{"id":20652,"date":"2020-03-27T15:19:17","date_gmt":"2020-03-27T18:19:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/?p=20652"},"modified":"2020-03-27T19:34:01","modified_gmt":"2020-03-27T22:34:01","slug":"doutrina-catolica-admite-predestinacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2020\/03\/27\/doutrina-catolica-admite-predestinacao\/","title":{"rendered":"A doutrina cat\u00f3lica admite a predestina\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p>Estev\u00e3o Bettencourt, osb.<\/p>\n<p>Abordamos aqui uma das quest\u00f5es mais elevadas da f\u00e9 crist\u00e3. Para penetr\u00e1-la, o estudioso tem que se resolver a n\u00e3o se deixar levar pelo sentimentalismo nem pelo antropocentrismo. Mas estritamente pelos dados da Revela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 <strong>sobrenatural<\/strong> (n\u00e3o, por\u00e9m, <strong>anti<\/strong>-natural) e teoc\u00eantrica.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da predestina\u00e7\u00e3o se prenda \u00e0 do mal, de que trata \u201cPergunte e Responderemos\u201d n\u00ba 5\/1957 qu. 1. Tenha-se em vista o que a\u00ed se diz: 1) a possibilidade de errar \u00e9 inerente ao conceito mesmo da criatura; 2) esta possibilidade se realizou no mundo quando o primeiro homem cometeu livremente o erro ou o mal moral, o pecado; 3) os males f\u00edsicos (mis\u00e9rias e morte) s\u00e3o conseq\u00fc\u00eancias do pecado; 4) a culpa dessas desordens recai em \u00faltima an\u00e1lise sobre o livro arb\u00edtrio do homem, n\u00e3o sobre Deus; 5) Este se apiedou da criatura, tomando a sua sorte na Encarna\u00e7\u00e3o e na morte de cruz, a fim de dar valor salv\u00edfico ao sofrimento.<\/p>\n<p>Entremos agora no tema da predestina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Conceito e exist\u00eancia da predestina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Por predestina\u00e7\u00e3o entende-se em Teologia o des\u00edgnio, concebido por Deus, de levar a criatura racional (o homem) ao fim sobrenatural, que \u00e9 a vida eterna. Note-se logo que este des\u00edgnio tem por exclusivo objeto a bem-aventuran\u00e7a celeste; n\u00e3o h\u00e1 predestina\u00e7\u00e3o para o mal ou o inferno.<\/p>\n<p>A Sagrada Escritura atesta amplamente a exist\u00eancia de tal des\u00edgnio no Criador. De um lado, ela ensina que a Boa Not\u00edcia da salva\u00e7\u00e3o deve ser anunciada a todos os povos (cf. Mt 28,19) e que Deus quer \u201csejam salvos todos os homens e cheguem ao conhecimento da verdade\u201d (cf. 1 Tim 2,4). De outro lado, ela tamb\u00e9m diz que h\u00e1 homens que se perdem (cf. J\u00f4 17,12) e que o Senhor exerce uma provid\u00eancia especial para salvar os que n\u00e3o se perdem:<\/p>\n<p>\u201cSabemos que, com aqueles que O amam, Deus colabora em tudo para o bem dos mesmos, daqueles que Ele chamou segundo o seu des\u00edgnio. Pois, aqueles que de ante-m\u00e3o Ele conheceu, Ele tamb\u00e9m os predestinou a reproduzir a imagem de seu Filho&#8230; E, aqueles que Ele predestinou, Ele tamb\u00e9m os chamou (\u00e0 f\u00e9); os que Ele chamou, Ele tamb\u00e9m os justificou (mediante o batismo); os que Ele justificou, Ele tamb\u00e9m os glorificou\u201d (Rom 8,28-30).<\/p>\n<p>Cf. Ef 1,3-6; Rom 9,14; 11,33; Mt 20,23; 22,14; 24,22-24; J\u00f4 6,39; 10,28.<\/p>\n<p>Na base destes textos, n\u00e3o resta d\u00favida entre os te\u00f3logos, desde o in\u00edcio do Cristianismo, sobre o fato da predestina\u00e7\u00e3o. Vejamos agora um ponto mais \u00e1rduo, que \u00e9<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O modo como Deus predestina<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Est\u00e1 claro que o homem, como ser essencialmente relativo, depende do Criador n\u00e3o somente quanto ao seu existir, mas tamb\u00e9m quanto ao agir; j\u00e1 que ele nada \u00e9 por si mesmo, tamb\u00e9m nada pode por si. \u00c9 Deus, pois, quem lhe outorga o dom de praticar atos bons e, mediante os seus atos bons, chegar ao \u00faltimo fim, \u00e0 bem-aventuran\u00e7a eterna. Esta conclus\u00e3o se torna particularmente imperiosa se se tem em vista o caso do crist\u00e3o: este \u00e9 chamado a um fim sobrenatural (a vis\u00e3o de Deus face a face), objetivo que, ultrapassando todas as exig\u00eancias da natureza, s\u00f3 por gra\u00e7a de Deus sobrenatural pode ser alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Estas proposi\u00e7\u00f5es, claras em si mesmas, suscitam s\u00e9rio problema desde que se indague: como conciliar a primazia da a\u00e7\u00e3o de Deus no homem com a liberdade de arb\u00edtrio da criatura? N\u00e3o se torna v\u00e3 esta \u00faltima debaixo daquela? Ou, vice-versa, n\u00e3o deve aquela retroceder para que seja esta salvaguardada?<\/p>\n<p>A fim de resolver a quest\u00e3o, dois sistemas s\u00e3o propostos pelos te\u00f3logos:<\/p>\n<p>1) <strong>&nbsp;o sistema molinista<\/strong>: segundo L. Molina S. J. (+ 1600), Deus oferece a sua gra\u00e7a a todo homem; este, posto diante da oferta, livremente escolhe aceit\u00e1-la ou n\u00e3o; caso a aceite, a gra\u00e7a se torna eficiente, e induz o homem a praticar o bem.<\/p>\n<p>Estendendo a sua doutrina \u00e0 quest\u00e3o da predestina\u00e7\u00e3o, Molina ensinava que Deus, desde toda a eternidade, na sua \u201cci\u00eancia m\u00e9dia\u201d, prev\u00ea como cada um dos homens se comportaria com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gra\u00e7a nas mais variadas circunst\u00e2ncias da vida. Diante desta vis\u00e3o, o Criador decreta colocar tal indiv\u00edduo em tais e tais circunst\u00e2ncias em que Ele sabe que a criatura aceitar\u00e1 a gra\u00e7a, e assim ir\u00e1 merecendo a salva\u00e7\u00e3o eterna. Desta forma. Deus predestina para a gl\u00f3ria, mas &#8211; note-se bem &#8211; <strong>praevisis<\/strong> <strong>meritis<\/strong>, depois de haver previsto os m\u00e9ritos da criatura.<\/p>\n<p>2) <strong>&nbsp;o sistema tomista <\/strong>(que tem por pioneiro Domingos Banes O.P. (+ 1604): partindo do princ\u00edpio de que nada, absolutamente nada, pode haver na criatura que n\u00e3o lhe venha de Deus, ensina que a gra\u00e7a \u00e9 eficaz por si mesma, anteriormente a qualquer determina\u00e7\u00e3o ou atitude do homem; n\u00e3o \u00e9 este quem determina aquela, mas \u00e9 a gra\u00e7a que predetermina a este, n\u00e3o moralmente apenas (por meio de exorta\u00e7\u00f5es), mas fisicamente (por sua mo\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca, soberana). Contudo a gra\u00e7a por si eficaz n\u00e3o extingue a liberdade de arb\u00edtrio do homem; ao contr\u00e1rio, movendo e predeterminando a criatura, move tudo que nesta se encontra, isto \u00e9, as faculdades de agir e o livre arb\u00edtrio mesmo; ela d\u00e1 ao homem n\u00e3o somente&nbsp; <strong>agir<\/strong>, e <strong>tal <\/strong>agir determinado, mas tamb\u00e9m a modalidade com que o homem costuma agir, isto \u00e9, a liberdade; em conseq\u00fc\u00eancia, sob a gra\u00e7a eficaz (na doutrina tomista) o homem pratica infalivelmente a a\u00e7\u00e3o \u00e0&nbsp; qual Deus predetermina, mas pratica-a sem perder a sua liberdade, antes atuando-a plenamente. Como se v\u00ea, o tomismo \u00e9 rigorosamente l\u00f3gico: partindo dos conceitos de Criador e criatura, ensina que Deus deve ser o Autor de tudo aquilo de que tamb\u00e9m o homem \u00e9 autor, at\u00e9 mesmo desta determina\u00e7\u00e3o do homem e do modo livre de tal determina\u00e7\u00e3o; o homem deve a Deus n\u00e3o somente a sua faculdade de livre arb\u00edtrio, mas tamb\u00e9m o uso preciso (tal e tal modo de usar) dessa faculdade.<\/p>\n<p>No tocante \u00e0 predestina\u00e7\u00e3o, o tomismo conseq\u00fcentemente afirma que Deus a decreta <strong>ante praevisa merita, <\/strong>&nbsp;antes de prever os m\u00e9ritos do homem: de maneira absoluta e independente, o Criador determina levar tal e tal criatura \u00e0 gl\u00f3ria eterna e, por conseguinte, conferir-lhe os meios necess\u00e1rios para que a alcance. Em conseq\u00fc\u00eancia desta predestina\u00e7\u00e3o \u00e9 que o homem produzir\u00e1 atos merit\u00f3rios no decorrer da sua vida; estes s\u00e3o gratuitos dons de Deus; n\u00e3o desencadeiam o amor divino, mas, ao contr\u00e1rio, s\u00e3o desencadeados pelo liberal benepl\u00e1cito do Senhor.<\/p>\n<p>Nos s\u00e9culos XVII\/XIX alguns te\u00f3logos procuraram sistemas intermedi\u00e1rios, conciliat\u00f3rios entre o tomismo e o molinismo; reca\u00edram, por\u00e9m, indiretamente neste ou naquele. De fato, os dois sistemas s\u00e3o irredut\u00edveis um ao outro. Quando foram pela primeira vez propostos na hist\u00f3ria, o Papa Clemente VIII instituiu em Roma uma Comiss\u00e3o ou Congrega\u00e7\u00e3o dita \u201cde autxiliis\u201d (\u201cconcernente aos aux\u00edlios da gra\u00e7a\u201d) a fim de os julgar. As sess\u00f5es da Congrega\u00e7\u00e3o prolongaram-se de 2 de janeiro de 1958 a 20 de agosto de 1607, tendo os Soberanos Pont\u00edfices tomado parte pessoal nos estudos respectivos. Finalmente o Papa Paulo V resolveu suspender o exame da quest\u00e3o, declarando l\u00edcito ensinar qualquer dos dois sistemas, pois nenhum deles envolve heresia (um \u00e9 outro salvaguardam suficientemente a soberana a\u00e7\u00e3o de Deus e o livre arb\u00edtrio do homem, embora o tomismo mais acentue aquela e o molinismo mais realce a este). O Papa bento XIV confirmou esta decis\u00e3o em um decreto de 13 de julho de 1748.<\/p>\n<p>Fica, portanto, aos te\u00f3logos e fi\u00e9is cat\u00f3licos a liberdade de optar entre as duas teorias acima propostas. O cat\u00f3lico tanto pode ser tomista como pode ser molinista; a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo em sua alma, a sua conaturalidade com as coisas de Deus lhe sugerir\u00e3o a atitude a tomar.<\/p>\n<p>H\u00e1, por\u00e9m, tr\u00eas pontos atinentes \u00e0 doutrina estudada sobre os quais a Santa Igreja se pronunciou definitivamente, de sorte que tanto molinistas como tomistas os professam indistintamente:<\/p>\n<p>1) a convers\u00e3o do pecador a Deus, ou seja, o ato inicial da via da salva\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 efeito da gra\u00e7a de Deus; \u00e9 Deus quem primeiramente se volta para o pecador e lhe d\u00e1 os meios de se colocar em estado de gra\u00e7a; n\u00e3o \u00e9 o homem quem por suas for\u00e7as naturais come\u00e7a a procurar o Senhor, recebendo d\u2019Este em resposta a gra\u00e7a sobrenatural;<\/p>\n<p>2) a perseveran\u00e7a final ou a morte em estado de gra\u00e7a (a boa morte) \u00e9 dom especial de Deus: n\u00e3o decorre dos m\u00e1rtires anteriores da pessoa, mas pode ser implorada pela ora\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>3) a predestina\u00e7\u00e3o \u201cadequada\u201d (isto \u00e9, o des\u00edgnio que compreende todos os aux\u00edlios sobrenaturais, desde a gra\u00e7a da convers\u00e3o at\u00e9 a gra\u00e7a da boa morte) \u00e9 gratuita ou anterior \u00e0 previs\u00e3o dos m\u00e9ritos da criatura. E isto, tanto no tomismo como no molinismo&#8230; Tamb\u00e9m este reconhece que \u00e9 Deus quem gratuitamente decreta colocar o homem em tais e tais circunst\u00e2ncias nas quais Ele prev\u00ea que a criatura far\u00e1 bom uso da gra\u00e7a (o tomismo diria:&#8230; nas quais Ele predetermina a criatura a fazer livremente bom o uso da gra\u00e7a).<\/p>\n<p>As tr\u00eas proposi\u00e7\u00f5es acima foram definidas por conc\u00edlios, cujas declara\u00e7\u00f5es se encontram em Denziger-Umberg, Enchiridion Symbolorum 176-180; 183-189, 191-193;200.<\/p>\n<p><strong>III. Um ju\u00edzo sobre a quest\u00e3o<\/strong><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<ol>\n<li>A muitos fi\u00e9is impressiona o fato de que Deus predestina positivamente alguns para a gl\u00f3ria celeste, deixando que outros se percam &#8211; fato firmemente atestado pela Sagrada Escritura e pela Tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Perguntam se n\u00e3o haveria nisto injusti\u00e7a da parte do Senhor.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&#8211; N\u00e3o; em absoluto. Considere-se que<\/p>\n<p>a) Deus a ningu\u00e9m criou com destino positivo para a perdi\u00e7\u00e3o ou a condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ensinavam o conc\u00edlio de Valen\u00e7a (Fran\u00e7a) em 855: \u201cIn malis ipsorum malitiam (Deus) praescivisse, quia ex ipsis est, non praedestinasse, quia ex illo non est. &#8211; Deus viu de ante-m\u00e3o a mal\u00edcia dos maus, porque prov\u00e9m deles, mas n\u00e3o a predestinou, porque n\u00e3o se deriva d\u2019Ele\u201d (Dz 322).<\/p>\n<p>Foi condenada pelo episcopado da G\u00e1lia no s\u00e9c. V a seguinte proposi\u00e7\u00e3o: \u201cCristo, Senhor e Salvador nosso, n\u00e3o morreu pela salva\u00e7\u00e3o de todos&#8230;; a preci\u00eancia de Deus impele o homem violentamente para a morte; e todo aquele que se perde, perde-se por vontade de Deus&#8230;; alguns s\u00e3o destinados \u00e0 morte, outros predestinados \u00e0 vida\u201d (carta de Fausto de Riez, ed. Migne lat. T. 53,683).<\/p>\n<p>Outras declara\u00e7\u00f5es da Igreja se encontram em Dz 200; 316-318; 321-323; 514; 816; 827.<\/p>\n<p>b) Deus, por\u00e9m, criou seres finitos (s\u00f3 pode haver um Infinito, Deus), aos quais \u00e9 inerente a falibilidade, o \u201cpoder errar\u201d.<\/p>\n<p>c) Esta falibilidade, sendo cong\u00eanita, naturalmente tende a se atuar num ou noutro. Deus concede, sim, a qualquer indiv\u00edduo humano os meios necess\u00e1rios para que se salve pois quer a salva\u00e7\u00e3o de todos os homens (cf. 1 Tim 2,4); isto \u00e9 doutrina freq\u00fcentemente afirmada pela Escritura e a Tradi\u00e7\u00e3o (cf. Dz 318); nenhum desses meios de salva\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, for\u00e7a a liberdade humana; esta \u00e9 sempre respeitada por Deus.<\/p>\n<p>d) Por conseguinte, a menos que o Criador intervenha extraordinariamente, algumas criaturas, em virtude da sua falibilidade natural, se encaminham para a ru\u00edna eterna; o Criador n\u00e3o lhes faz injusti\u00e7a se permite que se percam, apesar de terem os meios necess\u00e1rios para n\u00e3o se perderem.<\/p>\n<p>e) Dado, por\u00e9m, que Deus se empenhe infalivelmente pela salva\u00e7\u00e3o de alguns (muito ou poucos) homens, predestinando-os \u00e0 gl\u00f3ria eterna, Ele faz ato de pura miseric\u00f3rdia beneficia gratuitamente a estes, sem lesar em absoluto aos outros, que, por sua natural falibilidade e apesar dos aux\u00edlios divinos, se perdem (cf. a par\u00e1bola dos oper\u00e1rios na vinha, comentado em \u201cPergunte e Responderemos\u201d 1\/1958 qu. 8).<\/p>\n<p>O conc\u00edlio de Quierzy na G\u00e1lia em 853 declarava: \u201cQuod quidam salvantur, salvantis est donum; quod autem pereunt, pereuntilum est meritum. &#8211; O fato de que alguns se salvam, deve-se a um dom d\u2019Aquele que os salva; o fato de que outros se perdem, deve-se ao m\u00e9rito (m\u00e9rito mau ou dem\u00e9rito) dos que se perdem\u201d (Dz 318).<\/p>\n<p>Deus, no caso de uns, manifesta sua <strong>Bondade<\/strong> transcendente; no caso de outros patenteia sua <strong>Justi\u00e7a<\/strong>; em todo e qualquer caso, por\u00e9m, faz reluzir sua <strong>soberana Liberdade, <\/strong>&nbsp;a qual n\u00e3o pode ser necessitada por bem algum criado, pois ela \u00e9 o princ\u00edpio e a causa de qualquer bem: \u201cQue \u00e9 que te distingue dos outros? E que tens que n\u00e3o hajas recebido? E, se o recebeste, porque te vanglorias como se n\u00e3o o tivesses recebido?\u201d (1 Cor 4,7).<\/p>\n<p>A predestina\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o implica injusti\u00e7a em Deus; n\u00e3o deixa, por\u00e9m, de constituir um mist\u00e9rio, mist\u00e9rio porque, com nosso intelecto finito, n\u00e3o vemos plenamente como em Deus se conciliam Justi\u00e7a, Miseric\u00f3rdia e Liberdade, embora n\u00e3o nos seja plaus\u00edvel duvidar de que de fato se associam em estupenda harmonia (na vis\u00e3o face a face de Deus, no c\u00e9u, contemplaremos a s\u00e1bia combina\u00e7\u00e3o dos atributos divinos). &#8211; Em particular, n\u00e3o podemos assinalar motivo por que Deus escolhe tal homem para a gl\u00f3ria, e n\u00e3o tal outro, por que escolheu Pedro e n\u00e3o Judas; lembremo-nos de que n\u00e3o s\u00e3o os m\u00e9ritos do homem que a este atraem o amor de Deus, mas \u00e9 o amor antecipado de Deus que proporciona \u00e0 criatura os respectivos m\u00e9ritos Sto. Agostinho admoestava: \u201cQuare hunc trahat (Deus) et ilum non trahat, noli velle diiundicare, si non vis errare. &#8211; Porque \u00e9 que Deus atrai a este e n\u00e3o aquele, n\u00e3o queiras investigar, se n\u00e3o queres errar\u201d (In Io tr. 26 init.). Ante os des\u00edgnios do Criador, tome a criatura uma atitude de sil\u00eancio reverente; confie em Deus, cuja sabedoria e santidade certamente ultrapassam as de qualquer ser humano.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A luz dos procedentes, v\u00ea-se que sentido tem a frase de S\u00e3o Paulo: \u201cDeus quer que todos os homens sejam salvos\u201d (1 Tim 2,4). S\u00e3o Tomaz (I Sent. D. 46, q. 1, a.1) a distingue nos termos seguintes:<\/li>\n<\/ol>\n<p>a) Deus quer que se salvem todos os homens, enquanto os considera em si, como criaturas capazes de apreender a vida eterna, abstra\u00e7\u00e3o feita das circunst\u00e2ncias particulares em que tal ou tal homem se possa encontrar; deus a ningu\u00e9m criou sen\u00e3o para a vida eterna;<\/p>\n<p>b) O Criador, por\u00e9m, n\u00e3o pode (n\u00e3o pode, por causa de sua Justi\u00e7a) querer que todos se salvem, se considera cada um nas circunst\u00e2ncias precisas em que ocorre ao Divino Juiz; alguns, com efeito, se Lhe apresentam como criaturas que deliberadamente rejeitam ser salvas ou recusam estar com Deus, pois se rebelaram conscientemente (por um pecado grave) contra Ele e permanecem impenitentes ou apegados ao pecado; o Senhor respeita o alvitre de tais homens e, em conseq\u00fc\u00eancia, s\u00f3 pode querer assinalar-lhes a sorte por que optaram (embora tenha feito tudo para se salvarem).<\/p>\n<p>\u00c9 esta a famosa distin\u00e7\u00e3o entre \u201cvontade antecedente\u201d (isto \u00e9, que considera seu objeto em si, abstraindo das circunst\u00e2ncias concretas em que ocorre) e \u201cvontade conseq\u00fcente\u201d (isto \u00e9, que considera o mesmo na situa\u00e7\u00e3o precisa em que se acha). S. Tomaz ilustra a doutrina lembrando o que se d\u00e1 com todo juiz justo: este, em tese, antes de examinar as causas judici\u00e1rias, quer que todo e qualquer homem permane\u00e7a em vida; dado, por\u00e9m, que se apresente algum homicida, ele n\u00e3o pode (porque \u00e9 justo) deixar de querer seja punido (e punido com a pena de morte, onde esta \u00e9 imposta pela lei).<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A atitude pr\u00e1tica do crist\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O mist\u00e9rio da predestina\u00e7\u00e3o dos justos para a gl\u00f3ria, embora apresente seus aspectos luminosos, tem suas ra\u00edzes na insond\u00e1vel Magnific\u00eancia divina; n\u00e3o podemos sempre assinalar a causa por que Deus outorga tal dom a tal pessoa. A quem o interrogasse a respeito. Ele diria com o Senhor da par\u00e1bola: \u201cAmigo, n\u00e3o cometo injusti\u00e7a para contigo&#8230; Toma o que te compete, e vai-te&#8230; N\u00e3o tenho o direito de dispor dos meus bens como me agrada? Ou tornar-se-\u00e1 mau o teu modo de ver pelo fato de que Eu sou bom?\u201d (Mt 20,13-15).<\/p>\n<p>Consciente disto, o crist\u00e3o n\u00e3o se det\u00e9m em perscrutar sutilmente o que est\u00e1 acima do seu alcance, preocupando-se com quest\u00f5es curiosas ou v\u00e3s atinentes \u00e0 predestina\u00e7\u00e3o. Na orienta\u00e7\u00e3o da sua conduta cotidiana, tenha o fiel ante os olhos as tr\u00eas seguintes proposi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>1) Deus a ningu\u00e9m absolutamente faz injusti\u00e7a, nem no decorrer desta vida nem no momento do ju\u00edzo final;<\/p>\n<p>2) Muito ao contr\u00e1rio, o Criador se comporta para com todos qual Pai cheio de amor ou como o primeiro Ator empenhado na salva\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>Lembra o conc\u00edlio de Trento, retomando palavras de Sto. Agostinho:<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o manda o imposs\u00edvel, mas, dando os seus preceitos. Exorta-te a fazer o que podes e a pedir-lhe a gra\u00e7a para o que n\u00e3o podes, e auxilia-te para que o possas\u201d (Sto Agostinho, de natura et&nbsp; gratia 43,50; Denziger 804).<\/p>\n<p>Mais ainda:<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o abandona a n\u00e3o ser que primeiro seja abandonado. &#8211; Non deserit nisi prius deseratur\u201d (Dz 804).<\/p>\n<p>3) A atitude pr\u00e1tica do crist\u00e3o encontras \u00f3timo modelo em S\u00e3o Paulo:<\/p>\n<p>a) de um lado, o Ap\u00f3stolo, consciente da efic\u00e1cia e da responsabilidade do livre arb\u00edtrio, lutava qual bom atleta no est\u00e1dio para conseguir a incorrupt\u00edvel coroa da vida (cf. 1 Cor 9, 24-27). No mist\u00e9rio da predestina\u00e7\u00e3o, muita coisa pode ficar oculta ao fiel; contudo nunca lhe restar\u00e1 d\u00favida sobre o fato de que Deus exige de cada um todo o zelo de que \u00e9 capaz para chegar \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. Nisto se diferencia a doutrina tradicional crist\u00e3 de qualquer fatalismo ou determinismo: Deus n\u00e3o retira ao homem o dom do livre arb\u00edtrio e da responsabilidade pr\u00f3pria com que o quis dignificar; nem h\u00e1 for\u00e7a super-humana cega que de antem\u00e3o torne v\u00e3os os esfor\u00e7os da criatura que procura o Criador. Portanto, errado estaria quem, com vistas \u00e0 vida eterna, tomasse atitude desinteressada e passiva, baseada em racioc\u00ednio an\u00e1logo ao seguinte: \u201cSe tenho que quebrar a cabe\u00e7a, nada me pode preservar desta desgra\u00e7a; n\u00e3o importa, pois, que me atire ou deixe de me atirar \u00e0 rua pela janela do quinto andar da casa\u201d. \u00d3 homem, nada h\u00e1 que determine a tua sorte eterna independentemente do teu livre arb\u00edtrio ! O decreto pelo qual Deus predestina algu\u00e9m \u00e0 salva\u00e7\u00e3o eterna, implica sempre que esta ser\u00e1 obtida mediante a livre coopera\u00e7\u00e3o do homem.<\/p>\n<p>b) De outro lado, S\u00e3o Paulo, o lutador de Cristo, era feliz ao pensar na sua sorte p\u00f3stuma; assim tamb\u00e9m o crist\u00e3o. Para o Ap\u00f3stolo, morrer equivalia a \u201cdissolver-se para estar com Cristo\u201d (cf. Flp 1,23), \u201cdeixar de ser peregrino na terra a fim de viver na casa do Senhor\u201d (cf. 2 Cor 5,8). Todo disc\u00edpulo de Cristo, embora reconhe\u00e7a a possibilidade de frustrar o seu \u00faltimo fim, tem confian\u00e7a no Pai do c\u00e9u e sabe que a procura sincera de Deus na terra n\u00e3o poder\u00e1 ficar v\u00e3 junto ao Pai; vive, por conseguinte, em demanda otimista da mans\u00e3o celeste, consciente de que Deus o chama continuamente a esta ap\u00f3s lhe ter preparado os meios para a conseguir. E, firme nesta cren\u00e7a, n\u00e3o permite que hip\u00f3teses inconsistentes tomem na sua mente o lugar de verdades seguras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Revista: \u201cPERGUNTE E RESPONDEREMOS\u201d<\/p>\n<p>N\u00ba 5, Ano 1958, P\u00e1gina 184.<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estev\u00e3o Bettencourt, osb. Abordamos aqui uma das quest\u00f5es mais elevadas da f\u00e9 crist\u00e3. Para penetr\u00e1-la, o estudioso tem que se resolver a n\u00e3o se deixar levar pelo sentimentalismo nem pelo antropocentrismo. Mas estritamente pelos dados da Revela\u00e7\u00e3o, que \u00e9 sobrenatural&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":20653,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[103,24565,50720,135108],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20652"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20652"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20652\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":20654,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20652\/revisions\/20654"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/media\/20653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}