Viver os dons em comunhão com a origem e fonte de todos os dons, nosso Deus e Senhor, constitui o grande desafio para os que exercem a missão da musicalidade no âmbito da vida cristã. Dons vivenciados não de forma paganizada ou mundana, mas santificada e santificante. Portanto, à luz do Concílio Vaticano II, podemos refletir hoje com profundidade acerca de alguns elementos principais dessa ação missionária que a música exerce no meio cristão. A Sacrosanctum Concilium, nos seus números 710 e 711, nos instrui da seguinte forma: “… a Música Sacra será tanto mais santa quanto mais intimamente estiver ligada à ação litúrgica, quer exprimindo mais suavemente a oração, quer favorecendo a unanimidade, quer, enfim, dando maior solenidade aos ritos sagrados. Finalidade da Música Sacra: a Glória de Deus e a Santificação dos Fiéis”.

Desse ponto partimos para nossa reflexão acerca do dom da música. Primeiramente constatamos que o dom é concedido por Deus, fruto de sua bondade, benevolência e gratuidade, tendo em vista o serviço. “Há mais alegria em dar do que em receber”. (cf. At. 20,35). Partimos da beleza do dom, onde a arte, ou seja, no nosso caso, a musicalidade precisa ser santa, porque ligada ao Sumo e Eterno Sacrifício Pascal de Cristo. Onde o ser servo da liturgia não constitui uma opção, mas a regra mestra que dá sustentabilidade à este servir perseverante de comunhão com Cristo, com a Igreja e os irmãos. Pois, a finalidade da música sacra é glorificar a Deus e santificar os fiéis, ou seja, estar voltada para Deus, glorificando-o, e conduzindo o povo de Deus ao Mistério da Palavra e da Eucaristia, manifestos no Santo Sacrifício da Missa. Sendo assim, fica evidente que aquele que recebeu do próprio Deus esse dom, não constitui o centro da ação, a centralidade de vida e missão do músico cristão é sempre Deus. Já que o dom com dinamicidade de serviço, não pode tornar-se um instrumento de satisfação das vaidades e do próprio ego! A primeira ordem na vida do músico cristão é a de viver como um necessitado do mistério. Um servidor sedento, que uma vez pondo-se à serviço, não deve ele mesmo ser um mero expectador desatento, mas alguém ativo, que participa, contempla, mergulha e vive o mistério celebrado.

Outro aspecto importantíssimo que esta reflexão acerca da musicalidade nos revela é o aspecto da Unidade Eclesial. Usamos como fundamento reflexivo, o fato de que esta unidade eclesial está ancorada na unidade do Deus Trinitário, e de sua obra salvadora. Pois, a Unidade é marca fundamental da Igreja, dom inegável de Deus. E São Paulo falando à Igreja de Corinto, trata da unidade e da diversidade, mostrando que não são contraditórias. A diversidade não pode ser ocasião de separação e divisão  (Rm. 12, 1-18; ICor. 3, 1-8; Fl. 2, 1-11; Ef. 4, 1-16; Jd. 19). Esses textos bíblicos falam contra toda espécie de rivalidade e tensão, que possam ameaçar a unidade. Buscar a unidade não significa uniformidade, ou seja, todos na mesma forma, pois, todos sabemos da existência da individualidade, ou seja, da constituição única de cada indivíduo. Mas também sabemos, que a construção da harmonia, somente torna-se possível, se no Espírito Santo, acontece a decisão pela vida de Pentecostes (busca da glória de Deus – At. 1,14), e não pela vida de Babel (busca da glória do próprio nome ou de si mesmo – Gn. 11, 4). Pois, somente neste dinamismo de Pentecostes, as individualidades não se anulam, como também, não se autodestroem, mas se potencializam com criatividade na evangelização. A unidade portanto não exige superação das diferenças, mas apenas transformação do seu caráter, de modo que as diferenças deixem de ser separação e divisão, convertendo-se em expressão de comunhão e evangelização.

Tendo em vista vencer as divisões internas e consequentemente as externas, torna-se fundamental, a vivência de três dimensões que colocam nossa vida na dinâmica do Reino de Deus:

1- Comunhão com Deus:
Busca contínua do Deus que se deixa encontrar. Ou seja, vida de oração (diálogo íntimo com Deus).
Vida Sacramental (Confissão, Reconciliação, Eucaristia).

2- Comunhão Eclesial:
Serviço de Amor e Doação.
O compromisso com o Dom de Deus e com o dom do irmão. “Todo reino dividido contra si mesmo será destruído (Mt. 12, 25).

3- Comunhão Fraterna: Unidade no Mesmo Espírito:
– O Testemunho da comunhão vivida nas comunidades eclesiais apostólicas primitivas é um modelo para nós. “Vede como se amam”. (cf. At. 2, 42-47)
– A Unidade comunitária é reveladora da presença Reinante do Cristo Ressuscitado. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”. (Mt. 18,20)
– A Alma da Comunhão é a Caridade (cumprimento da Lei e dos Profetas, vínculo de Perfeição).

Chegamos a conclusão que a pessoa se realiza, como também, adquire harmonia e paz interior, na dinâmica dos dons em serviço, quando vive a relação íntima com Deus e a comunhão com os irmãos. Da comunhão com Deus surge e se sustenta, a relação e a comunhão com os irmãos (as). Somos seres de relacionamento, portanto, devemos fazer da originalidade e das diferenças, não motivos de fechamento e isolamento, mas de criatividade evangelizadora. O fechamento em si mesmo, gera asfixia, morte por falta de doação, serviço e comunhão. O dom existe tendo por objetivo uma constante e dinâmica orientação para a o serviço de comunhão. A tradição cristã afirma que a comunhão com Deus e os irmãos é a essência da salvação. Deixar o dom nos converter e santificar, para que seja, serviço para a glória de Deus e santificação dos irmãos (as), constitui uma graça a ser buscada constantemente por todos nós. Pergunte-se hoje e sempre, se seus dons te convertem e santificam, conduzindo as pessoas à santificação e a comunhão com Deus e os irmãos (as). Esse é o dom que glorifica a Deus!
“Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros”. (Jo. 13, 35)

Pe. Eliano Luiz Gonçalves
Vice Reitor do Seminário Diocesano Nossa Senhora Mãe dos Sacerdotes.