Para meditar o Sábado Santo: A angústia de uma ausência

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Quero propor para este dia como reflexão uma meditação do então cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa emérito Bento XVI sobre o Sábado Santo. O nome da meditação completa é A angústia de uma ausência, mas hoje vou partilhar apenas a segunda parte da meditação (Grifo nosso).

Deus abençoe você.

O ocultamento de Deus neste mundo constitui o verdadeiro mistério do Sábado Santo, mistério já indicado nas palavras enigmáticas que dizem que Jesus “desceu à mansão dos mortos”. Ao mesmo tempo, a experiência do nosso tempo nos ofereceu uma abordagem completamente nova do Sábado Santo, já que o ocultamento de Deus no mundo que lhe pertence e que deveria anunciar seu nome com mil línguas, a experiência da impotência de Deus, que, todavia, é o onipotente – essa é a experiência e a miséria do nosso tempo.

Mas, mesmo que o Sábado Santo de certa forma tenha-se aproximado profundamente de nós, mesmo que compreendamos o Deus do Sábado Santo mais do que a manifestação poderosa de Deus em meio a raios e trovões de que fala o Velho Testamento, continua, todavia não resolvida à questão sobre o que se entende verdadeiramente quando se diz de maneira misteriosa que Jesus “desceu à mansão dos mortos”. Digamo-lo com toda a clareza: ninguém é capaz de explicar isso de verdade. Nem se torna mais claro se dissermos que aqui a mansão dos mortos, ou inferno, é uma tradução ruim da palavra hebraica schêol, que indica simplesmente todo o reino dos mortos, e que, portanto, a fórmula deveria originariamente dizer apenas que Jesus desceu até a profundidade da morte, está realmente morto e participou do abismo do nosso destino de morte. De fato, surge ainda a pergunta: o que é realmente a morte e o que acontece efetivamente quando se desce à profundidade da morte? Devemos, aqui, dar atenção ao fato de que a morte não é mais a mesma coisa depois que Cristo a sofreu, depois que ele a aceitou e penetrou, tal como a vida, o ser humano, não é mais a mesma coisa depois que em Cristo a natureza humana pôde entrar em contato, e de fato entrou, com o ser próprio de Deus. Antes, a morte era apenas morte, separação do país dos vivos e, ainda que com diferente profundidade, algo como “inferno”, lado noturno do existir, escuridão impenetrável. Agora, porém, a morte é também vida, e quando ultrapassamos a solidão glacial da soleira da morte, nos encontramos sempre novamente com aquele que é a vida, que quis se tornar companheiro da nossa solidão última e que, na solidão mortal de sua angústia no horto das oliveiras e do seu grito na cruz, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, tornou-se partícipe de todas as nossas formas de solidão.

Se uma criança tivesse de se aventurar sozinha na noite escura através de um bosque, teria medo mesmo que lhe demonstrassem centenas de vezes que não há perigo algum. Ela não tem medo de algo determinado, ao qual se possa dar um nome, mas, na escuridão, experimenta a insegurança, a condição de órfã, o caráter sinistro da existência em si. Só uma voz humana poderia consolá-la; só a mão de uma pessoa querida poderia afugentar a angústia como um sonho ruim.

Existe uma angústia – a verdadeira, escondida na profundidade da nossa solidão – que não pode ser superada mediante a razão, mas apenas pela presença de uma pessoa que nos ama.

De fato, essa angústia não tem um objeto ao qual se possa dar um nome, mas é tão-somente a expressão terrível da nossa solidão última. Quem não sentiu a sensação espantosa dessa condição de abandono? Quem não perceberia o milagre santo e consolador suscitado num apuro como esse por uma palavra de afeto? Quando, porém, se tem uma solidão tal que não pode mais ser alcançada pela palavra transformadora do amor, então nós estamos falando de inferno. E sabemos que não poucos homens do nosso tempo, aparentemente tão otimista, têm a opinião de que todo e qualquer encontro permanece na superfície, de que nenhum homem já teve acesso à última e verdadeira profundidade do outro, e de que, portanto, no fundo último de qualquer existência jaz o desespero, ou melhor, o inferno. Jean-Paul Sartre expressou isso poeticamente num de seus dramas, ao mesmo tempo em que expunha o núcleo de sua doutrina sobre o homem. Uma coisa é certa: existe uma noite em cujo abandono obscuro não penetra nenhuma palavra de conforto, uma porta que temos de ultrapassar em solidão absoluta, a porta da morte. Toda a angústia deste mundo, em última análise, é a angústia provocada por essa solidão. Por esse motivo, o termo usado no Velho Testamento para indicar o reino dos mortos era idêntico àquele com que se indicava o inferno: sheol. A morte, de fato, é solidão absoluta. Mas a solidão que não pode mais ser iluminada pelo amor, que é tão profunda que o amor não pode mais ter acesso a ela, esta é o inferno.

“Desceu à mansão dos mortos”: essa confissão do Sábado Santo significa que Cristo ultrapassou a porta da solidão, que desceu ao fundo inalcançável e insuperável da nossa condição de solidão. Isso significa, porém, que mesmo na noite extrema na qual não penetra palavra alguma, na qual todos nós somos como crianças apavoradas, chorosas, surge uma voz que nos chama, uma mão que nos toma e nos conduz. A solidão insuperável do homem foi superada a partir do momento em que Ele se encontrou nela. O inferno foi vencido a partir do momento em que o amor entrou também na região da morte e a terra de ninguém da solidão foi habitada por ele. Na sua profundidade, o homem não vive de pão, mas, na autenticidade de seu ser, ele vive pelo fato de que é amado e lhe é permitido amar. A partir do momento em que se dá a presença do amor no espaço da morte, a vida penetra nela: aos teus fiéis, ó Senhor, a vida não é tirada, mas transformada – reza a Igreja na liturgia fúnebre.

Ninguém pode medir em última análise o alcance destas palavras: “desceu à mansão dos mortos”. Mas, quando nos for dado nos aproximar da hora da nossa solidão última, nos será permitido compreender algo da grande clareza desse mistério obscuro. Na esperança segura de que nessa hora de extrema solidão não estaremos sós, podemos já agora pressagiar algo do que acontecerá. E em meio ao nosso protesto contra a escuridão da morte de Deus começamos a nos tornar gratos pela luz que vem a nós justamente dessa escuridão.

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