{"id":6960,"date":"2018-09-20T16:30:53","date_gmt":"2018-09-20T19:30:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/?p=6960"},"modified":"2018-08-27T16:36:38","modified_gmt":"2018-08-27T19:36:38","slug":"na-propria-definicao-homem-esta-alternativa-entre-morte-e-imortalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/na-propria-definicao-homem-esta-alternativa-entre-morte-e-imortalidade\/","title":{"rendered":"Na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do homem est\u00e1 a alternativa entre morte e imortalidade"},"content":{"rendered":"<h2>S\u00e9tima Catequese da Teologia do Corpo |&nbsp;Na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do homem est\u00e1 a alternativa entre morte e imortalidade<\/h2>\n<ol>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Conv\u00e9m voltarmos ainda hoje ao significado da solid\u00e3o original do homem, que se patenteia sobretudo na an\u00e1lise do chamado texto javista de G\u00eanesis 2. Permite-nos o texto b\u00edblico, como j\u00e1 verificamos nas precedentes reflex\u00f5es, p\u00f4r em relevo n\u00e3o s\u00f3 a consci\u00eancia do corpo humano (o homem \u00e9 criado no mundo vis\u00edvel como \u00abcorpo entre os corpos\u00bb), mas tamb\u00e9m a do seu significado pr\u00f3prio.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tendo em conta a grande concis\u00e3o do texto b\u00edblico, n\u00e3o se pode, sem mais, ampliar muito este encadeamento. \u00c9 por\u00e9m certo que tocamos aqui o problema central da antropologia. A consci\u00eancia do corpo parece identificar-se neste caso com o descobrimento da complexidade da pr\u00f3pria estrutura que, baseada numa antropologia filos\u00f3fica, consiste afinal na rela\u00e7\u00e3o entre a alma e o corpo. A narrativa javista com a pr\u00f3pria linguagem (isto \u00e9, com a sua pr\u00f3pria terminologia) exprime-o dizendo:&nbsp;<em>O Senhor Deus formou o homem do p\u00f3 da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num ser vivo<\/em>*. E precisamente este homem, \u00abser vivo\u00bb, distingue-se em seguida de todos os outros seres vivos do mundo vis\u00edvel. O que leva a concluir a exist\u00eancia deste \u00abdistinguir-se\u00bb do homem, \u00e9 exatamente o fato de s\u00f3 ele ser capaz de \u00abcultivar a terra\u00bb (Cfr.&nbsp;<em>Gn<\/em>. 2, 5) e de \u00aba dominar\u00bb (Cfr.&nbsp;<em>Gn<\/em>. 1, 28). Pode dizer-se que a consci\u00eancia da \u00absuperioridade\u00bb, inscrita na defini\u00e7\u00e3o de humanidade, nasce desde o princ\u00edpio baseada num atuar ou comportar-se tipicamente humano. Esta consci\u00eancia traz consigo especial percep\u00e7\u00e3o do significado do corpo em si, percep\u00e7\u00e3o que resulta de tocar ao homem \u00abcultivar a terra\u00bb e \u00abdomin\u00e1-la\u00bb. Tudo isto seria imposs\u00edvel sem uma intui\u00e7\u00e3o tipicamente humana do significado do corpo em si.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li style=\"font-weight: 400;\">Parece pois necess\u00e1rio falar antes de tudo deste aspecto, deixando para depois o problema da complexidade antropol\u00f3gica em sentido metaf\u00edsico. Se a descri\u00e7\u00e3o original da consci\u00eancia humana, indicada pelo texto javista, compreende, no conjunto da narrativa, tamb\u00e9m o corpo, se ela encerra quase o primeiro testemunho do descobrimento da pr\u00f3pria corporeidade (e mesmo, como foi dito, a percep\u00e7\u00e3o do significado do pr\u00f3prio corpo), tudo isto se revela n\u00e3o com base numa concreta subjectividade do homem que seja bastante clara. O homem \u00e9 um sujeito n\u00e3o s\u00f3 para a sua autoconsci\u00eancia e autodetermina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m com base no pr\u00f3prio corpo.<em>A estrutura deste corpo \u00e9 tal que lhe permite ser o autor duma actividade verdadeiramente humana<\/em>. Nesta actividade o corpo exprime a pessoa. Ele \u00e9 portanto, em toda a sua materialidade (\u00abformou o homem do p\u00f3 da terra\u00bb), quase penetr\u00e1vel e transparente, de maneira que evidencia quem \u00e9 o homem (e quem deveria ser) gra\u00e7as \u00e0 estrutura da sua consci\u00eancia e da sua autodetermina\u00e7\u00e3o. Nisto se apoia a percep\u00e7\u00e3o fundamental do significado do corpo em si, que n\u00e3o se pode deixar de descobrir ao analisar a solid\u00e3o original do homem.<\/li>\n<li style=\"font-weight: 400;\">Ora, com tal compreens\u00e3o fundamental do significado do pr\u00f3prio corpo, o homem, como sujeito da antiga Alian\u00e7a com o Criador, \u00e9 colocado diante do mist\u00e9rio da \u00e1rvore do conhecimento.<em>Podes comer do fruto de todas as \u00e1rvores do jardim, mas n\u00e3o comas o da \u00e1rvore da ci\u00eancia do bem e do mal, porque no dia em que o comeres, certamente morrer\u00e1s<\/em>(<em>Gn<\/em>. 2, 16-17). O significado original da solid\u00e3o do homem baseia-se em experimentar a exist\u00eancia, exist\u00eancia que ele obteve do Criador. Tal exist\u00eancia humana caracteriza-se precisamente pela subjetividade, que tamb\u00e9m inclui o significado do corpo. Mas o homem, que na sua consci\u00eancia original conhece apenas a experi\u00eancia do existir e portanto da vida, poderia ele compreender&nbsp;<em>o que significou a palavra \u00abmorrer\u00e1s\u00bb?&nbsp;<\/em>Seria capaz de chegar a compreender o sentido desta palavra atrav\u00e9s da estrutura complexa da vida, que lhe foi dada quando \u00abO Senhor Deus &#8230; lhe insuflou pelas narinas o sopro da vida &#8230;\u00bb? \u00c9 necess\u00e1rio admitir que esta palavra, completamente nova, apareceu no horizonte da consci\u00eancia do homem antes que ele lhe tivesse nunca experimentado a realidade, e que ao mesmo tempo esta palavra apareceu diante dele como r<em>adical ant\u00edtese de tudo aquilo de que o homem fora dotado<\/em>.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O homem ouviu pela primeira vez a palavra \u00abmorrer\u00e1s\u00bb, sem ter com ela qualquer familiaridade na experi\u00eancia feita at\u00e9 ent\u00e3o; mas, por outro lado, n\u00e3o podia deixar de associar o significado da morte \u00e0quela dimens\u00e3o de vida de que tinha gozado at\u00e9 esse momento. As palavras de Deus-Jav\u00e9 dirigidas ao homem confirmavam uma depend\u00eancia no existir, tal que fez do homem um ser limitado e, por sua natureza, suscept\u00edvel de n\u00e3o-exist\u00eancia. Estas palavras sugeriram o problema da morte de maneira condicional: \u00abNo dia em que o comeres &#8230; morrer\u00e1s\u00bb. O homem, que ouvira tais palavras, devia encontrar-lhes a verdade na mesma estrutura interior da pr\u00f3pria solid\u00e3o. E, afinal, dependia dele, da sua decis\u00e3o e livre escolha, se entraria tamb\u00e9m com a sua solid\u00e3o no c\u00edrculo da ant\u00edtese que lhe revelara o Criador, juntamente com a \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal, e assim tornaria pr\u00f3pria a experi\u00eancia do morrer e da morte. Ouvindo as palavras de Deus-Jav\u00e9, deveria o homem compreender que a \u00e1rvore do conhecimento lan\u00e7ara ra\u00edzes n\u00e3o s\u00f3 no \u00abjardim do \u00c9den\u00bb, mas tamb\u00e9m na sua humanidade. Ele, al\u00e9m disso, deveria compreender que aquela \u00e1rvore misteriosa escondia em si uma dimens\u00e3o de solid\u00e3o, at\u00e9 essa altura desconhecida, da qual o Criador o tinha dotado no \u00e2mbito do mundo dos seres vivos, aos quais ele, o homem \u2014 diante do Criador mesmo \u2014, tinha \u00abdesignado com nomes\u00bb, para chegar a compreender que nenhum deles lhe era semelhante.<\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li style=\"font-weight: 400;\">Quando pois o significado fundamental do seu corpo j\u00e1 se encontrava estabelecido gra\u00e7as \u00e0 distin\u00e7\u00e3o que o separava do resto das criaturas, quando por isso mesmo se tornara evidente que o \u00abinvis\u00edvel\u00bb determina o homem mais que o \u00abvis\u00edvel\u00bb, ent\u00e3o apresentou-se diante dele a alternativa, \u00edntima e diretamente ligada por Deus-Jav\u00e9 \u00e0 \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal.<em>A alternativa entre a morte e a imortalidade<\/em>, que deriva de&nbsp;<em>Gn<\/em>. 2, 17, ultrapassa o significado essencial do corpo do homem, pois inclui o significado escatol\u00f3gico n\u00e3o s\u00f3 do corpo, mas da humanidade mesma, distinta de todos os seres vivos, dos \u00abcorpos\u00bb. Esta alternativa&nbsp;<em>refere-se contudo de modo particular\u00edssimo ao corpo criado do \u00abp\u00f3 da terra\u00bb<\/em>.<\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para n\u00e3o prolongar mais esta an\u00e1lise, limitamo-nos a verificar que a alternativa entre a morte e a imortalidade entra, desde o princ\u00edpio, na defini\u00e7\u00e3o do homem e que pertence \u00abdesde o princ\u00edpio\u00bb ao significado da sua solid\u00e3o diante do pr\u00f3prio Deus. Este significado de solid\u00e3o, impregnado pela alternativa entre morte e imortalidade, tem ainda um significado fundamental para toda a teologia do corpo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Com esta verifica\u00e7\u00e3o conclu\u00edmos por agora as nossas reflex\u00f5es sobre o significado da solid\u00e3o original do homem. Tal verifica\u00e7\u00e3o, que deriva de modo claro e impressionante dos textos do Livro do G\u00eanesis, leva tamb\u00e9m a refletir tanto sobre os textos como sobre o homem, que tem provavelmente consci\u00eancia demasiado d\u00e9bil da verdade que lhe diz respeito e se encontra j\u00e1 expressa nos primeiros cap\u00edtulos da B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">* * *<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">* A antropologia b\u00edblica distingue no homem n\u00e3o tanto \u00abo corpo\u00bb e \u00aba alma\u00bb quanto \u00abcorpo\u00bb e \u00abvida\u00bb. O autor b\u00edblico apresenta aqui a entrega do dom da vida mediante o \u00absopro\u00bb, que n\u00e3o deixa de ser propriedade de Deus: quando Deus o tira, o homem volta ao p\u00f3, do qual foi feito (cfr.&nbsp;<em>Job<\/em>. 34, 14-15;&nbsp;<em>Sl<\/em>. 104, 29 s.).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o Paulo II &#8211; Audi\u00eancia Geral &#8211;&nbsp; Quarta-feira, 31 de Outubro de 1979<\/p>\n<p>Fonte: <a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/audiences\/1979\/documents\/hf_jp-ii_aud_19791031.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vatican.va<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9tima Catequese da Teologia do Corpo |&nbsp;Na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do homem est\u00e1 a alternativa entre morte e imortalidade Conv\u00e9m voltarmos ainda hoje ao significado da solid\u00e3o original do homem, que se patenteia sobretudo na an\u00e1lise do chamado texto javista de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4719,"featured_media":6932,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5741],"tags":[68,5741],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6960"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4719"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6960"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6962,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6960\/revisions\/6962"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}