{"id":716,"date":"2011-03-28T15:29:58","date_gmt":"2011-03-28T17:29:58","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cancaonova.com\/junioralves\/?p=716"},"modified":"2011-03-28T15:30:06","modified_gmt":"2011-03-28T17:30:06","slug":"as-duas-faces-do-amor-%e2%80%98eros%e2%80%99-e-%e2%80%98agape%e2%80%99","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/junioralves\/2011\/03\/28\/as-duas-faces-do-amor-%e2%80%98eros%e2%80%99-e-%e2%80%98agape%e2%80%99\/","title":{"rendered":"As duas faces do amor: \u2018eros\u2019 e \u2018\u00e1gape\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/navegadormt.siteconnect.com.br\/admin\/up\/Padre%20Raniero.jpg\" alt=\"Padre Raniero\" width=\"434\" height=\"289\" \/>Primeira prega\u00e7\u00e3o de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa<\/strong><br \/>\nPrega\u00e7\u00e3o de Quaresma \u00e0 C\u00faria Romana, realizada nesta sexta-feira, em presen\u00e7a do Papa, pelo padre Raniero Cantalamessa, OFMCap.<br \/>\n* * *<br \/>\nPe. Raniero Cantalamessa<br \/>\nPrimeira pr\u00e9dica de Quaresma<br \/>\nAS DUAS FACES DO AMOR: EROS E \u00c1GAPE<!--more--><\/p>\n<p><strong>1. As duas faces do amor<\/strong><br \/>\nCom as pr\u00e9dicas desta Quaresma, eu gostaria de continuar o esfor\u00e7o, iniciado no Advento, de trazer uma pequena contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 reevangeliza\u00e7\u00e3o do Ocidente secularizado, que constitui nesta hora a preocupa\u00e7\u00e3o principal de toda a Igreja e, em particular, do Santo Padre Bento XVI.<br \/>\nH\u00e1 um \u00e2mbito em que a seculariza\u00e7\u00e3o age de maneira especialmente difusa e nefasta, e \u00e9 o \u00e2mbito do amor. A seculariza\u00e7\u00e3o do amor consiste em separar o amor humano de Deus, em todas as formas desse amor, reduzindo-o a algo meramente \u201cprofano\u201d, onde Deus sobra e at\u00e9 incomoda.<br \/>\nMas o amor n\u00e3o \u00e9 um assunto importante apenas para a evangeliza\u00e7\u00e3o, ou seja, para as rela\u00e7\u00f5es com o mundo. Ele importa, antes de todo o mais, para a pr\u00f3pria vida interna da Igreja, para a santifica\u00e7\u00e3o dos seus membros. \u00c9 nesta perspectiva que se situa a enc\u00edclica Deus caritas est, do Papa Bento XVI, e \u00e9 nela que n\u00f3s tamb\u00e9m nos colocamos para estas reflex\u00f5es.<br \/>\nO amor sofre de uma separa\u00e7\u00e3o nefasta n\u00e3o s\u00f3 na mentalidade do mundo secularizado, mas tamb\u00e9m, do lado oposto, entre os crentes e, em particular, entre as almas consagradas. Poder\u00edamos formular a situa\u00e7\u00e3o, simplificando ao m\u00e1ximo, assim: temos no mundo um eros sem \u00e1gape; e entre os crentes, temos frequentemente um \u00e1gape sem eros.<br \/>\nO eros sem \u00e1gape \u00e9 um amor rom\u00e2ntico, mas comumente passional, at\u00e9 violento. Um amor de conquista, que reduz fatalmente o outro a objeto do pr\u00f3prio prazer e ignora toda dimens\u00e3o de sacrif\u00edcio, de fidelidade e de doa\u00e7\u00e3o de si. N\u00e3o \u00e9 preciso insistir na descri\u00e7\u00e3o desse amor, porque se trata de uma realidade que temos todo dia diante dos nossos olhos, propagandeada com estrondo pelos romances, filmes, novelas, internet, revistas. \u00c9 o que a linguagem comum entende, hoje, com a palavra \u201camor\u201d.<br \/>\nPara n\u00f3s \u00e9 mais \u00fatil entender o que significa \u00e1gape sem eros. Na m\u00fasica, existe uma diferencia\u00e7\u00e3o que pode nos ajudar a ter uma ideia: a diferen\u00e7a entre o jazz quente e o jazz frio. Eu li certa vez essa caracteriza\u00e7\u00e3o dos dois g\u00eaneros, mas sei que n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica poss\u00edvel. O jazz quente (hot) \u00e9 o jazz apaixonado, ardente, expressivo, feito de \u00edmpetos, de sentimentos e, portanto, de improvisa\u00e7\u00f5es originais. O jazz frio (cool) \u00e9 o profissional: os sentimentos se tornam repetitivos, o estro \u00e9 substitu\u00eddo pela t\u00e9cnica, a espontaneidade pelo virtuosismo.<br \/>\nCom base nessa distin\u00e7\u00e3o, o \u00e1gape sem eros \u00e9 um \u201camor frio\u201d, um amar parcial, sem a participa\u00e7\u00e3o do ser inteiro, mais por imposi\u00e7\u00e3o da vontade do que por \u00edmpeto \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o. Um entrar num cen\u00e1rio predefinido, em vez de criar um pr\u00f3prio, realmente irrepet\u00edvel, como irrepet\u00edvel \u00e9 cada ser humano perante Deus. Os atos de amor voltados para Deus parecem aqueles de namorados desinspirados, que escrevem \u00e0 amada cartas copiadas de modelos prontos.<br \/>\nSe o amor mundano \u00e9 um corpo sem alma, o amor religioso praticado assim \u00e9 uma alma sem corpo. O ser humano n\u00e3o \u00e9 um anjo, um esp\u00edrito puro; \u00e9 alma e corpo substancialmente unidos: tudo o que ele faz, amar inclusive, tem que refletir essa estrutura. Se o componente humano ligado ao tempo e \u00e0 corporeidade \u00e9 sistematicamente negado ou reprimido, a sa\u00edda ser\u00e1 d\u00faplice: ou seguir adiante aos arrastos, por senso de dever, por defesa da pr\u00f3pria imagem, ou ir atr\u00e1s de compensa\u00e7\u00f5es mais ou menos l\u00edcitas, chegando at\u00e9 os doloros\u00edssimos casos que est\u00e3o afligindo atualmente a Igreja. No fundo de muitos desvios morais de almas consagradas, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignor\u00e1-lo: h\u00e1 uma concep\u00e7\u00e3o distorcida e retorcida do amor.<br \/>\nTemos, ent\u00e3o, um duplo motivo e uma dupla urg\u00eancia de redescobrir o amor na sua unidade original. O amor verdadeiro e integral \u00e9 uma p\u00e9rola encerrada entre duas conchas que s\u00e3o o eros e o \u00e1gape. N\u00e3o podem ser separadas, essas duas dimens\u00f5es do amor, sem destru\u00ed-lo, como o hidrog\u00eanio e o oxig\u00eanio n\u00e3o podem ser separados sem se privarem da \u00e1gua.<\/p>\n<p><strong>2. A tese da incompatibilidade entre os dois amores<\/strong><br \/>\nA reconcilia\u00e7\u00e3o mais importante entre as duas dimens\u00f5es do amor \u00e9 pr\u00e1tica. \u00c9 aquela que acontece na vida das pessoas, mas, para ser poss\u00edvel, ela precisa come\u00e7ar pela reconcilia\u00e7\u00e3o entre o eros e o \u00e1gape inclusive teoricamente, na doutrina. Isto nos permitir\u00e1 conhecer finalmente o que \u00e9 que se entende por estes dois termos t\u00e3o comumente usados e subentendidos.<br \/>\nA import\u00e2ncia da quest\u00e3o nasce do fato de existir uma obra que popularizou em todo o mundo crist\u00e3o a tese oposta da inconciliabilidade das duas formas de amor. \u00c9 o livro do te\u00f3logo luterano sueco Anders Nygren, intitulado Eros e \u00c1gape. Podemos resumir o pensamento dele nestes termos: eros e \u00e1gape designam dois movimentos opostos. O primeiro indica ascens\u00e3o e subida do homem para Deus e para o divino como pr\u00f3prio bem e pr\u00f3pria origem; o outro, o \u00e1gape, indica a descida de Deus at\u00e9 o homem com a encarna\u00e7\u00e3o e a cruz de Cristo, e, portanto, a salva\u00e7\u00e3o oferecida ao homem sem m\u00e9rito nem resposta de sua parte, a n\u00e3o ser a f\u00e9 e somente a f\u00e9. O Novo Testamento fez uma escolha precisa, usando, para exprimir o amor, o termo \u00e1gape, e refutando sistematicamente o termo eros.<br \/>\nFoi S\u00e3o Paulo quem recolheu e formulou com mais pureza essa doutrina do amor. Depois dele, ainda segundo a tese de Nygren, essa ant\u00edtese radical se perdeu para dar lugar a tentativas de s\u00edntese. Assim que o cristianismo entra em contato cultural com o mundo grego e a vis\u00e3o plat\u00f4nica, j\u00e1 com Or\u00edgenes, h\u00e1 uma reavalia\u00e7\u00e3o do eros, como movimento ascensional da alma rumo ao bem e ao divino, como atra\u00e7\u00e3o universal exercitada pela beleza e pelo divino. Nesta linha, o Pseudo Dion\u00edsio Areopagita escrever\u00e1 que \u201cDeus \u00e9 eros\u201d [1], substituindo com este termo o \u00e1gape da c\u00e9lebre frase de Jo\u00e3o (I Jo, 4,10).<br \/>\nNo ocidente, uma s\u00edntese an\u00e1loga foi feita por Agostinho com a doutrina da caritas, entendida como doutrina do amor descendente e gratuito de Deus pelo homem (ningu\u00e9m falou da \u201cgra\u00e7a\u201d com mais for\u00e7a do que ele), mas tamb\u00e9m como anseio do homem pelo bem e por Deus. \u00c9 dele a afirma\u00e7\u00e3o: \u201cFizeste-nos, Senhor, para ti, e inquieto est\u00e1 o nosso cora\u00e7\u00e3o at\u00e9 descansar em ti\u201d [2]. Tamb\u00e9m \u00e9 dele a imagem do amor como um peso que atrai a alma, como por for\u00e7a de gravidade, para Deus, como ao lugar do pr\u00f3prio repouso e prazer [3]. Tudo isso, para Nygren, insere um elemento do amor de si, do pr\u00f3prio bem, e, portanto, de ego\u00edsmo, que destr\u00f3i a pura gratuidade da gra\u00e7a; \u00e9 uma reca\u00edda na ilus\u00e3o pag\u00e3 de fazer a salva\u00e7\u00e3o consistir numa ascens\u00e3o a Deus, em vez de na gratuita e imotivada descida de Deus at\u00e9 n\u00f3s.<br \/>\nPrisioneiros desta imposs\u00edvel s\u00edntese entre eros e \u00e1gape, entre amor de Deus e amor de si, s\u00e3o, para Nygren, S\u00e3o Bernardo, quando define o grau supremo do amor de Deus como um \u201camar a Deus por si mesmo\u201d e um \u201camar a si mesmo por Deus\u201d [4]; S\u00e3o Boaventura, com seu ascensional Itiner\u00e1rio da mente para Deus; e S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino, que define o amor de Deus infuso no cora\u00e7\u00e3o do batizado (cf. Rom, 5,5) como \u201co amor com que Deus nos ama e nos faz am\u00e1-lo\u201d (amor quo ipse nos diligit et quo ipse nos dilectores sui facit) [5]. Isto viria a significar que o homem, amado por Deus, pode, por sua vez, amar a Deus, dar-lhe algo de seu, o que destruiria a absoluta gratuidade do amor de Deus. No plano existencial, ainda de acordo com Nygren, o mesmo desvio acontece na m\u00edstica cat\u00f3lica. O amor dos m\u00edsticos, com a sua fort\u00edssima carga de eros, nada \u00e9, para ele, sen\u00e3o amor sensual sublimado, uma tentativa de estabelecer com Deus uma rela\u00e7\u00e3o de presun\u00e7osa reciprocidade em amor.<br \/>\nQuem rompeu a ambiguidade e devolveu \u00e0 luz a pura ant\u00edtese paulina, segundo o autor, foi Lutero. Fundamentando a justifica\u00e7\u00e3o apenas na f\u00e9, ele n\u00e3o excluiu a caridade do momento-base da vida crist\u00e3, como o acusa a teologia cat\u00f3lica; antes, libertou a caridade, o \u00e1gape, do elemento esp\u00fario do eros. \u00c0 f\u00f3rmula do \u201csomente a f\u00e9\u201d, com exclus\u00e3o das obras, corresponderia, em Lutero, a f\u00f3rmula do \u201csomente o \u00e1gape\u201d, com exclus\u00e3o do eros.<br \/>\nN\u00e3o me cabe estabelecer se o autor interpretou corretamente neste ponto o pensamento de Lutero, que, deve-se dizer, nunca p\u00f4s o problema em termos de contraste entre eros e \u00e1gape como fez com f\u00e9 e obras. \u00c9 significativo, no entanto, que Karl Barth, num cap\u00edtulo da sua Dogm\u00e1tica Eclesial, tamb\u00e9m chegue ao mesmo resultado que Nygren de um contraste insan\u00e1vel entre eros e \u00e1gape. \u201cOnde entra em cena o amor crist\u00e3o\u201d, escreve ele, \u201ccome\u00e7a de s\u00fabito o conflito com o outro amor, e este conflito n\u00e3o tem mais fim\u201d [6]. Eu digo que se isto n\u00e3o \u00e9 luteranismo, \u00e9 sem d\u00favida teologia dial\u00e9tica, teologia do \u201caut-aut\u201d, da ant\u00edtese, n\u00e3o da s\u00edntese.<br \/>\nO contragolpe desta opera\u00e7\u00e3o \u00e9 a radical mundaniza\u00e7\u00e3o e seculariza\u00e7\u00e3o do eros. Enquanto certa teologia retirava o eros do \u00e1gape, a cultura secular era bem feliz, por sua vez, ao retirar o \u00e1gape do eros, ou seja, ao retirar do amor humano toda refer\u00eancia a Deus e \u00e0 gra\u00e7a. Freud apresentou para isto uma justificativa te\u00f3rica, reduzindo o amor a eros e o eros a libido, uma mera puls\u00e3o sexual que luta contra toda repress\u00e3o e inibi\u00e7\u00e3o. \u00c9 o est\u00e1gio a que se reduz hoje o amor em muitas manifesta\u00e7\u00f5es da vida e da cultura, principalmente no mundo do espet\u00e1culo.<br \/>\nDois anos atr\u00e1s eu estava em Madri. Os jornais s\u00f3 faziam falar de uma certa mostra de arte na cidade, intitulada As l\u00e1grimas do eros. Era uma mostra de obras art\u00edsticas de cunho er\u00f3tico \u2013 quadros, desenhos, esculturas \u2013 que pretendiam p\u00f4r em foco o insepar\u00e1vel v\u00ednculo que existe, na experi\u00eancia do homem moderno, entre eros e thanatos, entre amor e morte. \u00c0 mesma constata\u00e7\u00e3o se chega quando se l\u00ea a colet\u00e2nea de poesias As flores do mal, de Baudelaire, ou Uma temporada no inferno, de Rimbaud. O amor que por natureza deveria levar \u00e0 vida acaba ao inv\u00e9s levando \u00e0 morte.<\/p>\n<p><strong>3. Retorno \u00e0 s\u00edntese<\/strong><br \/>\nSe n\u00e3o podemos mudar de uma vez a ideia de amor que o mundo possui, podemos, sim, corrigir a vis\u00e3o teol\u00f3gica, que, sem querer, a favorece e legitima. \u00c9 o que fez de maneira exemplar o papa Bento XVI com a enc\u00edclica Deus caritas est. Ele reafirma a s\u00edntese cat\u00f3lica tradicional expressando-a com os termos modernos. \u201cEros e \u00e1gape\u201d, lemos ali, \u201camor ascendente e amor descendente, n\u00e3o se deixam jamais separar de todo um do outro [&#8230;]. A f\u00e9 b\u00edblica n\u00e3o constr\u00f3i um mundo paralelo ou um mundo contraposto ao original fen\u00f4meno humano que \u00e9 o amor, mas aceita o homem todo, intervindo na sua procura pelo amor para purific\u00e1-la, destruindo, em paralelo, novas dimens\u00f5es suas\u201d (7-8). Eros e \u00e1gape est\u00e3o unidos \u00e0 pr\u00f3pria fonte do amor, que \u00e9 Deus: \u201cEle ama\u201d, segue o texto da enc\u00edclica, \u201ce este seu amor pode ser qualificado certamente como eros, que, no entanto, \u00e9 tamb\u00e9m e totalmente \u00e1gape\u201d (9).<br \/>\nEntende-se o acolhimento insolitamente favor\u00e1vel que este documento pontif\u00edcio encontrou mesmo nos ambientes leigos mais abertos e respons\u00e1veis. D\u00e1 esperan\u00e7a ao mundo. Corrige a imagem de uma f\u00e9 que toca o mundo em tangente, sem penetr\u00e1-lo, com a imagem evang\u00e9lica da levedura que faz a massa fermentar; substitui a ideia de um reino de Deus que veio julgar o mundo pela de um reino de Deus que veio salvar o mundo, come\u00e7ando pelo eros que \u00e9 a sua for\u00e7a dominante.<br \/>\n\u00c0 vis\u00e3o tradicional, pr\u00f3pria tanto da teologia cat\u00f3lica como da ortodoxa, pode-se dar, creio eu, uma confirma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m do ponto de vista da exegese. Quem sustenta a tese da incompatibilidade entre eros e \u00e1gape se baseia no fato de o Novo Testamento evitar com esmero \u2013 e, ao parecer, propositalmente \u2013 o termo eros, usando em seu lugar sempre e somente \u00e1gape (a n\u00e3o ser por algum raro emprego do termo philia, que indica um amor de amizade).<br \/>\nO fato \u00e9 verdadeiro, mas n\u00e3o s\u00e3o verdadeiras as conclus\u00f5es que dele se tiram. Sup\u00f5e-se que os autores do NT estivessem a par tanto do sentido que o termo eros tinha na linguagem comum (o eros assim chamado \u201cvulgar\u201d) como do sentido elevado e filos\u00f3fico que tinha, por exemplo, em Plat\u00e3o, o chamado eros \u201cnobre\u201d. Na aceita\u00e7\u00e3o popular, eros indicava mais ou menos o que indica hoje quando se fala de erotismo ou de filmes er\u00f3ticos: a satisfa\u00e7\u00e3o do instinto sexual, um degradar-se mais do que elevar-se. Na aceita\u00e7\u00e3o nobre, indicava um amor pela beleza, a for\u00e7a que mant\u00e9m o mundo e que impulsiona todos os seres \u00e0 unidade, aquele movimento de ascens\u00e3o rumo ao divino que os te\u00f3logos dial\u00e9ticos reputam incompat\u00edvel com o movimento de descida do divino at\u00e9 o homem.<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil defender que os autores do NT, dirigindo-se a pessoas simples e de nenhuma cultura, pretendessem lhes falar do eros de Plat\u00e3o. Eles evitaram o termo eros pelo mesmo motivo que o pregador de hoje evita o termo er\u00f3tico, ou, se o emprega, \u00e9 somente em sentido negativo. O motivo \u00e9 que, tanto naquele tempo como agora, a palavra evoca o amor na sua express\u00e3o mais ego\u00edsta e sensual [7]. A desconfian\u00e7a dos primeiros crist\u00e3os quanto ao eros se agravava ainda pelo papel que ele desempenhava nos desenfreados cultos dionis\u00edacos.<br \/>\nT\u00e3o logo o cristianismo entra em contato e di\u00e1logo com a cultura grega daquele tempo, cai por terra de imediato, como j\u00e1 vimos, toda preclus\u00e3o quanto ao eros. Ele \u00e9 usado com frequ\u00eancia, nos autores gregos, como sin\u00f4nimo de \u00e1gape, e empregado para indicar o amor de Deus pelo homem, como tamb\u00e9m o amor do homem por Deus, o amor pelas virtudes e por tudo o que \u00e9 belo. Basta, para nos convencermos disso, uma simples olhada no L\u00e9xico Patr\u00edstico Grego, de Lampe [8]. O sistema de Nygren e Barth, portanto, foi constru\u00eddo sobre uma falsa aplica\u00e7\u00e3o do assim chamado argumento \u201cex silentio\u201d.<\/p>\n<p><strong>4. Um eros para os consagrados<\/strong><br \/>\nO resgate do eros ajuda acima de tudo os enamorados humanos e os esposos crist\u00e3os, mostrando a beleza e a dignidade do amor que os une. Ajuda os jovens a experimentar o fasc\u00ednio do outro sexo n\u00e3o como coisa turva, a ser vivida \u00e0s costas de Deus, mas, ao contr\u00e1rio, como um dom do Criador para a sua alegria, desde que vivido na ordem querida por Ele. Na sua enc\u00edclica, o papa acena ainda para esta fun\u00e7\u00e3o positiva do eros sobre o amor humano quando fala do caminho de purifica\u00e7\u00e3o do eros, que leva da atra\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea ao \u201cpara sempre\u201d do matrim\u00f4nio (4-5).<br \/>\nMas o resgate do eros deve ajudar tamb\u00e9m a n\u00f3s, consagrados, homens e mulheres. Eu acenei no in\u00edcio ao perigo que as almas religiosas correm de um amor frio, que n\u00e3o desce da mente para o cora\u00e7\u00e3o. Um sol de inverno, que ilumina, mas n\u00e3o aquece. Se eros significa \u00edmpeto, desejo, atra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o devemos ter medo dos sentimentos, nem muito menos desprez\u00e1-los e reprimi-los. Quando se trata do amor de Deus, escreveu Guilherme de Saint Thierry, o sentimento de afeto (affectio) \u00e9 tamb\u00e9m gra\u00e7a; a natureza n\u00e3o pode infundir um sentimento assim [9].<br \/>\nOs salmos est\u00e3o cheios desse anseio do cora\u00e7\u00e3o por Deus: \u201cA ti, Senhor, eu elevo a minh\u2019alma&#8230;\u201d. \u201cA minh\u2019alma tem sede de Deus, do Deus vivente\u201d. \u201cPreste aten\u00e7\u00e3o\u201d, diz o autor da Nuvem do n\u00e3o conhecimento, \u201ca este maravilhoso trabalho da gra\u00e7a na tua alma. Ele n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o impulso imprevisto, que surge sem aviso e aponta diretamente para Deus, como uma centelha que se desencarcera do fogo&#8230; Golpeie essa nuvem do n\u00e3o conhecimento com a flecha afiada do desejo de amor e n\u00e3o esmore\u00e7a, ocorra o que ocorrer\u201d [10]. \u00c9 suficiente, para tanto, um pensamento, um movimento do cora\u00e7\u00e3o, uma jaculat\u00f3ria.<br \/>\nMas tudo isso n\u00e3o nos \u00e9 bastante e Deus o sabe melhor que n\u00f3s. Somos criaturas, vivemos no tempo e num corpo; precisamos de uma tela na qual projetar o nosso amor que n\u00e3o seja apenas \u201ca nuvem do n\u00e3o conhecimento\u201d, o v\u00e9u de escurid\u00e3o por tr\u00e1s do qual se oculta o Deus que ningu\u00e9m nunca viu e que habita numa luz inacess\u00edvel&#8230;<br \/>\nA resposta que se d\u00e1 a esta interroga\u00e7\u00e3o n\u00f3s conhecemos bem: por isso mesmo Deus nos deu o pr\u00f3ximo para amarmos. \u201cNingu\u00e9m jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em n\u00f3s e o seu amor se torna perfeito em n\u00f3s. Quem n\u00e3o ama o pr\u00f3prio irm\u00e3o, a quem v\u00ea, n\u00e3o pode amar a Deus, a quem n\u00e3o v\u00ea\u201d (1 Jo 4, 12-20). Mas devemos ficar atentos para n\u00e3o saltar uma fase decisiva: antes do irm\u00e3o que vemos, h\u00e1 outro que tamb\u00e9m vemos e tocamos: o Deus feito carne, Jesus Cristo! Entre Deus e o pr\u00f3ximo existe o Verbo feito carne, que reuniu os dois extremos numa s\u00f3 pessoa. \u00c9 nele que o pr\u00f3prio amor ao pr\u00f3ximo encontra o seu fundamento: \u201cFoi a mim que o fizestes\u201d.<br \/>\nO que significa tudo isto pelo amor de Deus? Que o objeto prim\u00e1rio no nosso eros, da nossa busca, desejo, atra\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o, deve ser o Cristo. \u201cAo Salvador \u00e9 pr\u00e9-ordenado o amor humano desde o princ\u00edpio, como ao seu modelo e fim, como uma urna t\u00e3o grande e t\u00e3o ampla que pudesse acolher a Deus [&#8230;] O desejo da alma \u00e9 unicamente de Cristo. Aqui \u00e9 o lugar do seu repouso, porque s\u00f3 Ele \u00e9 o bem, a verdade e tudo quanto inspira amor\u201d. N\u00e3o quer dizer restringir o horizonte do amor crist\u00e3o de Deus a Cristo; quer dizer amar a Deus do jeito que Ele quer ser amado. \u201cO Pai vos ama porque v\u00f3s me amais\u201d (Jo 16, 27). N\u00e3o se trata de um amor mediato, quase por procura\u00e7\u00e3o, por meio do qual quem ama Jesus \u201c\u00e9 como se\u201d amasse o Pai. N\u00e3o. Jesus \u00e9 um mediador imediato; amando a Ele, amamos, ipso facto, o Pai. \u201cQuem me v\u00ea, v\u00ea o Pai\u201d; quem me ama, ama o Pai.<br \/>\n\u00c9 verdade que nem mesmo a Cristo se v\u00ea, mas ele existe. Ressuscitou, vive, est\u00e1 conosco, de modo mais real do que o mais apaixonado esposo est\u00e1 com a esposa. Eis o ponto crucial: pensar em Cristo n\u00e3o como uma pessoa do passado, mas como o Senhor ressuscitado e vivente, com quem eu posso falar, a quem eu posso beijar se quiser, certo de que o meu beijo n\u00e3o termina na estampa ou no lenho de um crucifixo, mas num rosto e em l\u00e1bios de carne viva (ainda que espiritualizada), felizes de receber o meu beijo.<br \/>\nA beleza e a plenitude da vida consagrada depende da qualidade do nosso amor por Cristo. \u00c9 s\u00f3 o que pode nos defender dos altos e baixos do cora\u00e7\u00e3o. Jesus \u00e9 o homem perfeito; nele se encontram, em grau infinitamente superior, todas aquelas qualidades e aten\u00e7\u00f5es que um homem procura numa mulher e uma mulher no homem. O amor dele n\u00e3o nos elimina necessariamente a sedu\u00e7\u00e3o das criaturas e, em particular, a atra\u00e7\u00e3o do outro sexo (ela faz parte da nossa natureza, que Ele criou e n\u00e3o quer destruir). Mas nos d\u00e1 a for\u00e7a para vencer essas atra\u00e7\u00f5es com uma atra\u00e7\u00e3o mais forte. \u201cCasto\u201d, escreve S\u00e3o Jo\u00e3o Cl\u00edmaco, \u201c\u00e9 quem afasta o eros com o Eros\u201d [11].<br \/>\nSer\u00e1 que tudo isso destr\u00f3i a gratuidade do \u00e1gape, pretendendo dar a Deus alguma coisa em troca do seu cora\u00e7\u00e3o? Anula a gra\u00e7a? De jeito nenhum. Antes, a exalta. O que, afinal, neste mundo, damos a Deus se n\u00e3o o que recebemos dele? \u201cN\u00f3s amamos porque Ele nos amou primeiro\u201d (1 Jo 4, 19). O amor que damos a Cristo \u00e9 o seu pr\u00f3prio amor por n\u00f3s, que devolvemos a Ele, como o eco nos devolve a nossa voz.<br \/>\nOnde est\u00e1 ent\u00e3o a novidade e a beleza deste amor que chamamos eros? O eco reenvia para Deus o seu pr\u00f3prio amor, mas enriquecido, colorido e perfumado com a nossa liberdade. E \u00e9 tudo o que Ele quer. A nossa liberdade lhe paga tudo. E n\u00e3o s\u00f3 isto, mas, coisa inaudita, escreve Cabasilas, \u201crecebendo de n\u00f3s o dom do amor em troca de tudo o que Ele nos deu, Ele ainda se reputa nosso devedor\u201d [12]. A tese que contrap\u00f5e eros e \u00e1gape se baseia em outra conhecida contraposi\u00e7\u00e3o: a contraposi\u00e7\u00e3o entre gra\u00e7a e liberdade, e, mais ainda, na nega\u00e7\u00e3o da liberdade no homem deca\u00eddo.<br \/>\nEu procurei imaginar, Vener\u00e1veis padres e irm\u00e3os, o que diria Cristo ressuscitado se, como fazia na vida terrena, quando entrava aos s\u00e1bados numa sinagoga, viesse agora sentar-se aqui, no meu lugar, e nos explicasse em pessoa qual \u00e9 o amor que Ele deseja de n\u00f3s. Quero compartilhar com voc\u00eas, com simplicidade, o que eu penso que Ele diria. Pode nos servir para o nosso exame de consci\u00eancia sobre o amor:<br \/>\nO amor ardente:<br \/>\n\u00c9 me colocares sempre em primeiro lugar.<br \/>\n\u00c9 procurares me alegrar em todo momento.<br \/>\n\u00c9 confrontares teus desejos com o meu desejo.<br \/>\n\u00c9 viveres como meu amigo, confidente, esposo, e seres feliz assim.<br \/>\n\u00c9 te inquietares ao pensamento de ficar um pouco longe de mim.<br \/>\n\u00c9 seres repleto de felicidade quando estou contigo.<br \/>\n\u00c9 estares disposto a grandes sacrif\u00edcios para nunca me perder.<br \/>\n\u00c9 preferires viver pobre e desconhecido comigo a rico e famoso sem mim.<br \/>\n\u00c9 falares comigo como ao amigo mais amado em todo momento poss\u00edvel.<br \/>\n\u00c9 te confiares a mim olhando para o teu futuro.<br \/>\n\u00c9 desejares perder-te em mim como meta do teu existir.<br \/>\nSe voc\u00eas acharem, como eu acho, que estamos muito longe dessa situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o nos desencorajemos. Temos algu\u00e9m que pode nos ajudar a chegar l\u00e1 se pedirmos sua ajuda. Repitamos com f\u00e9 ao Esp\u00edrito Santo: Veni, Sancte Spiritus, reple tuorum corda fidelium et tui amoris in eis ignem accende: Vinde, Esp\u00edrito Santo, enchei os cora\u00e7\u00f5es dos vossos fi\u00e9is e acendei neles o fogo do vosso amor.<\/p>\n<p><strong>Notas: <\/strong><br \/>\n1 Pseudo Dion\u00edsio Areopagita, Os nomes divinos, IV,12 (PG, 3, 709 em diante.)<br \/>\n2 S. Agostinho, Confiss\u00f5es I, 1.<br \/>\n3 Coment\u00e1rio ao evangelho de Jo\u00e3o, 26, 4-5.<br \/>\n4 Cf. S. Bernardo, De diligendo Deo, IX,26 \u2013X,27.<br \/>\n5 S. Tom\u00e1s de Aquino, Coment\u00e1rio \u00e0 Carta aos Romanos, cap. V, li\u00e7.1, n. 392-293; cf. S. Agostinho, Coment\u00e1rio \u00e0 Primeira Carta de Jo\u00e3o, 9, 9.<br \/>\n6 K. Barth, Dogm\u00e1tica eclesial, IV, 2, 832-852.<br \/>\n7 O sentido que os primeiros crist\u00e3os davam \u00e0 palavra eros se deduz do famoso texto de S. In\u00e1cio de Antioquia,  Carta aos Romanos, 7,2: \u201cO meu amor (eros) foi crucificado e n\u00e3o h\u00e1 em mim fogo de paix\u00e3o\u2026n\u00e3o me atraem o nutrir corrup\u00e7\u00e3o e os prazeres desta vida\u201d. \u201cO meu eros\u201d n\u00e3o indica aqui Jesus crucificado, mas \u201co amor de mim mesmo\u201d , o apego aos prazeres terrenos, na linha do paulino \u201cFui crucificado com Cristo, n\u00e3o sou mais eu que vivo\u201d (Gal 2, 19 s.).<br \/>\n8 Cf. G.W.H. Lampe,  A Patristic Greek Lexicon, Oxford 1961, pp.550.<br \/>\n9 Guilherme de St. Thierry, Medita\u00e7\u00f5es, XII, 29 (SCh  324, p. 210).<br \/>\n10 An\u00f4nimo, A nuvem do nao conhecimento, trad. Italiana, Ed. \u00c1ncora, Mil\u00e3o, 1981, pp. 136.140.<br \/>\n11 S. Jo\u00e3o Cl\u00edmaco, A escada do para\u00edso, XV,98 (PG 88,880).<br \/>\n12 N. Cabasilas, Vida em Cristo, VI, 4 .<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Primeira prega\u00e7\u00e3o de Quaresma do padre Raniero Cantalamessa Prega\u00e7\u00e3o de Quaresma \u00e0 C\u00faria Romana, realizada nesta sexta-feira, em presen\u00e7a do Papa, pelo padre Raniero Cantalamessa, OFMCap. * * * Pe. 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