Talvez você já tenha conhecido a história do Tarzan. Um menino que vai com seus pais para a África e ao chegarem no continente seus pais morrem. O menino, agora sem pai e mãe, é “adotado” por animais que cuidam dele e lhe dão o nome de Tarzan. A partir disso, Tarzan consegue sobreviver e se comunicar com os animais que o cercam e uma coisa se destaca em seu ser, a bondade. Diferente de todos os homens (que ele nem se quer teve contato), Tarzan é uma pessoa onde a bondade encontrou espaço para crescer expansivamente.

O detalhe de o Tarzan ser uma pessoa com uma bondade que se destaca, mesmo num ambiente inóspito, me fez pensar: o homem é capaz de ser bom, mesmo em ambientes considerados hostis? Antes de responder essa pergunta, é melhor explicar o porquê a estou fazendo. Eu estou no meu bairro de origem, na periferia de São Paulo, Itaim Paulista, Zona Leste. Ao visitar esse bairro, comecei a reparar nas pessoas, a forma como elas se tratavam, a educação ou falta de educação que uma tinha com a outra. Escutei os palavrões. Escutei as músicas e prestei bem atenção nas letras. Reparei nas roupas e nas conversas. Observei os pais e os filhos. E entendi que para muitos, nada é além do “normal”.

No meio dessa reflexão, eu lembrei do Tarzan e de toda sua história. Por isso, quero fazer um paralelo, da realidade do meu bairro com a floresta que o Tarzan cresceu. Assim como na floresta, também no meu bairro, as crianças crescem sem pais. Da mesma forma, como na “tribo” do Tarzan, aqui no bairro, alguns pais tratam os filhos como animais, com soco, grito e humilhação. Não sei na floresta do Tarzan, mas no meu bairro, existem traições, prisões, brigas e mortes. Aqui no bairro, a música é tocada com o volume bem alto e as letras falam sobre sexo. As pessoas vivem, comem e bebem, sem se perguntarem o porque estão fazendo tais coisas. Não existe questionamentos e isso me parece bem parecido com a floresta do Tarzan (Me parece, porque apenas suponho que a razão leva a reflexão). Ok! Chega de comparações!

A história do Tarzan, não passa de ficção, fruto da mente do autor, Edgar Rice. Entretanto, o bairro no qual estou, esse sim é uma realidade. E me arrisco a dizer, uma realidade que as crianças não estão tendo a mesma sorte que aquele menino Tarzan. A inocência não encontra espaço. Não aprendem a se comunicarem. Aprendem palavrões, mas não aprendem a se desculparem! Aprendem a roubar, xingar, brigar e matar. Não aprendem a amar, não são amadas.

Abandonado pelo Governo, manipulado por discursos religiosos que ora lhe prometem terras prosperas, ora lhe entorpecem com falácias que não correspondem ao Evangelho. Pouco favorecido pelo ensino escolar. Quem virá em seu socorro? Quem mudará a sua história? Talvez, igual a Itaim Paulista, existam vários outros abandonados, manipulados, entorpecidos e pouco favorecidos.

O homem, embora seja livre, é lesado no discernimento de suas escolhas. Pode ser levado pelas influências que chegam até ele e/ou pela própria inclinação ao mal que carrega em si. Dentro de cada homem, existe a potência que impulsiona para o bem supremo. Mas, também existe a inclinação para o mal que distorce a verdadeira beleza e usa de uma falsa beleza para persuadir.

Na floresta de Itaim Paulista, o homem será capaz de encontrar a bondade? E se encontrar tamanha bondade, saberá o homem abraçar essa raridade. Como abraçar se ninguém lhe ensinou o que é abraço? Quem poderá lhe apresentar o que é bom?

“Nós venceremos com amor não com armas. O mal desaparecerá, porque o mal devorará a si mesmo. Mas se o amor não triunfar o mal voltará com um nome diferente” (São João da Cruz)

 

 

Olhar à vida, as possibilidades e limitações que nela se encontram, de uma forma que leve em consideração a nossa finitude nesta terra, faz-nos dar valor para cada instante. A morte sempre recorda o quão frágeis e impotentes somos diante dela. Ao mesmo tempo, o quanto vale a pena aproveitar a vida. E quando digo aproveitar a vida, não estou falando da minha vida somente, mas de todas as outras que me circundam. Aproveitar, no sentido de, dar o valor devido para cada oportunidade de vida, é isso mesmo, cada oportunidade de vida e não somente da vida. Com seu mistério, com sua riqueza e também pobreza.

A morte conduz o ser humano para a reflexão. A angústia toma conta do ser. Alguns se entristecem e choram, outros fogem como que tentando evitar a realidade do sepultamento. Para ambos, talvez fosse mais fácil, se antes de a morte bater a porta, ela perguntasse:

– Posso entrar?
E na maioria das vezes responderíamos:
– Não! Espere, só mais um minuto. Não entre agora!

Como viver então, de tal forma que, tenhamos a certeza de que a vida valeu a pena? Limpando todo tipo de ressentimento. Chorando com aqueles que choram, sorrindo com aqueles que se alegram. Ajudando a quem precisa. Olhando nos olhos, dando ouvidos quando não se quer dar a mínima. Pensando bem, e se amarmos uns aos outros? Sim, amar, foi isso o que eu disse.

Enquanto a morte, é foice, que ceifa o trigo da vida. O amor é a força que faz com que a vida não termine na morte. O trigo se transforma em pão. No amor, a morte se torna passagem, apenas passagem, para uma vida ainda maior e sem fim. Não estou dizendo que não haverá dor, pelo contrário, sofreremos muito mesmo amando. Com amor ainda teremos lágrimas e dor, entretanto, com um profundo sentido. O amor é espaçoso e porque não dizer, expansivo; não deixa espaço para o ressentimento, para o ódio, para a culpa ou dúvida.

O amor é a voz que ecoa sem cessar, em meio ao infinito, uma voz que jamais cessará. Só o amor é capaz de dar sentido a algumas ações e reações. Só o amor é capaz de dar a vida para que assim haja ainda mais vida. Morte, vida e amor quem poderá compreender?