{"id":3321,"date":"2007-09-14T18:42:05","date_gmt":"2007-09-14T15:42:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/09\/14\/debate-leonardo-boff-x-dom-estevao-bettencourt-ano-1996\/"},"modified":"2012-05-10T17:31:11","modified_gmt":"2012-05-10T20:31:11","slug":"debate-leonardo-boff-x-dom-estevao-bettencourt-ano-1996","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/2007\/09\/14\/debate-leonardo-boff-x-dom-estevao-bettencourt-ano-1996\/","title":{"rendered":"Debate Leonardo Boff x Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt (Ano 1996)"},"content":{"rendered":"<p><strong>Duas vis\u00f5es da mesma Igreja<\/strong><\/p>\n<p>No centro de nova pol\u00eamica, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 debatida por Leonardo Boff e Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt<\/p>\n<p>CELINA C\u00d4RTES<\/p>\n<p>Fonte: JORNAL DO BRASIL &#8211; Domingo, 18 de Fevereiro de 1996 &#8211; Caderno B<\/p>\n<p>A doutrina conhecida como Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o (TL) sofreu um duro golpe no \u00faltimo dia 5, quando, em sua viagem por pa\u00edses da Am\u00e9rica Central, o Papa Jo\u00e3o Paulo II declarou que, com a queda do comunismo, &#8220;caiu tamb\u00e9m a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o&#8221;. Preocupada com uma pr\u00e1tica que busque solu\u00e7\u00f5es para a injusti\u00e7a social na Am\u00e9rica Latina, a corrente progressista chegou a ser vista como uma amea\u00e7a de desmembramento dentro da Igreja. Por isso, seu maior defensor no Brasil, o te\u00f3logo franciscano catarinense Leonardo Boff, 57 anos, acabou condenado a passar 11 meses em sil\u00eancio, em 1985, sob a acusa\u00e7\u00e3o de duvidar da origem divina da hierarquia cat\u00f3lica em seu livro Igreja, carisma e poder (1981). Segundo Boff, que abandonou a batina, o processo que culminou com a puni\u00e7\u00e3o teve a intensa participa\u00e7\u00e3o do monge beneditino carioca Est\u00eav\u00e3o Bettencourt, 76 anos, identificado com o setor mais conservador da Igreja. Agora, com a recente manifesta\u00e7\u00e3o do papa sobre a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, Boff e Dom Est\u00eav\u00e3o aceitaram com grande entusiasmo a proposta de que fosse realizado um debate sobre o tema, via fax. Na troca de perguntas e respostas, publicadas abaixo e na p\u00e1gina 5, Dom Est\u00eav\u00e3o acusa a TL de ter provocado uma debandada de fi\u00e9is. Boff contra-ataca criticando o que chama de Igreja hier\u00e1rquica. No debate, cada qual defende, a seu modo, a op\u00e7\u00e3o da Igreja pelos pobres.<\/p>\n<p><strong>Leonardo Boff pergunta a Dom Est\u00eav\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; O papa escreveu numa carta aos bispos, em 1986, que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o (TL) &#8220;\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 oportuna mas \u00fatil e necess\u00e1ria&#8221; e representa uma &#8220;nova etapa da reflex\u00e3o teol\u00f3gica&#8221;. Agora, 10 anos depois, segundo os jornais, diz que esta teologia desapareceu com a morte do socialismo. O papa n\u00e3o pode estar contra o papa. Como o senhor entende essas opini\u00f5es contr\u00e1rias?<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong> &#8211; A afirma\u00e7\u00e3o acima n\u00e3o pode ser desvinculada do seu contexto. Ora, o contexto em foco \u00e9 o seguinte: ap\u00f3s convidar os bispos do Brasil a procurar respostas coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da Tradi\u00e7\u00e3o viva e do perene Magist\u00e9rio da Igreja, diz o papa: &#8220;Estamos convictos (&#8230;) de que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o s\u00f3 oportuna, mas \u00fatil e necess\u00e1ria. Ela deve constituir uma nova etapa &#8211; em estrita conex\u00e3o com as anteriores &#8211; daquela reflex\u00e3o teol\u00f3gica iniciada com a tradi\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica e continuada com os grandes padres e doutores, com o Magist\u00e9rio ordin\u00e1rio e extraordin\u00e1rio e, na \u00e9poca mais recente, com o rico patrim\u00f4nio da Doutrina Social da Igreja (DSI) expressa em documentos que v\u00e3o da Rerum Novarum \u00e0 Laborem Exercens&#8221;. Poucos meses ap\u00f3s tal carta, o papa a mencionava em Bogot\u00e1 e dizia: &#8220;Quis recordar que a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o deve desenvolver-se em sintonia e sem rupturas com a Tradi\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica da Igreja e de acordo com a sua Doutrina Social&#8221;. A prova de que a controvertida TL n\u00e3o atende a essas exig\u00eancias \u00e9 a Instru\u00e7\u00e3o Libertatis Nuntius (6\/8\/84), que aponta os aspectos nevr\u00e1lgicos da TL. Na verdade, h\u00e1 v\u00e1rias modalidades de TL, a come\u00e7ar pela de S\u00e3o Paulo, que \u00e9 paradigm\u00e1tica e prega a liberta\u00e7\u00e3o do g\u00eanero humano escravizado pelo pecado; esta \u00e9 a TL autenticamente crist\u00e3, sendo a instaura\u00e7\u00e3o da justa ordem social um corol\u00e1rio de tal doutrina. Por conseguinte, quando o papa afirma que a TL outrora controvertida est\u00e1 extinta, ele n\u00e3o se contradiz.<\/p>\n<p><strong>Dom Est\u00eav\u00e3o pergunta a Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Como justificar o recurso da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e0 an\u00e1lise marxista, que \u00e9 materialista e at\u00e9ia? A \u00e1rvore m\u00e1 n\u00e3o pode dar frutos bons (Mt 7,18). O ate\u00edsmo n\u00e3o pode contribuir para elaborar uma s\u00edntese de f\u00e9.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o nunca assumiram o marxismo como uma cosmovis\u00e3o unit\u00e1ria, explicativa do homem, do mundo, de corte declaradamente at\u00e9ia. Seguiram o Papa Paulo VI na enc\u00edclica Octogesima Adveniens de 1971, que acolhe distin\u00e7\u00f5es no marxismo, como uma pr\u00e1tica de luta de classes, como forma de governo de partido \u00fanico, como maneira de organiza\u00e7\u00e3o da sociedade de molde socialista e, por fim, como um m\u00e9todo de an\u00e1lise social e pol\u00edtica. Muitos te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o, nem todos, assumiram v\u00e1rias categorias da tradi\u00e7\u00e3o marxista, seja de Marx (a import\u00e2ncia do econ\u00f4mico na compreens\u00e3o da sociedade, a mercadoria como fetiche, a categoria da aliena\u00e7\u00e3o etc), seja de Gramsci (a import\u00e2ncia do pol\u00edtico, do bloco hist\u00f3rico, a fun\u00e7\u00e3o positiva da religi\u00e3o na forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia libert\u00e1ria), seja no marxismo acad\u00eamico franc\u00eas (Althusser). Estas categorias nos permitiram ver com clareza a irracionalidade e a desumanidade do sistema do capital. Marx deixou-nos evidente que o pobre n\u00e3o \u00e9 um pobre, mas um empobrecido e um oprimido, li\u00e7\u00e3o que os papas recentes e os bispos latino-americanos em Puebla (1979) tardiamente tamb\u00e9m aprenderam. Li\u00e7\u00e3o que n\u00e3o devemos esquecer nos dias de hoje, ofuscados pelo neoliberalismo que, para garantir seu n\u00edvel de acumula\u00e7\u00e3o mundialmente integrado, custa ao grande Sul uma Hiroxima-Nagasaki a cada dois dias. A an\u00e1lise vale pela luz que ela produz, n\u00e3o pelo fato de ser at\u00e9ia ou te\u00edsta. Prefiro mil vezes um m\u00e9dico ateu e bom que me cura do que um m\u00e9dico mui crist\u00e3o e incompetente que me mata. O Esp\u00edrito Santo falou por Marx, pois, como disse S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, repetindo uma longa tradi\u00e7\u00e3o: &#8220;Qualquer verdade, seja quem for que a diga, prov\u00e9m do Esp\u00edrito Santo atrav\u00e9s de quem a fala&#8221;. Pobre seria a s\u00edntese crist\u00e3 que n\u00e3o aprendesse nada de Marx nem incorporasse as verdades que por ele o Esp\u00edrito nos disse. N\u00e3o assim pensou o Papa Xisto V, que mandou colocar um obelisco eg\u00edpcio bem no centro da Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro com os seguintes dizeres: &#8220;Xisto V, Pont\u00edfice M\u00e1ximo, mandou transportar com muita fadiga at\u00e9 a S\u00e9 dos Ap\u00f3stolos este obelisco vaticano, que outrora fora dedicado ao \u00edmpio culto dos deuses pag\u00e3os&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Impasse entre Boff e Est\u00eav\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Nas perguntas e respostas a seguir, Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt e Leonardo Boff discutem uma quest\u00e3o aparentemente velha mas atual\u00edssima: de que forma a Igreja pode contribuir diante do quadro de desigualdade social. Para Dom Est\u00eav\u00e3o, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o (TL), ao filtrar sua teoria \u00e0 luz do marxismo, distanciou o povo da Igreja. &#8220;S\u00f3 se ouviam discursos de ordem pol\u00edtica, provocadores do \u00f3dio&#8221;, diz o te\u00f3logo, para quem n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio se filiar \u00e0 TL para responder \u00e0 problem\u00e1tica social. &#8220;Basta conhecer o Evangelho e proceder de acordo&#8221;, resume.<\/p>\n<p>J\u00e1 Leonardo Boff critica o paternalismo e o assistencialismo da Igreja. &#8220;Ela faz muito para os pobres mas muito pouco com os pobres e quase nada a partir dos pobres&#8221;. Segundo Boff, o importante \u00e9 que o povo seja sujeito de sua pr\u00e1tica social e, para tanto, a liberta\u00e7\u00e3o espiritual tem que envolver tamb\u00e9m uma liberta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cultural e pol\u00edtica. E parafraseando Jesus Cristo, sintetiza: &#8220;O mais importante \u00e9 a justi\u00e7a, depois o pagamento dos d\u00edzimos da Lei&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Leonardo Boff pergunta a D. Est\u00eav\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Haja ou n\u00e3o Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 ineg\u00e1vel que os pobres est\u00e3o a\u00ed e aumentam em n\u00edvel mundial. Pobreza, bem disseram os bispos latino-americanos em Puebla, em 1979, n\u00e3o \u00e9 uma etapa casual mas o resultado de determinadas estruturas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas. Isso foi dito por Marx um s\u00e9culo antes. Portanto, pobreza \u00e9 empobrecimento, opress\u00e3o. \u00c9 eticamente uma injusti\u00e7a e teologicamente um pecado social. E se \u00e9 pecado, tem a ver com Deus e contra Deus. O oposto \u00e0 opress\u00e3o \u00e9 a liberta\u00e7\u00e3o. Os crist\u00e3os, por seu ide\u00e1rio, devem ter uma pr\u00e1tica de liberta\u00e7\u00e3o. E quando criam a teoria desta pr\u00e1tica nasce a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o. O que o senhor pensa disso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Quer aceitemos ou n\u00e3o, h\u00e1 um fato ineg\u00e1vel: a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o aproximou muito os bispos, padres, religiosos e leigos do mundo dos pobres. Por causa da pr\u00e1tica libertadora, a Igreja latino-americana \u00e9 a \u00fanica atualmente que tem m\u00e1rtires, desde arcebispos como Dom Romero at\u00e9 simples leigos que foram seq\u00fcestrados, torturados e mortos. Sempre se entendeu o mart\u00edrio como o grande argumento da veracidade da op\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os. Parece que as autoridades do Vaticano t\u00eam dificuldade em reconhecer esse testemunho. Como interpreta tal hesita\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong> &#8211; Data venia, contesto a afirma\u00e7\u00e3o. Abstra\u00e7\u00e3o feita de casos particulares, verificamos que a TL provocou divis\u00f5es no povo crist\u00e3o. Os respectivos te\u00f3logos puseram-se a falar de &#8220;Igreja que nasce do povo&#8221;, ou &#8220;Igreja popular&#8221; em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 hierarquia. A oposi\u00e7\u00e3o se verificou nitidamente nos encontros das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Em Canind\u00e9, por exemplo, em julho de 1983, os militantes diziam que op\u00e7\u00e3o pelos pobres significa povo unido e povo unido sifnifica op\u00e7\u00e3o de classes: povo unido indica tamb\u00e9m uma nova pr\u00e1tica que revela o conflito social, que tem como fun\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica desmascarar ou ent\u00e3o revelar a op\u00e7\u00e3o de classe. Em Trindade (GO), em 1986, dizia um militante: &#8220;CEBs somos n\u00f3s. Vamos acabar com a hierarquia eclesial&#8221;. Ao que outro respondeu: &#8220;N\u00e3o \u00e9 o caso de acabar com a hierarquia; os bispos e os padres&#8230; devem se converter ao povo&#8221;. As CEBs nem sempre quiseram romper os la\u00e7os com a hierarquia, mas fizeram quest\u00e3o de que a hierarquia estivesse do lado delas. Leonardo Boff resumiu seu pensamento numa frase: &#8220;O importante n\u00e3o \u00e9 saber se h\u00e1 povo sem bispos, mas se h\u00e1 bispos sem povo&#8221;. Quanto aos m\u00e1rtires, notemos que o conceito b\u00edblico e cl\u00e1ssico de mart\u00edrio \u00e9 &#8220;morte em testemunho da f\u00e9&#8221; (in odium fidei, por causa do \u00f3dio \u00e0 f\u00e9 da parte dos algozes). Ora, podemos dizer que os &#8220;m\u00e1rtires da Am\u00e9rica Latina&#8221; n\u00e3o morreram por professarem a f\u00e9 crist\u00e3, odiada por seus carrascos; morreram sim por causa de op\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica (compat\u00edvel com o ate\u00edsmo) contr\u00e1ria a outra op\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-pol\u00edtica (da ordem constitucional vigente).<\/p>\n<p><strong>&#8211; O senhor n\u00e3o acha que as idas e vindas do Vaticano com refer\u00eancia \u00e0 Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, que d\u00e1 centralidade \u00e0s causas dos pobres, e \u00e0s retic\u00eancias face \u00e0 op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres contra a sua pobreza, n\u00e3o acabam por escandalizar os pobres e finalmente confirmam a id\u00e9ia ou o preconceito de que a Igreja \u00e9 hier\u00e1rquica, contra-revolucion\u00e1ria e conservadora, mais perto dos pal\u00e1cios dos C\u00e9sares do que da barca do pobre Pedro?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Durante os anos em que se debateu a TL, os pobres debandaram maci\u00e7amente da Igreja, apesar da propalada op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres. Estes iam \u00e0 Igreja sequiosos de ouvir uma palavra sobre Deus e os valores espirituais (dos quais os pobres n\u00e3oa s\u00e3o menos famintos que os demais homens), mas s\u00f3 ouviam discursos de ordem pol\u00edtica, provocadores do \u00f3dio, da desconfian\u00e7a, da luta&#8230; Muitos se escandalizaram com a politiza\u00e7\u00e3o geral do Cristianismo, com os abusos cometidos na Liturgia, com o teor passional dos cantos pastorais, com o conte\u00fado dos serm\u00f5es (que jogavam uns contra os outros), com a perda de identidade de quem devia dar a nota religiosa \u00e0s assembl\u00e9ias de culto&#8230; A Igreja n\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel ao uso da viol\u00eancia para a reforma social, pois viol\u00eancia gera viol\u00eancia. O papa tem representado a Igreja com brio, visto ser o \u00fanico l\u00edder mundial que nos cinco continentes encontra audi\u00eancia atenta (ver Filipinas em janeiro de 1995, onde tr\u00eas milh\u00f5es de jovens se reuniram); de maneira simples, sem estilo de pa- l\u00e1cio dos C\u00e9sares. Como verdadeiro sucessor de Pedro, mas em tom vigoroso, tem pregado a renova\u00e7\u00e3o da sociedade, preconizando, antes do mais, a convers\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es sem a qual a reforma das estruturas ser\u00e1 sempre v\u00e3.<\/p>\n<p><strong>D. Est\u00eav\u00e3o pergunta a Leonardo Boff<\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Como entender um Cristianismo arreligioso, em que &#8220;a ora\u00e7\u00e3o, a missa e os sacramentos n\u00e3o s\u00e3o a parte mais importante&#8230; Um Cristianismo que n\u00e3o confere um sentido objetivo e sobrenatural \u00e0 luta popular, mas \u00e9 a luta popular que d\u00e1 sentido \u00e0 f\u00e9?&#8221; (Cf. Clodovis Boff, Do pol\u00edtico, pp. 102-107).<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Dom Est\u00eav\u00e3o cita e resume mal a opini\u00e3o de meu irm\u00e3o, tamb\u00e9m te\u00f3logo, Clodovis. Permito-me cit\u00e1-lo e depois entro nos m\u00e9ritos do debate: &#8220;Quando lutamos pelos homens, sobretudo pelos oprimidos, lutamos por Ele, Deus, quer saibamos, quer n\u00e3o. Ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a dos crist\u00e3os que confere a um movimento hist\u00f3rico seu car\u00e1ter sobrenatural. Depende da retid\u00e3o \u00e9tica de seus agentes. A presen\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o na liberta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u00e9 objetiva&#8230; Toda hist\u00f3ria humana se desenrola dentro da ordem da salva\u00e7\u00e3o, ou seja, sob o signo real da salva\u00e7\u00e3o oferecida desde sempre e que os homens aceitam ou rejeitam atrav\u00e9s de suas pr\u00e1ticas&#8230; N\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 que confere um sentido sobrenatural ou divino \u00e0 luta. \u00c9 o inverso que ocorre: \u00e9 esse sentido objetivo e intr\u00ednseco que confere \u00e0 f\u00e9 sua for\u00e7a&#8221; (Da liberta\u00e7\u00e3o, Vozes 1980, 106-107). Vamos traduzir em palavras simples este dialeto teol\u00f3gico. Deus empapa a hist\u00f3ria. Est\u00e1 sempre presente e atuante em sua cria\u00e7\u00e3o e nas pr\u00e1ticas humanas. Por a\u00ed vai realizando seu des\u00edgnio em articula\u00e7\u00e3o com os des\u00edgnios humanos. Assim, se Fidel Castro ou Mao Tse-Tung por suas revolu\u00e7\u00f5es conseguem mais vida e meios de vida para suas popula\u00e7\u00f5es, como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, lazer, justi\u00e7a e beleza, significa que bens do Reino de Deus, dimens\u00f5es do des\u00edgnio divino se realizaram, quer eles queiram ou n\u00e3o, quer creiam ou n\u00e3o. O conte\u00fado divino ou &#8220;sobrenatural&#8221; (n\u00e3o gosto desta palavra porque \u00e9 amb\u00edgua e uma cria\u00e7\u00e3o da teologia recente, Tom\u00e1s de Aquino nem conhece esta categoria) est\u00e1 garantido pela retid\u00e3o de tais pr\u00e1ticas pol\u00edticas. Por isso um confrade do Mosteiro de S\u00e3o Bento, Dom Marcos Barbosa, podia poetar em boa teologia: &#8220;Varredor, que varres a rua, tu varres o Reino de Deus&#8221;. Mas essa liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 integral porque n\u00e3o incorpora a explicita\u00e7\u00e3o de sua \u00faltima origem em Deus. Por isso os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o podem dizer com acerto: o mais importante n\u00e3o \u00e9 a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, mas a liberta\u00e7\u00e3o concreta dos oprimidos. Mas a integralidade comporta a liberta\u00e7\u00e3o e a express\u00e3o de seu momento tamb\u00e9m divino ao lado do momento popular, econ\u00f4mico, pol\u00edtico, cultural&#8230; N\u00e3o disse outra coisa Jesus quando advertiu os fariseus: o mais importante \u00e9 a justi\u00e7a, a miseric\u00f3rdia e a fidelidade, depois o pagamento dos d\u00edzimos da Lei. \u00c9 aquilo que importa fazer sem omitir isso (Mt 23,23).<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como explicar que, precisamente quando se apregoou a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, os pobres come\u00e7aram a abandonar a Igreja? Um economista comparou o fato \u00e0 lei da oferta e da procura: se a procura de Deus n\u00e3o encontrava resposta na prega\u00e7\u00e3o da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o, a demanda se voltou para inst\u00e2ncias n\u00e3o cat\u00f3licas.<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; A op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres quer superar o cl\u00e1ssico paternalismo e assistencialismo eclesi\u00e1stico. Faz muito para os pobres mas muito pouco com os pobres e quase nada a partir dos pobres. Pela op\u00e7\u00e3o pelos pobres se pretende dar centralidade aos pobres. Eles n\u00e3o s\u00e3o apenas aqueles que n\u00e3o t\u00eam. Eles t\u00eam saber, experi\u00eancia, sentido de luta e resist\u00eancia. Muito a Igreja clerical tem a aprender dos pobres. A liberta\u00e7\u00e3o somente \u00e9 real se for feita pelos pr\u00f3prios pobres, a partir de sua perspectiva na medida em que se sentem sujeitos de sua pr\u00e1tica, ganham consci\u00eancia, se organizam e estabelecem pr\u00e1ticas de transforma\u00e7\u00e3o. A Igreja, os padres, os te\u00f3logos e outros agentes org\u00e2nicos entram como aliados dos pobres, contra sua pobreza e a favor de sua justi\u00e7a. O importante \u00e9 que o pobre seja e se sinta sujeito de sua pr\u00e1tica social e eclesial. E aqui est\u00e1 a grande quest\u00e3o: na Igreja atual, hier\u00e1rquica e clerical, os pobres n\u00e3o s\u00e3o sujeitos. Com os c\u00edrculos b\u00edblicos, com a reflex\u00e3o comunit\u00e1ria e com a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o descobrem que na Igreja hier\u00e1rquica que det\u00e9m o monop\u00f3lio das decis\u00f5es e das palavras que contam, eles n\u00e3o s\u00e3o reconhecidos em seus direitos e em suas responsabilidades. Os minist\u00e9rios leigos n\u00e3o s\u00e3o minist\u00e9rios leigos, s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es sacerdotais confiadas aos leigos porque h\u00e1 car\u00eancia de padres. Toda iniciativa tem que ser aprovada de cima. No sindicato contam e valem. Na comunidade crist\u00e3 n\u00e3o, porque s\u00e3o infantilizados e marginalizados. E ainda t\u00eam que engolir a falsifica\u00e7\u00e3o clerical que \u00e9 a vontade de Deus e de Jesus, que na Igreja devem existir cl\u00e9rigos e leigos, mas o mando s\u00f3 cabe aos cl\u00e9rigos. D\u00e3o-se conta que as mulheres n\u00e3o valem e que os direitos b\u00e1sicos n\u00e3o s\u00e3o respeitados. Saem da Igreja hier\u00e1rquica porque s\u00e3o bons crist\u00e3os conscientes e denunciam o qu\u00e3o ruim \u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o piramidal deste tipo de Igreja. Na verdade n\u00e3o saem da Igreja. Ajudaram a criar outro modelo de Igreja, mais pr\u00f3ximo de Jesus e da grande Tradi\u00e7\u00e3o, a Igreja-comunidade de irm\u00e3os e irm\u00e3s. Aqui eles encontram a satisfa\u00e7\u00e3o de suas demandas religiosas. E ainda t\u00eam f\u00e9 de conviver em comunh\u00e3o com a Igreja hier\u00e1rquica, na esperan\u00e7a de que ela um dia se converta ao Evangelho e ao povo. O economista citado pode ser um bom economista mas \u00e9 um analista fraco. As pessoas v\u00e3o a inst\u00e2ncias n\u00e3o cat\u00f3licas porque a rigidez das igrejas hist\u00f3ricas n\u00e3o lhes comunica um Deus vivo, mas demasiadas doutrinas e preceitos humanos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Como sustentar, aos olhos da raz\u00e3o, que o crit\u00e9rio da verdade \u00e9 a praxis ou a efic\u00e1cia transformadora da sociedade? N\u00e3o equivale isto a esvaziar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de verdade? A verdade tem caracter\u00edsticas de perenidade e n\u00e3o \u00e9 contingente.<\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p><strong> <\/strong> &#8211; Os te\u00f3logos da liberta\u00e7\u00e3o n\u00e3o elaboraram uma teoria espec\u00edfica da verdade. O que eles querem dizer \u00e9 algo profundamente tradicional e pertencente \u00e0 dogm\u00e1tica da Igreja: n\u00e3o basta ter verdades e proclamar &#8220;Senhor, Senhor&#8221; e com isso construir uma bela teologia. O que salva \u00e9 o amor ou como diz um Conc\u00edlio Ecum\u00eanico: veritas sicut opportet ad salutem consequendam, veritas caritate informata, verdade como \u00e9 necess\u00e1ria para conseguir a salva\u00e7\u00e3o, vale dizer, a verdade imbu\u00edda de amor. Caso contr\u00e1rio o diabo (caso exista) estaria salvo. Ele conhece as verdades mais que os papas e todos os te\u00f3logos. Mas n\u00e3o tem amor. Por isso est\u00e1 onde est\u00e1, no mundo do sem-amor que \u00e9 o inferno. Esta vis\u00e3o supera todo o intelectualismo e obriga o Cristianismo a ser n\u00e3o uma ideologia ou cosmovis\u00e3o, mas uma pr\u00e1tica transformadora do anti-Reino em Reino, de pecado em gra\u00e7a. Ent\u00e3o a verdade se veri-fica, quer dizer, fica verdadeira. Mas quero entrar num aspecto te\u00f3rico acenado por D. Est\u00eav\u00e3o, ao dizer que a verdade n\u00e3o \u00e9 contingente, mas perene. Suspeito que esteja preso a um tipo de compreens\u00e3o da verdade que n\u00e3o colhe dimens\u00f5es importantes dela. Suspeito que para ele verdade seja a reta conformidade da representa\u00e7\u00e3o com a coisa. Este aspecto \u00e9 importante, caso contr\u00e1rio estamos no mundo da mentira. Mas verdade \u00e9 mais que este aspecto epistemol\u00f3gico. H\u00e1 uma dimens\u00e3o ontol\u00f3gica, bem vista pelos gregos com sua no\u00e7\u00e3o de desvelamento (a-l\u00e9theia) e pela B\u00edblia com seu conceito de revela\u00e7\u00e3o. Segundo isso, a verdade \u00e9 o processo de desvelamento e de revela\u00e7\u00e3o do ser, melhor, da presen\u00e7a do ser. Esta presen\u00e7a irradia e o ser humano vai captando historicamente o que consegue captar e o que esta presen\u00e7a entrega de si mesma. De mais a mais, a ontologia contempor\u00e2nea \u00e9 baseada na historicidade de todas as coisas (o tempo \u00e9 intr\u00ednseco aos seres e n\u00e3o extr\u00ednseco) e na constata\u00e7\u00e3o da moderna cosmologia, segundo a qual nos confrontamos sempre com sistemas abertos, inseridos na seta do tempo (Prigogine) de sorte que tudo est\u00e1 em g\u00eanese (cosmog\u00eanese, antropog\u00eanese, cristog\u00eanese) e nada est\u00e1 acabado para sempre, mas continua cheio de virtualidades e nos sugere entender a verdade como um processo sempre de novo retomado de sintonia, conformidade e abertura ao que vai se revelando e emergindo. S\u00f3 no termo do processo temos a verdade em sua plenitude. Teologicamente podemos dizer: a verdade de alguma coisa \u00e9 sua conformidade com o des\u00edgnio de Deus sobre esta coisa. Ora, este des\u00edgnio n\u00e3o se revelou totalmente. S\u00f3 no termo do processo de cria\u00e7\u00e3o \u00e9 verdade: &#8220;E Deus viu que tudo era bom&#8221;.<\/p>\n<p>Fonte: JORNAL DO BRASIL &#8211; Domingo, 18 de Fevereiro de 1996 &#8211; Caderno B<\/p>\n<p>Data Publica\u00e7\u00e3o: 14\/09\/2007<\/p>\n<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on the_content --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on the_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Duas vis\u00f5es da mesma Igreja No centro de nova pol\u00eamica, a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o \u00e9 debatida por Leonardo Boff e Dom Est\u00eav\u00e3o Bettencourt CELINA C\u00d4RTES Fonte: JORNAL DO BRASIL &#8211; Domingo, 18 de Fevereiro de 1996 &#8211; Caderno B A&#8230;<!-- AddThis Advanced Settings generic via filter on get_the_excerpt --><!-- AddThis Share Buttons generic via filter on get_the_excerpt --><\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[56],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3321"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3321"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10556,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3321\/revisions\/10556"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/felipeaquino\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}