Liturgia do Século X ao Concílio de Trento

Após a decadência e a perda de importância sofrida por Roma no séc. X, os papas retomaram as rédeas da liturgia romana. Pois a liturgia ficou quase três séculos nas mãos dos soberanos e bispos do norte dos Alpes onde eles ditavam as regras litúrgicas. A partir de Gregório VII e da reforma da liturgia da Igreja latina da qual ele foi o principal instigador, a unidade litúrgica realizada por Carlos Magno em seu império é erigida em princípio eclesiológico e os papas se reconhecem como responsáveis em termos de decisões litúrgicas por todas as Igrejas. Direito de canonização (Alexandre III e Inocêncio III). Direito de instituição de festas, como: Corpus Christi, por Urbano IV (1264).

Gregório VII, em sua reforma litúrgica teve também como perspectiva a moralização do clero. Neste contexto explica-se o específico interesse pela liturgia, interpretada, porém, como atividade própria e quase exclusiva do ministério sacerdotal. A liturgia em verdade, exige, de quem tem o dever de presidi-la, dignidade e coerência de vida.

A retaguarda eclesiológica de toda a reforma gregoriana tem características hierárquicas e ao mesmo tempo jurídicas. Os fiéis tinham se afastado pouco a pouco da liturgia clericalizada de maneira muito profunda. Os objetivos que Gregorio VII tem são: aumentar o apreço pelo sacerdócio; cultivar o sentido do mistério diante da ação litúrgica e abrir espaços para as devoções, ainda que sob a roupagem litúrgica.

Os ideais de unidade litúrgica do Ocidente, cultivados por Gregório VII, se consolidam nos séculos seguintes pela atuação de outros papas, como por exemplo Inocêncio III (1198-1216) que se empenha na reforma dos livros litúrgicos. O sacerdote vem a ser o único verdadeiro ator, enquanto os fiéis assistem passivamente. Para ser mais prático, evitando o incômodo de vários livros litúrgicos ao mesmo tempo (Sacramentário, Lecionário, Antifonário, e outros.), ele resolveu juntá-los num livro só, chamando-o de Missal Pleno, (que foi amplamente difundido por toda a Europa pelos pregadores itinerantes da recém fundada Ordem Frades Menores). Este Missal era próprio para ser usado pelos padres nas missas privadas e tarifadas que neste tempo se tornaram de uso comum. A Santa Missa como benefício para vivos e mortos torna-se o tema fundamental da pregação sobre a missa, enumerando-se os frutos dela obtidos, mesmo com a mera assistência. Esses “frutos da missa” adquirem um perfil cada vez mais materializado; como a multiplicação de missas votivas, as missas gregorianas, aumentando desmesuradamente o número de “altaristas”, um grande numero de padres sem qualificação, que vive praticamente de salários. Pedro Cantor advertia: “Fazem falta menos igrejas, menos altares, menos sacerdotes, mas melhor escolhidos”. Isto acarreta uma multiplicação desmesurada de altares laterais dentro das Igrejas. Em torno do ano 1500, certas catedrais possuíam mais de 40 altares. Não faltaram reações e resistências em relação ao predomínio das missas privadas. Destaco a exortação feita por Francisco de Assis aos seus frades: “Advirto os meus irmãos e exorto-os no Senhor que, nos lugares onde moram, seja celebrada uma só missa por dia, segundo a forma da Santa Igreja. E se houver vários sacerdotes no lugar, contente-se um sacerdote, por amor à caridade, com ouvir a missa do outro” (Carta a toda a Ordem 30-31).

É o período em que o povo não comunga mais. Se contenta em ver a eucaristia. Os padres adotam o costume de elevar a hóstia (1200 – Paris). O que antes era assembléia, caridade, sacrifício e comunhão, se reduz em adoração das espécies eucarísticas. De modo semelhante, Corpus Christi se converte na festa mais importante do ano litúrgico, solenemente superior até mesmo à Páscoa…

O século que se situa entre dois Concílios ecumênicos, o de Vienne na França (1311-1312) e o de Constância (1414-1418), marca a manifestação progressiva de uma acentuada decadência da vida e da espiritualidade litúrgicas. O fato não deve surpreender se considerarmos os efeitos desastrosos naquele século do exílio de Avinhão (1305-1377) e do cisma ocidental. Verifica-se uma separação, considerada providencial para alguns, entre hierarquia e fiéis: a primeira voltada para uma vida mundana e os outros abrigados numa ardente piedade popular.

 

Padre Leandro Couto

Comunisade Canção Nova

 


Padre Leandro Couto

Natural de Borda da Mata MG, membro da comunidade Canção Nova desde 2007. Atualmente na Missão Canção Nova Cuiabá MT.