O ser Padre nos dias de hoje

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Ser Padre nos dias de hoje

Quero partilhar com vocês neste espaço um trecho extremamente atual sobre o Sacerdócio do livro Compreender a Igreja hoje. [1] Os destaques no texto foram feitos por mim, me contive para não destacar o texto todo, uma vez que todo ele é riquíssimo.

Boa leitura!

Consequências para o sacerdote nos dias de hoje

 

O sacerdócio do Novo Testamento instaurado com os Apóstolos tem umaSer Padre nos dias de hoje estrutura inteiramente cristológica e significa inserção do homem na missão de Jesus Cristo. Uma ligação pessoal com o Cristo constitui, portanto, essência e fundamento para o ministério sacerdotal. Daí depende tudo o mais, e nisto consiste o cerne de toda preparação para o sacerdócio e de qualquer formação subsequente. O sacerdote deve ser um homem que conhece Jesus a partir de dentro, que se encontrou com ele e aprendeu a amá-lo. Por isto o sacerdote deve ser, antes de tudo, um homem de oração, um homem realmente “espiritual”. Sem este forte conteúdo espiritual ele não é capaz de perseverar em seu ministério com o passar do tempo. Deve aprender também com o Cristo que o que importa em sua vida não é sua auto realização nem o sucesso. Deve aprender a não construir uma vida interessante e agradável para si, a não criar uma comunidade de admiradores e seguidores para si, mas a trabalhar para Cristo, centro único de toda pastoral. A isto se opõe a tendência natural de nossa existência, mas com o tempo se perceberá que esta perda de importância do eu é o que nos liberta verdadeiramente. Quem trabalha para Cristo sabe que é sempre um outro que semeia, um outro que colhe. Não precisa questionar-se a todo momento. Qualquer que seja o resultado, ele o entrega a Deus e faz a sua parte despreocupadamente, livre e jubiloso, porque sua vida está integrada numa causa imensa. Se os sacerdotes, hoje em dia, se sentem extenuados, fatigados e frustrados, a razão é uma busca crispada de eficiência. A fé se tomou um fardo pesado, difícil de arrastar, quando devia ter asas que nos transportam.

Da íntima vida de comunhão com Cristo brota a participação em seu amor pelos homens e em seu desejo de salvá-los e ajudá-los. Hoje muitos sacerdotes duvidam se fazemos verdadeiramente bem às pessoas quando as guiamos para a fé, ou se, deste modo, não estamos tomando pesada a sua vida. Pensam que seria melhor deixá-las na boa-fé de sua descrença, porque assim a vida lhes parece mais fácil de viver. Quando a fé é vista como um peso adicional que dificulta a vida, ela não pode tomar alguém feliz, e servirmos a essa causa da fé já não nos traz realização. Quem, entretanto, descobriu o Cristo a partir de dentro, quem o conhece de primeira mão, descobre a Força renovadora que confere sentido a todas as coisas e toma grandioso mesmo o que é difícil. Somente uma alegria como esta, por causa de Cristo, é capaz de nos dar a alegria para o ministério e tomá-lo frutuoso.

Quem ama, deseja conhecer. Por isto do verdadeiro amor a Cristo brota o desejo de conhecê-lo sempre melhor, a ele e a tudo o que lhe pertence. Se o amor a Cristo se toma necessariamente amor aos homens, a educação para Cristo deve incluir também a educação para as virtudes naturais do ser humano. Se amá-lo implica conhecê-lo, a disponibilidade a um estudo sério e cuidadoso é nada mais do que sinal da seriedade da vocação e de uma busca interior autêntica da proximidade com o Cristo. A prática da fé é também prática das verdadeiras virtudes humanas e aprendizado da inteligência da fé. Como o Cristo jamais se acha só, mas veio, pelo contrário, para unir o mundo em seu corpo, acrescenta-se mais uma componente, que é o amor à Igreja: não procuramos um Cristo inventado por nós próprios; e é somente na verdadeira comunhão da Igreja que encontramos o verdadeiro Cristo. E, mais uma vez, é na prontidão a amar a Igreja, a viver com ela e servir ao Cristo dentro dela que se revelam a profundidade e a seriedade da relação com o próprio Senhor.

Eu gostaria de concluir com uma palavra do Papa São Gregório Magno, o qual, mediante imagens tiradas do Antigo Testamento, descreve a ligação essencial entre interioridade e ministério que acabamos de apontar:

Que são os santos varões senão rios que irrigam a terra…? Contudo em breve eles secariam… se não voltassem… ao lugar de onde partiram. Com efeito, se não voltarem para o interior do coração e não se atarem com vínculos de ardente desejo ao amor do Criador… a língua em breve secará. Mas, sob o impulso do amor, voltam sempre ao seu interior, e o que eles derramam em público… haurem… da fonte do amor. É amando que eles aprendem aquilo que anunciam ensinando[2].

Espero que tenha ajudado, Deus abençoe você.

@edisoncn


[1] RATZINGER, Joseph. Compreender a Igreja hoje: vocação para a comunhão. Tradução de D. Mateus Ramalho Rocha, OSB. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 70-72.

[2] In Ezechielem / hom 5, 16 PL 76, 828 B; em alemão: Gregor d. Grosse. Homilien zu Ezechiel, tradução de G. Bürke. Einsiedeln 1983, p. 99s.

 

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