A prática da fé morta (Ap. 3, 1-6). Nesse trecho do apocalipse nos deparamos com o julgamento mais severo das sete cartas. Onde Aquele que tem os sete espíritos, Cristo Jesus, o detentor do Espírito Santo em Plenitude, exorta à conversão. O texto revela-nos um profundo e concreto conhecimento da realidade de vida daquela comunidade cristã. “Conheço tua conduta, tuas obras, tens fama de estares vivo, mas estás morto” (cf. Ap. 3,1): que aqui manifesta a total oposição à aparência ou à mera reputação ou fama. Pois, é o engajamento concreto, ou seja, a atitude transparente, que revela a verdade da fé. Nesse caso específico temos uma comunidade que parece viva, contudo, esta aparência revela uma morte efetiva. Encontram-se numa vida adormecida, aparentemente vivos, mas na verdade estão mortos. A exortação revela sua força demostrando que aqueles que dormem devem despertar e vigiar, e os que estão mortos devem reviver enquanto há tempo. Um povo que deve despertar e colocar-se de pé, vestir-se dignamente das vestes da justiça do Senhor. “Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus” (Mt. 7,21). Surge dessa exortação a necessidade de libertar-se das aparências, para herdar as promessas de Deus, e isto se faz na sinceridade, verdade, retidão e transparência.

A imagem da vida e morte espiritual é muito presente no cristianismo primitivo. A Didaché expressa muito bem tal concepção quando desenvolve a teologia dos dois caminhos. A comunidade de Sardes está morta devido a sua fé sem obras. “A fé sem obras é morta em sim mesma” (cf. Tg. 2,17). Uma fé autêntica, manifestará, consequentemente obras autênticas. “Não encontrei tuas obras perfeitas” (cf. Ap. 3,2): indicativo de que não existe ausência de obras, mas diante de Deus, elas não são aprovadas, pois, revelam-se deficientes. Não são perfeitas, plenas, cheias. Falta vida no espírito para realizar obras perfeitas na fé, agradáveis a Deus. As obras imperfeitas, são na verdade aquelas que produzem a morte, pelo simples fato de não serem condizentes com o íntimo da vida e do coração. A perspectiva que dinamiza e santifica a pessoa não se resume no realizar de obras, mas se define pela autenticidade da vida, por quem tais obras são realizadas. Não basta fazer, também é preciso fazer bem, portanto, realizar com amor e ser bom. Ou seja, o fazer precisa ser consequência do ser.

Por esse motivo temos nesse texto o tema da vigilância, como algo de suma importância, onde somos chamados a reavaliar a vida constantemente. Vigiai, pois não sabeis a hora em que o Senhor Jesus virá. Para o servo que espera, como o vigia esperando aurora, esta será a hora de maior alegria, júbilo e felicidade. Chegou o meu Senhor, que me chama dizendo: vinde benditos de meu Pai. Mas para o servo que vive na sustentabilidade das máscaras e caricaturas de cristianismo, esse momento será angustiante, por ser revelador da verdade de vida. O chamado a vigilância convoca a comunidade a voltar à vida, à despertar, à acordar, enfim, à permitir a intervenção do Espírito Santo que tudo restaura e converte.

Eis o caminho que deve ser trilhado pela Igreja de Sardes: consolidar o resto que ia morrer, ou seja, voltar a prática de uma vigilância feita de obediência e busca definitiva pela santidade, de modo que, firmados em Cristo, tornem-se capazes de viver a fidelidade. Devemos portanto caminhar nessa perspectiva, que sempre parte de Cristo e da graça santificante de Seu mistério Pascal.

O texto também nos lança na dimensão de que é preciso recordar “a forma como se recebeu e ouviu a doutrina” (cf. Ap. 3,3). Esse é um chamado para que a comunidade faça memória e atualize não tanto o conteúdo do evangelho, que já é em si algo de suma importância, mas do milagre que permitiu que essa boa nova fosse ouvida e recebida. Ou seja, devem viver a atualização da obra salvífica de Cristo, onde o homem, mesmo pecador, faz em Cristo experiência de conversão e abertura ao evangelho: recebeste em vossas vidas a salvação eterna. Por isso, guarda, observa, sê fiel e arrepende-te, empenha-te no exercício de uma mudança concreta de vida. “Se não vigiares, virei a ti” (cf. Ap. 3, 3): designando que será tirado o que já foi conquistado, a coroa da vida. “Virei no momento em que menos esperares, como um ladrão que surpreende” (cf. Ap. 3,3). Onde o ser surpreendido acontece pelo fato de não se estar preparado. A vida de aparências não prepara para a vida eterna, deforma e desfigura a pessoa, tornando-a incapaz de crescer tendo por imagem Jesus Cristo, o Senhor.

“Existem pessoas em Sardes que não se contaminaram” (cf. Ap. 3,4): não trazem em suas vidas a culpa, não se mancharam pela prática de uma fé morta. Contudo, ninguém está seguro, é necessário confirmar a fé cotidianamente, adequando a vida a Palavra de Deus. A vivência na graça de Deus torna-se portanto fundamental para uma caminhada onde se vive revestido das vestes brancas. Pois, foi pelos méritos de Cristo Jesus que recebemos tais vestes brancas, alvejadas no sangue do Cordeiro sem mancha. As vestes brancas indicam uma veste celestial, de glória, de luz, de vida, de honra.

A veste branca de forma toda particular designa a realidade última do eleito: que deve guardar fielmente o dom de Deus, permanecendo assim de pé diante do Filho do Homem!

É por esse motivo que o vigiar torna-se algo tão importante, pois, é necessário preservar nossa veste da mancha do pecado e de toda vivência aparente ou superficial. Devemos agir como pessoas que caminham na luz de Cristo, na integridade. Quem vive de aparências não consegue ser inteiro em nada do que vive, seus passos tornam-se divisão e dispersão. “Os vencedores serão revestidos de vestes brancas, pois, seus nomes jamais serão apagados do livro da vida” (cf. Ap. 3,5): trata-se do livro da vida do Cordeiro, que enumera os que vivem a vida nova, e vigiam constantemente na fidelidade. São estes os que receberão o testemunho favorável da parte de Cristo Jesus no dia do julgamento. É a fidelidade a Cristo, o justo por excelência, que garante a permanência do meu nome no Livro da Vida do Cordeiro. Por isso, perseveremos, e que pela intercessão de Nossa Senhora, caminhemos seguindo seu exemplo de sim transparente e verdadeiro. Amém!

“Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às Igrejas.” (Ap. 3,6)

Uma vez que a voz do Espírito Santo é escutada e ignorada, ou seja, não praticada, inevitavelmente ocorre o distanciamento do projeto divino de salvação e vida eterna! Sede atentos meus eleitos (as), não desprezem vossa eleição!

Padre Eliano Luiz Gonçalves
Vice Reitor do Seminário Diocesano Nossa Senhora Mãe dos Sacerdotes.

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