{"id":7016,"date":"2018-09-21T23:11:02","date_gmt":"2018-09-22T02:11:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/?p=7016"},"modified":"2018-09-21T14:34:12","modified_gmt":"2018-09-21T17:34:12","slug":"unidade-original-homem-e-da-mulher-na-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/unidade-original-homem-e-da-mulher-na-humanidade\/","title":{"rendered":"A unidade original do homem e da mulher na humanidade"},"content":{"rendered":"<h2>Oitava Catequese da Teologia do Corpo | A unidade original do homem e da mulher na humanidade<\/h2>\n<p align=\"left\">1. As palavras do livro do G\u00eanesis&nbsp;<i>N\u00e3o \u00e9 conveniente que o homem esteja s\u00f3<\/i>&nbsp;(1) s\u00e3o quase um prel\u00fadio da narrativa da cria\u00e7\u00e3o da mulher. Com esta narrativa, o sentimento da solid\u00e3o original entra a fazer parte do significado da unidade original, cujo ponto-chave parecem ser precisamente as palavras de G\u00eanesis 2, 24, a que se refere Cristo na sua conversa com os fariseus:&nbsp;<i>O homem deixar\u00e1 o pai e a m\u00e3e, e unir-se-\u00e1 \u00e0 sua mulher, e ser\u00e3o os dois uma s\u00f3 carne<\/i>&nbsp;(2). Se Cristo, referindo-se ao \u00abprinc\u00edpio\u00bb, cita estas palavras, conv\u00e9m-nos precisar o significado dessa unidade original, que mergulha as ra\u00edzes no fato da cria\u00e7\u00e3o do homem como macho e f\u00eamea.<\/p>\n<p align=\"left\">A narrativa do cap\u00edtulo primeiro do G\u00eanesis n\u00e3o conhece o problema da solid\u00e3o original do homem: o homem, de fato, desde o princ\u00edpio \u00e9 \u00abmacho e f\u00eamea\u00bb. O texto javista do cap\u00edtulo segundo, pelo contr\u00e1rio, autoriza-nos em certo modo a pensar primeiro, somente no homem enquanto, mediante o corpo, pertence ao mundo vis\u00edvel, mas ultrapassando-o; depois, faz-nos pensar no mesmo homem, mas atrav\u00e9s da duplicidade do sexo. Corporeidade e sexualidade n\u00e3o se identificam completamente. Embora o corpo humano, na sua constitui\u00e7\u00e3o normal, traga em si os sinais do sexo e seja, por sua natureza, masculino ou feminino, todavia<i>&nbsp;o fato de o homem ser \u00abcorpo\u00bb pertence \u00e0 estrutura do sujeito pessoal mais profundamente que o fato de ele ser na sua constitui\u00e7\u00e3o som\u00e1tica tamb\u00e9m macho ou f\u00eamea<\/i>. Por isso, o significado da solid\u00e3o original, que pode referir-se simplesmente ao \u00abhomem\u00bb, \u00e9 substancialmente anterior ao significado da unidade original; esta \u00faltima, de fato, baseia-se na masculinidade e na feminilidade, quase como sobre duas diferentes \u00abencarna\u00e7\u00f5es\u00bb, isto \u00e9, sobre dois modos de \u00abser corpo\u00bb do mesmo ser humano, criado&nbsp;<i>\u00e0 imagem de Deus<\/i>&nbsp;(3).<\/p>\n<p align=\"left\">2. Segundo o texto javista, no qual a cria\u00e7\u00e3o da mulher foi descrita separadamente (4), devemos ter diante dos olhos, ao mesmo tempo, aquela \u00abimagem de Deus\u00bb da primeira narrativa da cria\u00e7\u00e3o. A segunda narrativa conserva, na linguagem e no estilo, todas as caracter\u00edsticas do texto javista. O modo de narrar concorda com o modo de pensar e de falar da \u00e9poca a que o texto pertence. Pode-se dizer, segundo a filosofia contempor\u00e2nea da religi\u00e3o e da linguagem, que se trata duma linguagem m\u00edtica. Neste caso, na verdade, o termo \u00abmito\u00bb n\u00e3o designa conte\u00fado fabuloso, mas simplesmente um modo arcaico de exprimir um conte\u00fado mais profundo. Sem qualquer dificuldade, sobre o estrato da antiga narra\u00e7\u00e3o, descobrimos aquele conte\u00fado, verdadeiramente admir\u00e1vel no que diz respeito \u00e0s qualidades e \u00e0 condensa\u00e7\u00e3o das verdades, que nele est\u00e3o encerradas. Acrescentemos que a segunda narrativa da cria\u00e7\u00e3o do homem conserva, at\u00e9 certo ponto, uma forma de di\u00e1logo entre o homem e Deus-Criador, o que se manifesta&nbsp;<i>sobretudo naquele per\u00edodo em que o homem (&#8216;adam) \u00e9 definitivamente criado como macho e f\u00eamea<\/i>&nbsp;(&#8216;is-&#8216;issah) (5). A cria\u00e7\u00e3o efectua-se quase contemporaneamente em duas dimens\u00f5es; a ac\u00e7\u00e3o de Deus-Jav\u00e9 ao criar desenvolve-se em correla\u00e7\u00e3o com o processo da consci\u00eancia humana.<\/p>\n<p align=\"left\">3. Assim pois, Deus-Jav\u00e9 diz:&nbsp;<i>N\u00e3o \u00e9 conveniente que o homem esteja s\u00f3; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele<\/i>&nbsp;(6). E ao mesmo tempo o homem confirma a pr\u00f3pria solid\u00e3o (7). A seguir lemos:&nbsp;<i>Ent\u00e3o o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e, enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a at\u00e9 ao homem<\/i>&nbsp;(8). Tomando em considera\u00e7\u00e3o o car\u00e1cter pr\u00f3prio da linguagem, \u00e9 preciso antes de tudo reconhecer que muito nos faz pensar aquele torpor do G\u00eanesis, no qual, por obra de Deus-Jav\u00e9, o homem cai em prepara\u00e7\u00e3o para o novo ato criador. Sobre o fundo da mentalidade atual habituada \u2014 gra\u00e7as \u00e0 an\u00e1lise do subconsciente \u2014 a ligar ao mundo do sono conte\u00fados sexuais, aquele torpor pode suscitar uma associa\u00e7\u00e3o particular Todavia a narrativa b\u00edblica parece ir al\u00e9m do subconsciente humano. E se admitimos uma significativa diversidade de vocabul\u00e1rio, podemos concluir que o homem (&#8216;<i>adam<\/i>) cai naquele \u00abtorpor\u00bb para acordar \u00abmacho\u00bb e \u00abf\u00eamea\u00bb. De fato, pela primeira vez encontramos em&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 23 a distin\u00e7\u00e3o&nbsp;<i>&#8216;is -&#8216;issah<\/i>. Talvez portanto a<i>&nbsp;anologia do sono<\/i>&nbsp;indique aqui n\u00e3o tanto um passar da consci\u00eancia \u00e0 subconsci\u00eancia, quanto um especifico regresso ao n\u00e3o-ser (o sono tem em si um elemento de aniquilamento da exist\u00eancia consciente do homem), ou seja, ao momento que antecede a cria\u00e7\u00e3o,&nbsp;<i>para que dele, por iniciativa criadora de Deus, o \u00abhomem\u00bb solit\u00e1rio possa ressurgir na sua dupla unidade de macho e f\u00eamea<\/i>&nbsp;(10).<\/p>\n<p align=\"left\">Seja como for, \u00e0 luz do contexto de&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 18-20 nenhuma d\u00favida h\u00e1 de o homem cair naquele \u00abtorpor\u00bb com o desejo de encontrar um ser semelhante a si. Se podemos, por analogia com o sono, falar aqui tamb\u00e9m de sonho, devemos dizer que este arqu\u00e9tipo b\u00edblico nos permite admitir, como conte\u00fado daquele sonho, um \u00absegundo eu\u00bb, tamb\u00e9m ele pessoal e igualmente relacionado com o estado de solid\u00e3o original, isto \u00e9, com todo aquele processo de estabiliza\u00e7\u00e3o da identidade humana relativamente ao conjunto dos seres vivos (<i>animalia<\/i>), enquanto \u00e9 processo de \u00abdiferencia\u00e7\u00e3o\u00bb entre o homem e tal ambiente. Deste modo, o c\u00edrculo da solid\u00e3o do homem-pessoa quebra-se, porque o primeiro \u00abhomem\u00bb desperta do sono como \u00abmacho e f\u00eamea\u00bb.<\/p>\n<p align=\"left\">4. A mulher \u00e9 feita \u00abcom a costela\u00bb que Deus-Jav\u00e9 tirara ao homem. Considerando o modo arcaico, metaf\u00f3rico e imaginoso, de exprimir o pensamento, podemos estabelecer tratar-se aqui de homogeneidade de todo o ser de ambos; tal homogeneidade diz respeito sobretudo ao corpo, \u00e0 estrutura som\u00e1tica, e \u00e9 confirmada tamb\u00e9m pelas primeiras palavras do homem \u00e0 mulher rec\u00e9m-criada:&nbsp;<i>Esta \u00e9 realmente o osso dos meus ossos e a carne da minha carne<\/i>&nbsp;(<i>G\u00ean<\/i>. 2, 23)(11). Apesar disso, as palavras citadas referem-se tamb\u00e9m \u00e0 humanidade do homem-macho. Devem ler-se no contexto das afirma\u00e7\u00f5es feitas antes da cria\u00e7\u00e3o da mulher, nas quais, embora n\u00e3o existindo ainda a \u00abencarna\u00e7\u00e3o\u00bb do homem, ela \u00e9 definida como \u00abauxiliar semelhante a ele\u00bb (cfr.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 18 e 2, 20)(12). Assim pois,&nbsp;<i>a mulher foi criada, em certo sentido, sobre a base da mesma humanidade. A homogeneidade som\u00e1tica<\/i>, n\u00e3o obstante a diversidade da constitui\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 diferen\u00e7a sexual, \u00e9 t\u00e3o evidente que o homem (macho), despertando do sono gen\u00e9tico, a exprime imediatamente, ao dizer:&nbsp;<i>Esta \u00e9 realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne. Chamar-se-\u00e1 mulher, visto ter sido tirada do homem<\/i>&nbsp;(13). Deste modo o homem (macho) manifesta pela primeira vez alegria e at\u00e9 exalta\u00e7\u00e3o, de que anteriormente n\u00e3o tinha motivo, por causa da falta dum ser semelhante a si. A alegria para o outro ser humano, para o segundo \u00abeu\u00bb, domina nas palavras do homem (macho) pronunciadas \u00e0 vista da mulher (f\u00eamea). Tudo isto ajuda a estabelecer o significado pleno da unidade original. Poucas s\u00e3o aqui as palavras, mas cada uma tem grande peso. Devemos portanto ter em conta \u2014 e f\u00e1-lo-emos em seguida \u2014 o fato de aquela primeira mulher, \u00abcriada com a costela tirada &#8230; ao homem\u00bb (macho), ser imediatamente aceita como auxiliar semelhante a ele.<\/p>\n<p align=\"left\">A este mesmo tema, quer dizer, ao significado da unidade original do homem e da mulher na humanidade, voltaremos ainda na pr\u00f3xima medita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p align=\"left\"><b>Notas<\/b><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">1.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 18.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">2.&nbsp;<i>Mt<\/i>. 19, 5.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">3.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 1, 27.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">4.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 21-22.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">5. O termo hebraico&nbsp;<i>&#8216;adam<\/i>&nbsp;exprime o conceito colectivo da esp\u00e9cie humana, isto \u00e9, o&nbsp;<i>homem<\/i>&nbsp;que representa a humanidade; (a B\u00edblia define o indiv\u00edduo usando a express\u00e3o \u00abfilho do homem\u00bb,&nbsp;<i>ben-&#8216;adam<\/i>). A contraposi\u00e7\u00e3o&nbsp;<i>&#8216;is-&#8216;issa<\/i>&nbsp;sublinha a diversidade sexual (como em grego&nbsp;<i>an\u00e9r-gyn\u00e9<\/i>).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Depois da cria\u00e7\u00e3o da mulher, o texto b\u00edblico continua a chamar ao primeiro homem &#8216;<i>adam<\/i>&nbsp;(com o artigo definido), exprimindo assim a sua \u00abcorporate personality\u00bb), pois se tornou \u00abpai da humanidade\u00bb, seu progenitor e representante, como depois Abra\u00e3o foi reconhecido como \u00abpai dos crentes\u00bb e Jacob foi identificado com Israel-Povo Eleito.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;6.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 18.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;7.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 20.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;8.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 21-22.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">9. O torpor de Ad\u00e3o (em hebraico&nbsp;<i>tardemah<\/i>) \u00e9 um sono profundo (latim&nbsp;<i>sopor<\/i>; ingl\u00eas&nbsp;<i>sleep<\/i>), em que o homem cai sem conhecimento ou sonhos (A B\u00edblia tem outro termo para definir o sonho:&nbsp;<i>hal\u00f3m<\/i>); cfr.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 15, 12; 1&nbsp;<i>Sam<\/i>. 26, 12).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Freud examina o conte\u00fado dos sonhos (latim somnium, ingl\u00eas dream), que formando-se com elementos ps\u00edquicos \u00abrecalcados no subconsciente\u00bb permitem, segundo a sua teoria, fazer surgir deles os conte\u00fados inc\u00f4nscios, que seriam, em \u00faltima an\u00e1lise, sempre sexuais.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Esta ideia \u00e9 naturalmente de todo alheia ao autor b\u00edblico.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Na teologia do autor javista, o torpor, em que Deus fez cair o primeiro homem, sublinha a exclusividade da ac\u00e7\u00e3o de Deus na obra da cria\u00e7\u00e3o da mulher; o homem n\u00e3o teve nela nenhuma participa\u00e7\u00e3o consciente. Deus serve-se da sua \u00abcostela\u00bb s\u00f3 para acentuar a natureza comum do homem e da mulher.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">10 \u00abTorpor\u00bb (<i>tardemah<\/i>) \u00e9 o termo que aparece na Sagrada Escritura, quando durante o sono ou directamente depois dele h\u00e3o-de dar-se acontecimentos extraordin\u00e1rios (cfr.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 15, 12; 1&nbsp;<i>Sam<\/i>. 26, 12;&nbsp;<i>Is<\/i>. 29, 10;&nbsp;<i>Job<\/i>&nbsp;4, 13; 33, 15). Os Setenta traduzem&nbsp;<i>tardemah por ekstasis<\/i>&nbsp;(\u00eaxtase).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">No Pentateuco&nbsp;<i>tardemah<\/i>&nbsp;aparece ainda uma vez num contexto misterioso: Abra\u00e3o, por ordem de Deus, preparou um sacrif\u00edcio de animais, excluindo as aves de rapina. \u00abAo p\u00f4r do sol, apoderou-se dele um&nbsp;<i>profundo sono<\/i>&nbsp;(torpor); ao mesmo tempo sentiu-se apavorado e foi&nbsp;<i>envolvido por densa trevas<\/i>\u00bb (<i>G\u00ean<\/i>. 15, 12). Precisamente ent\u00e3o come\u00e7a Deus a falar e conclui com ele uma alian\u00e7a, que \u00e9 o ponto mais alto da revela\u00e7\u00e3o comunicada a Abra\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Esta cena assemelha-se um tanto \u00e0 do jardim de Gets\u00e9mani: Jesus \u00abcome\u00e7ou a sentir pavor e a angustiar-se &#8230;\u00bb (<i>Mc<\/i>. 14, 33) e encontrou os Ap\u00f3stolos \u00aba dormir, devido \u00e0 tristeza\u00bb (<i>Lc<\/i>. 22, 45).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">O autor b\u00edblico admite no primeiro homem certo sentimento de car\u00eancia e solid\u00e3o (\u00abn\u00e3o \u00e9 conveniente que o homem esteja s\u00f3\u00bb; \u00abn\u00e3o encontrou para si uma auxiliar adequada\u00bb), de car\u00eancia e solid\u00e3o mas n\u00e3o de medo. Talvez esse estado provoque \u00abum sono causado pela tristeza\u00bb, ou talvez, como em Abra\u00e3o \u00abpor um pavor de n\u00e3o ser\u00bb; como no limiar da obra da cria\u00e7\u00e3o \u00aba terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo\u00bb (<i>G\u00ean<\/i>. 1, 2).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Seja como for, segundo ambos os textos, em que o Pentateuco, ou melhor, o Livro do G\u00eanesis, fala do sono profundo (<i>tardemah<\/i>), realiza-se uma especial ac\u00e7\u00e3o divina, isto \u00e9, uma \u00abalian\u00e7a\u00bb cheia de consequ\u00eancias para toda a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o: Ad\u00e3o d\u00e1 in\u00edcio ao g\u00eanero humano, Abra\u00e3o ao Povo Eleito.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">11. \u00c9 interessante notar que para os antigos Sum\u00e9rios o sinal aunei forme para indicar o substantivo \u00abcostela\u00bb era o mesmo que indicava a palavra \u00abvida\u00bb. Quanto, portanto, \u00e0 narrativa javista, segundo certa interpreta\u00e7\u00e3o de&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 2, 21, Deus cobre a costela de carne (em vez de cicatrizar a carne no seu lugar) e deste modo \u00abforma\u00bb a mulher, que tem origem da \u00abcarne e dos ossos\u00bb do primeiro homem (macho).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Na linguagem b\u00edblica esta \u00e9 uma defini\u00e7\u00e3o de consaguineidade ou incorpora\u00e7\u00e3o na mesma descend\u00eancia (por exemplo, cfr.&nbsp;<i>G\u00ean<\/i>. 29, 14): a mulher pertence \u00e0 mesma esp\u00e9cie do homem, distinguindo-se dos outros seres vivos anteriormente criados.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Na antropologia b\u00edblica os \u00abossos\u00bb exprimem um elemento important\u00edssimo do corpo; dado que para os Hebreus n\u00e3o havia distin\u00e7\u00e3o clara entre \u00abcorpo\u00bb e \u00abalma\u00bb (o corpo era considerado como manifesta\u00e7\u00e3o exterior da personalidade), os \u00abossos\u00bb significavam simplesmente, por sin\u00e9doque, o \u00abser\u00bb humano (cfr., por exemplo,&nbsp;<i>Sl<\/i>. 139, 15: \u00abn\u00e3o te estavam escondidos os meus ossos\u00bb).<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Pode-se portanto entender \u00abosso dos ossos\u00bb, em sentido relacional, como o \u00abser vindo do ser\u00bb; \u00abcarne vinda da carne\u00bb significa que, havendo embora caracter\u00edsticas f\u00edsicas diversas, a mulher apresenta a mesma personalidade que o homem possui.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">No \u00abcanto nupcial\u00bb do primeiro homem, a express\u00e3o \u00abosso dos ossos, carne da carne\u00bb \u00e9 forma de superlativo, refor\u00e7ado pela tr\u00edplice repeti\u00e7\u00e3o: \u00abesta\u00bb, \u00abela\u00bb, \u00aba\u00bb.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">12. \u00c9 dif\u00edcil traduzir exactamente a express\u00e3o hebraica<i>&nbsp;cezes kened\u00f4<\/i>, que \u00e9 traduzida de maneiras diversas nas l\u00ednguas europeias, por exemplo:<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">latim<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00abadiutorium ei conveniens sicut oportebat iuxta eum\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">alem\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00abeine Hilfe &#8230;, die ihm entspricht\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">franc\u00eas<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00ab\u00e9gal vis-\u00e0-vis de lui\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">italiano<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00abun aiuto che gli sia simile\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">espanhol<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00abcomo \u00e9l que le ayude\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">ingl\u00eas<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00aba helper fit for him\u00bb<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><i><span style=\"font-size: small;\">polaco<\/span><\/i><span style=\"font-size: small;\">: \u00abodopowicdnia alia niego pomoc\u00bb.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">Como o termo \u00ab<i>auxiliar<\/i>\u00bb parece sugerir o conceito de \u00abcomplementaridade\u00bb ou melhor de \u00abcorrespond\u00eancia exacta\u00bb, o termo \u00absemelhante\u00bb relaciona-se sobretudo com o de \u00absemelhan\u00e7a\u00bb, mas em sentido diverso da semelhan\u00e7a do homem com Deus.<\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-size: small;\">13. G\u00e9n. 2, 23.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Jo\u00e3o Paulo II &#8211; Audi\u00eancia Geral &#8211;&nbsp; Quarta-feira, 07 de novembro de 1979<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"left\">Fonte: <a href=\"https:\/\/w2.vatican.va\/content\/john-paul-ii\/pt\/audiences\/1979\/documents\/hf_jp-ii_aud_19791107.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">vatican.va<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oitava Catequese da Teologia do Corpo | A unidade original do homem e da mulher na humanidade 1. As palavras do livro do G\u00eanesis&nbsp;N\u00e3o \u00e9 conveniente que o homem esteja s\u00f3&nbsp;(1) s\u00e3o quase um prel\u00fadio da narrativa da cria\u00e7\u00e3o da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":4719,"featured_media":6932,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_mi_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[5741],"tags":[68,5741],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7016"}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/users\/4719"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7016"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":7038,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7016\/revisions\/7038"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/media\/6932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.cancaonova.com\/metanoia\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}