O Celibato pelo Reino dos Céus

“O Celibato é um dom. A iniciativa é de Deus que cria a pessoa para este estado de vida. Os chamados ao celibato têm o seu lugar na Canção Nova. Deus nos quer um modelo de Igreja completa” (ND, art.108-109).

Como sou grata a Deus por cuidar de mim. A iniciativa foi toda d’Ele, a mim coube dar uma resposta e assumir o meu estado de vida. Quanto tempo eu protelei, basta olhar o primeiro chamado aos 10 anos e o meu sim definitivo em 2014, aos 50 anos. Foram 40 anos.

Como disse aos 10 anos de idade o Senhor me chamou para ser sua esposa, e mesmo não entendendo como se daria, trazia em meu coração o desejo de viver uma vida casta. Na adolescência sempre dizia aos rapazes que queriam namorar comigo que eu seria esposa de Cristo e por isso não podia aceitar o namoro.

Aos 14 anos comecei um caminho de discernimento vocacional para a vida religiosa e aos 16 anos entrei para o convento das Irmãs Beneditinas da Divina Providência, mas não fiquei por muito tempo. Hoje compreendo que na época não tinha maturidade para assumir uma vocação, mas digo que valeu a pena, pois precisamos conhecer os carismas das comunidades para assim discernir qual o lugar que o Senhor nos chama.

Aos 29, após ter desistido do primeiro chamado, comecei a namorar e até fiquei noiva, mas percebi que me faltava algo, não me sentia realizada dando um passo para o matrimônio. Em tudo percebo o quanto o Senhor me desejava. Eu havia desistido d’Ele, mas Ele não desistiu de mim, como a palavra do meu chamado que diz: “Pois os Dons e o Chamado de Deus são Irrevogáveis” (Rm 11,29). Em 2003 conheci a Canção Nova e reacendeu em mim o desejo de ser toda de Deus. Foi pelos sinais dos acontecimentos que redescobri que o Senhor me chamava ao Celibato.

Hoje, dia 15 de agosto de 2019, completo cinco anos de Compromisso Definitivo de Celibato pelo Reino dos Céus. Não por mérito, mas por pura misericórdia de Deus. É Ele que nos chama e nos capacita para assumir o seu projeto neste mundo. Como celibatária posso me dedicar de maneira mais livre aos trabalhos e atividades apostólicas da Missão.

Muitas vezes fui questionada sobre o celibato, uma vez que era uma pessoa independente, tinha um bom emprego, uma vida financeira estabilizada, poderia ser livre pra fazer o que quisesse. Para o mundo é loucura, mas para os chamados ao celibato é uma graça, uma alegria que não dá para explicar. Não sou celibatária por fuga, decepção amorosa e nem por falta de perspectivas para construir uma família. Sou celibatária porque o Senhor me chamou e eu me ofertei inteiramente a Ele. Foi por amor, não por renúncia, pois às vezes renunciamos a muitas coisas e depois pegamos de volta. Teria a possibilidade de constituir uma família e ter filhos, mas Ele queria que o meu coração fosse indiviso, aberto ao amor de Deus e aos irmãos sem divisão alguma. O celibato me potencializou ao amor.

Como é belo ouvir os escritos dos santos a respeito do celibato. No livro a Verdadeira Esposa de Jesus Cristo, São Bernardo escreve: “Ó esposas de Jesus! Cessai de vos ocupar de vós mesmas e do mundo; vós não pertenceis mais ao mundo nem a vós mesmas, mas a Deus a quem consagrastes. Esquecei, pois, tudo e pensai unicamente em vos conservar fiéis a este único Esposo que escolhestes na terra”. Santo Agostinho nos diz que o Senhor nos preferiu não porque fôssemos mais dignas, mas porque nos amou mais.  Por isso devemos pôr toda a nossa esperança e todo o nosso amor em Jesus nosso Esposo, que nos amou desde toda a eternidade, e, depois de nos ter posto neste mundo só por sua bondade, nos atraiu por tantas graças especiais ao seu santo amor.

Diante de tudo só posso dizer como Santa Teresa de Jesus: “Outro amor eu já não quero, meu ser a Deus está dado, e meu Amado é para mim e eu sou para o meu Amado”.

 

Neide Fernandes Pereira. Celibatária

Natural de Santana da Ponte Pensa – SP.

Missionária da Comunidade Canção Nova desde 02/02/2006.