O vale das borboletas

No ano de 2005 ingressei na comunidade Católica Canção Nova, deixei pai, mãe, namoro, família, trabalho… E decidi dedicar minha vida inteira no trabalho de evangelização.
 
Comecei assim o meu pré discipulado como chamamos aqui na Canção Nova. Em 2006 fui com mais 31 irmãos para o discipulado, uma nova etapa da formação inicial dentro desse carisma.
 
Agora imaginem, 32 pessoas, de varias regiões do pais ( e alguns de outro pais) convivendo. A diferença na cultura, na educação, na alimentação entre outros era um desafio bem interessante.
 
Essa casa de formação esta situada em Lavrinhas, interior de São Paulo e é rodeada por uma pequena floresta, e em um determinado lugar há um que quero destacar e que carinhosamente chamo de “ O vale das borboletas” pela quantidade que se pode verificar das mesmas e pela beleza que elas transmitem.
 
Gostava muito de ir visita-las, era incrível! Ia-se caminhando para o alto da floresta, era necessário um tempo de subida, passava-se entre as arvores, visualizava um pequeno rio que corria lá em baixo e o som de suas águas era algo maravilhoso. Andava-se mais ou menos uns 15 minutos e de repente, no que parecia ser uma curva em meio a caminhada a gente se deparava com aquelas borboletas maravilhosas colorindo todo o lugar.

 
Imagino que antes dessas borboletas existia ali muitas lagartas, e talvez por um tempo esse lugar fora conhecido como o vale das lagartas, que aos poucos foram se modificando para o vale dos casulos até chegarem ao fantástico, estupendo, majestoso e entre tantos adjetivos se tornou o vale das borboletas. Lugar de ressurreição para mim, onde poderia ser eu mesmo, no meio de tanta beleza podia também verificar o que era belo no meu interior, pois aquele ambiente tinha esse poder, e também de trazer o melhor de mim para fora.
 
Porque estou falando sobre isso? Porque na realidade tudo o que descrevi acima diz respeito ao tempo que vivi dentro do meu discipulado. Na chegada me deparei com um verdadeiro vale de lagartas, ao mesmo tempo que era tudo novo, também era estranho.
 
A adaptação com o jeito de cada um, com suas diferenças era algo aparentemente feio, desajeitado.
 
Esse tempo foi passando e esse vale foi recebendo outro nome, O vale do casúlo. Tempo de interioridade, de guardar em si o sagrado de cada irmão. Tempo de metamorfose. E era ao mesmo tempo exigente, prazeroso e responsabilizante.
 
Exigente porque assim como a futura borboleta que dentro do casulo concentra forças e se prepara para revelar ao mundo sua beleza e também alçar voo, nossa formação se dava de dentro para fora. E muitas vezes era dolorido porque queríamos logo ver o resultado que só iria se aflorar mais a frente.
 
Prazeroso, pois, o tempo de casulo, de interioridade é um tempo de descoberta do outro, de suas qualidades e da beleza de reconhecer-se no irmão. Prazeroso e não fácil.
 
Responsabilizante porque cativar, é como disse um certo principezinho “ Nos tornamos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos”.
 
Assim, já se passaram alguns anos, e realmente nos tornamos aquilo que nascemos pra ser. Uns alçaram voos geograficamente longes, mas sempre estarão em nossos corações. Outros descobriram que como borboleta era necessário expandir esse vale para outros territórios, mas continuam trazendo em si a marca da pertença a esse vale. Enfim posso afirmar que fomos não só criados no mesmo cacho como falamos aqui na Canção Nova, mas também modelados primeiro no mesmo grupo de lagartas, depois casulos no qual, sem a beleza e a individualidade de cada borboleta nunca conseguiríamos construir na vida de cada um o vale das borboletas.
 
Lugar de ressurreição, de comunhão de almas, de responsabilidade um pelo outro e acima de tudo de pertença.
 
Afinal, dentro dessa linda aventura e independente de qual longe estamos um do outro, quando nos encontramos, fica impossível não perceber, pois, ali se reconhece o vale das borboletas.
 
Deus abençoe!