{"id":16987,"date":"2015-11-11T15:32:38","date_gmt":"2015-11-11T17:32:38","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/?p=16987"},"modified":"2015-11-11T15:32:38","modified_gmt":"2015-11-11T17:32:38","slug":"o-bom-uso-do-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2015\/11\/11\/o-bom-uso-do-tempo\/","title":{"rendered":"O bom uso do tempo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><a href=\"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/files\/2015\/11\/tempo_relogio1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-16988 alignleft\" src=\"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/files\/2015\/11\/tempo_relogio1-300x160.jpg\" alt=\"tempo_relogio1\" width=\"300\" height=\"160\" srcset=\"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/files\/2015\/11\/tempo_relogio1-300x160.jpg 300w, https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/files\/2015\/11\/tempo_relogio1.jpg 549w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>No uso do tempo, pode-se pecar por excesso de economia ou por despropositada prodigalidade. No primeiro caso, abuso do tempo que se ganhou; no segundo, dano pelo tempo que se perdeu. De qualquer das formas, perder tempo inutilmente \u00e9 loucura; mas \u00e9 sabedoria rara perde-lo utilmente.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>O abuso do tempo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conta-se que certo literato muito ocupado (e que por acaso produziu pouco), tinha sobre a porta estas legendas pouco convidativas: \u201cO meu tempo \u00e9 t\u00e3o precioso como o teu; se gostas de perder o teu tempo, pensa no dos outros\u201d. Um importante industrial de Chicago tinha no escrit\u00f3rio um grande cartaz com as seguintes indica\u00e7\u00f5es: \u201cVisitantes, sede breves; o meu tempo \u00e9 precioso, e eu respondo adiantadamente a todas as vossas perguntas in\u00fateis&#8230;\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSe estou bem?\u201d \u2013 Obrigado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSe o tempo est\u00e1 bom?\u201d \u2013 N\u00e3o me interessa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSe est\u00e1 calor ou frio?\u201d \u2013 N\u00e3o quero saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSe li o jornal?\u201d \u2013 S\u00f3 leio os c\u00e2mbios e pre\u00e7os das mercadorias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cSe minha fam\u00edlia est\u00e1 bem?\u201d \u2013 Sou solteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u201cAdeus, adeus!\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Uma \u201camericanice\u201d se dir\u00e1. J\u00e1 h\u00e1 duzentos anos dizia uma aut\u00eantica francesa, Madame du Deffand: \u201cOs que me visitam, honram-me; os que n\u00e3o me visitam, d\u00e3o- me prazer.\u201d \u00c9 claro que o exagero, por pequeno que seja, neste sentido, mata as rela\u00e7\u00f5es de amizade e o encanto das conversas em que nada se diz e algo se aprende.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem n\u00e3o procura sen\u00e3o o \u00fatil, n\u00e3o se arriscar\u00e1 a perder o que na vida \u00e9 mais que o \u00fatil? E, o que \u00e9 pior, arriscar-se-\u00e1 a faltar aos mais elementares deveres para com os vivos, e at\u00e9 para com os mortos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O autor dos Conselhos de um velho americano e um jovem franc\u00eas \u2013 livro em que h\u00e1 picantes observa\u00e7\u00f5es, algumas das quais mereciam de ser recordadas -, censura os mortos por matarem os vivos, exigindo-lhes que deixem as ocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias para assistirem aos seus funerais. Esta \u00e9 um pouco forte!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Justa medida<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\u00a0Mas, uma vez estabelecidas as reservas impostas pelo bom senso, pela religi\u00e3o e pelas justas conveni\u00eancias, n\u00e3o se pode impedir os que querem desembara\u00e7ar a nossa vida desse nunca acabar artificial de visitas sem encanto nem finalidade, meramente protocolares, t\u00e3o insuport\u00e1veis para quem as faz como para quem os recebe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Da troca de correspond\u00eancia, cujo \u00fanico benef\u00edcio evidente \u00e9 enriquecer as Finan\u00e7as e os Correios; de todas as desp\u00f3ticas exig\u00eancias de modas, seguramente inventadas por quem desconhece o verdadeiro valor do tempo.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/cleofas.com.br\/tudo-tem-seu-tempo\/\" target=\"_blank\">Tudo tem seu tempo!<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/cleofas.com.br\/a-importancia-do-tempo\/\" target=\"_blank\">A import\u00e2ncia do tempo<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Pode dizer-se que o mundo assenta sobre a mentira das conven\u00e7\u00f5es, admitida por todos. Mas isso merecer\u00e1 que algu\u00e9m se obstine em perpetuar tal mentira? N\u00e3o creio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Usar de am\u00e1vel delicadeza por motivo de verdadeira caridade, est\u00e1 muito bem, e nunca ser\u00e1 demais; frio protocolo, a pretexto de pseudo-obriga\u00e7\u00f5es mundanas, sobre isso estamos conversados. Que ao tempo mais precioso se roubem duas ou tr\u00eas horas para consolar um sofrimento ou aliviar uma doen\u00e7a, est\u00e1 bem; mas que se roube tempo \u2013 coisa t\u00e3o valiosa como fecunda \u2013 para ir contar bagatelas, aborrecendo-se e aborrecendo os outros, francamente, para que serve?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Efetivamente, se pensarmos bem, nada prejudica tanto a atividade \u00fatil como essas dissipa\u00e7\u00f5es. Se, ao menos, a vida fosse longa! Mas, quando poderemos trabalhar, concentrar-nos, se in\u00fameras pessoas e insuport\u00e1veis conven\u00e7\u00f5es nos roubam o melhor ou uma parte not\u00e1vel do descanso em sil\u00eancio, que torna a vida fecunda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Assista tamb\u00e9m:\u00a0<\/strong><a href=\"http:\/\/cleofas.com.br\/um-tempo-para-cada-coisa-ecl-3\/\" target=\"_blank\">Um tempo para cada coisa \u2013 Ecl 3<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quem quiser tirar bom rendimento da sua atividade, deve saber n\u00e3o perder o tempo. Carlos Peguy tem oito anos. Em dia de Carnaval passa por debaixo da sua janela, com o ru\u00eddo que pode imaginar-se, um cortejo.<\/p>\n<p>De p\u00e9, em cima de um pequeno banco, desenhava ele um mapa de geografia. Convidam-no a ir ver o cortejo que passa na rua. \u201cIsso n\u00e3o me interessa\u201d, respondeu, \u201cn\u00e3o tenho tempo sen\u00e3o para fazer o mapa da Fran\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Neste epis\u00f3dio descobre-se o homem que, mais tarde, p\u00f4de com verdade declarar: \u201cSempre levei tudo a s\u00e9rio, e por isso cheguei longe\u201d. Mas s Carlos Peguy s\u00e3o raros! N\u00e3o falamos do talento extraordin\u00e1rio, mas do cuidado de economizar o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando somos jovens, afigura-se que sempre haver\u00e1 folgas. Passeamos ou damo-nos \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o sem um objetivo expl\u00edcito. N\u00e3o se trata aqui das digress\u00f5es \u00e0 La Fontaine, das quais sa\u00edram obras-primas, mas de passeios sem finalidade, fruto da pregui\u00e7a e da in\u00e9rcia. No seu regulamento de vida Mons. De S\u00e9gur, no princ\u00edpio do seu sacerd\u00f3cio, havia escrito: \u201cTrabalho cont\u00ednuo; n\u00e3o facilitar nunca; n\u00e3o estar ocioso no meu quarto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Alguns se ocupam com grande maestria a perder faustosamente o seu tempo. Esses nunca far\u00e3o nada. \u201cDevo todos os meus sucessos na vida\u201d, dizia Nelson, \u201cao fato de sempre e em tudo andar um quarto de hora adiantado\u201d. Verdadeira f\u00f3rmula para ficar vitorioso em Trafalgar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando era embaixador em Paris, Donoso Cort\u00eas lastimava o emprego do seu tempo. Costumava dizer: \u201cQuando Deus me julgar, nada mais terei a responder-lhe sen\u00e3o isto: fiz visitas\u201d. E, no entanto, as visitas faziam parte os seus deveres de estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quantos, se tivessem presentes seus deveres de estados \u2013 e os dos outros -, renunciariam \u00e0 maior partes das suas \u201cam\u00e1veis visitas\u201d! O padre Lanc\u00edcio, de quem j\u00e1 falamos, era um grande trabalhador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Gostava t\u00e3o pouco de perder o seu tempo que, para recompensar, parece que Deus lhe concedera esta gra\u00e7a: sempre que tinha necessidade de procurar um pormenor, um texto ou uma referencia, o livro abria-se por si pr\u00f3prio no lugar desejado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O comum dos homens n\u00e3o merece semelhante gra\u00e7a. Estamos reduzidos aos nossos pr\u00f3prios meios. No entanto, para quem quer emprega-los e economizar o seu tempo, s\u00e3o poss\u00edveis verdadeiros \u201cmilagres\u201d. O jesu\u00edta Petau emprega todos os momentos livres na tradu\u00e7\u00e3o dos Salmos em versos gregos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Conta-se que o ilustre chanceler d\u2019Aguesseau, n\u00e3o encontrando muitas vezes o almo\u00e7o feito a horas, apresentou um dia a sua mulher, \u00e0 maneira de aperitivo, um livro escrito durante os quartos de hora que teve de esperar para sentar-se \u00e0 mesa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Mencionemos alguns epis\u00f3dios mais s\u00e9rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">M. Doimier, que saiu do nada e chegou a desempenhar altos cargos, d\u00e1-nos um exemplo caracter\u00edstico de sucesso, devido ao trabalho persistente. Modesto empregado prepara sozinho em cursos noturnos o seu bacharelado e depois a licenciatura&#8230; O resto \u00e9 conhecido. Ramsay Mac Donald e Lloyd George, ambos primeiros-ministro de Inglaterra, foram tamb\u00e9m incans\u00e1veis trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Lloyd George, ainda jovem, gostava de estudar Napole\u00e3o, admirava a sua lend\u00e1ria resist\u00eancia \u00e0 fadiga intelectual e procurava rivalizar com ele. A sorte n\u00e3o faz tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">O trabalho, um trabalho por vezes violento, ajuda a sorte. Lu\u00eds XIV, Lyautey e Poincar\u00e9 \u2013 de prop\u00f3sito juntamos as mais dessemelhantes figuras \u2013 foram formid\u00e1veis trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Um dos bi\u00f3grafos de Lu\u00eds XIV diz que ele, quando era novo, trabalhava seis a oito horas por dia nas suas ocupa\u00e7\u00f5es de rei, e que, cinquenta e quatro anos mais tarde, trabalhava ainda mais tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Raymon Poincar\u00e9 deitava-se \u00e0s vinte e tr\u00eas horas, tendo trabalhado no seu gabinete desde as sete da manh\u00e3, com um m\u00e9todo que auxiliava a sua rara intelig\u00eancia e assombrosa memoria.<a href=\"http:\/\/loja.cleofas.com.br\/virtudes-raras.html\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-43257 alignright\" src=\"http:\/\/cleofas.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/virtudes_menor.png\" alt=\"virtudes_menor\" width=\"115\" height=\"171\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Quando ainda era presidente da Rep\u00fablica, ia certo dia de Paris para Sampigny, de autom\u00f3vel. O carro, j\u00e1 gasto, dava constantes solavancos. \u201c\u00c9 a ultima vez que viajo nele\u201d, diz, \u201cporque n\u00e3o pude trabalhar nem um s\u00f3 instante\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">Perguntaram-lhe: \u201cEnt\u00e3o, contava trabalhar?\u201d; \u201cEvidentemente, pois nunca, como daquela vez, perdi cinco horas na minha vida\u201d. Poucos homens trabalharam t\u00e3o ativamente como os chefes do bolchevismo, apostados durante vinte ou trinta anos sem perder um minuto em preparar um golpe de estado, aut\u00eanticos escravos do trabalho antes de serem os chefes que se sabe, escreve um dos seus historiadores: \u201cNunca os bolchevistas poderiam realizar o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para chegarem ao poder e manter-se nele, se fossem apenas simples homens de barricada, salteadores, revolucion\u00e1rios, e n\u00e3o not\u00e1veis eruditos, her\u00f3is do espirito, trabalhavam normalmente catorze a dezesseis horas por dia. Tchicherine mandou colocar uma cama no seu gabinete, e trabalhava desde as cinco horas da tarde at\u00e9 \u00e0s onze da manh\u00e3 \u2013 o que deu origem ao seu extremo nervosismo. A loucura de que no fim da vida foi acometido Lenine, explica-se pelo excesso de um trabalho obstinado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><strong>Texto retirado do livro: Virtudes Raras, Raul Plus<\/strong><\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No uso do tempo, pode-se pecar por excesso de economia ou por despropositada prodigalidade. No primeiro caso, abuso do tempo que se ganhou; no segundo, dano pelo tempo que se perdeu. 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