tem a ver com o homem e com as suas exigências. Dentro desse aspecto a gestão da empresa não pode ter em conta unicamente ao interesses dos proprietários da mesma, mas deve preocupar-se também com as outras diversas categorias de sujeitos que contribui para a vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, aos fornecedores dos vários fatores de produção, a comunidade de referimento.

A verdade da globalização enquanto processo e o seu critério ético fundamental provêm da unidade da família humana e do seu desenvolvimento no bem. Por isso é preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à transcendência, do processo de integração mundial. A globalização a priori não é boa nem má. Será aquilo que as pessoas fizerem dela. Não devemos ser vítimas dela, mas protagonistas, atuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade. Opor-se-lhe cegamente seria uma atitude errada, fruto de preconceito, que acabaria por ignorar um processo marcado também por aspectos positivos, com o risco de perder uma grande ocasião de se inserir nas múltiplas oportunidades de desenvolvimento por ele oferecidas.

A solidariedade universal é para nos não só um fato e um beneficio, mas também um dever. É importante invocar uma nova reflexão que faça ver como os direitos pressupõem deveres, sem os quais o seu exercício se transforma arbítrio. A Igreja que tenha peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos também no uso da sexualidade: o mesmo não pode ser reduzido a um mero facto hedonista e lúdico, do mesmo modo que a educação sexual não se pode limitar à instrução técnica, tendo como única preocupação defender os interessados de eventuais contágios ou do «risco» procriador. A doutrina social da Igreja tem um contributo próprio e especifico para dar, que se funda na criação do homem a imagem de Deus (Gn 1, 27), um dado do qual deriva a dignidade inviolável da pessoa humana e também o valor transcendente das normas morais naturais. Uma ética económica que prescinda destes dois pilares arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho específico e a prestar-se a instrumentalizações; mais concretamente, arrisca-se a aparecer em função dos sistemas econômico-financeiros existentes, em vez de servir de correção às disfunções dos mesmos.

Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar é a solidão. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, também nascem do isolamento, de não ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma originária e trágica reclusão do homem em si próprio, que pensa que se basta a si mesmo ou então que é só um facto insignificante e passageiro, um «estrangeiro» num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou quando se afasta da realidade. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento de que são uma só família, a qual colabora em verdadeira comunhão e é formada por sujeitos que não se limitam a viver uns ao lado dos outros.

 “O mundo sofre por falta de convicções”. A afirmação quer exprimir não apenas uma constatação, mas sobretudo um voto: serve um novo ímpeto do pensamento para compreender melhor as implicações do facto de sermos uma família; a interação entre os povos da terra chama-nos a este ímpeto, para que a integração se verifique sob o signo da solidariedade, e não da marginalização.

A doutrina social da Igreja nasceu para reivindicar este “estatuto de cidadania” da religião cristã. A negação do direito de professar publicamente a própria religião e de fazer com que as verdades da fé moldem a vida pública, acarreta consequências negativas para o verdadeiro desenvolvimento. A exclusão da religião do âmbito público e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as pessoas e a sua colaboração para o progresso da humanidade.

O tema do desenvolvimento dos povos está intimamente ligado com o do desenvolvimento de cada indivíduo. Por sua natureza, a pessoa humana está dinamicamente orientada para o próprio desenvolvimento. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a única produtora de si mesma. Hoje, o problema do desenvolvimento está estreitamente unido com o processo tecnológico, com as suas deslumbrantes aplicações no campo biológico. O verdadeiro desenvolvimento não consiste primariamente no fazer; a chave do desenvolvimento é uma inteligência capaz de pensar a técnica e de individualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser.

Frequentemente o desenvolvimento dos povos é considerado um problema de engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redução das tarifas aduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; em suma, um problema apenas técnico. Todos estes âmbitos são muito importantes, mas não podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, até agora, as opções de tipo técnico tenham resultado apenas de modo relativo. A razão há de ser procurada mais profundamente. O desenvolvimento não será jamais garantido completamente por forças de certo modo automáticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou as da política internacional. O desenvolvimento é impossível sem homens retos, sem operadores económicos e homens políticos que sintam intensamente em suas consciências o apelo do bem comum.

Hoje, um campo primário e crucial da luta cultural entre o absolutismo da técnica e a responsabilidade moral do homem é o da bioética, onde se joga radicalmente a própria possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Trata-se de um âmbito delicadíssimo e decisivo, onde irrompe, com dramática intensidade, a questão fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de Deus. Face a estes dramáticos problemas, razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem: fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas.

Paulo VI já tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial da questão social. Prosseguindo por esta estrada, é preciso afirmar que hoje a questão social tornou-se radicalmente antropológica, enquanto toca o próprio modo não só de conceber mas também de manipular a vida, colocada cada vez mais nas mãos do homem pelas biotecnologias. O ser humano desenvolve-se quando cresce no espírito, quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em gérmen, quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem vive inquieto e está mal. A alienação social e psicológica e as inúmeras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-se também a causas de ordem espiritual. Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si não está orientada para o autêntico desenvolvimento.

Por tanto, sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5), e encoraja: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). Diante da vastidão do trabalho a realizar, somos apoiados pela fé na presença de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalham pela justiça. Paulo VI recordou-nos, na Populorum Progressio, que o homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo.

O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade — caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é nos dados. Por isso, inclusive nos momentos mais difíceis e complexos, além de reagir conscientemente devemos sobretudo referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica atenção à vida espiritual, uma séria consideração das experiências de confiança em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega à providência e à misericórdia divina, de amor e de perdão, de renúncia a si mesmos, de acolhimento do próximo, de justiça e de paz. Tudo isto é indispensável para transformar os “corações de pedra” em “corações de carne” (Ez 36, 26), para tornar “divina” e consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra.


Padre Leandro Couto

Natural de Borda da Mata MG, membro da comunidade Canção Nova desde 2007. Atualmente na Missão Canção Nova Cuiabá MT.