{"id":1491,"date":"2007-04-24T18:52:52","date_gmt":"2007-04-24T15:52:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/04\/24\/%c2%aba-vida-humana-comeca-na-fecundacao%c2%bb\/"},"modified":"2007-04-24T18:52:52","modified_gmt":"2007-04-24T15:52:52","slug":"%c2%aba-vida-humana-comeca-na-fecundacao%c2%bb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/04\/24\/%c2%aba-vida-humana-comeca-na-fecundacao%c2%bb\/","title":{"rendered":"\u00abA vida humana come\u00e7a na fecunda\u00e7\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><span><br \/>\n<strong>Entrevista com o Professor Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos <\/strong><\/span><strong><span>Livre Docente, professor de Bio\u00e9tica da Faculdade de Odontologia da Universidade de S\u00e3o Paulo<\/span><\/strong><span><br \/>\nS\u00c3O PAULO, domingo, 22 de abril de 2007 (<a target=\"_blank\" href=\"http:\/\/www.zenit.org\/\"><font color=\"#003399\">ZENIT.org<\/font><\/a>).- \u00abA vida humana come\u00e7a no instante exato da fecunda\u00e7\u00e3o\u00bb. Este foi o foco de in\u00fameros especialistas pr\u00f3-vida que participaram da primeira audi\u00eancia p\u00fablica promovido pelo Supremo Tribunal Federal, sexta-feira passada, dia 20 de abril, num evento in\u00e9dito na hist\u00f3ria do pa\u00eds, que reuniu especialistas de renome no campo cient\u00edfico no Brasil, num debate bio\u00e9tico de grande repercuss\u00e3o, refletindo o tema sobre o in\u00edcio da vida humana.<\/span><span><br \/>\nEm entrevista a Zenit, o Professor <strong>Dr. Dalton Luiz Paula Ramos \u2013 Livre Docente, professor de Bio\u00e9tica da Faculdade de Odontologia da Universidade de S\u00e3o Paulo,<\/strong> um dos especialistas participantes da audi\u00eancia p\u00fablica no STF, aborda algumas quest\u00f5es debatidas no encontro ocorrido na Suprema Corte do pa\u00eds.<\/span><span><br \/>\nO Prof. Dr. Dalton Ramos atualmente \u00e9 membro do N\u00facleo F\u00e9 e Cultura da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo, membro da equipe de assessores da CNBB (Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil) e membro da Comiss\u00e3o Nacional de \u00c9tica em Pesquisa, do Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Desde 2003 \u00e9 membro correspondente da Pontif\u00edcia Academia para a Vida.<\/p>\n<p><strong>&#8211;O Supremo Tribunal Federal promoveu sexta-feira, dia 20 de abril, uma audi\u00eancia p\u00fablica in\u00e9dita na hist\u00f3ria do pa\u00eds, em que o Sr. foi um dos especialistas convidados a participar da reflex\u00e3o do tema \u201cQuando a vida come\u00e7a?\u201d, a quest\u00e3o mais importante do debate bio\u00e9tico da atualidade. Esse tema \u00e9 permanente na hist\u00f3ria da filosofia e da teologia, sobre a origem e a finalidade da vida. Com a discuss\u00e3o desse tema no STF, a corte m\u00e1xima do Pa\u00eds parece buscar um consenso entre especialistas sobre o in\u00edcio da vida humana, para servir de refer\u00eancia para legitimar a pesquisa cient\u00edfica com embri\u00f5es humanos. Como o Sr. avaliou esse debate e que desdobramentos poder\u00e3o ter na sociedade brasileira, a partir desse momento?<\/strong><\/span><span><\/p>\n<p>&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: Essa \u00e9 a primeira de duas audi\u00eancias que o STF se prop\u00f5e a realizar, o que \u00e9 muito v\u00e1lido, pois possibilita o aprofundamento da reflex\u00e3o de quest\u00f5es relevantes do nosso tempo, que permita a aplica\u00e7\u00e3o do conhecimento cient\u00edfico com os crit\u00e9rios \u00e9ticos que assegurem a dignidade da pessoa humana, em todos os aspectos. A primeira audi\u00eancia foi p\u00fablica, onde os ministros do Supremo ouviram argumentos pr\u00f3 e contra de especialistas da comunidade cient\u00edfica brasileira; a segunda, restrita aos advogados e Ministros, ser\u00e1 de julgamento. O contexto atual dessa discuss\u00e3o (o que motivou a realiza\u00e7\u00e3o desta importante audi\u00eancia p\u00fablica) convocada pelo Ministro Carlos Ayres Brito, relator da A\u00e7\u00e3o Direta de Inconstitucionalidade (ADIn), movida pelo ent\u00e3o Procurador-Geral da Rep\u00fablica, Cl\u00e1udio Fontelles, quando foi aprovada a Lei de Biosseguran\u00e7a (em mar\u00e7o de 2005), diz respeito ao artigo que autoriza o uso de embri\u00f5es humanos congelados em cl\u00ednicas de reprodu\u00e7\u00e3o assistida para fins de pesquisa cient\u00edfica. A quest\u00e3o levantada pela ADIn foi \u201cQuando come\u00e7a a vida humana ?\u201d A m\u00eddia, e alguns setores da comunidade cient\u00edfica, distorceram a quest\u00e3o focando o debate no potencial uso terap\u00eautico das c\u00e9lulas-tronco. Assim, apelam para uma quest\u00e3o que aflige a todos: a necessidade de cura para muitas doen\u00e7as. E a\u00ed muitos, entorpecidos pela dor da doen\u00e7a e da defici\u00eancia e ainda iludidos por falsas ou parciais informa\u00e7\u00f5es \u201ccient\u00edficas\u201d acabam tendo muita dificuldade de entender e at\u00e9 de ouvir.<\/p>\n<p>Nesse cen\u00e1rio o STF, enquanto a suprema inst\u00e2ncia judici\u00e1ria do Brasil, prop\u00f4s o debate sobre o in\u00edcio da vida humana, antes de tomar posi\u00e7\u00e3o definitiva sobre o assunto. Foi um fato in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Brasil pois foi a primeira vez que este Tribunal abriu as suas portas para uma audi\u00eancia como esta. Frente a esse desafio, articulados pelo hoje Subprocurador da Rep\u00fablica, Dr. Cl\u00e1udio Fonteles e pela CNBB, foram reunidos 12 especialistas que entendem que a utiliza\u00e7\u00e3o e a destrui\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es humanos \u00e9 um assassinato, portanto, um crime, e procuramos defender esse posicionamento nos revezando nas 3 horas e meia de apresenta\u00e7\u00f5es orais frente aos Ministros do Supremo. Os contr\u00e1rios a nossa tese, representando o Governo Brasileiro, tamb\u00e9m em n\u00famero de 12 especialistas, tiveram o mesmo tempo.<\/span><span><br \/>\nParticularmente defendi em minha coloca\u00e7\u00e3o frente ao Supremo que a vida come\u00e7a no exato momento da fecunda\u00e7\u00e3o e que uma decis\u00e3o em contr\u00e1rio contraria o dado biol\u00f3gico, que caracteriza o \u201chumano\u201d por seus atributos gen\u00e9ticos e por sua express\u00e3o org\u00e2nica e ainda traz o perigo do casu\u00edsmo e da pr\u00f3pria nega\u00e7\u00e3o da vida como direito universal.<\/span><span><br \/>\nEsse tema \u2013 de quando se d\u00e1 in\u00edcio de uma nova vida humana &#8211; \u00e9 de bastante relev\u00e2ncia, e estrat\u00e9gico at\u00e9, porque a partir do momento em que consolidamos o conceito (que nos parece fazer um uso adequado da raz\u00e3o) de que a vida humana come\u00e7a no exato instante da fecunda\u00e7\u00e3o, todos os atos que seguem a esse momento, e que possam interromper o processo dessa nova vida humana, \u00e9 a destrui\u00e7\u00e3o de um ser humano, portanto um assassinato. Se aceitarmos a falsa l\u00f3gica de que a vida n\u00e3o come\u00e7a com a fecunda\u00e7\u00e3o, estaremos justificando o descarte e destrui\u00e7\u00e3o dos embri\u00f5es, mais tarde dos deficientes, dos exclu\u00eddos da sociedade, enfim, a vida passar\u00e1 a n\u00e3o ter mais valor. Tudo isso pode e deve ser evitado, se prevalecer o consenso de que a vida humana come\u00e7a no exato momento da fecunda\u00e7\u00e3o, da\u00ed a import\u00e2ncia do debate no STF.<\/span><span><br \/>\n<strong>&#8211; A Declara\u00e7\u00e3o do Conselho Permanente dos Bispos da Fran\u00e7a sobre o Estatuto do Embri\u00e3o \u2013 \u201cO embri\u00e3o humano n\u00e3o \u00e9 uma coisa\u201d (de 2001), afirma que \u201c\u00e9 essencial considerar-se todo embri\u00e3o como pertencente \u00e0 humanidade. O que define o estado embrion\u00e1rio \u00e9 representar o come\u00e7o de uma vida cuja expans\u00e3o, se n\u00e3o for travada, traduzir-se-\u00e1 pelo nascimento de uma crian\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 exist\u00eancia humana que n\u00e3o tenha come\u00e7ado por esse est\u00e1gio. Todo ser humano \u00e9 precedido: ele chega a humanidade que o precede. Sua exist\u00eancia a\u00ed se inscreve, pois \u00e9 dela que recebe a vida. Todo embri\u00e3o j\u00e1 \u00e9 um ser humano. Logo, n\u00e3o \u00e9 um objeto dispon\u00edvel para o homem. Ele n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 merc\u00ea do modo de ver nem da op\u00e7\u00e3o dos outros. Juntamente com eles, pertence \u00e0 mesma e \u00fanica comunidade de exist\u00eancia\u201d. Esse posicionamento ficou claro no debate do STF, de que esta \u00e9 uma evid\u00eancia cient\u00edfica?<\/strong><\/span><span><br \/>\n&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: Essa \u00e9 uma conclus\u00e3o a que chegamos, n\u00e3o s\u00f3 com base do conhecimento cient\u00edfico atual, que s\u00f3 a faz confirmar, a partir da pr\u00f3pria evolu\u00e7\u00e3o de que a vida come\u00e7a no exato momento da fecunda\u00e7\u00e3o. Como a ci\u00eancia confirma isso? O que est\u00e3o fazendo as ci\u00eancias experimentais? Elas est\u00e3o demonstrando que cada nova descoberta vem comprovar a complexidade do processo da vida humana. A cada nova descoberta cient\u00edfica, que diz respeito \u00e0 embriologia e \u00e0 gen\u00e9tica, fica evidente que o processo da vida humana \u00e9 muito mais complexo do que dos outros animais, e que a complexidade daquilo que se chama embri\u00e3o, n\u00e3o pode reduzi-lo a uma categoria de apenas uma c\u00e9lula ou a um aglomerado de c\u00e9lulas. As pesquisas cient\u00edficas mostram cada vez mais a complexidade do momento da fecunda\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia s\u00f3 faz apontar para momentos cada vez mais precoces o in\u00edcio da vida humana, reconhecendo a vida como um processo cont\u00ednuo, coordenado e progressivo. O que significa isso? Quer dizer que a vida humana tem um ponto de in\u00edcio e um ponto de fim; o in\u00edcio entendemos que coincide com o exato instante da fecunda\u00e7\u00e3o onde inaugura-se uma nova vida humana, o fim corresponde a um epis\u00f3dio de morte. Processo esse cont\u00ednuo, e, ao mesmo tempo coordenado, isto \u00e9, auto-suficiente no pr\u00f3prio projeto. \u00c9 o que a gen\u00e9tica, em sua evolu\u00e7\u00e3o, e nos seus novos conhecimentos, vem confirmando. E, al\u00e9m de cont\u00ednuo e coordenado \u00e9 um processo progressivo, porque as etapas v\u00e3o naturalmente se sucedendo. Vai assim compor uma biografia, uma hist\u00f3ria de vida que pode durar de uma semana, no caso de embri\u00f5es destru\u00eddos ou descartados, at\u00e9 100 ou mais anos de vida para aqueles que puderam se desenvolver, crescer e viver toda uma longa vida. O embri\u00e3o humano, portanto, tendo o acolhimento e a alimenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, vai se expandindo e se desenvolvendo num processo natural.<\/p>\n<p><strong>&#8211;Desde que tenha as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias&#8230;<\/strong><\/span><span><br \/>\n&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: Sim, desde que tenha as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias, o embri\u00e3o humano vai se desenvolvendo em suas diferentes etapas: de duas c\u00e9lulas at\u00e9 o organismo adulto, com tantos tipos diferentes de c\u00e9lulas, com as fun\u00e7\u00f5es e capacidades espec\u00edficas, integradas num todo. E o que estamos vivendo hoje \u00e9 uma trag\u00e9dia. Embri\u00f5es s\u00e3o produzidos em laborat\u00f3rios e a muitos deles n\u00e3o lhes \u00e9 permitido serem implantados num \u00fatero materno. Alguns desses s\u00e3o descartados, isto \u00e9, destru\u00eddos, mortos; outros s\u00e3o congelados. Agora a estes congelados querem dar uma \u201cfinalidade\u201d que n\u00e3o \u00e9 digna: a sua destrui\u00e7\u00e3o para a obten\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas que ser\u00e3o empregadas em pesquisas cient\u00edficas de resultados duvidosos. Para se desenvolver pesquisas com c\u00e9lulas-tronco n\u00e3o precisamos sacrificar vidas humanas destruindo embri\u00f5es, uma vez que tais c\u00e9lulas tamb\u00e9m podem ser obtidas de outros tecidos \u201cadultos\u201d, como da medula e do cord\u00e3o umbilical, t\u00e9cnicas essas, essas sim, que j\u00e1 apresentam resultados cient\u00edficos promissores. Queremos e devemos nos empenhar em buscar a cura para as doen\u00e7as pois tamb\u00e9m n\u00f3s estamos aflitos com os males que afligem nossos irm\u00e3os doentes. Mas quando se trata de c\u00e9lulas-tronco e seu uso terap\u00eautico \u00e9 importante destacar que esta \u00e9 uma tecnologia nova que necessita ainda ser muito bem pesquisada para que possamos oferecer aos nossos irm\u00e3os doentes op\u00e7\u00f5es terap\u00eautica eficazes e seguras. Al\u00e9m disso, n\u00e3o devemos desperdi\u00e7ar os nossos j\u00e1 limitados recursos financeiros em linhas de pesquisas que s\u00e3o duvidosas. Devemos empreg\u00e1-los em pesquisas que s\u00e3o seguras e promissoras, como \u00e9 o caso das pesquisas em que se empregam c\u00e9lulas-tronco retiradas de tecidos adultos que al\u00e9m de serem facilmente obtidas, como atestam in\u00fameros trabalhos cient\u00edficos, s\u00e3o mais seguras. E um outro ponto que necessita ser destacado \u00e9 que os embri\u00f5es humanos que encontram-se congelados PERMANECEM VIVOS, alguns deles vi\u00e1veis. Recentemente a imprensa publicou um epis\u00f3dio no Brasil de uma crian\u00e7a sadia que nasceu de um embri\u00e3o que esteve congelado por seis anos. Nem todos eles, infelizmente, ter\u00e3o esse feliz destino, mas se existe a possibilidade de que essa vida possa se desenvolver, ent\u00e3o isso n\u00e3o pode nunca ser a justificativa para sua destrui\u00e7\u00e3o ou manipula\u00e7\u00e3o, como se fosse \u201clixo\u201d.<\/span><span><\/p>\n<p><strong>&#8211;H\u00e1 no contexto cultural de hoje, um plural de bio\u00e9ticas, uma esp\u00e9cie de \u201cestranhos morais\u201d, posicionamentos diferenciados, prevalecendo na opini\u00e3o p\u00fablica conceitos de uma bio\u00e9tica relativista e reducionista da integridade da pessoa humana. Como o Sr. v\u00ea isso?<\/strong><\/span><span><\/p>\n<p>&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: No cen\u00e1rio que temos hoje, existe uma forte tend\u00eancia relativista e reducionista, que tamb\u00e9m se manifesta em alguns modelos bio\u00e9ticos. O que significa isso? Como nos lembrou muito bem o ent\u00e3o Cardeal Ratzinger, agora Bento XVI, trata-se de uma \u201cditadura do relativismo\u201d, em que n\u00e3o se reconhece mais nada como definitivo, imperando uma subjetividade, dilu\u00edda nos interesses particulares de cada pessoa. Isso \u201cisola as pessoas e as lan\u00e7a, ao mesmo tempo, para uma solid\u00e3o radical\u201d, porque as isolam do essencial. O papa empregou esse termo \u201cditadura do relativismo\u201d, para chamar a aten\u00e7\u00e3o de que trata-se de uma mentalidade, de uma for\u00e7a e um poder que se imp\u00f5e a todos. O desafio est\u00e1 no discernimento, pois a verdade e o bem da pessoa humana s\u00e3o universais e se sobrep\u00f5em a todas essas amea\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>&#8211;Percebemos claramente que estamos diante de um impasse provocado pela \u201cditadura do relativismo\u201d, porque a cultura do cientificismo (de \u00edndole agn\u00f3stica, porque n\u00e3o transcendente e n\u00e3o confessional), n\u00e3o respeita e n\u00e3o considera muitas vezes os contributos da filosofia e da teologia e de todas as grandes intelig\u00eancias humanas, que no processo deram as suas contribui\u00e7\u00f5es. O relativismo reflete ent\u00e3o uma esp\u00e9cie de fundamentalismo do cientificismo. \u00c9 isso?<\/strong><\/span><span><br \/>\n&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: \u00c9 o se pode chamar de \u201cdogma do racionalismo cientificista\u201d, que se fecha em si mesmo, reduzindo o leque de possibilidades do conhecimento humano. Quer dizer: o que a ci\u00eancia n\u00e3o prova que existe, \u00e9 como se n\u00e3o existisse. O que a ci\u00eancia n\u00e3o consegue levar para os seus laborat\u00f3rios e examinar, simplesmente n\u00e3o existe. \u00c9 um absurdo essa l\u00f3gica, pois despreza outras fontes de conhecimento. As ci\u00eancias experimentais fazem uso do m\u00e9todo cient\u00edfico, que tem uma metodologia pr\u00f3pria de como examinar e ver a realidade. Mas o conhecimento n\u00e3o adv\u00e9m s\u00f3 da\u00ed. Ele tamb\u00e9m adv\u00e9m da nossa experi\u00eancia humana, que \u00e9 muito marcada pela experi\u00eancia do EU e do transcendente. N\u00e3o se faz uma ci\u00eancia honesta se ela excluir um aspecto da realidade. O cientista que assim procede, n\u00e3o \u00e9 um cientista inteiro, completo. Ora, a ci\u00eancia n\u00e3o pode prescindir a dimens\u00e3o da pr\u00f3pria experi\u00eancia humana e, dentro desta, do transcendente, pois trata-se de um componente importante da realidade, que deve ser considerado.<\/p>\n<p><strong>&#8211;Tomemos o caso do feto, que \u00e9 vida humana nascente, pessoa potente em sua fase mais indefesa, que requer cuidados especiais para sua forma\u00e7\u00e3o e precisa do acolhimento e prote\u00e7\u00e3o. O \u00e2mago da quest\u00e3o est\u00e1 na busca do consenso sobre o in\u00edcio da vida humana. H\u00e1 duas hip\u00f3teses: uma positiva (que afirma a vida come\u00e7ar no instante da fecunda\u00e7\u00e3o) e a negativa (que contraria essa afirma\u00e7\u00e3o e \u00e9 o posicionamento de uma maioria de especialistas que querem influenciar a opini\u00e3o p\u00fablica). Diante disso, da possibilidade do sim e do n\u00e3o, quando paira a d\u00favida e n\u00e3o se chega ao consenso, a legisla\u00e7\u00e3o deve refletir o direito natural, que, nesse caso, favorece a hip\u00f3tese positiva. O Sr. concorda em que a legisla\u00e7\u00e3o brasileira, com lastro no direito natural, fa\u00e7a valer a hip\u00f3tese positiva, como se requer em situa\u00e7\u00f5es de impasse como essa em que estamos vivendo?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: Creio que sim. Parto daquela m\u00e1xima que o Direito \u00e9 o m\u00ednimo de moralidade que a sociedade exige. Assim sendo, \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do sistema jur\u00eddico defender a vida, como ali\u00e1s reza a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira. Penso n\u00e3o ser uma hip\u00f3tese razo\u00e1vel a de considerar que a vida n\u00e3o come\u00e7a no exato momento da concep\u00e7\u00e3o, mas mesmo que eventualmente algu\u00e9m julgue que isso possa n\u00e3o acontecer dessa forma, deve prevalecer o princ\u00edpio da prud\u00eancia, porque estando em jogo a possibilidade de estarmos lidando com vidas humanas, n\u00f3s n\u00e3o podemos correr riscos. Ent\u00e3o, nesse sentido, com base no princ\u00edpio da prud\u00eancia n\u00e3o se deve aprovar nem se autorizar a destrui\u00e7\u00e3o de embri\u00f5es humanos. <\/span><span><br \/>\n<strong>&#8211;Ao insistir em aprovar legisla\u00e7\u00f5es anti-vida, o Estado n\u00e3o contraria, digamos assim, sua finalidade social de ser guardi\u00e3o da fam\u00edlia?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211;Prof. Dr. Dalton Ramos: Da mesma forma que \u00e9 a ci\u00eancia que est\u00e1 a servi\u00e7o da pessoa e n\u00e3o a pessoa que est\u00e1 a servi\u00e7o da ci\u00eancia (ent\u00e3o por isso \u00e9 que n\u00e3o vamos sacrificar vidas humanas em prol de poss\u00edveis ganhos terap\u00eauticos), o Estado tamb\u00e9m est\u00e1 a servi\u00e7o da pessoa; deve, portanto, oferecer todos os subs\u00eddios necess\u00e1rios para que esta pessoa possa se desenvolver. Por sua vez, a pessoa tem uma experi\u00eancia da fam\u00edlia, que \u00e9 o espa\u00e7o natural onde ela pode desenvolver e manifestar de forma mais plena a sua identidade, a oportunidade de expressar a sua humanidade. Assim tamb\u00e9m o Estado deve favorecer para que a fam\u00edlia possa se desenvolver e crescer.<\/p>\n<p><\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o Professor Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos Livre Docente, professor de Bio\u00e9tica da Faculdade de Odontologia da Universidade de S\u00e3o Paulo S\u00c3O PAULO, domingo, 22 de abril de 2007 (ZENIT.org).- \u00abA vida humana come\u00e7a no instante exato&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[50],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1491"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1491\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}