{"id":1581,"date":"2007-05-09T08:42:55","date_gmt":"2007-05-09T05:42:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/05\/09\/eu-vos-explico-o-que-e-a-teologia-da-libertacao-2\/"},"modified":"2007-05-09T08:57:56","modified_gmt":"2007-05-09T05:57:56","slug":"eu-vos-explico-o-que-e-a-teologia-da-libertacao-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/05\/09\/eu-vos-explico-o-que-e-a-teologia-da-libertacao-2\/","title":{"rendered":"EU VOS EXPLICO O QUE \u00c9 A TEOLOGIA DA LIBERTA\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><strong><span>Resumo:<\/span><\/strong><span> O Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, <\/span><span> <\/span>quando Prefeito da S. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, escreveu uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o em sua forma extremada, em 18\/03\/84; partindo das respectivas premissas e real\u00e7ando os conceitos caracter\u00edsticos do sistema, o autor mostra que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o trata apenas de desenvolver a \u00e9tica social crist\u00e3 em vista da situa\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica da Am\u00e9rica Latina, mas revolve todos as concep\u00e7\u00f5es do Cristianismo: doutrina da f\u00e9, constitui\u00e7\u00e3o da igreja, Liturgia, catequese, op\u00e7\u00f5es morais, etc. \u00c9 de crer que &#8220;a gravidade da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja avaliada de modo suficiente; n\u00e3o entra em nenhum esquema de heresia at\u00e9 hoje existente&#8221;; \u00e9 a subvers\u00e3o radical do Cristianismo, que torna urgente &#8220;o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela&#8221;.<span>\u00c9 importante que o p\u00fablico esteja consciente de que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a extens\u00e3o das promessas do Cristianismo aos problemas morais suscitados pelas condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-econ\u00f4micas da Am\u00e9rica Latina, mas \u00e9 uma nova vers\u00e3o do racionalismo de Rudolf Bultmann e do marxismo, que utiliza a linguagem dogm\u00e1tica e asc\u00e9tica do patrim\u00f4nio antigo da f\u00e9 e se reveste de aspectos de m\u00edstica crist\u00e3. <\/span><span><\/span><span>         <\/span>Aos <span> <\/span>o Cardeal Joseph Ratzinger, fez uma explana\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. Tal documento \u00e9 de not\u00e1vel import\u00e2ncia, pois se deriva de um s\u00e1bio te\u00f3logo encarregado, em Roma, precisamente da Congrega\u00e7\u00e3o que acompanha a f\u00e9 e os desvios da f\u00e9 em nossos dias. (D. Estev\u00e3o Bettencourt)<span>(Fonte: Pergunte e Responderemos &#8211; Ano XXV &#8211; N<u><sup>o<\/sup><\/u> 276 &#8211; 1984 )<\/span><span><strong> <\/strong><\/span><\/p>\n<h2 align=\"center\"><span>EU VOS EXPLICO A TEOLOGIA DA LIBERTA\u00c7\u00c3O<\/span><\/h2>\n<h2 align=\"center\"><span>Cardeal Joseph Ratzinger<\/span><\/h2>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Para esclarecer a minha tarefa e a alinha inten\u00e7\u00e3o, com rela\u00e7\u00e3o ao tema, parecem-me necess\u00e1rias algumas observa\u00e7\u00f5es preliminares:<\/span><span><\/span><span>         <\/span><span>1) A teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 fen\u00f4meno extraordinariamente Complexo. \u00c9 poss\u00edvel formar-se um conceito da teologia da liberta\u00e7\u00e3o segundo o qual ela vai das posi\u00e7\u00f5es mais radicalmente marxistas at\u00e9 aquelas que prop\u00f5em o lugar apropriado da necess\u00e1ria responsabilidade do crist\u00e3o para com os pobres e os oprimidos no contexto de uma carreta teologia eclesial, como fizeram os documentos do CELAM, de Medellin a Puebla.<\/span><span>_________________<\/span><sup><span> <\/span><\/sup><\/p>\n<p><sup><span>1<\/span><\/sup><span>O presente n\u00famero j\u00e1 estava impresso quando foi publicado o documento da Santa S\u00e9 sabre a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. <\/span><span>Ser\u00e1 objeto de estudos no pr\u00f3ximo n\u00famero.<\/span><span><\/span><span>         <\/span>Neste nosso texto, usaremos o conceito \u201cteologia da liberta\u00e7\u00e3o\u201d em sentido mais restrito: sentido que compreende apenas aqueles te\u00f3logos que, de algum modo, fizeram pr\u00f3pria a op\u00e7\u00e3o fundamental marxista. Mesmo aqui existem, nos particulares, muitas diferen\u00e7as que \u00e9 imposs\u00edvel aprofundar nesta reflex\u00e3o geral. Neste contexto posso apenas tentar p\u00f4r em evid\u00eancia algumas linhas fundamentais que, sem desconhecer as diversas matrizes, s\u00e3o muito difundidas e exercem certa influ\u00eancia mesmo onde n\u00e3o existe teologia da liberta\u00e7\u00e3o em sentido estrito.<span><\/span><span>         <\/span><span>2) Com a an\u00e1lise do fen\u00f4meno da teologia da liberta\u00e7\u00e3o torna-se manifesto <u>um perigo fundamental paro a f\u00e9 da Igreja<\/u>. Sem d\u00favida, \u00e9 preciso ter presente que um erro n\u00e3o pode existir se n\u00e3o cont\u00e9m um n\u00facleo de verdade. De fato, um erro \u00e9 tanto mais perigoso quanto maior for a propor\u00e7\u00e3o do n\u00facleo de verdade assumida. Al\u00e9m disso, o erro n\u00e3o se poderia apropriar daquela parte de verdade, se essa verdade fosse suficientemente vivida e testemunhada ali onde \u00e9 o seu lugar, isto \u00e9, na f\u00e9 da Igreja. Por isso, ao lado da demonstra\u00e7\u00e3o do erro e do perigo da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso sempre acrescentar a pergunta: que verdade se esconde no erro e como recupera-la plenamente? <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>3) A teologia da liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno universal sob tr\u00eas pontos de vista: <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>a)<\/span><span>    <\/span><span>Essa teologia n\u00e3o pretende constituir-se como um novo tratado teol\u00f3gico ao lado dos outros j\u00e1 existentes; n\u00e3o pretende, por exemplo, elaborar novos aspectos da \u00e9tica social da Igreja. Ela se concebe, antes, como <u>uma nova hermen\u00eautica da f\u00e9 crist\u00e3, quer dizer, como nova forma de compreens\u00e3o e de realiza\u00e7\u00e3o do cristianismo na sua totalidade. Por isto mesmo muda todas as formas da vida eclesial: a constitui\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, a liturgia, a catequese, as op\u00e7\u00f5es morais;<\/u><\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>b)<\/span><span>    <\/span><span>A teologia da liberta\u00e7\u00e3o tem certamente o seu centro de gravidade na Am\u00e9rica Latina, mas n\u00e3o \u00e9, de modo algum, fen\u00f4meno exclusivamente latino-americano. N\u00e3o se pode pens\u00e1-la sem a influ\u00eancia determinante de te\u00f3logos europeus e tamb\u00e9m norte-americanos. Al\u00e9m do mais, existe tamb\u00e9m na \u00cdndia, no Sri Lanka, nas Filipinas, em Taiwan, na \u00c1frica &#8211; embora nesta \u00faltima esteja em primeiro plano a busca de uma \u201cteologia africana\u201d. A uni\u00e3o dos te\u00f3logos do Terceiro Mundo \u00e9 fortemente caracterizada pela aten\u00e7\u00e3o prestada aos temas da teologia da liberta\u00e7\u00e3o; <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>c)<\/span><span>    <\/span><span>A teologia da liberta\u00e7\u00e3o supera os limites confessionais. Um dos mais conhecidos representantes da teologia da liberta\u00e7\u00e3o, Hugo Assman, era sacerdote cat\u00f3lico e ensina hoje como professor<br \/>\nem uma Faculdade protestante, mas continua a se apresentar com o pretens\u00e3o de estar acima das fronteiras confessionais. A teologia da liberta\u00e7\u00e3o procura criar, j\u00e1 desde as suas premissas, uma nova universalidade em virtude da qual as separa\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas da Igreja devem perder a sua Import\u00e2ncia,<\/span><span><\/span><span>         <\/span><strong><span>I. O Conceito de Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e os Pressupostos de sua G\u00eanese<\/span><\/strong><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Essas observa\u00e7\u00f5es preliminares, entretanto, j\u00e1 nos introduziram no n\u00facleo do tema. Deixam aberta, por\u00e9m, a quest\u00e3o principal: o que \u00e9 propriamente o teologia da liberta\u00e7\u00e3o? Em uma primeira tentativa de resposta, podemos dizer: a teologia da liberta\u00e7\u00e3o <u>pretende dar nova interpreta\u00e7\u00e3o global do Cristianismo<\/u>; explica o Cristianismo como uma pr\u00e1xis de liberta\u00e7\u00e3o e pretende constituir-se, ela mesma, um guia para tal pr\u00e1xis. Mas assim como, segundo essa teologia, toda realidade \u00e9 pol\u00edtica, tamb\u00e9m a liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito pol\u00edtico e o guia rumo \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o deve ser um guia para a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/span><span><\/span><span>         <\/span><span>\u201cNada resta fora do empenho pol\u00edtico. Tudo existe com uma coloca\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d (Gutierrez). Uma teologia que n\u00e3o seja \u201cpr\u00e1tica (o que significa dizer \u201cessencialmente pol\u00edtica\u201d) \u00e9 considerada \u201cidealista\u201d e condenada como irreal ou como ve\u00edculo de conserva\u00e7\u00e3o dos opressores no poder, Para um te\u00f3logo que tenha aprendido a sua teologia na tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e que tenha aceitado a sua voca\u00e7\u00e3o espiritual, \u00e9 dif\u00edcil imaginar que seriamente se possa esvaziar a realidade global do Cristianismo em um esquema de pr\u00e1xis s\u00f3cio-pol\u00edtico de liberta\u00e7\u00e3o. A coisa \u00e9, entretanto, mais dif\u00edcil, j\u00e1 que os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o <u>continuam a usar grande parte da linguagem asc\u00e9tica e dogm\u00e1tica<\/u> da Igreja em clave nova, de tal modo que aqueles que l\u00eaem e que escutam partindo de outra vis\u00e3o, podem ter a impress\u00e3o de reencontrar o patrim\u00f4nio antigo com o acr\u00e9scimo apenas de algumas afirma\u00e7\u00f5es um pouco estranhas mas que, unidos a tanta religiosidade, n\u00e3o poderiam ser t\u00e3o perigosas. Exatamente a radicalidade da teologia da liberta\u00e7\u00e3o faz com que a sua gravidade n\u00e3o seja avaliada de modo suficiente; n\u00e3o entra em nenhum esquema de heresia at\u00e9 hoje existente, A sua coloca\u00e7\u00e3o, j\u00e1 de partida, situa-se fora daquilo que pode ser colhido pelos tradicionais sistemas de discuss\u00e3o. Por isto tentarei abordar a orienta\u00e7\u00e3o fundamental da teologia da liberta\u00e7\u00e3o em duas etapas: primeiramente \u00e9 necess\u00e1rio dizer algo acerca dos pressupostos que a tornaram poss\u00edvel; a seguir, desejo aprofundar alguns dos conceitos base que permitem conhecer algo da estrutura da teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Como se chegou a esta orienta\u00e7\u00e3o completamente nova do pensamento teol\u00f3gico, que se exprime na leolog1a da liberta\u00e7\u00e3o? Vejo principalmente tr\u00eas: fatores que a tornaram poss\u00edvel. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>1) Ap\u00f3s o Conc\u00edlio, produziu-se uma situa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica nova:<\/span><span><\/span><span>a)<\/span><span>    <\/span><span>Surgiu a opini\u00e3o de que a tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica existente at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o era mais aceit\u00e1vel e, por conseguinte, se deviam procurar, o partir da Escritura e dos sinais dos tempos, orienta\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas e espirituais totalmente novas;<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>b)<\/span><span>    <\/span><span>A id\u00e9ia de abertura ao mundo e de compromisso no mundo transformou-se freq\u00fcentemente em uma f\u00e9 ing\u00eanua nas ci\u00eancias; uma f\u00e9 que acolheu as ci\u00eancias humanas como um novo evangelho, sem querer ,reconhecer os seus limites e problemas pr\u00f3prios. A psicologia, a sociologia e a interpreta\u00e7\u00e3o marxista da hist\u00f3ria foram considerados como cientificamente seguras e, a seguir, como inst\u00e2ncias n\u00e3o mais contest\u00e1veis do pensamento crist\u00e3o;<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span>c) A critica da tradi\u00e7\u00e3o por parte da exegese evang\u00e9lica moderna, especialmente o de Bultmann e da sua escola, tornou-se uma, inst\u00e2ncia teol\u00f3gica inamov\u00edvel que barrou a estrada \u00e0s formas at\u00e9 ent\u00e3o v\u00e1lidas da teologia, encorajando assim tamb\u00e9m novas constru\u00e7\u00f5es.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>2) A situa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica assim transformada coincidiu com uma situa\u00e7\u00e3o da historia espiritual tamb\u00e9m ela modificada. Ao final da fase de reconstru\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a segunda guerra mundial, fase que coincidiu pouco mais ou menos com o t\u00e9rmino do Concilio, produziu-se no mundo ocidental um sens\u00edvel vazio de significado, ao qual a filosofia existencialista ainda em voga n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de dar alguma resposta. Nesta situa\u00e7\u00e3o, as diferentes formas do neo-marxismo transformaram-se em um impulso moral e, ao mesmo tempo, em uma promessa de significado que parecia quase irresist\u00edvel \u00e0 juventude universal. O marxismo, com as acentua\u00e7\u00f5es religiosas de Bloch e as filosofias dotadas de rigor cient\u00edfico de Adorno, Harkheimer, Habernas e Marcuse, ofereceram modelos de a\u00e7\u00e3o com os quais alguns pensadores acreditavam poder responder ao desafio da mis\u00e9ria no mundo e, ao mesmo tempo, poder atualizar o sentido correto da mensagem b\u00edblica. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>3) O desafio moral da pobreza e da opress\u00e3o n\u00e3o se podia mais ignorar, no momento em que a Europa e a Am\u00e9rica do Norte atingiam uma opul\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o desconhecida. Este desafio exigia evidentemente nova respostas, que n\u00e3o se podiam encontrar na tradi\u00e7\u00e3o existente at\u00e9 aquele momento. A situa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e filos\u00f3fica mudada convidava expressamente a buscar o resposta em um cristianismo que se deixasse regular pelos modelos da esperan\u00e7a, aparentemente fundados cientificamente, das filosofias marxistas,<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<h3 align=\"center\"><span>II. A Estrutura Gnoseol\u00f3gica Fundamental do Teologia do Liberta\u00e7\u00e3o<\/span><\/h3>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Esta resposta se apresenta totalmente diversa nas formas particulares de teologia da liberta\u00e7\u00e3o, teologia da evolu\u00e7\u00e3o, teologia pol\u00edtica, etc. N\u00e3o pode, pois, ser apresentada globalmente, Existem, no entanto, alguns conceitos fundamentais que se repetem continuamente nas diferentes varia\u00e7\u00f5es e exprimem comuns inten\u00e7\u00f5es de fundo. Antes de passar aos conceitos fundamentais do conte\u00fado, \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma observa\u00e7\u00e3o a cerca dos elementos estruturais do teologia da liberta\u00e7\u00e3o. Paro tal, podemos retomar o que j\u00e1 afirmamos acerca da situa\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica mudada ap\u00f3s o Concilio. Como j\u00e1 disse, leu-se a exegese de Bultmann e da sua escola como um enunciado da \u201cci\u00eancia\u201d sobre Jesus, ci\u00eancia que devia obviamente ser considerado como v\u00e1lida. O \u201cJesus hist\u00f3rico\u201d de Bultmann, entretanto, apresentava-se separado por um abismo (o pr\u00f3prio Bultmann fala de Graben, fosso) do Cristo da f\u00e9. Segundo Bultmann, Jesus pertence aos pressupostos do Novo Testamento, permanecendo. por\u00e9m, encerrado no mundo do juda\u00edsmo. O resultado final dessa exegese consistiu em abalar a credibilidade hist\u00f3rica dos Evangelhos: o Cristo da tradi\u00e7\u00e3o eclesial e o Jesus hist\u00f3rico apresentado pela ci\u00eancia pertencem evidentemente a dois mundos diferentes. A figura de Jesus foi erradicada da sua coloca\u00e7\u00e3o na tradi\u00e7\u00e3o por a\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, considerada como inst\u00e2ncia suprema; deste modo, por um lado, a tradi\u00e7\u00e3o pairava como algo de irreal no vazio, e, por outro, devia-se procurar para a figura de Jesus uma nova interpreta\u00e7\u00e3o e um novo significado. Bultmann, portanto, adquiriu import\u00e2ncia n\u00e3o tanto pelas suas afirma\u00e7\u00f5es positivas quanto pelo resultado negativo da sua cr\u00edtica: o n\u00facleo da f\u00e9, a cristologia, permaneceu aberto a novas interpreta\u00e7\u00f5es porque os seus enunciados originais tinham desaparecido, na medida em que eram considerados historicamente insustent\u00e1veis. Ao mesmo tempo desautorizava-se o magist\u00e9rio da Igreja, na medida em que o consideravam preso a uma teoria cientificamente insustent\u00e1vel e, portanto, sem valor como inst\u00e2ncia cognoscitiva sobre Jesus. Os seus anunciados podiam ser considerados somente como defini\u00e7\u00f5es frustadas de uma posi\u00e7\u00e3o cientificamente superada.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Al\u00e9m disso, Bultmann foi importante para o desenvolvimento posterior de uma segunda palavra-chave. Ele trouxe \u00e0 moda o antigo conceito de hermen\u00eautica, conferindo-lhe uma din\u00e2mica nova. Na palavra \u201chermen\u00eautica\u201d encontra express\u00e3o a id\u00e9ia de que uma compreens\u00e3o real dos textos hist\u00f3ricos n\u00e3o acontece atrav\u00e9s de uma mera interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; mas toda interpreta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica inclui certas decis\u00f5es preliminares. A hermen\u00eautica tem a fun\u00e7\u00e3o de \u201catualizar\u201d, em conex\u00e3o com a determina\u00e7\u00e3o de dado hist\u00f3rico. Nela, segundo o terminologia cl\u00e1ssica, se trata de um \u201cfus\u00e3o dos horizontes\u201d entre \u201cent\u00e3o\u201d [\u201cnaquele tempo\u201d] e o \u201choje\u201d. Por conseguinte, ela suscita a pergunta: o que significa o ent\u00e3o (\u201cnaquele tempo\u201d), nos dias de hoje? O pr\u00f3prio Bultmann respondeu a esta pergunta servindo-se da filosofia de Heidegger e interpretou, deste modo, a B\u00edblia em sentido existencialista. Tal resposta, hoje, n\u00e3o apresenta mais algum interesse; neste sentido Bultmann foi superado pela exegese atual. Mas permaneceu a separa\u00e7\u00e3o entre a figura de Jesus da tradi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica e a id\u00e9ia de que se pode e se deve transferir essa figura ao presente, atrav\u00e9s de uma nova hermen\u00eautica.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>A este ponto, surge o segundo elemento, j\u00e1 mencionado, da nossa situa\u00e7\u00e3o: o novo clima filos\u00f3fico dos anos sessenta. A an\u00e1lise marxista do hist\u00f3ria e da sociedade foi considerada, nesse \u00ednterim, conto a \u00fanica dotada de car\u00e1ter \u201ccientifico\u201d, isto significa que o mundo \u00e9 interpretado \u00e0 luz do esquema da luta de classes e que a \u00fanica escolha poss\u00edvel \u00e9 entre capitalismo e marxismo. Significa, al\u00e9m disso, que toda a realidade \u00e9 pol\u00edtica e que deve ser justificada politicamente. O conceito b\u00edblico do \u201cpobre\u201d oferece o ponto de partida para a confus\u00e3o entre a imagem b\u00edblica da hist\u00f3ria e a dial\u00e9tica marxista; esse conceito \u00e9 interpretado com a id\u00e9ia de proletariado em sentido marxista e justifica tamb\u00e9m o marxismo como hermen\u00eautica legitima para a compreens\u00e3o da B\u00edblia. Ora, Segundo essa compreens\u00e3o, existem, e s\u00f3 podem existir, duas op\u00e7\u00f5es; pai isso, contradizer essa interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o express\u00e3o do esfor\u00e7o da classe dominante para conservar o pr\u00f3prio poder, Gutierrez afirma: \u201cA luta de classes \u00e9 um dado de fato e a neutralidade acerca desse ponto \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel\u201d. A partir dai, torna-se imposs\u00edvel at\u00e9 a interven\u00e7\u00e3o do magist\u00e9rio eclesi\u00e1stico: no caso em que este se opusesse a tal interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo demonstraria apenas estar ao lado dos ricos e dos dominadores e contra os pobres e os sofredores, isto \u00e9, contra o pr\u00f3prio Jesus, e, na dial\u00e9tico da hist\u00f3ria, aliar-se-ia \u00e0 parte negativo. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Essa decis\u00e3o, aparentemente \u201ccient\u00edfica\u201d e \u201chermeneuticamente\u201d indiscut\u00edvel, determina por si o rumo da ulterior interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo, seja quatro \u00e0s instancias interpretativas, seja quatro aos conte\u00fados interpretados. No que diz respeito as inst\u00e2ncias interpretativas, os conceitos decisivos s\u00e3o: povo, comunidade, experi\u00eancia, hist\u00f3ria. Se at\u00e9 ent\u00e3o a Igreja, isto \u00e9, a Igreja Cat\u00f3lica na Sua totalidade, que, transcendendo tempo e espa\u00e7o, abrange os leigos (sensus fidei) e a hierarquia (magist\u00e9rio), fora a inst\u00e2ncia hermen\u00eautica fundamental, hoje tornou-se a \u201ccomunidade\u201d tal inst\u00e2ncia. A viv\u00eancia e as experi\u00eancias da comunidade determinam agora a compreens\u00e3o e a interpreta\u00e7\u00e3o da Escritura. De novo pode-se dizer, aparentemente de maneira muito cient\u00edfica, que a figura de Jesus, apresentada nos Evangelhos, constitui uma s\u00edntese de acontecimentos e interpreta\u00e7\u00f5es da experi\u00eancia de comunidades particulares, onde no entanto a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais importante do que o acontecimento, que, em si, n\u00e3o \u00e9 mais determin\u00e1vel. Essa s\u00edntese original de acontecimento e interpreta\u00e7\u00e3o pode ser dissolvida e reconstru\u00edda sempre de novo: <u>a comunidade \u201cinterpreta\u201d com a sua \u201cexperi\u00eancia\u201d os acontecimentos e encontra assim sua \u201cpr\u00e1xis\u201d<\/u>. Esta id\u00e9ia, podemos encontra-la em modo um tanto diverso do conceito de povo, com o qual se transformou a acentua\u00e7\u00e3o conciliar da id\u00e9ia de \u201cpovo de Deus\u201d em mito marxista. As experi\u00eancias do \u201cpovo\u201d explicam a Escritura. <u>\u201cPovo\u201d torna-se assim um conceito aposto ao de \u201chierarquia\u201d<\/u> e em ant\u00edtese a todas as institui\u00e7\u00f5es indicadas como for\u00e7as da opress\u00e3o. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Afinal, \u00e9 \u201cpovo\u201d quem participa da \u201clula de classes\u201d; a \u201cigreja popular\u201d acontece em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja hier\u00e1rquica. Por fim, o conceito de \u201chist\u00f3ria\u201d torna-se inst\u00e2ncia hermen\u00eautica decisiva. A opini\u00e3o, considerada cientificamente segura e irrefut\u00e1vel, de que a B\u00edblia raciocine em termos exclusivamente de hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o, e portanto de maneira anti-metaf\u00edsica. permite a fus\u00e3o do horizonte b\u00edblico com a id\u00e9ia marxista da hist\u00f3ria que procede dialeticamente como aut\u00eantica portadora de salva\u00e7\u00e3o; a hist\u00f3ria \u00e9 o aut\u00eantica revela\u00e7\u00e3o e portanto a verdadeira inst\u00e2ncia hermen\u00eautica da interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica. Tal dial\u00e9tico \u00e9 apoiado, algumas vezes, pela pneumatologia. Em todo caso, tamb\u00e9m esta \u00faltima, no magist\u00e9rio que insiste em verdades permanentes, v\u00ea uma inst\u00e2ncia inimiga do progresso, dado que pensa \u201cmetafisicamente\u201d e assim contradiz a \u201chist\u00f3ria\u201d. <u>Pode-se dizer que o conceito de hist\u00f3ria absorve o conceito de Deus e de revela\u00e7\u00e3o<\/u>. A \u201chistoricidade\u201d da B\u00edblia deve justificar o seu papel absolutamente predominante e, portanto, deve legitimar, ao mesmo tempo, a passagem para a filosofia materialista-marxista, na qual a hist\u00f3ria assumiu a fun\u00e7\u00e3o de Deus.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<h2 align=\"center\"><span>  <\/span><\/h2>\n<h2 align=\"center\"><span>III. Conceitos Fundamentais da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o<\/span><\/h2>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Com isto, chegamos aos conceitos fundamentais do conte\u00fado da <u>nova interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo<\/u>. Uma vez que os contextos nos quais aparecem os diversos conceitos s\u00e3o diferentes, gostaria de citar alguns deles, sem a pretens\u00e3o de esquematiza-los. Comecemos pela nova interpreta\u00e7\u00e3o da f\u00e9, da esperan\u00e7a e da caridade. Com rela\u00e7\u00e3o a f\u00e9, por exemplo, J. Sobrinho afirma: a experi\u00eancia que Jesus tem de Deus \u00e9 radicalmente hist\u00f3rica. \u201cA sua f\u00e9 converte-se em fidelidade\u201d. Por isso Sobrinho substitui fundamentalmente o f\u00e9 pela \u201cfidelidade \u00e0 hist\u00f3ria\u201d (fidelidad a la historia, 143-144). Jesus \u00e9 fiel \u00e0 profunda convic\u00e7\u00e3o de que o mist\u00e9rio da vida do homem &#8230; \u00e9 realmente o \u00faltimo &#8230; (144). Aqui produz-se aquela fus\u00e3o entre Deus e hist\u00f3ria que d\u00e1 a Sobrinho a possibilidade de conservar para Jesus a f\u00f3rmula de Calced\u00f4nia, ainda que com um sentido completamente mudado; pode-se ver como os crit\u00e9rios cl\u00e1ssicos da ortodoxia n\u00e3o s\u00e3o aplic\u00e1veis \u00e0 an\u00e1lise dessa teologia, Ignacio Ellacuria, na capa do livro sobre este assunto, afirma: Sobrinho \u201cdiz de novo &#8230; que Jesus \u00e9 Deus, acrescentando, por\u00e9m, imediatamente, que o Deus verdadeiro \u00e9 somente aquele que se revela historicamente em Jesus e nos pobres, que continuam a sua presen\u00e7a. Somente quem mant\u00e9m unidas essas duas afirma\u00e7\u00f5es, \u00e9 ortodoxo &#8230;\u201c. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>A esperan\u00e7a \u00e9 interpretada como \u201cconfian\u00e7a no futuro\u201d e como trabalho pelo futuro; com isso elo \u00e9 subordinado novamente ao predom\u00ednio da hist\u00f3ria das classes. <\/span><span>\u201cAmor\u201d consiste na \u201cop\u00e7\u00e3o pelos pobres\u201d, isto \u00e9, coincide com a op\u00e7\u00e3o pela luta de classes. Os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o sublinham com for\u00e7a, diante do \u201cfalso universalismo\u201d, a parcialidade e o carater partid\u00e1rio da op\u00e7\u00e3o crist\u00e3; tomar partido \u00e9, segundo eles, requisito fundamental de uma correta hermen\u00eautica dos testemunhos b\u00edblicos. Na minha opini\u00e3o, aqui se pode reconhecer muito claramente a mistura entre uma verdade fundamental do Cristianismo e uma op\u00e7\u00e3o fundamental n\u00e3o crist\u00e3, que torna o conjunto t\u00e3o sedutor: o serm\u00e3o da montanha \u00e9, na verdade, a escolha por parte de Deus a favor dos pobres. Mas a interpreta\u00e7\u00e3o dos pobres no sentido da dial\u00e9tica marxista da hist\u00f3rla e a interpreta\u00e7\u00e3o da escolha partid\u00e1ria no sentido da lula de classes \u00e9 um salto \u201ceis allo genos\u201d (grego: para outro g\u00eanero), no qual as coisas contrarias se apresentam como id\u00eanticas. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>O conceito fundamental da prega\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 o de \u201creino de Deus\u201d. Este conceito encontra-se tamb\u00e9m no centro das teologia da liberta\u00e7\u00e3o, lido por\u00e9m no contexto da hermen\u00eautica marxista. Segundo J. Sobrinho, <u>o reino n\u00e3o deve ser compreendido espiritualmente, nem universalmente, no sentido de uma reserva escatogicamente abstrata. Deve ser compreendido em forma partid\u00e1ria e voltado para a pr\u00e1xis<\/u>. Somente a partir da pr\u00e1xis de Jesus, e n\u00e3o teoricamente, \u00e9 poss\u00edvel definir o que seria <u>o reino: trabalhar na realidade hist\u00f3rica que nos circunda para transform\u00e1-la no reino (166)<\/u>. Aqui ocorre mencionar tamb\u00e9m uma id\u00e9ia fundamental de certa teologia p\u00f3s-conciliar que impulsionou nessa dire\u00e7\u00e3o. Muitos apregoaram que, segundo o Conc\u00edlio, se deveriam superar todas as formas de dualismo: o dualismo de corpo e alma, de natural e sobrenatural, de iman\u00eancia e transcend\u00eancia, de presente e futuro. Ap\u00f3s o desmantelamento desses duolismos, resta apenas a possibilidade de trabalhar por um reino que se realize nesta hist\u00f3ria e em sua realidade pol\u00edtico-econ\u00f4mica. <\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span>Mas justamente dessa forma deixou-se de trabalhar pelo homem de hoje e se come\u00e7ou a destruir o presente, a favor de um futuro hipot\u00e9tico: assim produziu-se imediatamente o verdadeiro dualismo.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>         <\/span>Neste contexto gostaria de mencionar tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o, impressionante e definitivamente espantosa, que Sobrinho d\u00e1 da morte e da ressurrei\u00e7\u00e3o. Antes do mais, ele estabelece, contra as concep\u00e7\u00f5es universalistas, que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, uma esperan\u00e7a para aqueles que s\u00e3o crucificados; estes constituem a maioria dos homens: todos aqueles milh\u00f5es aos quais a injusti\u00e7a estrutural se imp\u00f5e como uma lenta crucifix\u00e3o (176 e seguintes). O crente, no entanto, participa tamb\u00e9m do senhorio de Jesus sobre a hist\u00f3ria, atrav\u00e9s da edifica\u00e7\u00e3o do reino, isto \u00e9, na luta pela justi\u00e7a e pela liberta\u00e7\u00e3o integral, na transforma\u00e7\u00e3o das estruturas injustas em estruturas mais humanas. Esse senhorio sobre o hist\u00f3ria \u00e9 exercitado ao se repetir o gesto d\u00ea Deus que ressuscita Jesus, isto \u00e9, dando novamente vida aos crucificados da hist\u00f3ria (181). O homem assumiu o gesto de Deus e aqui a transforma\u00e7\u00e3o total da mensagem b\u00edblica se manifesta de maneiro quase tr\u00e1gica, se se pensa em como essa tentativa de imita\u00e7\u00e3o de Deus se desenvolveu e se desenvolve ainda. <span> <\/span><\/p>\n<p><span>Gostaria de citar apenas alguns outros conceitos: <u>o \u00eaxodo se transforma em uma imagem central da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o; o mist\u00e9rio pascal \u00e9 entendido como um s\u00edmbolo revolucion\u00e1rio<span>  <\/span>e, portanto, a Eucaristia \u00e9 interpretada como uma festa de liberta\u00e7\u00e3o no sentido de uma esperan\u00e7a pol\u00edtico-messi\u00e2nica e da sua pr\u00e1xis<\/u>. A palavra reden\u00e7\u00e3o \u00e9 substitu\u00edda geralmente por liberta\u00e7\u00e3o, a qual, por sua vez, \u00e9 compreendida, no contexto da hist\u00f3ria e da luta de Classes, como processo de liberta\u00e7\u00e3o que avan\u00e7a, por fim, \u00e9 fundamental tamb\u00e9m a acentua\u00e7\u00e3o da pr\u00e1xis: a verdade n\u00e3o deve ser compreendido em sentido metaf\u00edsico; trata-se de \u201cidealismo\u201d. A verdade realiza-se na hist\u00f3ria e na pr\u00e1xis, <u>A a\u00e7\u00e3o \u00e9 a verdade<\/u>. Por conseguinte, tamb\u00e9m as id\u00e9ias que se usam para a\u00e7\u00e3o, em \u00faltima inst\u00e2ncia s\u00e3o intercambi\u00e1veis. A \u00fanica coisa decisiva \u00e9 a pr\u00e1xis. A pr\u00e1xis torna-se, assim, o \u00fanica .e verdadeira ortodoxia. Desta forma justifica-se um enorme afastamento dos textos b\u00edblicos: a cr\u00edtica hist\u00f3rica liberta da interpreta\u00e7\u00e3o tradicional, que aparece como n\u00e3o-cient\u00edfica. Com rela\u00e7\u00e3o \u00f3 tradi\u00e7\u00e3o, atribui-se import\u00e2ncia ao m\u00e1ximo rigor cientifico na linha de Buftmann. Mas os conte\u00fados da B\u00edblia, determinados historicamente, n\u00e3o podem, por sua vez, ser vinculantes de modo absoluto. O instrumento para a interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, a pesquisa hist\u00f3rica, mas, sim, a hermen\u00eautica da hist\u00f3ria, experimentada na comunidade, isto \u00e9, nos grupos pol\u00edticos, sobretudo dado que a maior parte dos pr\u00f3prios conte\u00fados b\u00edblicos deve ser considerada como produto de tal hermen\u00eautica comunit\u00e1ria.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>         <\/span>Quando se tenta fazer um julgamento geral, deve-se dizer que, quando algu\u00e9m procura compreender as op\u00e7\u00f5es fundamentais da teologia da liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode negar que o conjunto cont\u00e9m uma l\u00f3gica quase incontest\u00e1vel. Comi as premissas da critica b\u00edblica e da hermen\u00eautica fundada na experi\u00eancia, de um lado, e da an\u00e1lise marxista da hist\u00f3ria, de outro, conseguiu-se criar uma vis\u00e3o de conjunto do cristianismo que parece responder plenamente tanto \u00e0s exig\u00eancias da ci\u00eancia, quanto aos desafios morais dos nossos tempos. E, portanto, imp\u00f5e-se aos homens de modo imediato o tarefa de fazer do Cristianismo um instrumento da transforma\u00e7\u00e3o concreta do mundo, o que pareceria uni-lo a todas as for\u00e7as progressistas da nossa \u00e9poca. Pode-se, pois, compreender como esta nova interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo atraia sempre mais te\u00f3logos, sacerdotes e religiosos, especialmente no contexto dos problemas do terceiro mundo. Subtrair-se a ela deve necessariamente aparecer aos olhos deles como uma evas\u00e3o da realidade, como uma ren\u00fancia \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 moral. Por\u00e9m, de outra parte, quando se pensa o quanto seja radical a interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo que dela deriva, torna-se ainda mais urgente o problema do que se possa e se deva fazer frente a ela.<span> <\/span><\/p>\n<p><span>*<\/span><span>    <\/span>*<span>    <\/span>*<span> <\/span><\/p>\n<p><span>\u00c0 guisa de coment\u00e1rio, parece oportuno salientar os seguintes pontos:<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>1)<\/span><span>    <\/span><span>A Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um novo tratado teol\u00f3gico ao lado de outros j\u00e1 existentes, mas \u00e9 uma nova interpreta\u00e7\u00e3o do Cristianismo, que revira radicalmente as verdades da f\u00e9, a constitui\u00e7\u00e3o da Igreja, a Liturgia, a catequ\u00e9tica e as op\u00e7\u00f5es morais.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>2)<\/span><span>    <\/span><span>Todos os valores e toda a realidade s\u00e3o considerados do ponto de vista pol\u00edtico. Uma teologia que n\u00e3o seja essencialmente pol\u00edtica, \u00e9 encarada como fator de conserva\u00e7\u00e3o dos apressares no poder.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>3)<\/span><span>    <\/span><span>A dificuldade de se perceber esse car\u00e1ter subversiva da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o est\u00e1, em grande parte, no fato de que os seus arautos continuam a usar a linguagem asc\u00e9tica e dogm\u00e1tica da Igreja, embora em chave nova. Isto d\u00e1 aos observadores a impress\u00e3o de que est\u00e3o diante do patrim\u00f4nio da f\u00e9 acrescido de algumas afirma\u00e7\u00f5es religiosas que n\u00e3o podem ser perigosas.<\/span><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>4)<\/span><span>    <\/span><span><\/span><span> <\/span>A gravidade da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 suficientemente avaliada; n\u00e3o entra em nenhum esquema de heresia at\u00e9 hoje existente.<span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<p><span><\/span><span>5)<\/span><span>    <\/span><span>O crist\u00e3o n\u00e3o pode ser, de forma alguma, insens\u00edvel \u00e0 mis\u00e9ria dos povos do Terceiro Mundo. Todavia, para acudir crist\u00e3mente a tal situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o lhe \u00e9 necess\u00e1rio adotar um sistema de pensamento que \u00e9 anticrist\u00e3o como a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o; existe a doutrina social da Igreja, desenvolvida pelos Papas desde Le\u00e3o XIII at\u00e9 Jo\u00e3o Paulo II de maneira<\/span><span>  <\/span>cada vez mais incisiva e penetrante. Se fosse posta em pr\u00e1tica, eliminaria graves males de que sofrem os homens, sem disseminar o \u00f3dio e a luta de classes. (D. Estev\u00e3o Bettencourt)<span> <\/span><\/p>\n<p><span> <\/span><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resumo: O Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, quando Prefeito da S. Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, escreveu uma exposi\u00e7\u00e3o sobre a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o em sua forma extremada, em 18\/03\/84; partindo das respectivas premissas e real\u00e7ando os&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[56],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1581"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1581"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1581\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1581"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1581"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1581"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}