Maria é a Mãe que nos conduz ao seu Filho - Dom Bosco

Segue um texto de Dom Bosco sobra a devoção a Nossa Senhora:

Último Dia de abril. Motivos de confiança em Maria

Acompanha-me, cristão, e considera os inumeráveis motivos que nos devem animar à confiança em Maria e a mostrar-nos constantemente verdadeiros devoto seus. Começarei apontando os três principais, os seguintes: Maria é mais santa que todas as criaturas; Maria é mãe de Deus; Maria é nossa mãe.

1º.. Em todo o Velho Testamento Maria é chamada toda bela e sem mancha: é comparada ao sol a brilhar à lua quando na plenitude da sua luz; às estrelas mais luminosas; a um jardim cheio de flores deliciosas; a uma fonte selada, da qual jorra água límpida; a uma humilde pomba; a um lírio puríssimo. No Evangelho é chamada pelo Anjo Gabriel cheia de graça. “Ave, gratia plena”. Cheia de graça, ou seja, criada e formada na graça, o que quer dizer que Maria desde o primeiro instante da sua existência esteve isenta de mancha original e atual, e sem mancha perseverou até ao último respiro de vida. Cheia de graça, e por isso não houve o mínimo defeito no seu puríssimo coração; nem há virtude alguma que não tenha sido praticada por Maria em grau sublime. A Igreja Católica exprime a santidade de Maria definindo que Ela esteve sempre isenta de toda a culpa, e convida-nos a invocá-la com as preciosas palavras: Regina, sine labe originali concepta, ora pro nobis. Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós que recorremos a vós.

2º. Isenta de toda mancha de pecado original e atual, adornada de todas as virtudes que possamos imaginar, por Deus enriquecida de graça mais que qualquer outra criatura, todas essas prerrogativas fizeram com que Maria fosse escolhida entre todas as mulheres para ser elevada à dignidade de mãe de Deus. Esse o anúncio que lhe fez o Anjo; que S. Isabel repetiu quando foi visitada pela Virgem santíssima; a saudação que lhe fazem todos os dias os cristãos dizendo: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós. Ao glorioso nome de Mãe de Deus desfalece o engenho humano, por isso inclinando a fronte em sinal de profunda veneração, limitamo-nos a dizer que nenhuma criatura pode conseguir maior grau de glória; e, por consequência nenhuma criatura pode ser mais poderosa junto de Deus que Maria. Que confiança não havemos de ter em tão poderosa protetora?

3º. Mas se o título de Mãe de Deus é glorioso para Maria, é glorioso também e útil para nós, que havendo sido redimidos por Jesus Cristo nos tornamos filhos dEla e irmãos do seu divino filho. Porquanto ao tomar-se mãe de Jesus verdadeiro Deus e verdadeiro homem, tomou- -se outrossim nossa mãe[1]. Jesus Cristo na sua grande misericórdia quis chamar-nos seus irmãos, e com esse nome nos constitui a todos filhos adotivos de Maria. O Evangelho confirma o que aqui dizemos. O Divino Salvador estava na cruz e sofria as dores da mais penosa agonia. Sua mãe santíssima e o apóstolo S. João estavam aos seus pés, imersos em profunda dor; abrindo os olhos, e foi talvez a última vez que os abriu na vida mortal, Jesus viu o discípulo predileto e sua querida mãe. Com os lábios moribundos disse a Maria: Mulher, eis, em João, o teu filho. Em seguida disse a João: Eis, em Maria, a tua mãe; mulier ecce filius tuus; ecee mater tua. Os Santos Padres reconhecem unânimes nesse fato a vontade do Divino Salvador, que antes de deixar o mundo queria dar-nos Maria como amorosa mãe, e nos constituía a todos filhos dEla.

Além disso Maria é nossa mãe, porque nos rege¬nerou na graça por meio de Jesus Cristo. Porque assim como Eva é chamada mãe dos viventes, do mesmo modo Maria é mãe de todos os fiéis pela graça (Ricardo de S. Lourenço). A esse respeito assim se exprime S. Guilherme Abade; Maria é mãe da Cabeça, portanto é também mãe dos membros, que somos nós: sumus membra Christi. Dando Jesus à luz, Maria regenerou-se também espiritualmente. Por isso é com razão que todos a chamam de Mãe, e como tal merece see honrada (Guilh. Ab. cant. 4).          

Eis, ó cristãos, a pessoa que proponho à veneração no decorrer deste mês. É a mais santa de todas as criaturas, a mãe de Deus, a nossa mãe, poderosa e bondosa, que ardentemente deseja cumular-nos de favores celestes. Eu, diz ela, eu moro no mais alto dos céus para cumular de graças e bênçãos os meus devotos : Ego in altissimis habito, ut ditem diligentes me, thesauros eorum repleam.[2]

(pp. 19-23)

… Não somente é o auxílio dos Cristãos, mas também o sustentáculo da Igreja universal. Todos os títulos que lhe damos lembram um favor; todas as solenidades que se celebram na Igreja tiveram origem de algum grande milagre, de alguma graça extraordinária que Maria alcançou para o bem da Igreja universal. Quantos hereges confundidos, quantas heresias extirpadas! A Igreja exprime a sua gratidão dizendo a Maria: Fostes vós, ó grande Virgem, que sozinha debelastes todas as heresias: Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo.

(p. 182)

Dia Primeiro de junho. — Modos de assegurar-nos a proteção de Maria

Agora que terminamos o mês de Maria, julgo conveniente dar-vos, como encerramento, algumas lembranças úteis para assegurar-nos a proteção dessa nossa grande Mãe na vida e na morte. Sendo nossa mãe, Maria deve por certo abominar os ultrajes que se fazem a Jesus seu Filho. Quem, portanto, deseja gozar de seu patrocínio na vida e na morte, deve abster-se do pecado.[3] Seria esperança vã acreditarmos contar com a proteção de Maria, ofendendo o seu filho Jesus por ela amado sobre todas as coisas. Por outra parte devemos não só guardar-nos de ofender a Jesus, mas ainda meditar com todas as forças do nosso coração os divinos mistérios da sua paixão, segui-lo na penitência Maria mesma disse um dia a S. Brígida: Filha se queres fazer-me uma coisa agradável, ama de coração o meu Filho Jesus.

Maria, é refúgio dos pecadores, por isso devemos também nós empenhar-nos em levar almas a, Jesus aumentar os filhos de Maria com santos conselhos, atenções, orações, bons livros e de outras maneiras Nada interessa tanto a Jesus quanto a salvação das almas- e por conseguinte a Maria, que ama ternamente o seu Filho, não se pode prestar melhor serviço do que ganhando-lhe alguma alma.

Devemos além disso procurar oferecer-lhe em homenagem a vitória sobre alguma paixão. E assim se alguém, colérico por natureza, prorromper muitas vezes em atos de impaciência, em imprecações e blasfêmias, ou então tiver contraído o hábito de falar de maneira inconveniente ou pouco respeitosa das coisas de religião, convém que refreie a sua língua para prestar obséquio a N. Senhora. Em suma devem todos fugir o mal e fazer o bem por amor de Maria…

(pp. 190-191)

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[1] O parágrafo 3 é particularmente interessante. Dom Bosco faz derivar a maternidade espiritual de Maria para conosco de dois argumentos complementares. O primeira parte de Cristo e da sua ação redentora sobre nós: irmãos de Cristo, tornamo-nos necessariamente filhos de Maria. O segundo parte de Maria e da sua ação materna sobre Jesus: gerando Jesus, a Cabeça, gerou-nos espiritualmente como seus membros. Dom Bosco está convencido de que a devoção “final” a Maria, não tem, em si mesma, nada de sentimental; é realidade materna de Maria.

[2] Acrescentamos imediatamente um parágrafo extraído do 30º dia, para demonstrar como, desde 1858, a devoção de Dom Bosco a Maria Imaculada (Cf. o título do opúsculo) já estava pronta para se tornar também devoção à Auxiliadora dos cristãos e da Igreja (aspecto do mistério de Maria que ele desenvolvera a partir de 1863).

[3] Citamos somente a primeira parte das reflexões desse último dia; a segunda sugere diversas práticas de devoção para com Maria; preparar as suas festas, valorizar o sábado, rezar o Ângelus e o Terço… Vale a pena salientar a ordem adotada: para Dom Bosco, honrar a Maria é, em primeiro lugar, honrá-la pelo esforço de uma vida “cristã”, isto é, centrada em Jesus Cristo. As “práticas” não pretendem senão manter a seriedade desse amor. É o que mostram também os trechos seguintes.

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Fonte: Escritos Espirituais de Dom Bosco. Coordenação de Joseph Aubry. Editora Salesiana de Dom Bosco, São Paulo.