Família e os problemas atuais e civilização do Amor IVª parte

Diante de tantos desafios a Família, sendo a base da sociedade, só pode subsistir no amor, no amor verdadeiro, onde entra a responsabilidade dos membros, principalmente dos pais. A paternidade e a maternidade responsável geram pessoas novas para um mundo novo. João Paulo II, com sua firmeza de pastor assegura que a questão da paternidade e da maternidade responsável insere-se no tema da civilização do amor.

A paternidade e a maternidade humana, mesmo sendo biologicamente semelhantes às de outros seres da natureza, têm em si mesmas de modo essencial e exclusivo uma «semelhança» com Deus, sobre a qual se funda a família, concebida como comunidade de vida humana, como comunidade de pessoas unidas no amor (Communio personarum).

À luz do Novo Testamento, é possível vislumbrar como o modelo originário da família deve ser procurado no próprio Deus, no mistério trinitário da sua vida. O «Nós» divino constitui o modelo eterno do «nós» humano.[1]

A família é constituída pela união de um homem e uma mulher, onde nesta união o casal colabora coma criação por meio da procriação, ou seja na gestação de um novo ser humano.

 Através da comunhão de pessoas, que se realiza no matrimônio, o homem e a mulher dão início à família. Com a família está ligada a genealogia de cada homem: a genealogia da pessoa… Ao afirmarmos que os cônjuges, enquanto pais, são colaboradores de Deus Criador na concepção e geração de um novo ser humano, não nos referimos apenas às leis da biologia; pretendemos sobretudo sublinhar que, na paternidade e maternidade humana, o próprio Deus está presente de um modo diverso do que se verifica em qualquer outra geração «sobre a terra». Efetivamente, só de Deus pode provir aquela «imagem e semelhança» que é própria do ser humano, tal como aconteceu na criação. A geração é a continuação da criação…[2]

A partir desta concepção de comunhão de pessoas penso que a civilização do amor começa na base familiar, ou seja, “nesta tal comunhão, a família é chamada a tornar-se comunidade de pessoas”. Tornando comunidade exige se o compromisso e o zelo na a criação dos filhos, lhes ensinado o respeito o e amor mutuo, assim como foi proferido os votos no dia da celebração do matrimonio.

As palavras do consentimento exprimem aquilo que constitui o bem comum dos cônjuges e indicam o que deve ser o bem comum da futura família. Desejando pô-lo em evidência, a Igreja pergunta- -lhes se estão dispostos a acolher e a educar cristã mente os filhos que Deus lhes quiser dar. A pergunta refere-se ao bem comum do futuro núcleo familiar, tendo presente a genealogia das pessoas, inscrita na própria constituição do matrimônio e da família. A pergunta sobre os filhos e a sua educação está estritamente ligada com o consentimento conjugal, com o juramento de amor, de respeito conjugal, de fidelidade até à morte. O acolhimento e a educação dos filhos — duas das finalidades principais da família — estão condicionados pelo cumprimento desse compromisso. A paternidade e a maternidade representam uma tarefa de natureza conjuntamente física e espiritual; através daquelas, passa realmente a genealogia da pessoa, que tem o seu princípio eterno em Deus e a Ele deve conduzir.

A paternidade e a maternidade responsável também se da na vida de oração familiar. A vida de oração no seio familiar é de grande valia, pois quando uma família esta unida em oração ela se torna mais forte, e as dificuldades vão sendo superada. Por isso João Paulo II afirma:

É necessário que na família se reze por cada um, na medida do bem que a família constitui para ele e do bem que ele constitui para a família. A oração corrobora mais solidamente um tal bem, precisamente como bem comum familiar. Mais ainda, aquela dá também início a este bem, de um modo sempre renovado. Na oração, a família reencontra-se como o primeiro «nós», no qual cada um é «eu » e «tu»; cada um é para o outro respectivamente marido ou esposa, pai ou mãe, filho ou filha, irmão ou irmã, avô ou neto.[3]

A “paternidade e maternidade responsável referem-se diretamente ao momento em que o homem e a mulher, unindo-se «numa só carne», podem tornar-se pais. As duas dimensões da união conjugal, a unitiva e a procriadora, não podem ser separadas artificialmente sem atentar contra a verdade íntima do próprio ato conjugal”.[4]

Para São João Paulo II a paternidade e a maternidade responsável é fundamental para a constituição da civilização do amor, pois, se insere na temática integral da civilização do amor.

 A família deve buscar viver uma cultura de amor recíproco entre seus membros. Na carta as famílias o conceito de “Civilização” tem o mesmo significado de cultura e que civilização do amor parte da revelação do amor de Deus:

Civilização tem, de certo modo, o mesmo significado que «cultura». Assim poder-se-ia dizer também: «cultura do amor», embora seja preferível ater- -se à expressão tornada já familiar. A civilização do amor, no sentido atual do termo, inspira-se nas palavras da Constituição conciliar Gaudium et spes: «Cristo (…) revela plenamente o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime» . Por isso pode- -se afirmar que a civilização do amor parte da revelação de Deus que «é amor», como diz S. João (Jo 4, 8.16), e aparece magistralmente descrita pelo apóstolo Paulo no hino à caridade da Primeira Carta aos Coríntios (13, 1-13). Tal civilização está intimamente conexa com o amor «derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi concedido» (Rom 5, 5), e cresce graças àquele cultivo constante de que fala tão incisivamente a alegoria evangélica da videira e dos ramos: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor. Toda a vara que em Mim não dá fruto, Ele corta-a, e limpa toda aquela que dá fruto, para que dê mais fruto” (Jo15, 1-2).[5]

A partir deste fato podemos afirmar que a família cristã “está organicamente unida com tal civilização. A família depende realmente e por diversos motivos da civilização do amor, onde encontra as razões do seu ser família. E, ao mesmo tempo, a família é o centro e o coração da civilização do amor”.[6]

Com a afirmação de que a família esta diretamente ligada a civilização do amor é preciso levar os futuros casais a entenderem o amor de Deus, pois, “não existe, todavia, verdadeiro amor sem a consciência de que Deus ‘é Amor’, e que o homem é a única criatura na terra, chamada por Deus à existência ‘por si mesma’. O homem, criado à imagem e semelhança de Deus, não pode ‘encontrar-se’ plenamente senão pelo dom sincero de si”. [7]

A civilização do amor só pode ser constituída a partir do amor, do amor que fortalecera a família. Aquele amor, ao qual o apóstolo Paulo dedicou um hino na Primeira Carta aos Coríntios — aquele amor que é «paciente», é «benigno», e «tudo suporta» (1 Cor 13, 4.7) — é, sem dúvida, um amor exigente. Mas nisto mesmo está a sua beleza: no facto de ser exigente, porque deste modo constrói o verdadeiro bem do homem e irradia-o também sobre os outros. Na verdade, o bem, diz S. Tomás, é por sua natureza «difusivo». O amor é verdadeiro, quando cria o bem das pessoas e das comunidades, cria e dá-lo aos outros. Somente quem, em nome do amor, sabe ser exigente consigo próprio, pode também exigir o amor dos outros. Porque o amor é exigente. É-o em todas as situações humanas; ainda mais o é para quem se abre ao Evangelho. Não é isso que Cristo proclama no «seu» mandamento? É preciso que os homens de hoje descubram este amor exigente, porque nele está o alicerce verdadeiramente firme da família, um alicerce que é capaz de «tudo suportar». Segundo o Apóstolo, o amor não é capaz de «suportar tudo», se cede às «invejas», se «se ufana», se «se ensoberbece», se «é inconveniente» (cf. 1 Cor 13, 4-5). O verdadeiro amor, ensina S. Paulo, é diverso: «tudo crê, tudo espera, tudo suporta» (1 Cor 13, 7). Um amor assim «tudo suportará». Atua nele a poderosa força do próprio Deus, que «é amor» (1 Jo 4, 8.16). Nele atua a poderosa força de Cristo, Redentor do homem e Salvador do mundo.

Nestes últimos tempos onde a instituição familiar e o matrimonio tem sofrido tantos ataques é necessário que a sociedade humana “procure o seu alicerce estável numa justa visão do homem e de quanto decide a plena realização da sua humanidade”. Por tanto João Paulo II afirma que:

A família realiza, antes de mais, o bem de «estarem juntos», bem por excelência do matrimónio (daí a sua indissolubilidade) e da comunidade familiar. Poder-se-ia defini-lo, além disso, como o bem da subjetividade. Na verdade, a pessoa é um sujeito, e o mesmo se diga da família porque formada de pessoas, que, ligadas por um profundo vínculo de comunhão, formam um único sujeito comunitário.

Trata-se de uma verdade que merece ser destacada e aprofundada: de facto, ela assinala a importância deste mandamento também para o moderno sistema dos direitos do homem. As legislações institucionais usam a linguagem jurídica. Deus, pelo contrário, diz: «Honra». Todos os «direitos do homem» são, em última análise, frágeis e ineficazes, se faltar, na sua base, o imperativo: «honra»; por outras palavras, se faltar o reconhecimento do homem pelo simples facto de ele ser homem, «este» homem. Por si sós, os direitos não bastam.[8]

Por tanto ao final poderemos afirmar que a verdadeira constituição familiar não é uma instituição falida e que a civilização do amor esta diretamente ligada a instituição familiar. “Sim, a civilização do amor é possível, não é uma utopia! Mas só é possível graças a uma constante e viva referência a ‘Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, do Qual provém toda a paternidade no mundo’ (cf. Ef 3, 14-15), do Qual provém cada família humana”.[9]


[1] http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/letters/documents/hf_jp-ii_let_02021994_families_po.html

[2] Ibid

[3] Ibid

[4] Ibid

[5] Ibid

[6] Ibid

[7] Ibid

[8] Ibid

[9] Ibid

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Padre Leandro Couto

Comunidade Canção Nova

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Veja Também:

Família e os problemas atuais e civilização do Amor

Família e os problemas atuais e civilização do Amor IIª parte

Família e os problemas atuais e civilização do Amor IIIª parte


Padre Leandro Couto

Natural de Borda da Mata MG, membro da comunidade Canção Nova desde 2007. Atualmente na Missão Canção Nova Cuiabá MT.