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jan
12

Perguntas de ponto de ônibus

Estudo e celibato  dos padres

Naquela noite não tinha muitas estrelas, uma noite escura, mas bela; conversávamos sobre vários assuntos; num determinado momento, um dos amigos me chamou de padre e, uma mulher, ainda jovem, como que, curiosa e surpresa ao mesmo tempo, voltou seus olhos para mim, estes, me diziam que encontrou a oportunidade de se dizer e perguntar coisas que existiam a muito tempo nos seus arquivos de dúvidas.

Não demorou, não exitou em começar a fazer perguntas, das mais simples às mais raras; e, dentro do tema de leitura e estudos – pois eu havia dito que estava me preparando para estudar mais – ela encontrou uma oportunidade para participar e entrar no assunto, e de primeira, me lançou a pergunta: – PORQUE QUE TODO PADRE TEM QUE ESTUDAR, MESMO JÁ TENDO ESTUDADO?

Um pouco surpreso com a profundidade dos questionamentos, dei uma risadinha, pois, antes de responder queria me aproximar mais, e de forma mais breve, que neste artigo, respondi: Porque o padre precisa estar sempre se atualizando. Vivemos em uma sociedade em que uma das coisas que são constantes são as mudanças. Mudanças econômicas, tecnológicas, políticas; mudanças de crenças e valores e, estudar o mundo em que vivemos, as coisas de Deus, o ser humano, nos ajuda e, auxilia a nossa fé.

É uma das missões do padre estudar sempre, mesmo que não seja em cursos acadêmicos, mas, os estudos pessoais, para formar bem os fiéis; ter uma boa homilia, devemos continuar fazendo. Estamos em formação permanente, pois, o povo de Deus tem direito á competência, clareza e profundidade daqueles que assumem a responsabilidade de mestres na fé, e desempenham essa missão tão importante que é ser padre.

O estudo é muito importante para todo cidadão. O grande cientista Albert Einstein já dizia: “uma mente que se abre para uma nova idéia, jamais voltará ao seu tamanho original”. O estudo nos faz crescer sempre, como cidadão, como pessoa. O processo de ampliação do conhecimento habilita cada um a enxergar o mundo e a si próprio com olhos críticos, pois fornece subsídios para a análise apurada das relações sociais; o estudo faz com que a pessoa se situe de maneira realista e inteligente diante das problemáticas e paradigmas dos nossos tempos.

Nós devemos nos esforçar para conquistar, cada vez mais, a sabedoria, pois a Igreja nos orienta que: “o futuro do mundo está ameaçado se na nossa época não surgiram sábios” (GS 15). Em geral, os escolhidos para o sacerdócio, cursam pelo menos as faculdades de Filosofia e Teologia. Tudo isso nos ajuda, são instrumentos essenciais para compreender melhor a pessoa, sua liberdade, sua relação com o mundo e com Deus.

Não podemos achar que já estamos prontos e definidos, pois, sabemos que a definição é sempre uma forma de aprisionamento; somos seres inacabados, como um em correnteza, vivemos sempre em busca do saber. Cultivamos em nós o acúmulo de muitas experiências.

Estamos num processo contínuo de aprendizado; a integrar-se ao universo do outro, ser cooperativo e construtivo no relacionamento com o próximo, isso é maravilhoso.

Nesse passa tempo já era por volta de 21h, a noite continuava bela, e alguém exclamou. – Nossa, o ônibus não vem hoje não! Mas, para a mulher que me fazia perguntas, a maior preocupação não era essa, mas a de sair com a alma lavada de suas dúvidas; e então na sua ancia pelo saber, me fez outra pergunta: – E AQUELES PADRES CASADOS QUE ESTAVAM NO FANTÁSTICO QUERENDO QUE A IGREJA OS ACEITASSE DE VOLTA, A IGREJA NÃO VAI DAR BRECHA?

Eu olhando aquele rosto ansioso e esperançoso, respondi: Olha, esses padres são acolhidos na Igreja; eles continuam sendo padres, embora não podendo exercer o ministério de padre, a não ser em casos extraordinários; mas não estão excluídos da Igreja, eles podem ser boas lideranças, bons coordenadores de pastorais; excelentes professores; mas eles não podem exigir forçadamente da Igreja algo que ela não decidiu dar. Tais decisões na igreja não dependem de um ou outro padre, mas da ação da graça de Deus, por meio de uma decisão do magistério da Igreja, e às vezes, com sínodos e concílios; essas questões mais sérias são pensadas com calma na Igreja.

Quando vamos ser padres já sabemos de toda a doutrina da Igreja para a nossa vida sacerdotal, ninguém é ordenado enganado. Nós fazemos um compromisso de fidelidade e um ato de fé. Antes da ordenação, prometemos conservar sempre a comunhão com a Igreja Católica e guardar integralmente o depósito da fé; e no rito da ordenação prometemos a vivencia do celibato por causa do reino de Deus, a obediência ao bispo, etc. Também, nos preparamos, no mínimo, seis anos, e nestes, tivemos tempo o suficiente para fazer a escolha; esses padres quebraram uma regra que prometeram cumprir diante de Deus e de todos.

E assim, pensamos que eles assumiram livremente deixar o sacerdócio, agora devem assumir com responsabilidade seu novo lugar na igreja que é de homens casados, compromissados com esposa e família; esse é o lugar deles agora, que eles escolheram, e esse compromisso de família, é um grande dom de Deus.

Se a Igreja chegar á decisão de aceitar o matrimônio para os sacerdotes, isso vai ser de forma colegial, discernida e em conjunto; de tal forma que será o melhor para a salvação e andamento da Igreja e seu povo, pois a Igreja caminha sob a luz do Espírito Santo.

Se eles querem essa mudança na igreja devem fazer pelas vias da Igreja, que são: a oração, os argumentos blíco-cristãos, e principalmente pelo diálogo e não pelas forças forjadas da mídia, ou simplesmente, pelas vias da opinião pública, pois a Igreja não é construída por opiniões da mídia ou de alguns, mas pela inspiração do Espírito Santo, que age por meio do discernimento da Sagrada Tradição e do Sagrado Magistério. Pelo contrário, causaremos divisões e separações na Igreja, assim, estaremos dividindo o corpo místico de Cristo.

Eu, pessoalmente falando, tenho muito a bendizer a Deus pelo dom do celibato e fico pensando como poderia dar conta, daquilo que faço hoje pela evangelização se tivesse mulher e filhos para cuidar. Não teria o tempo que eu tenho para preparar homilias, artigos, sermões, aulas, atendimento aos fiéis e estuda na Europa; “o solteiro cuida das coisas do senhor, de como agradar o Senhor (1Cor 7,32) e, é isso que eu me alegro em fazer, e quero continuar fazendo por toda a minha vida; “o pardal encontrou casa e andorinha ninho para si, eu encontrei os altares do Senhor, Rei meu e Deus meu” (Sl 83). Essa é minha alegria e minha missão.

Alguém gritou, – olha, é o nosso Ônibus! E outra disse: – não, não é esse. A outra afirmou: – é sim! E negou de repente. – É não, esse vai para o outro lado de Palmas. Então rimos bastante, sentamos novamente e, voltamos aos assuntos e perguntas de ponto de ônibus…

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